segunda-feira, 31 de agosto de 2020

10 fevereiro 1982 - (poemeto de retorno)

Aoud,
Meu querido amor,






E o que você não faz por você mesmo, hem, Aoud?
Já vi: não há o que você não faça por você.
Chegar ao cúmulo de voltar pra mim… Sem ter vontade!
(Despersonalizando assim, sua própria personalidade)
Desespero de causa? Burrice? Ou… o quê?


                                       Beija-lhe, a burra e sempre 
                                                                        só sua:

                                                                 Clotilde

                                            Suzano, 10 de fevereiro de 1982.




domingo, 30 de agosto de 2020

VERSOS ESPARSOS


E agora, eu não estou mais a mesma.
Mesmo porque
Foi o meu espírito quem envelheceu.

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Neste fundo do poço onde eu nasci
Onde, na ânsia de lutar pra sair,
Só arrastei mais gente ao fundo dele.

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Eu finjo que finjo pra viver.
E é no escuro que eu acho mais coragem.

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Será que inda tem jeito?
São tantas sujeiras entre tantas sujeiras
Gerando tantas sujeiras…

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Poeta quase todo mundo quer ser.
Mas bem poucos hoje o são.
Não os que realmente o são
Mas só os que não.
Os ricos.

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Qualquer besteira que um rico faz, é arte.
Qualquer arte que um pobre faz, é besteira.

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Nova República?
Só nome.
Novas Esperanças?
Só nome.
Mudanças?
Em quê?
Só novos nomes.
Novos engodos.
Tudo só novos nomes.
Novos engodos, novas formas.
De camuflar velhos engodos.

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                                                                           Clotilde Sampaio    08/10/85

domingo, 23 de agosto de 2020

02/01/86

Eu creio que para nós já não existe mais nenhuma possibilidade. Eu só não quero te odiar. Porque ódio faz mais mal ao que odeia, do que ao próprio odiado. Por isso eu procurei fazer as pazes e ficar de bem com você. Só. Pois, se o meu coração te ama, o meu amor próprio, a minha dignidade de mulher ferida, ofendida, humilhada, decepcionada, te repudia. E há uma guerra dentro de mim, do meu espírito contra o meu corpo, da minha mente contra o meu coração. Não posso dizer que desta água não mais beberei pois não quero correr o risco de ter de fazer o contrário. Pois é falar e pagar. Prefiro passar o resto dos meus dias completamente sozinha, a tê-lo de novo em minha vida. E no que depender de mim, ainda que este desprazer ameace acontecer de novo, eu vou tentar adiá-lo o mais possível, até o ponto em que esse adiamento possa alcançar a minha ou a sua morte, e essa ameaça deixe de existir justamente com o que, de nós dois se for primeiro. 

 

                        Clotilde Sampaio. 

POR ENQUANTO


De uma certa forma, amor,
Viajei... Mas não parti.
Estou toda em... Salvador.
Pois? Não mais me vejo aqui.

Se quiseres comprovar
Verás com veracidade
Que estou em todo lugar
Da sua maga cidade:
No ar, nas ruas, no mar,
Em formatos de saudade.

Caso ofusquem teu desdém,
Pelos destaques do espanto,
É só procurar-me bem
No melhor canto do canto
Entre estas duas janelas
Do "Boulevard" da Cantina.
Estou a olhar-te com elas:
Tuas portáteis meninas.

(. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
...A bebericar com os santos...
Ouço de Claudete o canto...
Enquanto...
                    janto...
                                  o teu encanto.)

                  
                                Clotilde Sampaio

                                           Suzano, 02/01/86, quinta-feira.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

