quinta-feira, 27 de maio de 2021

Entre 23/01 a 06/02/1989

23/01/89 – terça-feira

 

Décio? Duvido que volte. Duvido que venha, duvido que apareça. Décio só deu furos. Décio sabe dar furos que só ele. É o que ele mais sabe fazer bem é isso. Não gostei: dele ter me levado para o Bar do Domingos e da mulher do Domingos, que devem conhecer bem a mulher do Décio. Isto se não forem até compadres. O certo é que Domingos não me olhou com bons olhos e, quando eu quis lhe cumprimentar, ele me cumprimentou o mais seco possível. A mulher dele, então, lá por trás, só me olhava sem parar e de um jeito nada simpático. Depois, já lá no play ground, ele me pedir o “traz” e me dizer aquele nome que eu não sou. Que é isso? Não me beija, não me acaricia, só... só... só... Só. Mas se tiver outra... Quero olhar tudo. Quero olhar bem em todos os aspectos. Tudo vai ser de olhos bem abertos. Deve ser espetacular vê-lo em pleno êxtase com todos aqueles exageros sonantes. Da outra vez ele me machucou mais e eu não fiquei dolorida. Desta vez ele me machucou nada e eu fiquei. Cafajeste. Deu tantas desculpas por ter sumido, só que nenhuma colou. Que a mãe é surda por isso ninguém atende ao telefone. Que não me telefonou porque perdeu meu telefone. Que veio aqui mas não me viu. Que deveria estar no Fórum mesmo e não na Procuradoria quando eu fui lá. Aquele sorriso maroto dele... Com aquele sorriso ele vai muito longe. Aquele seu sorriso de deboche de se sentir o tal. No restante, foi tudo ótimo.       

 

 

30/01/89 – sábado

 

1)   Cantina sem graça. O que foi já foi durante o dia lá no Mercado Modelo, lá em Deraldo Lima e também aqui sentada à mesa com Cacau e mais três Gandhys. O que eu bebi hoje já basta. E comi com os Gandhys um angu encubado que, de tão bom, até me deixou triste. Mas foi ótimo. Com cerveja Cerpa, que não tem nada a ver, mas valeu. Beth e Luís, só de conhecidos ao meu redor. Nem Newton Sobral, nem Jehová, nem Edilson até agora. Mas espero rever qualquer deles ainda hoje. Claudete também ainda não veio. Espero que até daqui a pouco aqui fique melhor. Mas até aqui, em matéria de conhecidos, está às moscas. Saudades de Décio. Revê-lo agora, senti-lo, seria o que há de melhor. 

2)   Briguei hoje lá no Mercado Modelo por NCr$ 0,30 centavos. Deixei todo mundo sem graça. Tanto empregado como patrão. Mas insisti em pagar NCr$ 0,20 centavos por cada Coca, e paguei. O empregado queria Cr$ 300,00 velhos por cada uma. O patrão queria Cr$ 250,00. Eu pagaria sim, mas só com nota fiscal. Ficaram com a cara no chão, ambos, mas paguei sem nota Cr$ 200,00 por cada. Saí vitoriosa. Cabeça erguida. Terão que nos respeitar.

3)   Vitória chega amanhã cedo. Ontem conheci aqui na Cantina, Jorge Sá, poeta, que disse que irá telefonar para Vitória amanhã às 15 horas. Tomara que Décio venha amanhã para me dar tudo o que é capaz. 

 

03/02/1989 – sexta-feira

 

1)   Primeiro dia de carnaval aqui em Salvador. Ita e Meire chegaram hoje de manhã. Estou contentíssima. Já estamos morando aqui, no Largo do Pelourinho, desde anteontem, dia 01/02/89. Aqui é o clímax, o ápice, o centro, a apoteose de tudo. Esta maravilha de cenário, este cartão postal, é nele que estamos morando: eu, Vitória e João Vitor. E tudo faremos para sermos ao máximo dignos de tudo isso e engrandecê-lo cada vez mais. 

 

 

Segunda-feira de carnaval de 89. (06/02/1989)

 

1)   Araketu – Helinho. Estivemos até a saída do Araketu, mais ou menos à 1 hora. Foi bom. Fiz novos amigos: Carmem, Demerval, Lelé do Araketu, Laurita, Chico. O Araketu saiu e eu vim para a Cantina. Sentei-me na mesa daquele amigo de Claudete que conheço mas não sei o nome e que sentou-se na mesa com a gente ontem. E agora acabo de conhecer outra pessoa que veio até a minha mesa. Dantas. Me deu seu telefone. Me disseram hoje (aliás foi Chico, esse novo amigo que fiz no Araketu) que eu sou mais jovem que a Vitória. Que parece ser ela minha mãe. Já é a segunda vez que me dizem isso. E isso é bom. Aliás, a terceira: Décio preferiu-me à Vitória. E por falar nele... Que saudade!!!... Quero tanto revê-lo, mas parece que ainda não é a hora. Por mais que faça, resulta inútil. Ele também deve estar louco querendo me ver. Senão, não teria dado recado para Clau no sábado para reencontrá-lo aqui no Terreiro. Quando cheguei ele já não estava. Mas sinto que, com a mesma ansiedade que estou para revê-lo, ele também está para rever-me. E eu só vejo "ele". Só ele. Converso com todo mundo. Revejo amigos que me tratam o mais bem possível, faço amizades que me tratam o melhor possível, mas não querem me dizer nada. Só ele, Décio, me diz tudo.  


                                                                                                   CLÔ

 

 

OBS: No grande papel dobrado, de anotações de CLÔ, ela inicia o dia 23/01/89 escrevendo sonetos: SALVADOR É TÃO PEQUENO, EDIFÍCIO THEMIS e ANJO BARROCO. Todos dedicados ao Doutor Procurador do Município de Salvador (Décio). Depois desenvolve o poema DÉCIO DE DEUS numa espécie de rascunho. Mais adiante (26/01/89) escreve a letra de algumas músicas já conhecidas: “Onde a dor não tem razão” de Paulinho da Viola, “Queria” de José Carlos Paraná, “Vou morrer de amor” de José Carlos Paraná, ‘Samba erudito” de Paulo Vanzolini e “Minha casa” cantada por Silvio Caldas. Entre os dias 30/01/89 e 03/02/89 reescreve algumas vezes o poema DEUS!!! DIABO!!! E DIABO DEUS!!!... no dia 06/02/89 registra vários sonetos de Camões.