domingo, 31 de março de 2024

CADÊEUAQUI?

Engraçado!

Andei, andei, São Paulo

E não me acho mais em lugar nenhum aqui

Daqui de minha terra

 

Por onde andará... Eu?

 

Devo andar lá pela Bahia

Passeando a pé por todas as ruas

Becos e praças de Salvador

Inspirando por todos os poros

Aquela brisa

Respirando por todos os sentidos

Aquela poesia

Que só a Bahia tem

 

Ah!

Que delícia!

Poder ser como os soteropolitanos

Também, e só

Inteira e completamente baiana!

 

                                          Clotilde Sampaio

                                                                  Suzano, SP – 03/01/85.

                                                                     Quinta-feira, 14:40 horas.

05 10 85

XXVIII – 05/10/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) Um rebu. Matilde que foi pro hospital com hemorragia e que até agora não se sabe notícias. Ita foi lá ontem à noite na Santa Casa. E só ficou sabendo que ela está bem. Não perguntou o que ela teve, não perguntou a que horas eram as visitas. Enfim, quase nada se sabe sobre ela. Está um sol lindo imitando o da Bahia. Não tem leite, não pão, nem açúcar, nem óleo. O Ita está dormindo ainda agora às nove e meia. Lilinha já está de há muito acordada, e está com fome. Vou emprestar mais um pouco de óleo da Miriam e fritar uns bolinhos pra ela tomar com chá, porque se for esperar que o Ita levante pra ir na venda, o café da manhã não vai ser hoje. Miriam me empresta o óleo. Peço-lhe se pode me fazer o chá porque eu não sei fazer bem chá. Ela faz, frito os bolinhos, troco a Liliam, dou-lhe remédio, dou-lhe e também tomo os bolinhos com chá. Agora quero aproveitar este sol. Vou por um maiô e tomar banho de sol com a Lilinha. Estamos tão brancas que até dá vergonha. 

 

2) tomo meia hora de sol pela frente e quando me preparo para tomar o sol por trás, chega a inquilina da Miriam contando o ocorrido com a Matilde. Disse que ela começou a sentir-se mal por volta das dez horas da noite, de repente começou a por pelotas de sangue sem parar, e era tanto sangue que ela nunca viu coisa igual. Ensopou lençóis, toalhas, a casa toda. Parecia que tinha matado um animal e espalhado sangue por toda a casa. Ela mandou que o marido viesse aqui avisar às quatro da manhã, quando ele vinha pro serviço, mas ele é um bobão que não sabe avisar nada direito. Ficaram esperando até o dia clarear e nada de vir ninguém dos avisados. Mal o dia clareou, mandou o filho dela com o Alexandre vir avisar de novo, e chamar a Dinorá para ir lá que a mãe dela estava muito mal. Assim que a Dinorá chegou e viu a mãe dela no estado que estava, quase morta, ficou até sem fala. E a vizinha mandou chamar um vizinho que tem carro pra levar a Matilde até a Santa Casa. Ele perguntou se ia alguém com ele, ela disse que não. E que ele não podia ir porque precisava ir trabalhar. E que era pra ele levá-la assim mesmo até o hospital que lá eles dariam um jeito. Matilde deve ter chegado no hospital às seis da manhã. E às nove horas, quando ele passou lá pra saber dela, ela ainda estava sentada no banco, lá fora sem ser atendida. Daí pra cá, ela não sabe mais o que aconteceu. Ela não sabe explicar bem o que aconteceu mas foi uma espécie de hemorragia. E ela veio aqui pra saber notícias porque foi muito feio o que aconteceu. 

 

3) Lilinha que está se bronzeando aqui comigo semi-peladinha ( só com a calcinha do biquininho) devido à alta temperatura do sol, começou a ficar nervosa e teve início a baixaria. Começou a bater na boca e a se morder. Esmurrou tanto a sua própria boca que logo começou a verter sangue. Tratei de mais que depressa prender-lhe e tirá-la do sol. Prendi-lhe os bracinhos, pus-lhe só a calça plástica sobre a calcinha do biquininho e levei-a para dentro do berço de dentro da casa da Miriam. Deitei-me outra vez, de costas para o sol, enquanto a inquilina da Miriam falava sobre a Matilde, com a Miriam no portão. Vi que a mulher estava enfática falando, mas não dei muita atenção para o que ela me fazia ouvir. Tem gente que é muito exagerada ao contar as coisas, pensei. Afinal, a regra é essa: quem conta um conto aumenta um ponto. Mas nunca é só um ponto. É bem mais. Depois, a Miriam já estava ouvindo, pra quê eu me preocupar em ouvir? Depois é lógico que ela me contaria. E foi o que ela fez. A mulher deixou-a deveras impressionada. E ela veio me contando chorando, de forma que também me impressionou.