07 de maio de 1991 (texto 2) - ONTEM

Meu Amor, estou te telefonando, para te dar os meus parabéns, e também ganhar de você os teus parabéns pelo nosso aniversário de 28 anos de infeliz e incomum convívio conjugal comemorados no dia 06/05, segunda-feira desta semana. Dia em que eu te telefonei, mas não me lembrei nem que era dia 06, e nem que era nosso aniversário 28 anos, portanto, já mais que bodas de prata do nosso conhecimento. Só fui me lembrar anteontem no dia 07, mas fiquei me segurando para não te telefonar. Hoje, lendo algumas páginas antigas do meu diário, relembrei o quanto de amor existiu entre nós no passado, e mesmo que você me negue, eu também sei do quanto de amor ainda existe entre nós no presente (e eu não falo só de mim não. Falo de você também, que eu tenho um sexto sentido que sempre enxergou muito longe, e sei que você, embora não queira dar o braço a torcer e queira se fazer de durão, de mau, e de perverso para comigo e para com os seus filhos eu sei que você, no fundo, no fundo, você me ama, e nos ama). De mim, e de nós, eu, Ita, Jussara, não preciso nem te falar nada porque sempre, mesmo apesar de todos os pesares, provocados pela sua ignorância e estupidez com relação às coisas mais simples, naturais e mais profundas da vida, e de cuja consequência, você sempre foi a maior vítima, de você mesmo, você já está cansadíssimo de saber o quanto, quanto, quanto, eu te amo, e só te amo, com todas as forças da minha alma, e do meu coração, com verdadeira e inestinguível paixão dessas que desculpa, perdoa e compreende tudo, e até te agradece por todos os teus gestos, tantos os mais belos e dignos para comigo, como para com os mais baixos, feios, sujos e indignos que usou e continua usando contra nós e mais contra você mesmo, e principalmente os tapas que você me deu, que em vez de resultar-me em mal, só resultou em bem, porque foi após eles, que eu pude começar a viver sem precisar de você, e voltar a ser eu mesma e me curar, e crescer. Hoje, aos cinquenta e um anos, graças a você e os seus tapas, eu sou uma bem jovem mulher, dinâmica, saudável, liberta, muito feliz, e querida e respeitada por todos, e principalmente por mim mesma, coisa que não me acontecia antes daqueles tapas. Hoje, aqui na Bahia, eu escrevo, participo de palestras e eventos culturais, declamo, faço conferências, pertenço à Academia Castro Alves de Letras e já estou lançando, a pedidos dos meus muitos fãs, meu segundo livro de poemas. O primeiro esgotou-se. Venci um concurso sobre Fernando Pessoa, aqui no Gabinete Português de Leitura e, agora em junho, (estou até preparando o passaporte), viajarei por conta do Consulado Português, para Portugal, onde ficarei três meses. E vou à Espanha também. Após, irei para São Paulo, e quero que você nos faça o favor de alugar um apartamento pequenino, kitinete, bem no Centro Antigo de São Paulo, de preferência, na antiga Av. da Luz, hoje Prestes Maia, e de preferência no 3º andar, apartamento 33 ou 34? Não me lembro bem. Certo? Porque eu quero voltar a te ver, e voltar a te reencontrar e acabar os meus últimos dias, mesmo que seja para vê-lo ao menos uma só vez por semana, mas eu quero terminar os meus dias com você.  Isto, porque eu te amo, te amo, te amo, com toda a loucura, e com toda a paixão que nem os anos, nem nenhum dos obstáculos, por maior que tenham sido, conseguiram destruir. E também porque eu tenho certeza absoluta de que ninguém te ama nem te merece mais do que eu. "E olha, que para além de mim já não há nada e nunca mais me encontras nesta vida!” (Florbela Espanca). Ouviu bem? Voltarei outra vez em setembro, com a Primavera de 91, para você. Só para você. Prepare-se, e me espere com tudo, sim? Beijos, beijos, beijos. Vou te dizer um dos últimos poemas que te fiz em homenagem a nós, chama-se “O que eu faço?”. Não sei se você o recebeu pelo correio, recebeu? Então vai lá. 

Ontem, 
quando eu chorava ou sorria,
martirizando os meus dias, 
me recusando o teu amor, 
ontem, o teu orgulho exagerado 
é que me fez ficar de lado 
como objeto sem valor. 
Hoje, 
aconteceu em nossas vidas 
uma subida e uma descida, 
a sua estrela se apagou. 
Hoje, 
em nossas vidas 
houve o reverso 
o teu progresso é o meu sucesso
A própria vida te ensinou. 

Dar tempo ao tempo. 

ADN. Pelos íntimos. 

