terça-feira, 2 de maio de 2023

ANTECIPAÇÃO

          Para Aoud Id


Se pretensões já tens

De me afastar da tua vida,

Se achas que convém,

Para o teu bem, me dispensar,

Procures demonstrar,

Mas de maneira comovida,

Que eu hei de acreditar;

E, previamente convencida,

De que não sirvo mais

Senão pra te torturar,

Irei, antes que venhas,

Para dar-me a despedida,

Irei, sem te deixar

Apreciar a minha partida.

Deixando atrás de mim

Vaga lembrança em meu lugar.

 

Sentindo o coração dilacerado

E a alma ferida,

De ti, para todo o sempre,

Eu sairei para não voltar.

Trabalho não darei

E, meio desapercebida,

Do modo que eu entrei,

De forma quase não sentida,

Também tudo farei

Para, de mim, te libertar.

E antecipando, assim,

Tua alegria pretendida, 

Embora sinta em mim

Aniquilada, consumida,

Eu tentarei fingir

E hei de sorrir para não chorar.

 

E então refletirás

E enxergarás que eu poderia,

Junto de mim,

Por algum tempo mais, reter-te.

Mas não o fiz

Apenasmente para não ver-te

Dar-me o final

Do que jamais dar-me devias.

Mas, previdente, 

E bem à tua revelia,

Discretamente,

Eu busquei antes esquecer-te.

 

E então verás,

Remodelado em pedra-gelo,

O coração de quem por ti

De amor morria.

E provarás

Um pouco ao menos da agonia

Que em mim viveu

Me torturando a todo zelo.

 

Daí então

Hás de lembrar de quem foi tua

E hás de chorar

Como eu chorei para não perder-te.

Mas será bom,

Será a lição amarga e crua

Pois, assim antes

De abordar alguém na rua,

Hás de pensar

Um pouco mais para fazê-lo.

 

            Clotilde Sampaio

 

        Brás, São Paulo, 1964. (livro cinza encadernado)

XVI – 23/09/85 – segunda-feira – (Monte Cristo)

1) Êxtase a qualquer foco que me venha à cabeça. Qualquer bobagem que me ocorra. Esta noite eu quase nada dormi, com a cabeça ocupada com a preocupação de acordar o Ita às seis e dez! o relógio despertou estridente, alardemente, longamente, de uma forma que me enervou, às seis horas e dez em ponto eu já o chamava. Agora deitei-me de novo só pra me repor um pouco a cabeça pois toda vez que me levanto, assim de repente, fico doente. 

 

2) Lilinha ainda dorme feito uma bonitinha da mamãe. Não é, Lilinha? Ah! Se eu pudesse ser como ela! Tão linda e tão inocentemente irresponsável. Jussara correndo pra lá e pra cá na preparação de ir para a escola. Quer emagrecer a qualquer custo antes que não possa mais. O problema dela é igual ao meu ou pior, porque ela herdou gordura tanto de mim quanto do pai. Dei-lhe um Dobesix. O ideal será ela eliminar de vez todas as massas de que gosta, principalmente o pão. Mas se não comer nada fica fraca. E ainda mais trabalhando o tanto que ela precisa trabalhar! Entre a gordura e a fraqueza é preferível, ainda, a gordura. Só que é tão ruim ser gorda!

 

3) Ressonei um pouco e acordei com a cabeça clara de palavras entre elas: propõe e recolhe-se. Seria isto a mesma teoria que vê negada dos outros; propõe. E no propor recolhe-se. As palavras são fortes. Não existe no mundo

Nada mais forte que as palavras. Nem as ações. Entre os tapas do Aoud e o que ele me disse, o que mais me feriu, o que mais me arrasou foi o que ele disse.

 

4) Casas, castelos. A que eu tenho. E outras que no sonho é como se também eu tivesse mas, pelo menos nessa vida real eu nunca tive. Viagem de vez pra Bahia relacionada com a venda da casa, foi um dos meus sonhos destas três horas em que consegui dormir das seis e meia às nove e meia, após a saída do Ita. O outro foi com o Dr. Elson Mota e a plástica que ele me fez no peito, etc. (Depois explico). E com o Silvio, guarda do Forum, que também estava lá para se operar do braço. Devo ir a Mogi. Mais tarde voltarei ao assunto com mais detalhes. 