  - É, o negócio ontem com a Matilde foi muito feio. Disse que ela foi daqui quase morta. E que nunca em toda a vida dela, ela viu nada igual. E a gente aqui sem ter feito nada. Até agora sem saber de nada. Como é que ela está, isto se ainda ela está, porque pelo jeito que a mulher veio contar, pode ser que ela nem viva esteja mais. E derrubou no choro.

  - Que isso Miriam, lógico que ela está. A gente tem que pensar positivo. Pensar negativo não resolve nada. O Ita foi ver ontem e disseram que ela está bem. 

  - Mas ele não viu ela. A gente precisa ver ela. Os outros nem sempre informam certo. 

  - É só a gente ir lá. O ruim é que a gente não sabe a hora da visita, mas vamos assim mesmo. Se chegar e puder visitar tudo bem. Se não, pelo menos a gente sabe dela. Deve ser lá pelas três horas...

  - A gente pega o ônibus vinte pras três. 

  - Tudo bem. 

  - É só encher a barriga das crianças e sair.

Esquentei a comida, dei feijão com arroz, com ovo pra Lilinha, que comeu quase tudo. Peguei a Lilinha e eu e viemos nos trocar. Estávamos quase peladas. Eu só de maiô e Lilinha sem fralda. Sem tomar banho mesmo. (E devia, pois havia suado sob o sol... isso sem contar que já faz duas semanas que eu não sei o que é chuveiro. Exagero? Não. Preguiça.) Pus meu conjunto de jersey florido de perto que eu trouxe da Bahia. Uma sandália velha preta mas boa que a Matilde trouxe, e eu acho que pra Dinorá. Uma sandália até um pouco alta mas confortável porque de linha já dilatada pelo muito uso. Fui pegar os dez mil cruzeiros que o Ita me deu na quinta-feira à noite e cadê o dinheiro? Qual dinheiro o que. Jussara deve ter pegado. E os trocadinhos de 1.700 que eu trouxe de Mogi, também. Puxa vida. Eu que pensei que tinha dinheiro e estou a zero. Só se a Miriam tiver e me emprestar pro ônibus. Se não tiver iremos a pé. E olha que ir daqui à Santa Casa de Suzano a pé não é bolinho. Miriam disse que tinha e me emprestava. Mas estávamos saindo daqui quando o ônibus passou. Perdemos o ônibus e eu xinguei o Eduardo. 

  - Por causa de vocês que não prestam pra nada que a gente perdeu o ônibus. Agora, até chegar lá a pé, se tinha, já não vamos alcançar mais visitas. Só vamos lá pelo saber. Mais nada. E fomos mesmo a pé e bem depressa até lá, tencionadas a saber dela o quanto antes. E, se possível, visitá-la.  

 

                                                                                                                                  Clô

 

 

sábado, 30 de março de 2024

POEMA

Não raro

Em gananciosas nuances

Todos os meus faros

Te sondam.

                             Deparo

                             - te

 

                             Reparo

                             - te

 

                            Adoro 

                            - te

    

                           Preparo

                           - te

 

                           Devoro

                            - te

 

                      Eu: A Poeta.

 

                              Clotilde Sampaio

 

04 10 85

XXVII – 04/10/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) O maior tesouro que eu poderia ter, o maior tesouro que você poderia me dar, eu já tenho, e você já me deu os meus filhos. Ita e Jussara. Nem toda a riqueza que você tem, nem todo o tesouro que há no mundo, valem estes dois, mais outros dois filhos que eu tenho. Íntegros. Inteligentes. Destemidos. Esforçados. Compreensivos com qualquer tipo de pessoa. Adaptáveis a qualquer tipo de ambiente. Populares, amados por todos. Ah! Se você fosse digno da dignidade e do valor que eles possuem como seres humanos. Você não sabe quanto você perdeu, e quanto está perdendo. Mas um dia você vai saber.

 

2) Ita perdeu a hora hoje. Acordou, já eram nove horas. Ficou furioso. Preocupado. Apreensivo. Nada contente. Disse que veio uma pessoa de madrugada pedir-lhe que levasse uma senhora que não estava passando bem no hospital. E ele disse que não tinha gasolina. Não estava bem acordado e não saiu pra fora. Não soube quem era.

  - Deve ser a Tereza. Ontem ela não estava passando bem. Estava grávida, tomou remédio para abortar e quase morreu. Deve ser o marido dela quem veio aqui. Ela deve ter ficado pior. Boba, vai fazer bobagem... Ficou grávida? Tenha o filho, ora. Só porque está velha e os outros vão reparar e falar? Que reparem, que falem. Ninguém tem nada com a sua vida. Alguém vem te trazer comida? Alguém vem aqui te ajudar em alguma coisa? Vem saber, se preocupando, se você está bem ou está mal? Importa é a vida do nosso filho. Importa é a nossa consciência. Importa é a conta que teremos que prestar a Deus. Um filho é o que há de mais importante que existe. Foi o que eu disse a ela ontem e muito mais. 