                                                  Clotilde Sampaio

                                 Salvador, 07 de maio de 1991, quarta-feira.



Voltar contigo?

Voltar contigo?
Não sei…
Não digo que desta água
Não mais beberei
Pra não correr o risco
De vir, ainda a ser ridícula.
Pois é falar
E pagar.
Mas no que depender de mim
Eu vou tentar adiar
O mais que puder
Este momento.
   
                                      Clotilde Sampaio
                                                            Suzano, 27/12/85, sexta-feira.

sábado, 8 de agosto de 2020

07 de maio de 1991

                                                           Salvador, 07 de maio de 1991. (terça)


Aoud,

Meu Amor,


          Estou com muitas saudades suas, e com muita necessidade de revê-lo e de ouvir-lhe e falar-lhe pessoalmente. (Engraçado, acabo de me lembrar, neste exato instante, em que continuo esta, que ontem, dia 06 de maio de 1991, segunda-feira, completou 28 anos do nosso conhecimento, coisa que, por INCRÍVEL que, me possa parecer, nunca mais pensei, e, nem mesmo ontem, que foi o dia D, fui capaz de relembrá-lo). Não, não é mais como éramos antes, que eu quero reencontrá-lo, ainda que seja uma vez mais, ou pela última vez, num dia qualquer desses nossos já poucos restantes dias. Mas, de preferência, gostaria que fosse logo, e com bastante tempo. Porque se demorarmos, pode ser que esse dia acabe sendo NUNCA MAIS. Sim, na nossa idade, eu, já com quase 51 anos, e você já com quase 65 anos, o que poderemos esperar viver mais daqui pra frente? Devemos dar graças à Deus por estarmos vivos, lúcidos e saudáveis ainda quanto tanta gente, nossos contemporâneos, já se foram com bem menos idade que nós e, quando a média de vida nos dias atuais é sempre menos que cinquenta anos de idade. E, também, quem poderá nos dizer, quem de nós dois partirá primeiro, se eu, se você? Interessante, é que eu, que passei a minha vida quase toda e, principalmente dos 26 anos, ou seja, do nascimento de nossa filha Jussara, até os 38 anos mais ou menos, com graves problemas de saúde físicos (que até me ocasionaram inúmeras e perigosíssimas cirurgias, tantas que até nem sou capaz de me lembrar o número exato da soma de todas elas, se quatro ou cinco) e depois, dos quarenta e dois anos de idade até os meus quarenta e nove anos, passeio-os, a princípio, com os complexos distúrbios mentais, que depois foram diagnosticados como consequentes por vários tumores malignos por todo o meu cérebro, os quais me ocasionaram também, além de alguns internamentos prévios em clínicas para tratamentos psiquiátricos e neurológicos, aquela primeira e arriscadíssima e caríssima operação que, com a sua ajuda, e com a ajuda de Deus, (que nunca me desamparou em nenhum dos meus mais críticos, piores e mais decisivos momentos) mesmo com 99% de riscos de vida, entre morrer e morrer, num raro momento de lucidez, e até de muita coragem, preferi enfrentar a cirurgia e a morte mais rápido, para tentar salvar a vida, do que continuar sentindo as dores terríveis e indescritíveis que normalmente mais me faziam querer morrer, pedir pra morrer, e fazer tudo para morrer de vez e o mais depressa, do que continuar viva. E não fossem a vigilância incessante e infalível tanto do meu filho João, quanto da minha querida e também filha e nora Ari que, se não podiam estar presentes, sempre deixavam comigo um de seus familiares, lógico que eu teria dado cabo da minha vida num mínimo instante de descuido deles. Claro que, naquelas circunstâncias hediondas, me era muito mais fácil, melhor e gostoso, saboroso, delicioso morrer! E eu me lembro que, às vezes, em que tentei chegar à janela para me jogar, do 12º andar do prédio em que eles moravam na época, (aqui próximo, no Politeama e que ficava bem nos fundos do Teatro Castro Alves) eu, com aquela minha imaginação que, de tão doentia, já me fazia não estar mais em mim, eu pensava: “ah! É tão fácil! É só dar um pulinho, só um vôozinho só daqui do alto até lá embaixo, e tudo isso acabar! Será uma delícia! Já imaginou o que seria ficar livre desse corpo, dessa cabeça, desse mundo, e de todo esse pavor que é a vida, e sair voando, voando, voando, cada vez mais para longe, para outro mundo, para outra Galáxia". Mas antes de eu pensar tudo isso, alguém já bem prevenido tinha me agarrado e me tirado das proximidades de qualquer das duas mais perigosas e mais tentadoras janelas. E eu entre crises constantes de choros, risos, que não eram nem choros nem risos, mas, desesperados, inexplicáveis e constantes acessos de histéricos e convulsivos risos, gargalhadas, choros, tudo ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo que dentro da minha cabeça havia uma garra incessante das mais desesperadas e diferentes dores ou dos mais desesperados, diferentes e infinitas zonas de pensamentos. Em suma, era a loucura completa que se instalou em mim, menos só meio e raríssimo milímetro de lucidez. E em meio a tudo isso, eu vivia o dia todo, a noite toda, as horas todas, os minutos todos, os segundos todos, só maquinando um jeito de me matar, fosse como fosse, e de morrer, e de fugir para sempre de todo esse inferno. 