(“Onde pus a esperança, as rosas murcharam logo.
...Onde pus a afeição, secou a fonte logo.
..P’ra quê, pois, afeição, esperança, se perco, logo
Que as uso, a causa p’ra as usar,
Se tê-las sabe a não as ter?”)...
FERNANDO PESSOA
Aoud,
Te perguntei: - amor, qual a razão
Dessa metamorfose repentina
Sofrida pelo que era um coração
Humano, bom e teu? Nesta cretina
Pedra de gelo, que congela todo
O teu mormaço natural. E infesta
Todo o teu ser do mais nojento lodo
Desde os dedões dos pés, até a testa.
Em tudo oposto a quem eu quis um dia.
E que jurou viver no meu encalço
Dando-me muito amor, paz, e alegria.
Por que, Amor, ao invés do que juraste
Me dás apenas dor, mágoa e aflição?
Por que o amor que dei fora jogaste
E em troca só me dás desilusão?
E a tudo que indaguei desesperada,
Falaste tanto, e não disseste nada.
Melhor seria se ficasses mudo
E eu visse em teu silêncio o fim de tudo.
Pois, só falaste por falar. A esmo.
E a tudo eu desculpei, Amor. Mas, mesmo
Sem que os teus lábios nada me falassem,
Sem que os teus olhos nada me contassem,
Eu desvendei sozinha o teu segredo.
E ao ver-te todo transformado em medo,
E a perdoar teu proceder covarde,
Só me afastei. E, sem menor alarde,
Falei de mim, comigo mesma, apenas:
- É pena, Amor. Amor, é muita pena...
Que o teu amor findasse muito cedo
E o meu amor, aumentasse um pouco tarde.
Clotilde Sampaio - Jardim Maringá, São Paulo, SP, 20/05/1966.