Para Aoud Id
Se pretensões já tens
De me afastar da tua vida,
Se achas que convém,
Para o teu bem, me dispensar,
Procures demonstrar,
Mas de maneira comovida,
Que eu hei de acreditar;
E, previamente convencida,
De que não sirvo mais
Senão pra te torturar,
Irei, antes que venhas,
Para dar-me a despedida,
Irei, sem te deixar
Apreciar a minha partida.
Deixando atrás de mim
Vaga lembrança em meu lugar.
Sentindo o coração dilacerado
E a alma ferida,
De ti, para todo o sempre,
Eu sairei para não voltar.
Trabalho não darei
E, meio desapercebida,
Do modo que eu entrei,
De forma quase não sentida,
Também tudo farei
Para, de mim, te libertar.
E antecipando, assim,
Tua alegria pretendida,
Embora sinta em mim
Aniquilada, consumida,
Eu tentarei fingir
E hei de sorrir para não chorar.
E então refletirás
E enxergarás que eu poderia,
Junto de mim,
Por algum tempo mais, reter-te.
Mas não o fiz
Apenasmente para não ver-te
Dar-me o final
Do que jamais dar-me devias.
Mas, previdente,
E bem à tua revelia,
Discretamente,
Eu busquei antes esquecer-te.
E então verás,
Remodelado em pedra-gelo,
O coração de quem por ti
De amor morria.
E provarás
Um pouco ao menos da agonia
Que em mim viveu
Me torturando a todo zelo.
Daí então
Hás de lembrar de quem foi tua
E hás de chorar
Como eu chorei para não perder-te.
Mas será bom,
Será a lição amarga e crua
Pois, assim antes
De abordar alguém na rua,
Hás de pensar
Um pouco mais para fazê-lo.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, 1964. (livro cinza encadernado)