99,5% dos meus pensamentos eram todos dos mais negativos possíveis. Só meio por cento, ou meio milímetro da lucidez me separavam de total loucura. E eram nesses raríssimos lapsos de lucidez que, mesmo estando com toda a vontade de morrer, ou seja, de me jogar do 12 º andar, e me estatelar lá embaixo no cimento duríssimo do pátio, eu pensava: “e, se por um azar, eu não morrer? E, se, por um azar, eu só me machucar mais, e ficar sentindo mais dores, e, em vez de dar sossego pra todo mundo, eu ficar ainda viva e dando mais incômodos e trabalho para todos do que os que já estou dando? E também, se ao morrer, ao invés de me livrar de tudo isso, eu apenas aumentar mais, e por mais tempo todo este horror? Isto, eu creio hoje, que pensava, porque sempre aprendi tanto no espiritismo kardecista, que segui durante oito anos, como no budismo, que também já praticara durante oito anos também, que existe a lei de causa e efeito, e que existem reencarnações, e que todas as pessoas que cometem suicídio, por qualquer razão que seja, ela ao invés de se livrar daquele problema, só faz aumentá-lo, e continua sofrendo mais ainda após a morte, e tem que voltar a nascer em condições bem mais inferiores e bem mais sofríveis do que nasceu nesta vida presente da qual ele covardemente desertou, ou tentou fugir, ou dela se livrar. Mas, na maioria do tempo, eu não me lembrava de nada disso, e só queria morrer, morrer, morrer. E nada, nem filhos, nem vantagens, nem desvantagens quaisquer, nem filosofia alguma conseguiam me demover desse meu maior e único objetivo que era só: MORRER. E, quando, após eu ser esclarecida (eu fiz questão, e forcei-os para me deixarem cientes de tudo) de que era preciso arriscar, ou seja, ir de encontro, ou com mais vida, ou com a morte mais rápida, ao fazer aquela mais do que delicadíssima cirurgia, eu até creio que foi conscientemente, mais a vontade de morrer de vez, sem nenhuma culpa (com relação às religiões, ou Deus, ou à Natureza, ou à própria vida) e de um modo mais fácil e menos indolor pois, totalmente anestesiada não teria como eu precisar sentir qualquer dor para morrer e, portanto, também não deixaria de ser uma morte natural. Tanto que, ao invés de me amedrontar como deveria, me parece que senti até uma espécie rara de alegria ou de alívio, e mais por saber que tinha mais chance de morrer que de viver. Na verdade, eu já não acreditava mais de forma alguma que, após ou mesmo durante, eu poderia continuar viva, o que me fez até gostar daquela ideia de ter que me operar mesmo, o que eu mais queria. Pois, se eu tinha que morrer mesmo de qualquer forma um dia, por que continuar aquele sofrimento? Pra que ficar segurando a vida, pra que continuar arrastando a vida dentro daquele corpo já tão velho, já tão deformado, tão podre e tão dolorido? Só sei que, de nenhuma possibilidade monetária nem espiritual, de minha parte, surgiram, do inteiro caos, do inteiro nada, provindas em primeiro lugar e sobretudo da vontade soberana e absoluta de Deus, tanto a sua ajuda monetária, para que eu pudesse me submeter àquela cirurgia! Quanto aos demais recursos, ou seja, o milagre de eu poder acordar após mais de doze horas entre anestesias e vários cortes e furos em diversos pontos do osso craniano (inclusive na testa) para a extirpação dos seis tumores malignos (que graças também à Deus, vieram todos de uma só vez, e não voltaram nunca mais) e outras tantas anestesias de após, ainda desacordada e na UTI, mas com VIDA. Bem, o certo é que, quando pude acordar mesmo de verdade de tal, e tão, operação, e que dei por mim, e que soube, ou que pude entender que o pior passara, e que após uma muito longa e muito terrível batalha, parecia que a Vida, (e não a Morte), é quem vencera, e que talvez ainda não fosse daquela vez que seria a minha vez de morrer, por 16 dias depois, quando me tiraram da UTI. Só que, algumas horas, ou uns dois dias depois (não sei bem), quando pude me reolhar no espelho, tomei o maior susto: eu estava com o rosto completamente deformado, monstruoso. Não, nunca aquele ser horrendo que o espelho refletia aos meus olhos, tinha sido eu. E como eu iria continuar vivendo com aquela horrorosa aparência facial dali pra frente? Era melhor, bem melhor ter morrido do que ter sobrevivido daquela forma. Fiquei de uma forma que eu tinha medo de mim mesma, e vergonha de ser vista pelos médicos e pelos meus filhos, e por qualquer pessoa de forma monstruosa em que eu estava. E, em. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