 

5) Uma dor de cabeça. Uma vontade de rever Vitória. E vou ter que voltar amanhã cedo, não gosto de sair de casa, e faço tudo de modo a fazer duas ou mais vezes a mesma coisa. Sempre saio de casa atrasada. E, além do atraso, encontrei com tanta gente no caminho, fui obrigada a parar, conversar, e acabei atrasando mais. Está quente. Abafado. Mas Mogi sempre cinzenta. Estou aqui no balcão 07 do INPS pra ver se consigo receber aquele meu dinheiro atrasado da Bahia, desde o início do ano passado. INPS é aquele abacaxi de sempre. Também, se não receber agora, vou acabar esquecendo e não recebo mais. Peguei o número 223 e a chamada ainda está no 198. Vai demorar um bocado. Uma meia hora no mínimo. Se me pagarem tá bom. Este dinheiro está tão encantado que até já quase nem conto mais com ele. Se dependesse dele pra viver, já teria morrido. Uma mixaria de dois meses atrasados, cerca de 168 mil e uns quebrados que, se eu tivesse recebido no prazo certo, já não valeria muito. Quanto mais agora, sem correção monetária, mais de um ano depois, o que é que vale? Mas, pra quem, como eu, está com menos de quinze mil cruzeiros na bolsa, até que vale alguma coisa. Pelo menos vai dar pra mim comprar sabonetes, açúcar, óleo e fósforo, que está faltando lá em casa. E macarrão, massa de tomate, queijo ralado, caldo de galinha ou de carne pra eu fazer as macarronadas diárias da Lilinha. Ela ficou tão acostumada, e gosta tanto, que não é capaz de comer bem outra coisa no almoço ou na janta, senão macarrão. Malandrinha. Nem pra agradar a gente ela come o que não gosta. É tão sensível, tão carente, qualquer coisa diferente ela sente muito mais que a gente. Não sabe se comunicar, não sabe dizer o que sente, mas fica tristinha. Seria tão bom se ela pudesse dizer tudo o que sente. Mas não sabe. E a gente tem que adivinhar e trata-la o melhor possível para que ela não se ressinta e não regrida. É tão linda! Uma bonequinha! Perfeita, com uns olhos tão lindos, uma bonequinha. Tão linda, um sorrisinho tão lindo, um rostinho tão lindo, que ninguém diz, só ao vê-la, que é excepcional. 

                                        Clô  

PEDAÇO DE ABANDONO

              Para Aoud Id


Estou tão absorvida no meu silêncio...

Tão compenetrada na insensibilidade...

Que chego a imaginar que não existo.

 

Sinto-me distante da vida que me rodeia.

Pareço-me o fantasma da morte em pessoa;

Sim, porque nada há que me arranque

Da mudez com que me envolvo.

 

A minha voz não tem ânimo para dizer nada.

Os meus lábios estão falidos,

Não se abrem para exprimir o que sinto,

E os meus olhos, indefesos para a contemplação,

Dos esplendores da sobrevivência.

 

Estou fora de mim.

Estou fora da vida.

Estou fora de tudo.

 

Não posso pressentir

Mais o que sou externamente.

Mas devo ser um pedaço de abandono

No invólucro da desolação em massa. 

 

              Clotilde Sampaio

 

   Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)

 

XV – 22/09/85 – domingo – (Monte Cristo)

1) Um dia sem-vergonha o de hoje. Faz que faz sol e não faz. Faz que quer chover e não chove. Faz que vai esfriar e não esfria. Instável, fingido, falso. E o resultado é que a gente acaba ficando com o mesmo estado de espírito. Indecisa, instável. Sem saber e sem ter o que fazer. Confusa. Garanto que, se estivesse na Bahia agora, não estaria assim. Lá estaria cheia de objetivos, repleta de alegria de viver. Perdida entre mil opções. Aquela terra... Ah! Aquela terra, aquele clima, aquelas pessoas... tudo faz com que lá a gente só valorize a vida. Com que a gente se sinta muito gente. Com muito valor e com muita precisão de viver. E não este trapo, esta coisa, este nada qualquer com que a gente só se sente aqui.

 

2) Um dia sem nenhum o que fazer importante. Duas colegas da Jussara , que trabalham com ela no Guaió (mercado), estão aí visitando-a. Meninas mocinhas, como ela, e simpáticas também, como ela. Vitória então, nem cheiro de Vitória mesmo. Também, já não a estou esperando mais. É melhor eu me conscientizar que ela só vai vir no fim do ano mesmo. E só pra trazer os sete milhões. Senão, nem pra isso viria mais. Eu sei que ela está se empenhando ao máximo, só pra me pagar os sete milhões. Assim, ela vai se sentir bem mais livre de mim e dos irmãos, que nada mais representamos pra ela. 

