Uma vergonha. Levantei-me já passavam das
onze horas da manhã. Constatei pelo relógio que ultimamente anda preguiçoso,
sonolento, doente, tal qual a dona, só trabalhando quando empurrado. Mas sim,
pela televisão, a qual ligada logo após
ao meu despertar e no canal cinco como de costume, videonizava desenhos. Será?
Sim, desenhos e do Pernalonga. Então já é o “Balão Mágico”! Puxa vida! E eu que
já perdi a minha novela preferida. Puxa! Eu não podia ter acordado tão tarde! E
justo agora que a “Ciranda de Pedra” está no auge das emoções! Agora que a
Virgínia tomou ciência de todas as verdades que se escondiam por trás dos
mistérios que envolviam sua vida, e que resolveu se impor, e que está botando
pra quebrar. Pena, eu não saber o que aconteceu hoje. Normalmente, eu não sou
muito dada a novelas, só assistindo um ou outro capítulo de uma ou outra, por
assistir. Principalmente estas novelas atuais que têm sido tão vazias e tão
artificiais. Mas a “Ciranda”, esta me interesso porque retrata a época da minha
adolescência. Uma época em que a vida, os costumes, tudo, eram tão diferentes!
Os sonhos, as esperanças, os romances, os legítimos sentimentos... Ah! Eram com
estes ingredientes que a vida era feita antigamente. Havia muito mais
sinceridade e poesia em tudo que se fazia.
A sala está uma bagunça. A Jussara devia
pelo menos ter levado o seu colchão de volta para o seu quarto antes de sair
para a escola. Mas nem isso fez. Malandra, quer dormir na sala por causa da
claridade da janela que a ajuda a levantar-se mais cedo e não perder a hora da
escola. Faz a bagunça, e não se preocupa em depois, deixar tudo em ordem. A
cozinha então, nossa! A comida e os pratos do jantar de ontem, com ossos de
galinha, cascas de mexirica, garrafas de coca e cerveja vazia, ainda estão
sobre a mesa. O fogão e a pia, repletos de panelas vazias e sujas. Vou só dar
uma ajeitada mais ou menos, e deixar o resto com a Jussara. O Ita ainda dorme.
Mas, vou deixá-lo dormindo porque todos estes dias, ele tem se levantado muito
cedo para ir ao Tiro (de Guerra). E ontem, ele mal chegou do Tiro e se mandou
para o Poaense para jogar volley, e lá passou a tarde toda jogando. À noite foi
em Mogi encontrar a namorada e só voltou bem tarde. Merece dormir até a hora
que puder ou quiser hoje.
E, já que estou na cozinha, constato que
não há leite. E não o havendo não posso preparar o meu imprescindível café com
leite. Mas vou ver se ainda tem pelo menos um golinho do café com leite de ontem
na garrafa térmica. Por sorte tem. E ainda dá meio copo. Está frio e com cheiro
de ruim. E eu que não gosto de nada frio ou ruim, tomo-o assim mesmo. Está mais
que frio, quase gelado, e com gosto de quem queria azedar mas não conseguiu.
Mas não faz mal. O que não mata engorda. Pior pra mim, que não quero engordar.
O que não mata emagrece, seria no meu caso o dito ideal. Mas, já que não é,
mesmo com esse deslize, já serviu ao menos para eu poder fumar o meu primeiro
cigarro de hoje.
Mas, antes de sentar no sofá defronte a
televisão para um tanto despreocupadamente fumar, tenho que esvaziar a sala.
Dobro os cobertores, a colcha, junto-os com o travesseiro e o colchão, e levo
tudo de uma só vez para o quarto dela ainda em plena escuridão. Escancaro
metade da persiana e do lado oeste do nosso alugado apartamento, os caminhos
que vão dar ao meu amor, vêm todos de choque para os meus olhos. Luminosos,
alegres, cheios de sol, entre o casario mais recente desta Poá já secular, mas
ainda recente, que só se emancipou (e anteontem, foi seu 34º aniversário) há
precisamente trinta e quatro anos atrás.
- Bom dia, Poá! Bom dia, meu amor! Brado
com todas as forças das minhas quintessentes emoções, para dentro de mim mesma,
como se ela, através de todos os barulhos da sua secular e atual cotidiana
vividescência, pudesse me ouvir e me saudar. Como se ele através de toda
distância que se interpõe entre a minha vida e a dele, pudesse me escutar e se
sentir muito bem e muito feliz consigo mesmo.
Volto à sala e, antes de me sentar, vou
até a janela. Já com as cortinas escancaradas de véspera. Não me contenho em
espiar a praça Leonor Bonini só de através os vidros. Abro-os para melhor poder
apreciar os movimentos da paisagem lá embaixo. Linda! Não me contenho e de novo
tenho que saudar Poá, agora pelo lado sul do meu apartamento, em plena 26 de março.