  - Eu vou chegar lá e vou dar essa desculpa. Que alguém, um cara, veio me acordar esta noite para levar uma senhora no hospital e eu fui levá-la e cheguei de madrugada. Fui dormir e perdi a hora. Que a senhora acha? Só que eu não gosto de mentir. Mas é o único jeito. Se eles acreditarem, tudo bem. Se não, que me mandem embora. Vou rezar. Só porque a gente não reza é que acontece tudo errado. Vou rezar pra me sentir mais confiante. No fim, eu falto. E ainda saio bem. Os meus oponentes é que ficam contentes quando acontece isso. e chegando atrasado, eu perco o domingo e qualquer oportunidade de promoção já fica mais difícil.

Rezou. Mandou que eu e a Jussara (que também perdeu a hora) empurrássemos o Fiat e saiu. Disse que iria entrar depois do meio dia e que antes ia levar o Fiat pra ser consertada a parte elétrica. Jussara ontem não foi à escola. E hoje também não foi. Ficou furiosa. Será que Dinorá não se lembrou de acordar ninguém hoje? Falei pra Jussara:

  - Acho possível que ela não tenha nos chamado. Mas acho também impossível que ela não tenha nos chamado.

Temos que levar Lilinha no médico. Será que iremos? Já é tão tarde e eu nada fiz. Só estou aqui assistindo o HOJE. 

 

3) Agora está explicado: o cara que o Ita disse ter vindo bater aqui pra levar uma mulher no hospital, deve ter vindo por conta da Matilde. Agora à tarde, Eduardo foi lá na casa dela e voltou com um recado que Dinorá não virá para casa hoje porque vai ficar lá na casa da mãe dela com as crianças, porque a mãe dela passou muito mal, foi para o hospital, e acabou sendo internada. Miriam disse que a Matilde ontem tinha passado aí para pedir para a Norá ir ficar lá com as crianças hoje porque ela já fazia dois dias que não trabalhava, estava sem dinheiro, e hoje tinha uma casa muito grande pra limpar e não ia dar para ela levar as crianças na creche. E que a Miriam achou que ontem ela estava meio esquisita. Eu fiquei triste também com a notícia e comecei a contar pra Miriam sobre o homem que veio aqui esta madrugada, etc. etc. etc. E que eu até pensei que fosse o marido da Tereza. Miriam começou a chorar. Juntei os fatos: Ita disse que esse homem veio de madrugada e que de madrugada Dinorá estava acordada. Então ela deve ter saído de madrugada pra casa da mãe dela e por isso não deu pra acordar ninguém, como ela sempre faz. Acho que nem ela foi na escola então. Eduardo confirmou que ela disse que não tinha ido na escola. Que custava o homem dizer que se tratava da Matilde que estava doente? Que custava também Dinorá ter acordado alguém, ou mesmo o Ita que já tinha acordado pra dizer que a mãe dela estava doente? Se o Dudu não tivesse ido lá eu não ficava sabendo. Se a gente soubesse que era a Matilde que estava doente a gente teria dado um jeito e teria ido com ela nem que fosse a pé. Eu estava certa que Dinorá estava na escola. Miriam disse que ela hoje viria meio dia e meia. Já passam das duas. Mas até as quatro que ela demorasse, eu ia pensar que ela ficou fazendo alguma coisa na escola, e não iria ficar preocupada. Passando daí, e ela não vindo à noite, nossa! Seria um Deus nos acuda. Nem quero pensar o que seria ser. Inda mais com esses caminhos, perigosos, com estes tempos que só tem marginais, eu tanto iria pensar as piores coisas como iria ficar completamente aflita e não conseguiria dormir a noite inteira. Ainda bem que o Dudu foi lá. E que Matilde se recupere logo. Coitada. Que karma pesado que ela tem. Criar quatro filhos pequenos sozinha já com quarenta anos. Se matar de trabalhar para não deixar faltar o principal para os seus filhos. É uma sofredora. E uma heroína. 

 

4) O Alexandre apareceu aqui, agora de tarde, com uma nota de cinco mil cruzeiros. Dizendo que a tinha achado no caminho da escola, pedindo pra Miriam trocar pra ele. Ela não trocou e aconselhou que ele desse pra Norá, que a mãe dele estava doente e que poderia fazer falta. Ele disse que não. Que a mãe dele tinha bastante dinheiro, e que sabia já que ele estava com aquela nota. E disse que iria trocar na venda pra comprar tudo em doce. A Miriam veio me contar tudo isso.

  - Ele ainda está aí?

  - Está lá no portão, disse o Leandro.

  - Então vou lá e vou pegar dele. Onde já se viu um menino irresponsável e sem consciência pegar cinco mil cruzeiros pra gastar à toa. A mãe dele faz tanto sacrifício para criar ele e ele não reconhece. Cinco mil cruzeiros pra quem não tem fez falta. E ainda mais a mãe dele estando doente. 

Saí pra fora, ele estava no portão, fui perguntando logo.