* (não foi encontrada a sequência pela digitadora do texto, a filha Vitória Régia, em 08/08/2020) 

                                             Clotilde Sampaio

                                      Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

AUADE / SAUDADE


Auade…
Quantas vezes,
Prostrada na penumbra,
Ladeando a nostalgia,
Meus lábios a tremer,
Fez murmurar teu nome…

Auade…
Quantos dias,
Na algema dos percalços,
Nas grades da agonia,
Dei mãos à persistência,
E te esperei debalde…

Auade…
Quantas noites,
Perdida no abandono,
Escrava do silêncio,
Deitei no teu olhar,
O meu olhar insone.

Auade…
Quantos sonos,
Deixei de adormecer,
Forçando-os não dormir,
Deixando funcionar
A mente só pra ti.

Auade… 
Quantos sonhos,
Imaginei sonhar,
Tendo-te ao meu redor,
Constante ao meu prazer,
Mas meu, nada era meu. 

                                    Clotilde Sampaio 

                               Brás, SP, entre maio de 1963 e início de 64.

terça-feira, 7 de julho de 2020

26 maio 1980

                   

                  Aoud,


                  Meu querido, 


                 Todos os anos, (isto, desde 1963 para cá, é óbvio), abril se abre, só pra me excitar. E maio, então! Nossa!!! E como se aproveitam, e como se divertem, com a minha fraqueza! E me excitam de um modo tal, que eu chego a ponto de passar todos os minutos destes meus sessenta e um dias e sessenta e uma noites (como é o caso de hoje que já são 1:15 h da manhã... do dia seguinte, e eu às voltas com o perturbar de tantas lembranças, ainda não dormi. E estou, inclusive, não só pensando em você, como também, a escrever-lhe isto aqui.) a rememorizar fatos e coisas que, embora já há muito superadas, se tornaram e são, para mim, inesquecíveis. Isto, pela razão de terem sido, de todos os meus momentos, os meus melhores momentos. E só porque eu os passei ao lado do homem que foi, é, e será sempre, o amor da minha vida: VOCÊ. Sim, meu querido, para mim, não houve antes, nem depois. Foi só durante. Foi só durante você, foi só durante a nossa convivência, é que eu amei, e é que eu vivi.



                                                            A tua,


                                                                   só tua,   


                                                                                Clô



                                                 Suzano, 26 de maio de 1980. Segunda-feira, 1:22 horas. 


AGORA??? (CUIDADO!!!)