- Bom dia, Poá! Cidade Jóia! Discreta,
tranquila, misteriosa e atraente. Cidade morena! Bonita! Naturalmente e por ela
mesma, mais que bonita até. Linda, mesmo. Linda, sim. Mas sem artifícios e sem
vaidades supérfluas. Sensual, distinta, simples, aconchegante. Transbordante a
olhos vistos de todos os bens, qualidades e dons com que Deus a privilegiou.
Vejo que me dou bem com Poá. Que gostamos das mesmas coisas, e que temos muitas
afinidades. Que ela é tal como eu sou, e que a sua vida decorreu e decorre tal
qual a minha vida.
Muito movimento lá embaixo. Pessoas
simples que vão e que vêm na luta do dia-a-dia. E esses roncos e apitos de
carros que passam, indo em direção a Suzano e a Mogi, as rodas raspando
incessantemente o asfalto, me lembram o Brás em São Paulo nos idos dias de
sessenta e três a sessenta e cinco quando eu habitava o apartamento 507 do 5º
andar do Edifício Leste no nº 144 da Monsenhor Andrade, esquina com a rua do
Gasômetro. E para completar estas rápidas e frequentes emoções de volta ao
passado, só faltam os bondes. Ah! Bondes! Serrilhando os trilhos da Penha ou da
praça Clovis ao Largo São José do Belém, em todos os pontos destes seus percursos,
vocês estão nas saudades de muita gente. De todos os que participaram de suas
vidas, de todos os que conviveram com vocês. Os bondes abertos, bem arejados,
no verão, eram os preferidos. Os camarões mais cômodos e fechados, no inverno,
eram o ideal.
A própria Praça Leonor Bonini nunca me
pareceu tão requisitada. No ponto de táxi, nada mais que nove carros, parados
em fila. Defronte à padaria, as vagas
todas preenchidas. E aqui defronte o prédio, igual. Mais pessoas que de costume
atravessando a praça, entrando e saindo da mercearia, do açougue, da farmácia e
da padaria. Para uma segunda-feira comum, é coisa de se estranhar. O turco
Kassab vem vindo atravessando a praça do
lado contrário ao da sua loja. Dar toda essa volta para quê? Por mim? Perdeu
seu tempo. Não acho a menor graça nesse turco. Sem vergonha como ele só. E não
faz a menor questão de despistar a sua senvergonhice. Os outros da raça dele
pelo menos são mais discretos. Pior que, nem beleza tem. Procuro que procuro
para ver se descubro algum quê, alguma isca que o faça atraente para pelo menos
um certo tipo de mulher, mas, nada. Não encontro nada. Nem se vestir com
elegância, sabe. Só anda com esse boné de português, essa mesma camiseta de
sempre sob essa mesma camisa de sempre, essa mesma calça. E para um turco que
se preze, nem altura tem o coitado. Só é forte. Meio careca e com bigodes
também de português. A cor também é bem de português. Os ralos cabelos bem
lisos. Quando é que uma peste dessa se parece a um turco? Só se vê que é turco
pelo sotaque. Mas, pela aparência, pelo desmazelo, e pela senvergonhice, ele é
todo um português. Mas, um português dos mais desclassificados. Está mais
moreno. Deve ter tomado bastante sol neste fim de semana. O Seu Antonio,
corretor do prédio, também vem vindo atravessando a praça, vindo da farmácia.
Deixa eu entrar para dentro e fumar o meu cigarro, antes que alguém pense que
eu estou aqui na janela para dar bandeira.
Ainda está passando o mesmo desenho
na televisão. Não sei se ainda é o do
Pernalonga, mas sei que são os desenhos do “Balão Mágico”. Acendo o cigarro,
dou uma tragada e... Aoud. Aoud agora é o dono de todos os meus pensamentos.
Ele sempre é. Raríssimos e pequeníssimos os intervalos onde ele não comparece. Ele
sem querer, e sem o saber é o dono da minha vida e de tudo em mim. Domina
imperiosamente todas as células do meu ser. E como sabe tirar proveito disso! E
como eu lhe sou submissa! É uma coisa que eu não quero ser. É uma coisa que eu
me esforço pra não ser, que eu faço tudo pra não ser, mas sempre acabo sendo.
Ele veio no sábado. Neste último sábado, dia do aniversário de Poá. Pensei que
ainda era cedo e que ele viria a partir de dezesseis horas. Ainda estava
tomando banho sem nenhuma pressa, quando ouvi a campainha. “Deve ser ele. Mas,
já? Me parece ainda ser tão cedo! Será que sou eu quem está atrasada, ou foi
ele quem veio mais cedo hoje?” Enxuguei a cabeça, enxuguei o banheiro, e o
terceiro soar da campainha. Escondi as roupas sujas, e pela quarta vez a
campainha tocou. Corri e fui lhe abrir a porta, envergonhada por estar sem
maquiagem e com os cabelos completamente molhados e sem pentear. Ele entrou e
perguntou desconfiado:
- Tem alguém aí?