  - Você está com dinheiro? Ele então me mostrou. 

  - Me dá aqui. 

Ele me deu, e diz o Dudu que ele saiu chorando, pensando que eu tinha tomado o dinheiro dele. Entreguei-o à Miriam que o mandou para a Dinorá com um bilhete perguntando sobre o estado da Matilde. Dinorá mandou outro bilhete de resposta informando que, o Alexandre veio de manhã aqui, avisá-la que a mãe dela estava passando muito mal. Ela saiu daqui às seis horas, e quando chegou lá a mãe dela estava branca como uma cera, tivera uma hemorragia, ensopando um lençol, duas toalhas, e mais algumas peças de pano com sangue. Não aguentava nem parar em pé, já tinham arrumado gente pra levá-la ao hospital. E que devia ter ido para a Santa Casa, onde ficou internada. 

  - Se ela tem INPS por que não foi para o São Sebastião? Não sei por que ela gosta tanto da Santa Casa. Se o Ita chegasse cedo, a gente iria lá visitá-la; não sei que horas o Ita vai chegar. Nem sei se vai trazer o carro.

 

5) Sete horas da noite. Um ronco de Fiat. É o Ita chegando. Miriam abriu-lhe o portão e informou-lhe sobre a Matilde. Ele entrou perguntando:

  - Quer dizer que a mulher que estava doente era a tia Matilde?

  - Era. E você nem se mexeu pra fazer nada. 

 

  - Mas eu ia saber que era ela?

  - Mas em caso de doença a gente tem que socorrer, seja lá quem for. Não é só ela, fosse quem fosse, você tinha que fazer o que fosse possível, e até o impossível. De repente, é um caso grave de vida ou morte e, por omissão da gente, a pessoa morre. E daí? A nossa consciência como fica?

  - Mas eu estava com muito sono. Por isso nem saí lá fora. 

  - Mas devia ter saído. E ter sabido quem era e ter socorrido. Se alguém vem falar de doença é porque é sério. Ninguém brinca com doença. E se fosse a gente que precisasse? Num caso desse a gente deixa o sono de lado, os receios de lado, a comodidade de lado, e corre socorrer quem precisa. É um caso de humanidade. É uma prova de humanidade. 

  - E ninguém foi lá ver a tia como está?

  - Ir como? Se eu só fiquei sabendo agora à tarde e só agora de noite que eu souve que ela está na Santa Casa? Precisa você ir lá.

  - Eu não posso ir. 

  - Não pode ir por que?

  - Eu tenho um compromisso.

  - Compromisso com quem?

  - Com a turma da Papelão. 

  - Puxa, Ita, é um caso de doença. Não pode ser deixado de lado. Não pode ser deixado para amanhã. Tem que ser hoje. A gente precisa saber como ela está. Se está melhor, se já está bem. 

Ele tomou um banho rápido, e enquanto se vestia disse:

  - A senhora também, por que não foi lá? Deixa tudo pra mim. 

  - Ir lá como?

  - Pra ir no Comitê do Jânio bem que a senhora pode. Bem que a senhora via. E como que pra visitar a tia não pode?

  - Você pensa que é fácil sair de casa assim a qualquer hora sem carro? E com quem eu iria deixar a Lilinha?

  - E a Norá?

  - A Norá está na casa da mãe dela olhando as crianças. Não vai vir pra casa hoje. E ela hoje nem foi na escola. Desde cedo que ela está na casa da mãe dela.

  - Por que não trouxe as crianças pra cá? Devia ter trazido as crianças aqui pra casa. 

Não lhe respondi nada. Apenas fiquei pensando: trazer aquelas crianças pra cá? Só em último caso. Não tenho paciência pra aguentar aquelas crianças, ou seja, mais crianças. Tem dia que quase não aguento nem a Liliam, quanto mais aquelas crianças arteiras, choronas e barulhentas como é o Alexandre, a Domitila e a Vanessa. 

  - Que horas são?

  - Sete e quinze.

  - Eu vou lá.

  - É bom mesmo. Precisa saber como ela está. O que ela teve. E se está precisando de alguma coisa.

 

6) Tadinha da Norá. Como será que estará ela agora, sozinha lá com as crianças, e ainda preocupada com a mãe doente? E sem ainda saber como está sua mãe? Norá é forte. De fibra. Já passou por tanta coisa e continua firme, dinâmica. Ajuizada. De ideias inabaláveis. É uma menina de ouro. Como eu a admiro e a estimo. Tem uma força de vontade tremenda. Nada é difícil pra ela. Ela é dessas raras pessoas que merece ter tudo na vida. É uma menina sincera, honesta. Verdadeira. De uma personalidade invejável. 