 

3) Ai! Minha casa! Que dó ter de deixa-la! Este conforto, esta tranquilidade que tenho aqui, talvez não encontre nunca mais em lugar nenhum em toda a minha vida. O conforto destes três quartos e desta sala enorme! Desta cozinha imensa! Deste quintal amplamente grande. Destes dois banheiros, destes azulejos, desta pia de aço inox de duas cubas. Não. Vamos pensar positivo. Vou deixá-la para ir ao encontro de uma casa bem mais confortável que esta e, em pleno centro de Salvador na Bahia! Pra que melhor? E eu mereço! Não posso ficar presa só nisso que está aqui, e que tenho, quando um melhor lugar, melhores pessoas, melhor casa, melhores oportunidades, minha neta, meu filho, minha nora e uma porção de queridos amigos estão todos à minha espera lá na Bahia! Isto sem falar naquelas praias! Em Jehová (ou homens que melhor o valha). Em Jorge Amado! Em Zélia Gattai! Em Claudete! Em Clarindo! Em Betina! No Pelourinho! Na Cantina! Nos shows da Cantina! Não! Eu não posso me deixar prender por só isto aqui não, quando a minha felicidade, esta mesma que eu procurei em toda a minha vida aqui no estado de São Paulo e que não achei, está me esperando lá na Bahia! Aquele mar! Ah! Mar azul inesquecível! Ah! Marzão azul, azul, que me espera! Que nos espera! Não vais esperar mais por muito tempo não, eu te juro! Eu te juro que no máximo até o fim deste ano, estarei aí. E que, no máximo, até março do ano que vem. Não, não, não. É só até o fim deste ano mesmo estaremos aí de vez, definitivo. Adeus, coisas, pessoas e fatos já ultrapassados daqui. Já estou me despedindo de vocês pra sempre. Vou para outra vida. Para a minha verdadeira vida. Quero esquecer por completo que algum dia já vivi aqui e que já passei por todas as tragédias que precisei enfrentar aqui. Praça da Piedade, Beth e Osvaldo Bailado! Me lembro sempre e tanto de vocês! Mais um pouco e... olha eu aí, outra vez! Estou em falta e em falha com ambos. Mas, não é por pouco caso não. É por falta de tempo. Você sabe, Beth, como é esta cidade. Só correrias. E atrás de quê? Em razão de quê? Do Nada. Do Nada Absoluto. Ai que tensão! Não é tesão não. É tensão mesmo. Um sufoco. Um abafo. Uma depressão. E ser obrigada a conviver só nisso. E por isso. Dá pra entender? Dá ao menos pra desculpar?

 

4) É só para que a consciência doa mais que nós deixamos as coisas assim. Armas nós temos. E muitas. E se fôssemos lutar com um terço das armas que temos arrasaríamos a sua vida. E só não fizemos uso delas porque o uso da vingança não é o nosso feitio. E o não uso da vingança pôs ao nosso dispor uma arma maior: o desprezo. E ai! Como ele dói! E misturado com a dor de consciência, te arrasa muito mais do que se tivéssemos feito uso da vingança. Taí. Covardia? Medo? De quê? De mim, pobre diabo como você que não tem o respeito nem de si próprio. Belo exemplo você deu ao seu filho avançando com tapas e com palavras de baixo calão sobre uma pequena e inofensiva mulher que só foi aí reivindicar melhor tratamento e consideração para com os seus próprios filhos. Não adianta você querer que eles deixem de ser seus filhos. E eles são seus filhos para toda a eternidade e em qualquer lugar do mundo. E ninguém pode fazer com que seja o contrário, nem mesmo você. E eu nunca que queria estar na sua pele, devendo o que você nos deve, e fazendo o que você nos faz. Você é indigno de ser chamado de ser humano. 

 

5) Abelo-me toda, e me dói tudo cada vez que sou obrigada a pensar neste assunto chamado Auade. Não vejo a hora que termine a ação e eu possa enterrá-lo de vez. Aí é que vou poder ir para a Bahia e nunca mais, por nada, vou precisar nem querer me lembrar dele.

 

6) A irritação dos olhos do Ita chega a me preocupar. Nunca vi igual. Assim de repente. Sai tanta água, pior do que alguém chorando, sem poder enfrentar a luz. Será conjuntivite? Ele precisa ir ver o quanto antes. Com os olhos, é preciso todo cuidado. Sono só, por maior que seja, não produz isso. Pelo menos eu nunca vi. Sono só faz a gente fechar os olhos. Ficam ardendo como se tivessem cheios de areia sim. Mas chorando, lacrimejando intensamente assim, não. Deve ser alguma infecção. Deus ajude que não seja nada grave. E que amanhã já tenha sarado. Se for conjuntivite ele vai precisar ficar em casa uns dias até passar. 