- Só eu.
- Mesmo?
- Mesmo. Pode ver.
- Quem saiu com o seu carro?
- O Ita. Foi no clube com a Jussara jogar
voley.
- E ele sai com o seu carro? Sem carta? É
perigoso.
- De vez em quando ele sai. É perigoso
mas o que é que eu posso fazer. Ele é teimoso. Estou sempre falando com ele mas
ele não liga.
- O que é que você estava fazendo?
- Eu estava tomando banho. Acabei de sair do
banheiro.
Ele, como se não acreditasse, veio comigo
até o fim do corredor, e vendo que de fato o banheiro estava molhado, voltou
para a sala enquanto eu entrei no meu quarto para acabar de me aprontar. Fiz a
maquiagem, penteei os cabelos, calcei a sandália lilás, e me fui para a sala.
Ele estava deitado no sofá, assistindo televisão. Cheguei-me por trás,
passando-lhe minhas duas mãos pelo seu rosto, acariciando-lhe suavemente, e lhe
dei um beijo. Ele voltou-se para o meu lado, olhou para mim e perguntou:
- Está com saudades?
- Muitas. Sorri-lhe acariciando-o e
beijando-o de novo. Perguntei-lhe:
- Quer café?
- Tem? Você já fez?
- Já.
- Então traz. Mas só um pouquinho. Traz na
xicrinha pequena.
Trouxe-lhe o café, tranquei a porta, e
sentei-me ao seu lado. Abracei-o e ele também me abraçou. Beijei-o e ele também
me beijou. E foi a vez de eu lhe perguntar:
- Está com saudades?
E ele não querendo dar o braço a torcer:
- Não.
Sorrimos. E não lhe perguntei mais nada.
Para que? Ele sempre contradizendo-se a si próprio. Mas, tive vontade de
responder-lhe “não faz mal, meu bem. Você não tem saudades, mas, as que eu
tenho são tantas, que dá para nós dois. E ainda sobra”. Bobo. Um ser humano
como outro qualquer, tão carente ou mais que qualquer outro, e fazendo todo
empenho para só demonstrar o contrário. E acha que está abafando. E não
consegue se tocar de que não convence. É digno de dó. Se nega a muita coisa que
gostaria de fazer, podendo fazer. Mas não faz, só para sentir o prazer mórbido
de desagradar os outros. No fundo, no fundo, nada mais consegue que
violentar-se a si próprio. No dia que ele cair em si... Ah! Eu vou morrer de
dó. Isto, porque eu o amo, e porque gostaria e vejo que tudo poderia ser tão
diferente. Que, se ele quisesse, ao em vez de só pensar em ser tão egoísta, ele
poderia ser tão mais feliz. Mas, se eu nada sentisse por ele, no dia em que
esse dia triste chegar, eu não iria achar bem merecido como seria capaz de
repetir-lhe mil vezes, dez mil vezes, cem mil vezes, infinitos milhões de
vezes, de alma cheia, de peito cheio e até de boca cheia: “Bem feito! Bem
feito! Bem feito! Bem feito!!! Bem feito!”...
Passei-lhe as mãos no rosto olhando-o
fixamente primeiro nos seus olhos. Olhos de menino. Carentes. Negros. Grandes.
Lindos! Olhos que eu sempre gostei de olhar, de me jogar neles, de me afundar
neles, e de me perder neles. Olhos que por tantos anos se distanciaram de mim,
e que agora Deus me concede a graça de tê-los de novo bem dentro dos meus
olhos. Agora é pelo seu rosto que eu me disperso. Rosto também de menino. Onde
os seus cabelos grisalhos, os seus cinquenta e seis anos de idade, alguma rugas
e a flacidez de sua pele, não conseguiriam deformar aqueles traços perfeitos, e
aquele ar de ingenuidade, inocência e timidez que hoje, mesmo em confronto com
o seu outro lado hipócrita, covarde, sagaz e astuto, ainda lhe ficam tão bem.
Ah! Meu amor, se você pudesse ser você mesmo. Autêntico, verdadeiro, sincero,
justo, tal como você aparenta ser. Mas não é. E ainda bem que não é. Porque
talvez se você fosse, ou você nunca teria gostado de mim, ou eu nunca teria
gostado de você. E não teria havido nunca, nenhuma aproximação entre nós. Ou,
mesmo se houvesse, não teríamos dado tão certo. Nós dois formamos um terrível
contraste. Você, um físico perfeito e forte, num espírito fraco e paupérrimo.
Eu, um físico imperfeito e frágil, num espírito forte e de personalidade
própria. E embora todos estes contrastes e confrontos, ainda conseguimos ir
pela vida meio juntos. Não é de se abismar?
Clô