sábado, 31 de outubro de 2015

SAUDADE

             Para Aoud Id


Saudade...
Quantas vezes
Prostrada na penumbra
Ladeando a nostalgia
Meus lábios a tremer
Fez murmurar teu nome...

Saudade...
Quantos dias
Na algema dos percalços
Nas grades da agonia
Dei mãos à persistência
E te esperei debalde...

Saudade...
Quantas noites
Perdida no abandono
Escrava do silêncio
Deitei no teu olhar
O meu olhar insone...

Saudade...
Quantos sonos
Deixei de adormecer
Forçando-os não dormir
Fazendo funcionar
A mente só pra ti...

Saudade...
Quantos sonhos
Imaginei sonhar
Tendo-te ao meu redor
Constante ao meu prazer...
Mas, meu? Nada era meu...

            Clotilde Sampaio
                     Brás, São Paulo, SP, 1964.

domingo, 25 de outubro de 2015

25/03/88


Mogi das Cruzes. Pelo meu relógio, são 13;15 horas desta sexta-feira 25/03/88. Vim hoje em Mogi só para colocar uma carta no correio lá para a turma na Bahia. Jussara já deve ter vindo do almoço. Gastei duas fichas e não consegui falar com ela. Após o correio, comi dois rocamboles de chantilly e 1 caçulinha no Bombolinha. E estive vendo: uma boa é fazer daqueles sanduíches que vi lá, embalados em celofane. Feitos de carne de lagarto assada, com vinagrete e alface. Não fui até a Rig. Preferi passar direto e vir até a praça do Zoo, onde estou a escrever isto aqui. Cidade insípida esta Mogi. E estou escrevendo insípida sem saber ao certo o seu significado. Já soube e já me esqueci. Aliás, como tudo. Parece-me que é insossa, sem graça. Só estou aqui agora porque não há outro jeito. Mas bem que eu gostaria de conhecer alguém bem interessante, só para fazer amizade aqui. O que falta aqui é isso: amizades. Sem se ter amizade não se tem nada. Nesta noite sonhei que ia me casar com uma pessoa bem mais jovem que eu. Um rapaz branco que eu só me lembro vendo-o pelas costas. Sua fisionomia não me lembro. E ele me comprou roupas, pulseira, anel, colares, broches, até pulseirinha para a perna, tudo em azul marinho e branco. Eram bijuterias mas de primeira que eu dei para João Vitor, Lorena e Luanda brincar. E eles sumiram com tudo, depois eu achei de novo. Eu só via este rapaz de bermudão e de camisa solta. Não era bonito. Mas era atencioso e gostava de mim pois me dava presentes de acordo com suas posses, pois não me pareceu rico e até pareceu-me um tanto relaxado consigo mesmo, dentro de uma aparência bem desleixada. Esta praça dá-me a impressão de ter só gente desocupada como eu. Se eu estivesse na Bahia agora, seria outra coisa. Lá hoje, já começa a ser feriado a partir do meio dia. Aqui na praça cada um faz uma coisa: um cochila, outro lê o jornal, outros olham os animais, outro sentado à minha frente só me olha, outros passam para lá e para cá, outros namoram, eu escrevo. Já houve um tempo em que era só eu sair na rua e arranjar não só um mas quantos namorados quisesse. Hoje, nem sentada aqui na praça, consigo despertar a atenção de um só sequer bom. Ou melhor, sempre há quem me olhe. Não sei por que, mas sempre tem um ou outro que me percebe. Como este aqui de frente que ainda não tirou os olhos de sobre mim, não sei com qual intenção. Se a melhor, se a pior. Passou por mim agora e parece que a finalidade dos seus olhares é me namorar. Não é feio. Não está muito bem arrumado, e não é bem meu tipo. E um negro lindo. Olhou, olhou, passou olhando, olhando, parou olhando, olhando lá de longe, e no fim, se foi. Pena. Mas vou ficar aqui esta tarde toda só para ver o que acontece. É gostoso ficar aqui observando pessoas, tipos, características de cada um. Olhares, intenções os mais e as mais diversas. Vale a pena passar manhãs ou tardes aqui. Tem-se muito o que se ver. Será casal isso aí? Ela tão nova, ele tão velho e ainda malacafento como está. Ela também, mas nem tanto. Cada vez mais a praça está mais cheia. Cada vez mais está ficando melhor. Isto é bom. A Praça da Piedade, como não estará?
                                                              Clô

sábado, 24 de outubro de 2015

CAPIVARI, CAPIVARI

                               Para Aoud Id

Esperei-te a tarde inteira este domingo.
No desespero de esmagar-te entre os meus braços.
De vez em quando, lá na rua, entre os respingos
Da chuva miúda, eu parecia ouvir teus passos.