 

7) O único óleo que eu tinha, o óleo que emprestei da Miriam e que iria usá-lo pra fazer o almoço amanhã, todo derramado sobre a pia. Que raiva! Se fosse a Lilinha ainda vá lá. Mas a Jussara! Não tem respeito por nada. Faz as coisas só visando o que é do interesse dela. Noutro dia foi mexer no Gohonzon com estupidez e derramou toda a água dos jarros de flores que estavam sobre. E depois, não limpou. Não. Eu que tive que jogar todas as cinzas molhadas e enxugar tudo, molhou incensos, chão, mesa, tudo. E deixou tudo sujo. Tudo bagunçado. Agora vai mexer na pia pra fazer o café e derruba a lata de óleo. Se prestasse pra fazer limpeza como presta pra fazer sujeira. Gritei. Xinguei. Fiquei mesmo furiosa. Dei até uns tapas na Liliam de tão nervosa. Ela só fechou a cara e foi lavar toda a louça que estava na pia. E a Liliam enchendo. E eu possessa. Dei mais uns tapas na Liliam. Jussara ainda de cara amarrada não gostou.

  - Está com raiva e bate na menina é?

  - Bato sim. Estou com raiva sim. E enquanto ficar aqui me enchendo eu bato. Não é tua.

 

8) Já quase duas horas e Lilinha, após um saracoteio danado até agora, não quer dormir. Como é que pode? Como é que eu posso? O Ita ainda não veio. 

 

                                                                                                       Clô 

 

 

MAS

   (“Horizontes fechando os olhos

             ao espaço em que são elos de ferro...

   Portões vistos longe...

             Através de árvores... tão de ferro!”)

                    FERNANDO PESSOA

 

Pelo que está... me dizer

Meu captar... perspicaz

Não vou nunca mais te ver.

Nem vais me ver... nunca mais.

 

Mas... se o contra... surpreender

Iremos... ao nosso encontro?

E se acaso... acontecer

De um de nós... passar do ponto?

 

Estou... “viva”. E vivo... estás.

Mas... ter fôlego... é tão fugaz

Que se expira... a qualquer hora.

 

E o que inda tiver que ser...

- Por que deixar o colher

Se... o não plantarmos... – agora?

 

         Clotilde Sampaio

 

     Monte Cristo, Suzano, SP, 09/10/1987.

sexta-feira, 29 de março de 2024

03/10/85

XXVI – 03/10/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) Fui remexer as sobras de impressos políticos de campanha de 82 para Jânio governador e eis que, entre eles encontro uma relíquia: um poema de meu filho João com data de 11/06/80 quando ele ainda estava aqui em casa, e passava por uma séria crise existencial. E ei-lo, em papel timbrado, com o seu primeiro nome: João.

 

  Minha juventude está marcada, 

  Está tão abalada, já não dá mais pra seguir.  

  Meu sorriso jovem tão perfeito

  Hoje em dia está desfeito e

  Proibido de se abrir.

 

  E os meus cabelos longos me maltratam 

  E se acham embaraçados, 

  Envergonhados de surgir.

 

  E essa realidade me persegue

  Maltrata e consegue, 

  Já não posso mais fugir.

 

  E dentro da cidade

  A sociedade me destrói a mocidade,

  Estou só, quero gritar.

 

  Ah! Eu não quero andar arcado

  Como os homens preocupados

  Que não sabem mais amar.

 

  Também não quero ser jogado

  Para o lado, ficar só e isolado,

  Não podendo respirar.

 

  O que eu quero é Efigênia,

  E eu quero que Isabela

  Tão singela e tão bela

  Venha me libertar.

 

Ah! Meu filho, meu filho! Que saudade de você! Do seu vozeirão, do seu sorriso bonito, da sua simpatia, da sua bondade, e da sua beleza de homem tranquilo e bem másculo, ajuizado, brincalhão, ingênuo, inconsequente, às vezes. Ainda bem que você está aí na Bahia neste trono dos DEUSES, nessa sua legítima terra porque você também é um DEUS. Um DEUS daí da Bahia. E eu tenho saudades, mas não me preocupo. Você está bem. Em boas e grandes companhias. Melhores, não podem ser porque não existe nada melhor do que a Bahia e os baianos. Agora com Loreninha no colo então, e com Ari do lado, não lhe falta mais nada. Que vocês estejam sempre, cada vez melhor.

 

2) Fiz a perícia hoje com um médico muito bacana que me tratou duas vezes por “bem”! Me deu dois meses de licença, conversou carinhosamente comigo. Coisa rara. E coisa rara também foi em ficar livre logo às 9:30 horas. Entrei às sete e só esperei duas horas e meia. Graças a Deus que o INPS está melhorando. Os mesmos funcionários que antes eram animais agora estão se humanizando. Será por causa da NOVA REPÚBLICA? Será que isso perdurará? Oxalá que sim. Antes eles nos tratavam com nojo e com pouco caso. Hoje me trataram com simpatia e com carinho.