 

7) Amanhã pretendo ir em Mogi logo de manhã, resolver a minha situação no INPS, ou seja, dar entrada em novo processo para ficar na Caixa. Depois, talvez, eu passe no Forum pra ver o andamento da Ação de Alimentos e na Ação do Executivo Fiscal. E preciso também me preocupar sobre o andamento da Ação da Justiça do Trabalho com relação ao processo que movi contra a Prefeitura. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Ajude-me, Gohonzon, para que tudo tenha o melhor resultado. E preciso também não me esquecer de por a carta do Capitão Expedito no correio só pra ver o que vai dar. E João não me escreve nada. Depois que Lorena nasceu, ele se distanciou mais de mim. Ficou com mais preguiça de me escrever. E Vitória que agiu como agiu movida só de más intenções? Não esperava isso dela. Agiu como se não fosse mais de nossa família. Como se nós, mãe e irmãos, nada mais tivéssemos com a sua vida. Ela sempre teve certas tendências esquisitas contra nós, sua família. E sempre se deu mal com isso. Ela ridicava os livros dos irmãos quando estudava, e foi perde-los na casa do Elias. Ela tirou dinheiro de mim na viagem que fizemos na Bahia, pra perder tudo o que recebeu na Gyotoku nas mãos do Paulo. Agora, fez esta sujeira toda que fez conosco, em benefício da Rosinha. Oxalá ela não venha a ter do que se arrepender como já aconteceu das outras vezes. Pensei que ela já tivesse aprendido a lição de que dor de barriga não dá uma vez só. Mas ainda ela não aprendeu. Me dói ter que pensar nela e ficar magoada como estou. Falsidade dói tanto...

 

8) Que eu fico até sem ação, eu fico. De repente, sem mais nem menos, sem a gente esperar, cair na realidade que ela nos traiu? Que faça bom proveito. Que o proveito que ela almejou, ao planejar tudo, lhe seja concedido em dobro. E eu não quero e prometo fazer o máximo pra não pensar mais nisso. O fim do ano está aí e, até lá, tudo será resolvido. Quase duas horas da manhã? Já? Deixa eu dormir. Está sob minha responsabilidade acordar o Ita logo mais às seis. Boa noite, meus filhos. Boa noite, Gohonzon. Boa noite, Deuses Budistas. Mas antes, ao menos um soneto de Florbela Espanca. 

 

                                                    Clô

 

 

 

MINHA FELICIDADE

       Para Aoud Id


Debruçada na janela, 

Aqui fico a te esperar.

De plantão, de sentinela,

O mover da rua a olhar.

E entre os carros que passam

Velozmente, sem parar,

Eu procuro ver o teu

No seu devido lugar.

E assim se passam as horas,

E os outros passam e repassam, 

E o teu não vejo chegar.

 

Tento desviar a vista

Para os prédios da cidade

Para ver se vens mais depressa

Matar a minha saudade.

E os luminosos que brilham

Demonstram que compartilham

Desta minha ansiedade.

Saltitam, correm, tropeçam,

Pulando de déu em déu

Parece até que começam

A voarem para o céu.

 

E eu neste apartamento

Cá na Monsenhor Andrade,

Bem à esquina da Gasômetro,

Fico a ver o movimento

Sem tirar do pensamento

Quem, de mim, dista quilômetros;

E a quem chamo, na verdade, 

De Minha Felicidade.

     

             Clotilde Sampaio

 

      Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)

XIV – 21/09/85 – sábado – (Monte Cristo)

1) Palavras cruzadas. Hoje só estou cruzando palavras. Desde cedo. A casa está uma bagunça. E eu nem aí. Também, hoje não estou esperando por Vitória. Já me convenci de que ela não quer mais vir mesmo. Inda mais depois que o Ita disse que encontrou-a ontem, por acaso, na Faculdade. Trocaram algumas palavras que ela respondeu-lhe mal, sem perguntar de ninguém aqui de casa. E acabaram discutindo. 

 

2) Festival de merda de meia tigela. Fiquei com uma raiva. Se eu soubesse que ia acabar assim nem tinha assistido. Perder todo esse tempão à toa pra acabar nesta marmelada. O melhor cantor, o melhor compositor, a melhor letra, a melhor música que foi “Sol da manhã” de e com Carlos Papel, desclassificada. Que injustiça! Isto e que é injustiça. Só porque o rapaz veio sozinho do Espírito Santo, sem torcida, tímido, igual Caetano Veloso quando veio da Bahia a primeira vez (aliás ele é um novo Caetano Veloso que surge). Não o levaram em consideração. Preferiram os porcos dos Joelhos de Porco, os Línguas de Trapo com suas porcarias e os seus trapos do que o menino poeta com a sua bela poesia. São uns porcos mesmo estes jurados. Eta mentalidade suja, suja, porca! Bem merecem o que escolheram. Só podiam dar valor ao que deram! Se merecem! E como se merecem! Tanto quanto Aoud à Wedsnair. Porco só pode se dar bem com outro porco. Os iguais se atraem.