                                 Para Aoud Id


Bem lá, de início, já te preveni:
Sou MULHER-MÃE! E, se vier... Dou cria.
Por que não foste atrás de um travesti???
Travesti, meu Amor, não procria!

Pros teus pesares, e minha alegria
Vieram! Pra ficar!! E estão aqui!!!
Mostraste o monstro que eu desconhecia.
E agora é que me estás de... travesti???

Agora??? Desastrado!!! Justo agora???
E a Aids? Não tens medo? (Amor, cuidado!!!)
Não vês que os travestis já estão por fora?

MULHER, de novo é a moda! É a onda! É a nata!
MULHER, nunca deu Aids. Só deu VIDAS!!!
E a WEDS, é o pior: azara... E mata.

                              Clotilde Sampaio

                            Monte Cristo, Suzano, SP, 20/08/87.


Aniversário 06/maio/80

                 

                     
                        

                    Aoud,


                         Estamos fazendo aniversário hoje. E eu quero, mereço, e exijo um presente: V O C Ê. Te espero em casa, após a meia-noite, como antigamente. Okay?
                         Beija-lhe
                                          Beija-lhe
                                                          Beija-lhe
                                                                          Esta que arde de amor por ti, e que foi, é e será sempre e somente sua
                                                                       Clô

                                                                         Suzano, 6 de maio de 1980. 


quarta-feira, 20 de maio de 2020

INSPIRAÇÃO

Perguntaste o porquê do existir dos meus versos
Nada fiz responder de pronto. O que diria?
Natural que alguém como eu faça poesia
Pr’acobertar, da própria vida, os maus reversos.

Eu a pensar... E o Deus Supremo do Universo
Viu-me em dilema e fez-me ver, na Natureza,
A inspiração, que é consistência da Beleza,
Pôr, num poema, o que vive no adverso.

Sentindo o aroma que exala de uma flor
E admirando o lindo tom da sua cor,
Achei a explicação. E mostro o meu tema: -

Num sofrimento, numa lágrima ou dor
E onde quer que exista Deus, que exista Amor,
Há de haver sempre uma razão para um Poema.


                         Clotilde Sampaio 

                            Brás, São Paulo, SP, 1964



Obs: Revisão métrica – Vitória Régia Sampaio – Barra, Salvador, Bahia, 15/05/2020 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