 

3) Cheguei quebrada. Já duas noites que não durmo direito por causa da Liliam que só tem dormido às duas da manhã. Queria dormir um pouco de dia para recuperar energias gastas. A casa estava muito suja e eu resolvi dar-lhe ao menos um ligeiro trato ao menos, primeiro. Depois, fui dar comida pra Liliam, fiz o arroz, troquei várias vezes a Liliam. E passou o tempo. Deitei-me um pouco à tarde com a Liliam que só ficou pulando. Não me deixou dormir. Soltei-a e logo vi que ela tinha feito cocô. Levantei-me, fui limpá-la, dar-lhe água, fritar batatinhas, dei janta e o remédio pra ela. Deitei-me pra ver SPTV e o horário político. Ela ficou solta, subiu no banquinho e caiu aquele tombo com tudo. Levantei-me de novo assustada para socorrê-la. Assisti ao Jornal Nacional. Roque Santeiro, Globo Repórter com planeta HALLEY. E é agora que estou indo dormir. Só agora, já mais de meia noite, como sempre. Ita chegou e me viu com os olhos vermelhos, irritados e ficou bravo:

  - Por que ainda não foi dormir? Vai dormir, mãe. Fica assistindo a televisão e estragando a vista. 

E se ele souber que estou escrevendo tudo isso com essa luz bem fraquinha do quarto, fica mais furioso. Ele se preocupa tanto comigo! Perguntou-me se eu quero vender a casa mesmo.

  - Se for pra mim me enterrar aqui é um ótimo túmulo. Mas se for pra mim viver, aqui não dá. 

  - A senhora precisa viver. 

  - Depende. De repente não é bem o que eu quero. Estou muito instável. Uma hora quero viver, na outra só quero morrer. De repente eu saio pra viver e não vivo, e quero me enterrar, e aí já não tem mais túmulo. 

 

4) Não passei nada bem o dia de hoje. Uma dor de cabeça, uma depressão, que tristeza. Foram as constantes. Lilinha, ao contrário, passou o dia inteiro e está elétrica. Super elétrica. Caiu dois tombos muito feios hoje.

      

                                                                          Clô

   

JÁ QUE NÃO VENS À MONTANHA...

             (“A alma é como um girassol

              Vira-se ao que não está ao pé.”)

           (“Na múmia, a posição é absolutamente exata.”)

                           FERNANDO PESSOA

 

                      Para Aoud Id

 

Chamei-te tanto! Esperei-te...

Tanto! E tão desesperada!

Na esperança só de ver-te...

Beijar-te o rosto... Mais nada.

 

(Que o desejo de ainda ter-te

Matei-o no meu estado

De precauções: AIDS... WEDS...

Sei lá com quem tens andado...)

 

Mas... Não vieste. Preferes

Que eu, Alterosa, te altere

Mais, em Itaquera! ... Não é?

 

Amor, que atitude estranha:

Bem... Se não vens à Montanha...

Então... Tens-me aqui, Maomé!

 

Clotilde Sampaio

 

                (Nova Mogi, Mogi das Cruzes, SP, 07/06/1988, segunda-feira, 17:45 h.)

01 e 02/10/85

XXIV – 01/10/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano / Itaquera, SP.

 

1) Andei tanto ontem, atrás. Fui, no Comissariado de Menores e requisita Alda e Seu Cristiano para deporem amanhã na audiência contra a prefeitura, a meu favor. Fui na Auto Escola Técnica requisitar Sr. Italo para a mesma finalidade. Depois, só depois, quando passei no advogado é que fiquei sabendo não precisar de testemunhas para a audiência de amanhã. Hoje deveria ter ido reavisá-los do contrário e agradecê-los. Não deu. Amanhã terei que sair mais cedo de casa para fazê-los cientes de não mais precisão, por mim, da presença deles amanhã. No fim, o que mais fiz hoje foram só pernadas e caseiras à toa. 

 

2) E hoje, o que fiz hoje? Nada. Mas fiz mais que ontem. Pois rezei uma hora de Daimoku e o Gongyo com o objetivo de mudar o quanto antes daqui para Itaquera. De repente me veio este desespero de me mudar daqui. De repente, me conscientizo que este lugar é muito pobre pra nós. E que merecemos morar em lugar bem melhor. E, pra confirmar minhas conjecturas, acabei topando hoje, quase que de cara com o famigerado bandido da cadeira de rodas. O maior perigo atual daqui do Monte Cristo. Tomei um susto! Ainda bem que eu vinha pelo caminho vagando, e talvez por isso, o Gohonzon me protegeu que ele passou por mim bem próximo e não me viu. Ou fez que não me viu. Ia a caminho do ponto da Av. Brasil acompanhado de mais três marginais. 