 

3) Estou me deitando fula de raiva. O Ita precisava mudar as coisas de lugar? Precisava tirar as plantas, que eu arrumei, do lugar e caixa e vitrola e levar pra sala? Não era mais fácil ele namorar com a Meire no quarto dele em vez de desarrumar tudo? Que cabeça! Que mania! Só pra me deixar furiosa. E ainda deixa o vidro da porta aberta só pra empestear a casa de pernilongos. Depois sou eu quem tenho que empestear a casa de inseticida pra conseguir dormir. O pior é que pode fazer muito mal pra Lilinha. Afinal, eu arrumo a casa, as coisas, tudo, o melhor que posso, pra ver as coisas ajeitadas o melhor possível, como gosto, pra quê? Para nada? Só para perder tempo? Se é para ficar tudo de qualquer jeito então, que fique tudo de perna pro ar, que eu vou tratar é de cuidar e de me dedicar só ao meu maior interesse que é a literatura. Se é pra não valer nada o que eu faço, então eu só vou ler, escrever e estudar que eu ganho muito mais. E cuidar da Lilinha. Não é, Lilinha? Azente passa o dia intelo xó lendo, esclevendo e comendo. Não é, filhinha? Xó a Lilinha que entende a mamãe, xó a bonequinha bonita e xenvergoinha da mamãe que gosta da mamãe. 

 

4) Que pena que a fotografia do João no jornal (da reunião de dirigentes na Bahia) não saiu inteira. Saiu só a testa, as orelhas, os cabelos, e os óculos. Tanto que eu queria revê-lo. Tanto que eu queria matar as saudades do meu filho! 

 

5) Aqui eu tenho o meu espaço. Bem ou mal. E ninguém me toma. O espaço que eu gosto. E que tem uma história. E, por isso mesmo, um valor sentimental incalculável. Cada tijolo, cada taco, cada grão de areia, foi posto aqui com muito suor, com muita luta, com muito ideal, com muito Nam-myoho-rengue-kyo. Esta casa foi feita no tempo em que eu tinha coragem para construir uma casa. O que, agora, não tenho mais. Nem dá pra acreditar que eu consegui construir esta casa! Hoje, aquele ânimo que eu tinha está tão remoto, que até parece que só foi um sonho. Será que aquele dinamismo que eu tinha vinha de necessidade? Ou vinha da minha própria força de vontade? É uma incógnita. Nem sei que horas são. Mas já deve ser bem tarde. E eu devo ir dormir. Aliás, todos já dormem. Menos eu. E a Vitória? Será que já está dormindo também como os demais? Ou será que, como eu, também ainda está acordada? O importante é que eu soube dela. E sei que, aliás, creio que ela está bem. E que o Gohonzon a faça cada vez cada dia melhor, cada hora mais bem. Vou dormir de luz acesa. Assim, o que vier ou, se vier algo na cabeça, rabisco. 

 

6) Só vou pegar no sono mesmo, quando eu estiver com bastante sono. Se eu pudesse eu passaria a noite inteira escrevendo. É tão gostoso escrever com este silêncio...

 

7)  Parece que vou terminar a minha vida só. Que não vou ter mais ninguém para compartilhar da minha vida, que não vou ter mais nenhum homem morando comigo. Não sei se isso é bom se é mal. Mas creio que nem é de todo bom, nem é de todo mal. A companhia de um homem tem desvantagens. E a solidão também tem lá as suas vantagens. 

                                                                             Clô 

 

FRUSTRAÇÃO

            Para Aoud Id


Tanto eu fiz para esperá-lo ansiosamente.

Maquiei-me e perfumei os meus cabelos.

Preparei-me o mais que pude tão contente,

Na esperança novamente de revê-lo.

 

Mas infeliz que sou! Que tão má sorte!

Quando, ao passar na esquina, onde devia

Estar, vejo-a vazia, não o encontro. 

 

Penso: talvez ele atrasou-se no transporte.

Quem sabe se ainda tarde ele viria,

Quem sabe se me aguarda em outro ponto?

 

Mas qual!

Depois de angustiante espera,

Só pude ver os meus anseios fenecidos.