01 01 76

Aoud, 

      Há alguns dias atrás, verificando que 75 nada mais me fora que fracassos, pensei e falei: este próximo ano, vai ser pra valer. Quero começá-lo mandando aquela brasa. Mas o último dia veio (e foi ontem), sem eu sequer ter terminado o meu milhão de Daimokus. Faltaram ainda mais de vinte horas. E isso foi o que me deixou mais desanimada. Não saí para fazer compras pra ninguém, a não ser os sapatos que comprei na Futurista. Compra essa que em nada agradou. Com exceção do sapato de sola plástica (ou látex) igual ao da Matilde, que comprei pra mim. As crianças (pois até a Jussara e a Vitória) optaram pelo tênis de luxo (Rainha, pediram, mas, na falta deste, trouxe-lhes o Buzolim) ao invés de sapatos. Não sei que graça acham em tal calçado! Quando cheguei da Penha, ao anoitecer, o Américo estava aqui. E dormiu conosco esta noite. Admirei-lhe a coragem. Mesmo sabendo-se perseguido aqui no bairro, não titubeou e veio nos ver. Menino danado e exemplar em tudo. Deus o conserve sempre assim. Logo de manhã, achando-se deslocado, sem ninguém com quem conversar, achando (creio) tudo muito monótono para um primeiro de ano, foi-se. Para mim, ontem foi um último dia do ano muito feio. Não estava com a menor vontade de fazer nada. Nem mesmo ir lá na casa de Dona Luíza, como havíamos combinado eu e a Dona Antoninha. E tão logo arranjei a desculpa quente, mandei que a Jussara fosse avisá-la que não iria mesmo não, pois o Ita estava na chácara e eu não poderia deixá-lo em casa sozinho. A Jussara foi e voltou dizendo duas coisas: uma bem triste, que uma menininha, do tamanho dela, havia morrido afogada no rio; pensei: que coisa horrível, ainda mais sendo um dia de ano; e outra: que a Dona Toninha havia mandado eu me arrumar, que teria de ir sim, e dali à pouco, ela viria me buscar. Mulher danada! Pequenininha no tamanho mas nas decisões bate em qualquer do meu tamanho. Como eu gostaria de ser como ela é. Mesmo sem querer, e tendo que me arrumar, tratei de ir tomar banho. Iria levar comigo a Vitória e a Jussara. Que pena ter de deixar o Ita e atravessar para o outro ano longe dele! Nunca aconteceu isso. Sempre, em todos os anos, principalmente no Natal e Ano Novo, os meus tesouros estão ao meu lado. Só esse ano que vai ser diferente. O João, lá na casa da avó, e o Ita, sozinho em casa. A baixinha chegou e eu já estava quase pronta. Aconselhou-me a deixar a Vitória em casa pra ir com o Ita e o Jorge lá na Dona Luíza no dia seguinte, que é hoje. Chegamos já quase oito horas lá. E a Júlia, minha irmã gêmea, já tinha feito tudo sozinha para o aniversário do pai dela. Que vergonha! Nós, que ficáramos de ir lá para ajudar, fomos só pra comer.
      Hoje, saímos para ir no Gongyo de Ano Novo, lá no Tikubutyo. Preocupada, pois as crianças deveriam vir cedo para também participar e já passavam das dez e não haviam chegado. A preocupação me dominou o dia todo, pois eles não vieram mesmo. Fiquei pensando bobagens, que expus à Dona Toninha. Ela respondia: não foi nada não; se tivesse acontecido algo o Jorge teria vindo avisar. Mas a preocupação não me deixou. Comi bem mais do que devia, tanto à noite como de dia também. E passei o dia todo me sentindo mal. Com as roupas apertadas e se recusando a fechar. Fecharam-se mas, me esmagando e me sufocando no escaldante calor do tempo e do aperto. A Júlia me convidou para ir com ela e família do marido em Santos. Tal convite em nada me seduziu. Nunca gostei de Santos. Ainda mais para ir desacompanhada e sem nem meus filhos, não, não dava. Dei várias desculpas, sem conseguir recusar. Ela atacando sempre e tentando me convencer. Por fim, lembrei-me de que estava a perigo (menstruada). Comuniquei-lhe e foi aceita a minha justa recusa. À tarde fomos, com a Tikutan e o Stoshi, lá no Templo. Chegamos do Templo e o Seu Antenor chegou em seguida bêbado e contando que fora roubado. Estragou com toda a alegria de Dona Toninha. E o resto da tarde foi Dona Toninha a se maldizer da vida que leva com o marido e até a chorar. O Stoshi veio nos trazer. Ao passar defronte ao seu castelo, Aoud, estava todo iluminado. E, na rua do fundo, uma multidão de carros prenunciava que vocês estavam com muitas e grossas visitas. Mostrei apontando-os para Dona Toninha e ela se admirou exclamando: - Nossa! Que fileira de carros, hein? 
      Já no Monte Cristo, o Stoshi e a baixinha inventaram de passar no Seu Laudelino para cumprimentá-lo pelo Ano Novo. Ele não estava. Só a mulher. Sentada à mesa, com um carinha cabeludo, fumando e bem próximos. Ficaram muito dos sem-graças, para complicar ainda mais as aparências. A um canto e ao redor da vitrola, mais dois carinhas cabeludos controlando discos em altos volumes. Dona Toninha comentou: -Viu como está feia a coisa aqui? É isso. Ele não reza. São obstáculos atrás de obstáculos. Agora é a mulher dele corneando ele na própria casa dele. E ele não sabe. É assim. É só ele sair e ela põe outro dentro de casa. O Stoshi falou calmo, discreto, pausado: - É, vamos deixar pra lá, Dona Toninha. Seja lá o que for, não podemos ficar comentando. Devagarinho as coisas chegam no lugar. 
      Viemos todos aqui pra casa. Sentamo-nos ao redor da mesa e começamos a conversar abordando vários assuntos. E, ao mesmo tempo, a baixinha de cara amarrada, implica com tudo que o Seu Antenor diz. E este se defendendo engraçado que só ele. E o Stoshi e eu ríamos a valer com os ânimos exaltados do casal e procurávamos apaziguá-los. O Stoshi dizia: - Sabe, Dona Toninha, o importante é a gente. Tudo de mal, que a gente passa com os outros, é destino da gente mesmo. E é através da prática sincera que a gente afasta. A senhora, praticando firme e corretamente, toda essa desarmonia entre o Seu Antenor e a senhora acaba. -Ah! Quer dizer então que só eu tenho que praticar. E ele não pratica? Disse ela indignada. – Eu já trouxe o Gohonzon, disse firme e com a boca murcha o Seu Antenor. Todo mundo caiu na gargalhada. -Ah! Quer dizer que, com isso, o senhor já fez tudo, não é? Perguntou-lhe a baixinha. – Então. Precisa mais? Não foi eu quem trouxe o Gohonzon pra casa? – É lógico que foi, respondeu-lhe a mulher. – Então já disse tudo. Portanto, fim de papo. Todos continuaram a rir sem parar. A Vitória, pilheriando em lugar de todos, saiu-se com esta: - Ô, Dona Toninha, o seu Antenor é vivo, hein? Trouxe o Gohonzon pra senhora rezar pra ele. Ele já fez muito de trazer o Gohonzon pra casa e falou que, agora, o resto é com a senhora. A senhora é que tem que se virar. Os ares estavam propícios para confissões e o Stoshi falou: - É, cada um tem seu problema. O meu, por exemplo, com a Zailda, eu nunca disse pra ninguém, mas vou falar agora pra vocês. É que era pra ser duas crianças. Nós forçamos o aborto e tudo arriou entre nós. Foi como se cortássemos o fio que nos ligava. Agora, não há mais nada que nos prenda um ao outro.  – Você já era praticante nesta época? Perguntei. – Já, respondeu. – Mas ele não era praticante firme, não. Falou a baixinha. – Mas quem forçou... ela ou você? Quis saber eu. – Os dois, respondeu-me. – E ela, sua mulher, já praticava também? – Já. - A Zailda era firme. Recebeu muitos benefícios, retrucou de novo a irrequieta baixinha. – Pra ver como é importante a vida humana. Nós dois fizemos isso, nós dois sofremos. E estamos agora separados por causa disso e sofrendo até hoje. 
      Não tinha nada para oferecer-lhes. Ofereci, inibida, alguns restinhos de bebida que haviam sobrado do Natal. Que, com exceção do Seu Antenor, que, de cara entrou no vinho, ninguém quis. Quando se foram eram quase 22 horas. Ainda rezei meia hora de Daimoku pra você, depois fui dormir. Tchau. Um ótimo Ano Novo pra você e um beijo. Clô.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

