segunda-feira, 25 de março de 2024

24 setembro 1985

XII - 24/09/85 - terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP

 

6) (cont. do dia 23/09) Ler Florbela, é me sentir sendo ela. Quem sabe se não fui?

 

1) Pelejo pra me lembrar dos sonhos que tive ontem, e só me lembro que eu tinha esta casa em que moro toda bagunçada, precisando de uma grande reforma, como está, uma outra casa mais modesta também aqui, no Monte Cristo, que também precisava de uma pintura, e uma outra tipo mansão, bem maior, estilo castelo, que eu já havia começado a construir já há muito tempo, e cuja construção já estava há alguns anos parada. Casa esta que eu só levantei as paredes e cobri, e o restante ficou sem ser feito. Engraçado é que me parece que eu sempre sonho com esta última casa, ou seja, este casarão inacabado, ou seja, só no tijolo e no telhado. Trata-se de uma construção estupenda, colossal, magnífica, para a qual eu pretendia mudar assim que ficasse bem acabada, me mudaria desta casa (no caso, me mudaria desta casa em que estou para esta outra mais requintada) porque nunca a termino. E que agora, com a minha decisão de ir de vez para a Bahia, eu tomei a resolução de dar uma reforma mais ou menos nesta, pintar a mais modesta, e dar mais acabamento, só mais ou menos, no castelo, para vendê-las. E que eu tinha ido reclamar com Dr. Elson sobre a operação que ele fez no meu seio esquerdo, que tinha ficado torto, e que ele me falou “isto é fácil. É só cortar mais um pedacinho aqui, e acertar”. E cortou. Depois eu vi que ele tinha acabado de estragar o meu peito, pois deixou bem torto, com o bico do peito bem embaixo, quase encostado na barriga. Voltei lá pra reclamar-lhe de novo, mais furiosa do que da primeira vez, e ele me disse bem calmamente que era assim mesmo, e que não tinha outro jeito a dar. Nisso, quando eu saí do consultório dele, vi o Silvio, guarda do Fórum, lá fora esperando para consultar-se com ele para fazer uma plástica no braço. Tinha sofrido um acidente e estava com o antebraço bem fininho. E precisava enxertar-lhe carne para deixá-lo de novo normal. Nisto acordei.

 

2) Lilinha não dormiu, nem me deixou dormir também esta noite. Agora, do meio dia às três da tarde que já são, dorme feito uma santinha. Malandrinha da mamãe, está trocando a noite pelo dia.   

 

3) Quero mas receio: começar uma amizade com o Capitão Expedito e depois vir a me arrepender.

 

4) Aos vinte e poucos anos, no auge da minha beleza e juventude, eu nunca imaginava que a velhice, um dia, iria me atingir. Por isso adiava tudo. Todos os bons momentos, todas as oportunidades, toda a felicidade que me aparecia e que insistia para que eu as aceitasse, eu repelia, achando que teria tempo. Que ainda era cedo. Que iria aparecer coisa melhor. Um dia, quando menos esperava, ela me atingiu em cheio, e bem mais cedo que pra muita gente. Foi aos vinte e oito anos. Me levantei numa manhã, assim que olhei num espelho, como de hábito, e me vi arrasada! O meu rosto havia caído e, em volta de minha boca, dois sulcos horríveis. Os mesmos, aqueles mesmos dois sulcos que eu tantas vezes achei horríveis, abomináveis, no rosto de algumas mulheres, agora, já estavam também no meu rosto. Justo aqueles sulcos. Tem tanta gente que envelhece sem eles, e eu, ainda jovem e já com eles. Não sabia o que fazer, tentei de tudo para ver se os eliminava, mas, inutilmente. Ao contrário, quanto mais passava o tempo, mais nítidos se mostravam. Desta manhã pra cá nunca mais fui a mesma. Tornei-me uma mulher estigmatizada, complexada, revoltada comigo mesma, envergonhada de aparecer para os outros, enfim, muito, muito infeliz. O meu maior desejo, desde os 28 anos, era poder fazer uma plástica. O que só fui realizar no ano passado, aos quarenta e quatro anos, o que só fez minorar um pouco, mas não me descomplexou por completo. Pensei que a plástica faria o milagre de me devolver aos meus vinte e três anos. Mas ela só conseguiu me devolver aos trinta e cinco o que, para mim, bem pouca diferença fez. E agora, eu não estou mais a mesma. Mesmo por que foi o meu espírito quem envelheceu para bem mais que a minha aparência que, ainda, (modéstia à parte), continua sendo louvada, chamando atenções e fazendo sucesso. Só que não aquele sucesso que eu gostaria que fosse, ou seja, o que já foi há vinte anos atrás. 

 

5) Tem sido difícil, doloroso, pra mim, puxar meus pensamentos de dentro para fora. Eles saem contra a vontade, lutando, brigando para não sair. Há uma guerra mortal entre eles e eu. Onde uma grande maioria delas morrem antes de chegar no papel. E as poucas que chegam, chegam deformadas. Foi por isso que inventei esta maneira de exercício diário de escrever. Para abrir melhor caminho aos próximos que nascerem, para que novos pensamentos não nasçam tão selvagens, tão rebeldes, e que se deixem domesticar mais facilmente. Muita gente acredita em mim como escritora. Entre tantos, minha professora da quarta série primária, Dona Maria Augusta Vicente Caetano, que mora na rua Adelaide, número 54, na Penha. O professor Aníbal, diretor do Grupo Escolar Dom Bernardo Rodrigues Nogueira. Dona Lídia Abdalla, minha professora de Admissão no ginásio e o Juiz do Fórum de Suzano, Dr. Manuel da Ponte. E eu não posso decepcioná-los. No fundo, no fundo, sei bem o que sou: essencialmente poeta.

