terça-feira, 30 de dezembro de 2014

INDIFERENÇA

       
...(“E é sempre melhor o impreciso que embala,
      Do que o certo que basta,
      Porque o que basta acaba onde basta,
      E onde acaba não basta,”)...
                    FERNANDO PESSOA

Para Aoud Id

Vês... que eu não choro. Nem sequer, lamento.
Ao invés: canto, sorrio... – E até, me encanto!...
De ver que, ao menos no meu pensamento,
Morreu – o Alguém que eu quis, e, que amei tanto!

Não penses que isto em mim, é fingimento.
Não sei mostrar o inverso do que sinto.
Nem sei falsificar meus sentimentos.
Meus olhos, me desmentem, quando minto.

Mas... vou dizer-te, ao dar-te o adeus, agora,
Que eu hei de me lembrar... – (bem tarde, embora,
Forçada, por saudades doloridas...)

Do AMOR! – (Que hoje, começa a ser... passado.)
Do anseio, que existia ao nosso lado,
Nas horas que eu te dava – A MINHA VIDA!

                  Clotilde Sampaio

                          São Paulo, 1966.
                     

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

02 e 03 de agosto de 1980 - Suzano - (sobre as brigas entre os pais)

02- 08-80 – sábado – Suzano

Horas de brigas. Só brigas. Quantas e quantas vezes acordava alta noite com o barulhão dos dois quebrando o pau. Era toda sorte de palavrões, xingamentos, ameaças, o diabo a quatro, berrados ao mais alto possível.
- Sua ordinária! Eu te mato, diabo! Mulher como você só presta mesmo é pra apanhar.
E avançava com tapas e empurrões para o lado dela, que também xingava, rezava e chorava ao mesmo tempo.
- Ordinário é você, seu cachorro. Ó meu Deus do céu, que vida mais triste é essa minha. Dá um jeito na minha vida, meu Deus. Ou então me mate logo de uma vez. Crê em Deus Padre todo poderoso...
E continuava rezando entre lágrimas desesperadas, todas as orações que sabia. Era o Crê em Deus Padre, era o Padre Nosso e era a Ave Maria. E era pancada dali e era pancada de lá. Eu acordava assustada e sobressaltada com tanto estalar de tapas.
- O que é isso, pai? O que é isso, mãe?
- É o seu pai que está querendo me matar.
- É agora mesmo que eu te mato, peste. Quer ver? E o festival de agarrões e tapas prosseguia indo cada vez mais violento. E ela estava apanhando e perdendo. E ele era mesmo o mais forte e ia mesmo matá-la.
- Pai, não! Não mate a mãe não, pai!
Gritava aflita, vendo a morte na minha frente.
- Não, não mate a mãe. Vai dormir, deixa a mãe dormir por favor, pai. Pelo amor de Deus!
E caia num convulsivo e desesperado pranto.
Como por milagre, ele parava de agredi-la e, xingando os piores impropérios, jogava um lençol no chão, à beira da minha cama e se deitava ali.

03- 08- 80 – domingo


Eu estava com cinco anos de idade, nesta época. Pois já fazia mais ou menos um ano que tínhamos vindo do interior. E éramos em três irmãos apenas: meu irmãozinho Benedito tinha três anos, e minha irmã Matilde era recém-nascida. E ali, na Olaria do turco, ou seja, do Salim Maluf, era o quarto lugar que morávamos, depois de termos chegado em São Paulo. Esta Olaria estava situada na estrada de Itaquera, à margem direita de quem vinha de Itaquera para o Carrão. Era já a segunda casa em que habitávamos, após ter chegado ali na Olaria. A casa perto de um antigo estábulo de vacas foi onde nasceu minha irmã.  E foi onde conhecemos Dona Justina, a senhora que morava na casa grande, e que não tinha filhas, e que gostava muito de mim! Ela e minha mãe discutiaram um dia, porque minha mãe espalhou para todo mundo que ela vendia ovos escondida do marido dela. Mas mesmo assim, de mal com minha mãe, ela me chamava às escondidas, na casa dela, para me dar retalhinhos de pano, e me dar aveia com suco de laranja, ou geléia de mocotó. E me falava: “agora você vai, filha, e não diga que eu te chamei aqui porque a sua mãe não vai gostar, e é capaz de te dar uma surra se souber que você vem aqui em casa.
                                                                                                          Clô

sábado, 27 de dezembro de 2014

NÃO TENHO MAIS DO MESMO AMOR


Embora exista um outro alguém
Que me deseje com ardor,
Nunca, jamais, e a mais ninguém
Darei daquele mesmo amor
Que dei um dia para ti
Com toda alma e coração.
E, em troca, apenas recebi
Desprezo, dor, desilusão.

