segunda-feira, 16 de maio de 2022

PELÔ - 25/05/92 a 20/06/92 - À MARGEM

Pelô, 25/05/92 – domingo.

 

1) Parece-me que, de novo, estou sendo revisitada pela POESIA. Estou sentindo-me inflar por algo transcendental. Estou inflando, inflando, a ponto de arrebentar, de explodir para fora, a implosão que já me toma toda, por dentro. Deve ser por Antônio Prado, tudo isso que, devagarinho, está vindo à tona. 

 


                  À MARGEM - Clotilde Sampaio


Eu desculpar-te? Em que? Não há de que?

Só troco, em mim, teus ditos por não ditos

E imponho-me esquecer-te. Isto porque

Não me confio mais para os teus ritos.

 

Não vamos mais para lugar nenhum.

 

Sempre fui como sou: 

se confio me entrego

Mas como é raro eu confiar

E em quem creio me apego.

Sem maldar,

Não suspeito armadilhas 

Nem de censuras me armo.

 

Sobre o abismo entre nós:

(Sermos bem e maus vizinhos)

Fico em minha (e à tua) margem:

Largo do Pelourinho.

Ficas em tua (e à minha) margem:

Ladeira do Carmo. 

 

Não lhe incomodarei mais. Isto eu me juro.

Nem pra jurar-lhe o que já juro a mim

Nem pra dizer-lhe adeus, não lhe procuro.

Não há mais meios. Só começo e fim.

 

Bem mal te conheci num dia dois de julho

Há três ou quatro anos atrás

Ante-entre-após (?) o desfile

Entre olhares, lisonjas que enviaram

Ofensas e insultos ao meu orgulho. 

 

 

Pelô - 30/05/92 – sábado

 

1) Comecei meu romance com Antônio Prado dia 16/05/92. Ele insistiu para que eu ficasse morando com ele naquele mesmo dia. Saí fora porque ainda não estava preparada. Ele, no começo, demonstrou estar apaixonado por mim. Agora, ele está fazendo das suas. Já disse que ia telefonar-me duas vezes para me ver e não telefonou nem me viu. Quando lhe telefono, ele sempre dá sua desculpa: ou que está doente ou que vai sair, para não conversar muito tempo comigo. Foi para Itaparica e lá ficou por uma semana toda, sem me avisar. Amanhã disse que vai telefonar para conversarmos. Veremos. Agora, se ainda estiver valendo sua proposta, já estou pronta para o que der e vier ao lado dele. 

2) Minhas regras voltaram anteontem e continuam.    

 

 

Pelô - 07/06/92 – domingo

 

Adeus, Antônio, adeus. Foi bom te conhecer bem. E saber de uma vez quais eram, de fato, suas intenções. Afinal, não me causou surpresa. Já vinha me preparando há dias para o golpe final de ontem. E, quando deixei-te, o que poderia ter sido revolta, foi aplacada por um grande alívio: a certeza de que, de você, nada há que esperar e que tudo o que poderia ter sido já foi e não foi. E não precisa ser mais.

 

 

Pelô – 14/06/92 – domingo

 

1) Antônio pensa que brinca comigo e que consegue me enganar. Coitado. Está brincando consigo mesmo e enganando a si próprio. Estou só fazendo que estou na dele. Quando ele menos esperar estarei bem longe e pra valer. Se só o que eu quero dele é companhia e diálogo, nem isso ele pode me dar, para que vamos continuar nessa lenga-lenga? Nesse chove não molha de só conversas fiadas sem quê nem por que, uma vez que ações mesmo que comprovem algo não existem? Ele só vai começar a me dar valor e lamentar seu desperdício de tempo e de mim quando me perder. E isto está bem em vésperas de acontecer, é só questão de alguns dias a mais ou a menos. Hoje, quis sair apenas para desfilar comigo pela Rua das Flores, nada mais. 

 

 

Pelô – 18/06/92 - quinta-feira – Dia de Corpus Cristi

 

1) Embora eu não tenha curtido as coisas boas do meu tempo, ainda prefiro bem mais os valores daquela época, com relação às mulheres, do que os valores de hoje para com as mulheres atuais, que se dizem emancipadas, livres, donas absolutas de si próprias. E eu pergunto: em quê? Perderam a feminilidade, deixaram de ser mulheres, abdicaram de ser mãe para tentar copiar em tudo os homens. Perderam o respeito, a poesia e o romantismo tão necessário e tão natural às mulheres. Hoje são apenas algo indeciso, metade caricatura de mulher e metade caricatura de homem. Ou seja, apenas um objeto. 

 

Pra nós não há futuro.

Apenas um leão

Estraçalhando um touro. 

Um leão nem tão faminto

Um leão nada faminto. 

                                     (Clô)

 

 

Pelô – 16/06/92 – terça-feira

 

1) Rua das Flores (Deusa)

    Deusa da Rua das Flores

    Amarfanha os meus pudores.

                                    (Clô)

 

 

Pelô – 18/06/92 – quinta-feira

 

1) Eu sinto que Antônio tem medo de mim. Engraçado isso: hoje são os homens que têm medo das mulheres. Não sei que tipo de medo ele alimenta contra a minha pessoa. Não sei se esse medo dele me aumenta ou se me diminui. Ele demonstra gostar de mim mas, ao mesmo tempo, tem medo de uma aproximação maior comigo. Azar dele. Não sabe o quanto já perdeu, está perdendo e vai perder com esse seu método de agir. Não temos muito tempo mais para perder. Cada minuto que passa para nós, que estamos na contagem regressiva, é uma perda preciosa. Será que ele não é tão inteligente para perceber isso? Gostaria que fosse. Seria ótimo para nós dois.

 

 

Pelô – 20/06/92 – sábado

 

1) Isto é próprio de quem morre

    Uma morte a cada dia.

 

2) Jamais abdicaremos

    Das coisas que já não temos.

 

3) Sozinha jamais viria

    Brahmar na Rua das Flores.

 

4) A origem dos meus amores

    Por um baiano indeciso.

 

5) Alguém já viu algum dia

    Eu aqui, neste lugar

    Com outra qualquer companhia?

 

6) Conhecer, durou três anos

    Namorar, nem deu dois meses.

 

7) Você não tem vinte anos, nem eu quinze.

     Portanto, esperar o que?

                                              (Clô)

    

 

OS BEIJOS TEUS

Aquele beijo teu,

Querido,

(Que puseste em meu rosto

Receoso a tremer

Ansioso e comovido)

Não olvidei jamais.


E, se tenho desgosto,

Lembro-me do teu beijo

E o resto é esquecido.

 

O outro beijo ardente

(Que em meus lábios deixaste)

Guardo-o discretamente

Como sei que o guardaste.


E, se a vida me rouba

Afagos e ternuras,

Forçando-me a sorver

As taças de amarguras

Não me ponho a clamar

Em ânsias de desejos.


Recordo-me de ti

E esqueço as desventuras

Relembrando a doçura

Dos teus beijos.

 

           CLOTILDE SAMPAIO – 1963 (?)

 

 *(Poema encontrado em março de 2022, no acervo da autora. Data incerta, mas bem provável de ser da primeira safra pelo fato de estar datilografado no verso de um papel oficial do local onde trabalhava. Alteração de formato feita pela filha Vitória Régia em 16/05/2022).