 

3) Ita disse que pegou hoje Cr$ 350.000,00 de vale especial. Disse que sábado vai consertar o meu carro de manhã e à tarde iremos, eu e ele, fazer compras lá na Semba (tipo de cooperativa da Papelão). Disse que vai vender o telefone. Está quase concordando com que mudemos para Itaquera. Jussara está doidinha pra mudarmos daqui. Diz que não está mais aguentando subir a subida de Poá em seu percurso diário casa-escola. Disse que não quer mais parar de trabalhar nem de estudar. Está animada com seu trabalho mesmo não sendo compensador e sendo cansativo. Eu me orgulho dos meus filhos. São todos bacanas. Não tenho me lembrado muito de Vitória estes últimos dias. Talvez porque eu esteja muito magoada com ela. Penso: se eu não tivesse tido esses filhos, o que seria hoje de mim? Lilinha passou hoje o dia todo elétrica. Só foi dormir agora, a uma hora da manhã. E eu que não sei por que ainda não fui dormir. deixei para escrever agora, pois não escrevi nada durante o dia e não quero falhar de escrever minhas bobagens nenhum dia. Por isso ainda estou aqui rabiscando, em vez de estar já no segundo sono. E o pior é que amanhã tenho audiência. E o quanto mais cedo eu tivesse me deitado, teria sido bem melhor porque amanhã, quanto mais cedo eu me levantar, mais aproveito o dia pois não posso chegar atrasada. 

 

 

XXV - 02/10/85 – quarta-feira

 

1) A audiência não deu em nada. Daqui a dez dias preciso comparecer no escritório dos advogados para ver em que pé ficaram as coisas. Dr. José Leme me pareceu muito antipático. Não gostei dele nada, nada. Me pareceu muito formal, muito seco, muito do lado dos poderosos. Pode ser que eu me engane, mas ele me pareceu fazer pouco caso de mim. 

 

2) Passei o resto da tarde no Comitê em Itaquera onde conheci um advogado simpático com quem conversei bastante sobre política e outros assuntos: Dr. Abraão. Muito simples. Ainda jovem. Parece que temos afinidades de pensamentos. E concordei com o que disse um senhor de rosto já não estranho de há muito: que a campanha do Jânio em Itaquera está muito devagar. De fato, eu já vinha percebendo isso há dias. Pedi ao Sr. Agenor que me arranjasse uma casa pra alugar bem no centro de Itaquera. 

    

                                                                                                         Clô

 

quinta-feira, 28 de março de 2024

AMANHÃ

Amanhã

Quando você voltar

Fatalmente será

Tarde demais

 

E é melhor

Você nem se lembrar

Que eu existo porque

Já não te quero mais

 

Você vem

Pra mim só quando quer

Não se importa sequer

Quer eu morra a lhe esperar

 

E amanhã

Quando você vier

Vai ver outra mulher

Em meu lugar

 

E então você 

Vai se arrepender

Do que me faz sofrer

Mas é tarde demais

A mulher

Que aqui deixou

De esperar se cansou

Se foi não volta mais

 

A mulher 

Que aqui você deixou

De espera se cansou

Morreu,

Não vive mais

Morreu não vive mais.

 

             Clô Sampaio

 

30 09 85

XXIII – 30/09/85 – segunda-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano / Itaquera, SP.

 

1) Que pena. Se eu tivesse dinheiro meu mesmo, é lógico que me mandaria de imediato para Itaquera. Só eu e a Lilinha. Mas dependo dos meus filhos. E, de qualquer jeito, só tenho que fazer o que eles quiserem. Se eu arranjasse alguém que me financiasse uma casa alugada em Itaquera... mas para isso eu precisaria arranjar alguém na minha vida. Por que homem nenhum faz nada pra ninguém sem interesses outros. E muito menos para uma mulher. O ideal seria se alguém, um deputado, Farabulini, por exemplo, ou outro melhor que ele, me fizesse esse favor, por interesses só políticos. Porque eu não quero morar em Itaquera mostrando para o Aoud ou família dele que eu sou qualquer coisa. Quero me dar o respeito, principalmente em Itaquera. Quero que todo mundo lá me considere, e me dê valor. E que isso chegue até os ouvidos de Aoud e da família dele. Quero ser uma pessoa bastante querida e popular em Itaquera mas, sobretudo, respeitada e admirada por todos.

 

2) Já estou cansada do Monte Cristo e de Suzano. Aqui já deu o que tinha que dar. Gente atrasada, lugar atrasado. E que não sei disso. Monte Cristo e Suzano agora para mim, só em último caso. Vou rezar e pedir para o Gohonzon, para que ele nos ajude a sair daqui o quanto antes, e do melhor modo possível. Sei que com o Gohonzon nada é impossível. E eu vou sair daqui sim, e logo. Querem ver só? Eu tenho que morar em Itaquera ainda na minha vida. Eu tenho que realizar este meu mais velho sonho. E agora, é a hora. Mãos à obra. Quero só ver a cara do Aoud quando souber que eu estou lá morando e numa boa.