Jamais terei, por mais ninguém
Daquele amor que te ofertei.
Jamais darei, pra mais ninguém,
Amor igual, ao que te dei.

E embora exista, um outro alguém
Que me deseje com ardor,
Que é bom, e sei que me quer bem,
Não tenho mais do mesmo amor.

           Clotilde Sampaio


            São Paulo, 1967.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

16.03.82 – terça-feira – 10:18 horas – Monte Cristo – Suzano


Nasci para ser poeta e escritora. Embora já, aos quarenta e um anos, ainda não tenha escrito nenhum livro, mas, eu nasci para ser poeta e escritora.

16.03.82 – 23:50 horas
Eu gostaria de soltar minhas ideias por aí, bem ao léu, de maneira bem solta como eu penso.

17.03.82 – quarta-feira – 00:15 horas
Esta cor do meu quarto reflete a cor da minha alma. Se a minha vida tivesse sido ou fosse cor-de-rosa, eu o teria pintado no mais bonito e vivo tom de cor-de-rosa. Se a minha vida tivesse sido ou fosse um céu azul, eu o teria pintado no mais lindo e claro tom de azul. Mas como a minha vida sempre foi e continua sendo cada vez mais cinzenta, eu o pintei do bem carregado cor-de-cinza. E como a minha alma ultimamente, a cada dia, continua escurecendo mais, da próxima vez (isto se eu ainda estiver viva) que eu for mandar pintá-lo, vou precisar mandar pintá-lo do mais negro negro.

17.03.82 – 00:45 horas
Comecei a sentir que estou chegando ao fim.

17.03.82 – 02:00 horas
Com estes argumentos mentirosos, falsos, hipócritas, fraudulentos, é claro que você nunca vai conseguir me amedrontar. Ha, ha, ha, ha, mas não vai mesmo, Aoud.
E eu estou pagando para ver: quem você vai ter coragem de trazer e quem é que vai ter coragem de vir.

17.03.82 – 02:02 horas
O sono não vem e eu queria tanto poder dormir!

17.03.82 – 03:20 horas
Ainda não dormi. A minha cabeça ferve de pensamentos os mais diversos, e de receios feios pelo que poderá nos acontecer. Estou com muito medo porque, entre outras ameaças também malignas e escabrosas, Aoud disse que, se eu continuar com a AÇÃO DE ALIMENTOS E INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE, lá no Fórum de Suzano, contra ele, ele vai me mandar fazer uma LAVAGEM CEREBRAL. E, se ao fim de tudo ele perder, QUE VAI ME MATAR.

17.03.82 – 03:35 horas
Não dá mesmo para conciliar meu sono. Já fiz tudo, e não consigo. Já rezei, já li um Gosho das Escrituras de Nitiren Daishonin, já escrevi, e nada. Tornei a rezar, tornei a escrever, continuo escrevendo, e parece que ele não quer mesmo nada com nada hoje. Pena é que assim, com cara de sono, e bem mais horrível que o normal, eu não vou poder ir lá na loja do Aoud preparar o show de um desses mais próximos dias. Parece que alguma coisa o protege de mim. Pois toda vez que tenciono de fato ir lá, alguma coisa me acontece para que eu não vá.
                                                                                                                   Clô



 


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ESTÁ ESCRITO

              
                         ...(“Por UM que se perdera no caminho!...”)
                                              FLORBELA ESPANCA
                         ...(“Tenho a alma feita para ser de um monge
                                Mas não me sinto bem.”)...
                                              FERNANDO PESSOA

                              Para Mins Mesmas

                      Só tem que ser assim: eu sempre só.
                      A escalar... meu bravo itinerário.
                      A cada passo, um tropeço, um contrário.
                      De cada laço, fica mais... um nó.

                     Só tem que ser assim: sempre intranqüilos
                     Os olhos que, a zombar... passam por mim.
                     Iguais quem nunca viu o fim de um Fim,
                     Indagam sigilosos: - “O que é aquilo ?”

                     Já vi que a Vida para mim consiste,
                     Em adorar um DEUS que não existe,
                     Em prol do meu destino de poeta.

                     Exulto, a confirmar o já tão dito:
                     - Só tem que ser assim: - “Está escrito” !...
                     Senão... como atingir a minha Meta ?

                                 (*) – “Mak Tub” !... (provérbio árabe)

                                      Clotilde Sampaio

                                         Suzano 07/12/1985.