L I Ç Õ E S

                 
...(“Oh! tanta cinza morta... o vento a leve!
      Vou sendo agora em ti a sombra leve
      De alguém que dobra a curva duma estrada...”)
                                          FLORBELA ESPANCA


Para o Sr. Domingos Nunes


NÃO mais estar... Na tua companhia.
Nem mais te ver. (Os teus olhos... me vencem!)
Sequer pisar, ou estacionar nas guias...
Nem nas calçadas... Que sei: te pertencem.

Este, o Ideal! De mais uma Teoria,
Que oponho às tuas. (Não mais me convencem.)
Por mais perito, não me enganarias:
(Por, só verdades, - mais me ganharias!
Por... “não poderes”, não me perderias.)
- “Drogas?... Estou fora”. – Que “penses”... Que “pensem”...

Também “pensei”-te, o meu... Deus!!! – (No começo.)
Tanto! Que, até, comecei... pelo avesso:
- Te... me confiei!!! (Sem vencer... Tentações.) .............

...Quantas contradições! – Nos teus verbos... Em teus atos...
“Boatos”, nos quais não cri... – Ouvi-senti, em... Fatos.
- Não me és... QUEM!!! “pensei” ser...
- Não sou... “quem” me “pensas”... “eu”, ser.
                                                     - Grata! (Pelas... LIÇÕES.)

                                             Clotilde Sampaio

                                                   Suzano, 17/12/1990.