 

3) Itaquera feia. Com chuva e frio às 18 horas da tarde. O Comitê sem movimento. E sem os manda-chuvas. Foram todos buscar material lá na Av. Angélica. Era para mim ter ido também. Mas fiz tanta hora em Suzano, passando em tanto lugar, e conversando e perdendo tempo com tanta gente que, como de praxe, mais uma vez cheguei atrasada aqui. Não deveria ter vindo aqui hoje. Já que, mais uma vez, faltei com a minha palavra. É ruim ser assim. No fim, posso terminar desacreditada. Mas é a vida. O meu tempo é tão escasso. Lilinha toma todo o meu tempo. E eu ainda abuso no fim de tudo isso. o ideal seria eu morar aqui em Itaquera. Nem que fosse só um cômodo e cozinha, por enquanto, só até o fim da campanha do Jânio, ou só até o fim do ano. Gostaria de poder dar mais do meu tempo aqui. E só morando aqui me ficaria mais fácil. Também aproveitaria mais esta minha pequena estadia aqui para outras coisas também. Por exemplo, saber mais sobre a vida do Aoud e de sua família. Agora eu posso fazer isso. Os laços que ainda me prendem a ele não são os mesmos que me prendiam até bem pouco atrás. Se por acaso eu souber que ele tem outras mulheres, já não vou ficar chocada. Só vou lhe cobrar os meus direitos, ou seja, os direitos dos dois filhos que tenho com ele.

 

4)  Será que vale eu ficar neste comitê por causa do Jânio? Tem hora que eu acho que vale. E muito. Afinal de contas, o Jânio é, de todos estes políticos que andam por aí, o único brasileiro confiável. Em outra, eu fico completamente desanimada, hoje eu estou depressiva. Negativa, triste, feia e chorosa como o tempo. Por isto estou assim. Amanhã quem sabe? Estou tão instável. Sou uma e sou outra tudo ao mesmo tempo. Não sei até quando vai isso. Será que irei até o fim da minha vida assim? Engraçado. Eu sei que tenho que morrer um dia. E esse dia pode ser até hoje. Agora. Já. E neste momento, eu até gostaria que fosse já. Aliás, faz três anos já que eu torço mais pra morrer do que pra viver. Só penso na Lilinha. O que será dela se eu morrer? Seria tão bom se ela despertasse para a realidade do nosso mundo, e começasse a fazer tudo o que ela deveria fazer se fosse normal. 

 

5) Amanhã já é dia primeiro de outubro. Três meses só para findar este ano. Um mês e quinze dias só para findar a campanha do Jânio e para a Vitória dele nas urnas. Embora sejam outros tempos, ainda é gostoso e emocionante ser janista. O ruim seria se nem essa alegria pudéssemos ter mais. Jânio ainda está vivo. Jânio é a nossa única esperança de dias melhores. Senão para mim, mas para os meus filhos, e para os meus netos. Sim, porque ele precisa ter bastante vida, bastante fôlego para voltar ao Alvorada e restituir a confiança que todos os brasileiros de há muito já perderam nos homens públicos. Precisa transformar este caos total em um verdadeiro Brasil para todos os brasileiros. Ele sim, deveria fazer uma nova e eterna constituição para o Brasil.

 

6) É tanto movimento na rua, tanto barulho de carros, mais parece o centro de São Paulo naqueles velhos tempos de 1963 quando eu conheci Aoud. Era este mesmo barulho que eu ouvia enquanto esperava o ônibus no Parque Dom Pedro. A única coisa que está demais aqui, é este badalar do sino da estação avisando da chegada de trens.

 

7) Eu digo que já não gosto mais do Aoud. Mas na realidade, o que eu sinto e que não quero sentir, nem me dar conta que sinto, é que eu o amo; não tem jeito. Ele entrou na minha vida para me marcar pra sempre. Não é nada cômodo admitir isso. mas é de fato um fato fatal.

 

8) Um frio que está aqui na estação. Me cortando a alma. E um bando dos mais malévolos pensamentos a me rodear. Lembro Aoud, os nossos melhores e os nossos piores momentos todos, de uma só vez. Passam já de oito horas da noite. E o trem não vem. E o vento cada vez soprando mais gelado. Aoud sossegado, aconchegado, confortavelmente instalado aqui mesmo pertinho na casa dele. E nós, eu aqui neste frio imenso ao relento da estação. Jussara andando a pé todo dia de casa a Poá, uns dois quilômetros e meio pra ir à escola. Trabalhando como caixa no Supermercado Guaió até oito horas da noite pra ganhar o salário mínimo, andando um quilômetro e meio, no escuro e no perigo da descida do ônibus até em casa. O Ita trabalhando feito um condenado na Papelão, andando mais de três quilômetros diários, se matando, fazendo extras nos sábados e domingos para pagar as despesas da casa de da Faculdade. E ainda assim preocupadíssimo por estar devendo já mais de dois meses na Faculdade. E Aoud, aí no bem bom do regaço de sua família. O herói, o exemplo de família. Será que a consciência dele não dói? Será que ele tem consciência? 

 

                                  Clô