Mas não vieste, e eu fui, pela noite afora,
Tentando tudo pra enxotar tuas saudades.
Sem nem de leve imaginar que, àquelas horas,
Dormias solto nos confins de outra cidade.

Agora que me contas o sucedido,
Vendo-te a sorrir de forma até desconcertante,
Como se demais, nada tivesse acontecido,

Fico a pensar... Agora eu sei: Capivari,
Apesar de ser cidade tão distante,
Para ele é bem mais próxima que aqui.

                       Clotilde Sampaio

                           Brás, São Paulo, SP, 1965.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

10-09-78 – domingo –

O Ita foi para a feira bem cedinho apesar de ter chegado bem tarde ontem. As meninas me disseram que ele chegou era 1 hora e meia da madrugada. Sem vergonha. Não tem nem quatorze anos e já está abusando. E ele sabe que eu não gosto que ele fique até tarde na rua. Quando ele chegar, ele vai ver só. Apesar de estar com dinheiro, hoje não fui na feira nem mandei ninguém comprar nada, nem sequer fiz comida. As crianças foram para a reunião de estudo às três da tarde. Eu fiquei arrumando e limpando o barracão com Matilde. O João e o Cláudio foram fazer o teste de Cooper de manhã e acharam no lixo uma porção de bugingangas aproveitáveis como revistas, correntinhas com medalhas, agulha de crochê, linha de bordar, novelo de lã, etc. O Maurício falou: me ensina onde fica esse lixo que eu quero ir lá. O Seu José ficou o dia todo e a noite até às nove horas trabalhando nos azulejos do banheirinho mas não terminou e nem ficou como eu queria. Ainda falta muita coisa e o que fez não fez com nenhum capricho. Estou muito chateada com o Seu José que não está dando a mínima para o compromisso que assumiu comigo a respeito da construção da casa. Hoje quase nós chegamos a brigar e creio que não vai parar por aí. Terminei o dia bastante desanimada e chateada.

11-09-78 – segunda-feira – Hoje estou bastante aborrecida e de importante só rezei e acabei de ensaboar e por de molho as roupas que comecei a lavar no sábado. Estava programando sair à tarde e ir conversar com Sr. José e por tudo em pratos limpos, mas nem isso fiz. Desanimei-me.

12-09-78 – terça-feira – Continuo muito aborrecida, chateada e desanimada. Sem ação para fazer nada. E tudo por causa do Seu José.
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     Estou falhando bastante Gongyos desde o mês passado, e sem ânimo algum de recuperá-los. Estou cada dia mais desanimada. E cada vez as coisas correm pior pra mim. Preciso tratar de me modificar. Mas hoje ainda não deu para começar a minha metamorfose. Continuo nervosa, desanimada, comendo demais, sentindo-me pesada e cansada e sem querer fazer nada. Coisa mais triste é a gente se sentir assim tão vazia, tão sozinha e tão inútil como eu me sinto. A Vitória está rezando bastante. Desde domingo que ela faz três horas de Daimokus por dia. A Jussara me disse que ela está fazendo objetivo para comprar os uniformes da Kotekitay que custam Cr$ 950,00. Em compensação, eu e o João não estamos rezando quase nada. Hoje teve Hanzá na casa do Seu José e daqui de casa só foi o João.  
                                                                   Clô

domingo, 18 de outubro de 2015

MONUMENTO

                   ...(“... quando sofro, calo-me e definho
                    Na ventura infeliz do meu orgulho.”)
                                         OLAVO BILAC

                 Para o poeta Rolando Roque da Silva

Vamos falar de nós... sem ter segredos:
Tudo o que és, e que sou, dizes... e te digo!
Só que... – amor?... – Jamais. Nem por brinquedo.
Sejamos, sim? – Somente, bons amigos.

És homem, e sou mulher. E isto, o que importa?
Que culpa eu tenho se... só vês assim?
O amor, fez de minh’alma, a únic’alma morta.
Já nada sou. Que posso dar de mim?

Portanto, é-nos melhor, que uma amizade
Belíssima, e de insuspeita qualidade,
Seja a tenaz... dos nossos sentimentos.

Isto, se concordares que assim seja.
E se assim for, bem mas, bem certo estejas
Que, és mais que um Homem:
                - És... UM MONUMENTO !

                            Clotilde Sampaio

                           Monte Cristo, Suzano, SP, 1976