E percebendo a frustração nos meus sentidos,

Voltei mais triste e só, para Itaquera.

 

              Clotilde Sampaio

 

      Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)

 

XIII – 20/09/85 – sexta-feira, 8:30 horas (Monte Cristo)

1) Estou semi dormindo, semi acordada, mas já e ainda pensando. Minha cabeça tem dia que acorda fértil de pensamentos. E eu gosto que seja assim, pois a minha maior distração é pensar. Coisas boas, porém. E originais. Más, não. Credo em Cruz! Acordo, levanto-me e bem devagarinho para Lilinha não acordar também. Estranho! Meu quarto não está como eu deixei ontem. 

Esta banqueta, por que aqui? Será que queimou a lâmpada? Não, não queimou não. Então por que aqui? Será que tiraram a lâmpada para usá-la em outro lugar? O banheiro sujo, fedendo... quem será que fez isso? As portas abertas... Uma mosqueteira na cozinha... Um dos palhacinhos da geladeira sumido. Ué, que será que aconteceu? Será que alguém entrou aqui e fez isso? Ou será que alguém saiu correndo atrasado e deixou tudo assim? E o palhacinho? Onde foi parar? Estranho. Muito estranho.

 

2) Será que nem neste fim de semana Vitória vem? Já estou cansada da ausência dela aqui em casa. A gente conversava tanto. Trocava tantas ideias. Ela tem um modo de ver as coisas tão profundo! Tão bonito! De todos os meus filhos, em matéria de pensamento, ela é com quem mais afinidades tenho. O seu sorriso bonito! O seu rosto bonito! O seu corpo bonito! Os seus olhos lindos! Ah! Vitória, Vitória, minha filha querida. Não me deixe assim tanto tempo sem você. Percebo que tudo o que tenho feito aqui em casa, mais do que para os outros filhos, é para você. Se arrumei os quartos, a casa, tudo, foi sempre pensando em você. 

 

3) Terremoto na Cidade do México. Mais de três mil mortos. Coisa horrível. Pelas fotos, a cidade ficou de perna pro ar. Mais de um terço da cidade toda destruída. Hotéis, hospitais, prédios importantes, tudo só escombros. Os homens querem mostrar que são tão poderosos. É nesta hora que Deus mostra o quanto somos impotentes. E o quanto Ele é absoluto. 

 

4) Acabo de constatar algo que até aqui ainda não tinha me dado conta. Vitória se foi (intencionalmente) de uma vez de nós. Raspou tudo. Ou seja, levou tudo. Estou perplexa com a frieza dela. Faz como se nunca tivesse precisado de nenhum de nós. Esqueceu-se por completo que tem família. É sinal de que está bem! Sempre que ela se julga bem, ela não lembra que tem família. Ela precisa se conscientizar que dor de barriga não dá uma vez só...

                                                                     Clô

ENTRE UMAS E OUTRAS

Não há mulher nesta vida

Que não lembre o seu passado.

Uma por ser mal querida

Outra por ser bem amada.

Uma por ser aplaudida

Outra por ser desprezada.

 

Uma por ser moça e forte

Outra por ser decadente.

Uma por ser bela e rica

Outra por ser penitente.

Uma por gozar saúde

Outra por só ser doente.

 

Já fui ligeira correndo,

Já fui alegre cantando,

Falei com Cristo dormindo,

Já subi ao Céu sonhando.

Fui juventude sorrindo,

Hoje sou triste, chorando.

 

            Clotilde Sampaio


          Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)



segunda-feira, 1 de maio de 2023

XII – 19/09/85 – quinta-feira. (Monte Cristo)

1) Exercitar a mão e a mente. Desbloquear a mente e a mão. Torná-las unas, no exercício de escrever com fidelidade tudo o que sinto, o que penso, o que vejo, eis o porquê de eu estar praticando nesta imensa folha de papel que o Ita sempre traz da “Papelão”, onde ele trabalha. E não (ou no fim, pode até ser) com o intuito de fazer do que aqui está escrito alguma obra literária. Oh! Não. Ao menos por enquanto, não. Futuramente, quem sabe? O meu desejo, o meu ideal, é poder publicar os meus livros de poesia. Pois sei que sou essencialmente poeta. 