 

6) 03 de dezembro de 1984, segunda-feira, 4 horas da tarde, (dia em que Aoud me deu aqueles três ou quatro tapas). Dia 29 de junho de 1985, às cinco horas da tarde mais ou menos, dia em que o vi pela última vez. Dia 15 de agosto de 1985, sexta-feira (ou segunda?), às 18 horas, dia em que telefonei para Aoud pela última vez. Só decepções. Única coisa que ele sempre teve e sempre vai ter pra me dar: decepções. Não, não vale a pena. Não vejo a hora de poder enterrá-lo de vez. Não vale a pena relembrar mais nada dele. O melhor é fazer como se ele...

 

7) Dirão que isto é blasfêmia. Mas é a única coisa realmente sincera que eu posso dizer: se disser outra coisa estarei mentindo para mim mesma, isto é o que menos quero fazer. Nós somos apenas e tão somente, simples brinquedinhos, bonequinhos em que Deus, ao manejarmo-nos, se distrai. Ou seja, somos brinquedinhos, joguinhos, distração de Deus. As nossas dores, os nossos risos, as nossas angústias, as nossas emoções, as nossas aflições, as nossas euforias, as nossas perdas e ganhos, os nossos acertos e desacertos, as nossas vitórias e derrotas, a nossa vida e a nossa morte, as nossas necessidades, os nossos fracassos, o nosso egoísmo ou demência, a nossa bondade ou maldade, tudo serve para divertir Deus. O importante pra Ele é só o nosso movimento. Seja para bem, seja para mal, para Ele, tem o mesmo valor. E por isso que a gente vê os mal intencionados, os que não lutam, vencendo tudo facilmente, e os bem intencionados, os que lutam, sempre enfrentando as dificuldades e as derrotas. Eu já corri muito atrás de muita coisa, já lutei desesperadamente por vários objetivos. E sempre, todas as coisas pelas quais lutei, corri, desejei, correram de mim. Se negaram para mim. E tudo o que eu detestei, repeli, repugnei, vieram pra mim sem ser chamadas, se deram a mim com a maior facilidade. Por isso, agora, eu não corro mais atrás de nada, nem abomino mais nada. Aceito as coisas todas como elas realmente são, e deixo que elas venham ou deixem de vir pra mim espontaneamente. Naturalmente. O que tiver que ser, será. O que não for, é porque não tinha que ser. Por que é que o mundo está assim “perdido” como dizem? Porque assim Deus quer. Se Deus nos fez à sua imagem e semelhança, isto quer dizer que tudo o que somos, tudo o que pensamos, tudo o que fazemos, os nossos bons e maus instintos são partes do todo que ele é. Quem fez a bondade? Ele. Quem fez a maldade? Ele também. Quem fez o cinismo, a hipocrisia, a falsidade e as injustiças? Lógico que foi Ele também. E tudo para sua própria conveniência. Convém a Ele que briguemos, que matemos e que morramos. Ele, de onde estiver, gargalhará, aplaudirá e se orgulhará, por todo o seu saber e poder de fazer as coisas malfeitas tão bem feitas, e as coisas bem feitas tão malfeitas.

 

8) E acabei nem recebendo dinheiro nenhum ontem. Mais de um ano, e ainda não veio resposta nenhuma da Bahia sobre o débito que têm comigo. Se fosse para mim pagar, teria vindo logo no primeiro mês. É o cúmulo dos cúmulos. INPS. Mas acabei encontrando Ercília, do Fórum. Disse-me que saiu de lá, já não aguentava mais o ambiente que está cada vez pior, depois do casamento do Dr. Edgar com a Cristina. Desde maio ele está funcionando aqui no Ginásio Municipal, e está contente. Falam tanto dela! Coitada! Eu nunca tive nada contra ela! Se ela tem capacidade para arranjar homens, sorte dela. Ninguém tem nada com isso. quanto mais homens ela arranjar melhor pra ela. Ela é meio doidona, espalhafatosa, mas tem um coração sem egoísmo e sem maldades. Isto é o que tem importância. Se o mundo fosse bem certinho como querem os mais tortos, ou seja, os hipócritas, os cínicos, não teria graça. Acho que cada um deve fazer o que acha certo, o que tem vontade e o que sabe fazer. Desde que não prejudique ninguém, o problema é só dele, e ninguém tem nada que jogar pedras. Geralmente, os que mais censuram e condenam os outros, é que fazem as coisas mais abomináveis. E só metem o pau nos outros com o intuito de dispersar a atenção que poderia se aglomerar em torno das suas próprias sujeiras. 

 

9) Ita está bem melhor dos olhos, graças a Deus. Era conjuntivite mesmo. Mas não foi dispensado de trabalhar pelo médico. Disse que o médico da firma dispensou muita gente, menos ele. Falei-lhe:

  - Mas você não falou pro médico que o seu serviço é perigoso? 

  - Ele sabe, mãe. Mas também, não é tanto assim.

  - E deu pra você enxergar bem?

  - Deu.

  - Mas, não deveria. Você ontem não estava enxergando nada. 

  - Mas deu pra trabalhar sim. Eu tomo cuidado.

Ontem e hoje ele trabalhou e foi à escola. Chegou dizendo que estava muito cansado.

  - É, trabalhar é preciso para se poder viver, disse. 

  - Amanhã eu recebo, e não vou receber nada, concluiu.   

 

                                                                                               Clô

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