 

2) Não tenho a menor vontade de vender esta casa. Aqui lutei tanto! Aqui passei por tantos momentos difíceis, gostosos, bons e meus. Por tantas emoções! Os meus filhos ainda todos pequenos! E nós todos juntos. Que saudades daqueles tempos em que ainda estávamos todos juntos. Esta casa tem uma parte da nossa vida impregnada aqui dentro, lá fora, por todos os cantos. Ela representa a nossa luta pelo nosso meu ideal concretizado. Quero ir pra Bahia, sim. Mas o ideal seria sem vender esta casa. O lugar, o bairro, a cidade, para mim, nada disso tem muita ou nenhuma importância. Mas esta casa tem. Se eu pudesse levá-la assim como está para a Bahia! Com todo este espaço que tem aqui dentro! Sei que dificilmente terei outro espaço como este em qualquer outra casa. E não é só o espaço não. É o sentimento. Por outro lado, também penso como seria bom eu me desligar de tudo que está aqui. Ou melhor, ao redor daqui, e que só me fazem ainda sofrer. Não há mais nada comigo que me lembre Aoud a não ser os meus filhos que são a personificação dele. E que são só meus. De resto, seria ideal que eu acabasse com tudo dele, e que o enterrasse de vez. Mas quando isso? Será que conseguirei de todo, um dia? Sinto que isto já está bem encaminhado. Que ele já não me faz mais a falta que fazia, e que se ele de repente morrer, não vou sentir. Mas será isto mesmo? Ultimamente tenho estado tão instável, tão contraditória, tão incoerente comigo mesma.

 

3) Tenho tanta coisa pra fazer hoje! E vou ver se consigo fazer todas. Hoje já é quinta-feira e é só hoje e amanhã que tenho para dar um jeito melhor nesta casa, deixar mais em ordem naquilo que me for possível. Quem sabe Vitória vem neste fim de semana? E quero que ela venha e encontre a casa bem confortável e bonita. Preciso enviar a carta que escrevi para o capitão Expedito. Se já a tivesse mandado, talvez já tivesse um bom resultado. Como não mandei, estou ainda naquela expectativa do nada. E eu já não tenho mais tempo pra perder, nem pra esperar. A minha vida já está passando e, se eu não aproveitar agora não aproveitarei mais. E ele é um homem que eu não devo deixar perder. Pelo menos enquanto ainda eu estiver por aqui, devo dar um jeito de poder aproveitá-lo ao máximo. Caso contrário, será mais uma das coisas que futuramente poderei vir a me arrepender não ter aproveitado e de não ter feito nada para que isso tenha acontecido. 

 

4) AIDS. Que horror! Fizeram tanto uso do focinho de porco como tomada que só, e nos estreparam. Doença venérea mortal que só os homens poderiam inventar. E agora, é todo mundo no rolo. Inocentes pegando pelos que perecem. Mais uma prova da inferioridade do homem. E viva nós mulheres que estamos provando o quanto somos superiores a eles em tudo. O que eles têm é dor de cotovelo, por isso nos achincalham, nos diminuem, nos humilham, nos agridem. Mas, quanto mais fazem isso, só conseguem provar mais as suas baixezas, covardias e inferioridade. Homens, existem ainda sim. Raríssimos. Mas ainda os há. Meus dois filhos, por exemplo, que em todos os sentidos tanto na honestidade quanto no modo de agir, de pensar e de respeitar as mulheres, são homens com H maiúsculo. Assim eu os ensinei. E assim, eles são. Graças a Deus.

 

5) Vai, Aoud! Fique com todo o seu dinheiro. Você sempre precisou, precisa e vai precisar bem mais dele do que nós. Você só vale pelos cifrões que você tem mesmo. Enquanto você os tiver, você ainda valerá alguma coisa. Mas se, de repente, você precisar ficar sem ele, você ficará também uma pessoa sem valor nenhum. Não vai valer nem a bala com que você usará na sua cabeça como único remédio talvez, mas não eficaz para a sua enorme dor de consciência.

 

6) É mais mesmo por uma questão de honra. Pois sei lá se até lá, ou seja, até você morrer, se você vai morrer tendo alguma coisa? Talvez você termine a vida bem mais pobre (monetariamente porque espiritualmente você sempre foi paupérrimo, miserável, indigente, um coitado) do que nós. E, além do mais, o teu dinheiro nunca nos fez falta. Sempre soubemos viver sem ele. (Apesar de também termos direito nele). Quem não sabe viver sem ele é você. Você é escravo dele, se humilha, se suja, se rebaixa, se prejudica, se joga no fogo do inferno, dá a alma ao diabo e mira o diabo por causa dele. Coitado! Escravo de um papel! Que pobreza!

 

7) Lilinha ronca. Está tão linda! Hoje sorriu o dia inteiro. E olhou tanto para mim! Um olhar tão lindo! Um sorriso tão lindo! Um rostinho tão lindo! Que nenhuma outra criança tem. Cada dia que passa ela fica mais linda! E eu não consigo mais viver sem ela. Ela, com todas as artes que faz, é a companhia ideal para mim. Lilinha é a minha vida. Ela preencheu todos os vazios que os meus filhos, ao crescerem, deixaram dentro de mim. 

 

8) Uma vontade de ir à Bahia! Rever joão, Ari, Lorena! Claudete, Clarindo, Jehová! Betina! Rever a Bahia e matar saudades de todos e de tudo. Quero ir no fim do ano com Dinorá e com a Lilinha. Vamos passear bastante. Rever e mostrar muita coisa pra Dinorá. Sei que ela vai ficar encantada com tudo que vai ver lá. Cantina da Lua! Mercado Modelo! Igreja de São Francisco! Largo do Pelourinho! Praia da Barra! Bonfim! Ribeira! Se pudermos ir para a Festa do Bonfim! Que glória! Será inesquecível. Passar este fim de ano lá. Com todas as pessoas amadas e queridas. Transbordando de felicidade naquele paraíso encantado que é a Bahia. E se tiver a sorte de conhecer Jorge Amado? E Zélia Gattai? Rever Jehová! Aplaudir Jehová! Ah! Jehová, Jehová! O que é que o baiano tem? Tem raça como ninguém.

 

9) E... Antoninho Mattos? Ah! Você foi o baiano, o mulato, o homem mais lindo que eu via até hoje, em toda a minha vida. Outro DEUS! Que eu deixei perder. Que pena! Mas terão outras vezes. E da próxima você não me escapa. Ou melhor, vou fazer questão de não me deixar te escapar. Agora eu vou dormir. 

                                                                                    Clô

EIS O PORQUÊ DO MEU AMOR POR TI


                         Para Aoud Id


Vou te dizer, amor, e acho difícil que acredites

Pois, neste mundo, onde a mentira predomina,

Raro é encontrar um amor puro e sem limites

Como este que te dou, numa ansiedade tão divina.

 

Pois creia, amor, é bem sincero o que te digo.

Desde o instante em que te vi naquela esquina

Senti dentro de mim, confiar em ti, pensei comigo:

É o ideal que, em sonhos, alimentei desde menina.

 

É duro acreditar, mas tu sabes bem que não minto.

Eu mesma me estranhei ao perceber que te queria.

E se procuro, em gestos, te expressar tudo o que sinto

E, se, somente a ti, resolvi dar a primazia

 

De possuir-me, é porque existe, de verdade,

Algo de especial que em outras almas não senti. 

Pois antes nunca dei ao coração tal liberdade

De entregar-se a alguém assim, com tal facilidade.

Eis, portanto, a razão por que gostei de ti:

 

Gostei de ti desde aquele seguro instante

Que, sem querer, te contemplei bem de pertinho.

Pois julguei ver, na placidez do teu semblante

Que, como eu, necessitavas de carinho.

 

Gostei de ti porque te achei bem diferente

Dos demais homens, cujo instinto aventureiro,

Buscam enganar a nós, mulheres, tão somente

Sem dar valor a um sentimento verdadeiro.

 

Gostei de ti por ver, no teu olhar sereno,

Essa ternura que me deu nova esperança. 

Gostei de ti por ver, no teu rosto moreno,

O personagem dos meus sonhos de criança.

 

Gostei de ti ao perceber que a timidez

Te acompanhou quando vieste ter comigo.

Pois gaguejaste e, eu bem notei na tua tez,

Aquele ar de quem não sabe ser fingido.

 

Gostei de ti desde que deste, aos meus ouvidos,

O sibilar da tua voz tão mansa e calma.

Que eras sincero, percebeu-te os meus sentidos,

E que eras bom, compreendeu-te a minha alma. 

 

Gostei de ti, do teu perfil de beduíno,

Onde admiro os olhos teus negros, brilhantes.

Gostei do teu jeito de ser bem masculino,

Da envergadura audaz, assaz soberba e elegante.

 

Gostei de ti e isto me enche de vaidade

Pois, tudo em ti, só me deslumbra e me fascina:

Teu corpo forte, o teu sorriso, a tua idade,

Os teus cabelos salpicados de platina.

 

Gostei de ti porque és um homem de verdade

Porque me sinto, junto a ti, mais protegida

Da multidão de toda espécie de maldade

Que, a todo instante, vem roubar a minha vida.

 

Gostei de ti pelo teu rasgo de heroísmo

De desarmar-me, com tamanha perfeição,

Sem ter usado da mentira ou do cinismo. 

Eis, como prêmio, o que te dou – meu coração. 

 

                              Clotilde Sampaio 

 

           Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)