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

X - 09/04/87 – Nova Mogi – Mogi das Cruzes – quinta-feira

1) Aniversário da Lorena! Já dois aninhos! Deve estar linda, sabida, esperta, falando tudo, uma gracinha, sua neta! Que delícia ter uma neta como Loly!

2) Um teto todo seu como disse Virginia Woolf, é o que só está me faltando para eu me livrar de tudo isso que me sufoca, que me asfixia. Eu quero é silêncio! O mais puro silêncio, é só o que eu quero. O silêncio dos túmulos, o silêncio da morte. Vozes de rádio, de televisão, de gentes e de máquinas, não. As vozes da Vida me atrapalham, me aniquilam.

3) Não quero ser vista nem ouvida por, nem falar com, nem ver, nem ouvir ninguém. Solidão, silêncio e sossego é tudo e só o que preciso e quero agora. Por favor, até não sei quando. Muito obrigada. Beijos. Tchau. Entendam: como estou, correrá tudo bem melhor sem mim.
Entendam:
Assim como estou:
Assim... Assim...
Sem mim
Correrá tudo,
Bem melhor, sem mim.
4) Dia em que nada acontece (como hoje) é preciso fazer acontecer. Só com esta simples crise de depressão que ela está hoje, deu pra ela enxergar tanta coisa!
- Eu estou morta. Mas que tem gente bem mais morta que eu aqui, tem. Acostumaram a só andar sobre trilhos, a só usarem minha cabeça.
- Será que eu não posso nem morrer?
                                                                  Clô


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NÃO VÊS ?

         
...(“... e nem vês a nova dor que trazes
          À dor antiga que doía tanto.”)
                       OLAVO BILAC

                       Para Aoud Id

Vieste atrás de quê, a mim agora?
Não vês, que nada mais posso te dar?
Não vês, que estou já para ir-me embora
Do estado em que existi... só por te amar?

Vieste, acaso, em busca de algum beijo?
De um abraço, talvez? De frases... loucas?
Não vês, que já não é do meu desejo
Sentir... colar de novo, as nossas bocas?

Não vês, que, no meu rosto estão bem claras
Só marcas de desilusões, e dor...
Acaso, não percebestes?... Não reparas?...

Não vês, que, o desespero me transporta
À tumba – mimo, do teu parca-amor?...
Porque... – bem mais, 
                           que os demais mortos...
      - eu já estou morta.

                             Clotilde Sampaio

                                     Brás, São Paulo, SP, 1965. 


sábado, 13 de dezembro de 2014

IX – 08/04/87 – Nova Mogi – Mogi das Cruzes – quarta-feira.

1) Que bom! Está orgulhosa de si. Está conseguindo ultimamente acordar-se sempre por volta das seis horas, mesmo tendo ido se deitar à meia-noite, como ontem. Hoje acordou-se às cinco e meia, que ótimo. E também porque está conseguindo deitar-se cedo. Pois, mal termina a novela das oito, já se sente cansada de tudo, vem para o quarto, começa a ler “Os Sertões” e, em seguida, já dorme. E a noite inteira, como a noite de segunda para terça. Assim está esplêndido. E assim que quer mesmo. Está conseguindo assistir todo dia o Telecurso que começa às seis e meia, ao mesmo tempo que adianta todo o serviço do dia.
2) Está tão gorda, tão balofa, que o espelho hoje é seu pior inimigo.
3) Não tem mais vontade de ir pra Bahia, não tem mais vontade de sair daqui. Ao mesmo tempo em que tem todas as vontades de ir pra Bahia, todas as vontades de sair daqui. Está tão subdividida, tão fragmentada, que nem sabe se ainda consegue conservar consigo, ou se já estão espalhadas, perdidas por aí, suas partes mais essenciais.
4) Gosta. Mas tem medo de escrever. Porque todas as coisas de que gosta, sempre lhe foram proibidas. Assim como até os filhos que tem lhe quiseram proibir, mesmo se propondo a correr sozinha todos os riscos por eles. Assim como conseguiram lhe proibir muitos outros filhos que ela gostaria de ter tido.
5) Não lhe falem em matemática.
6) Estou louca mas não estou ainda de tudo ilúcida. Ainda consigo conservar em mim a metade da metade da metade de meio termo tanto de uma como de outra coisa. E nestes meus resquícios de lucidez consigo lembrar que as tarefas de alugar casa, antigamente, eram atributos de homem.
                                                                                      Clô

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

NADA

         
...(“Rola-me na cabeça o cérebro oco.
      Por ventura, meus Deus, estarei louco ?!”)...
                               AUGUSTO DOS ANJOS

Para Mins Mesmas.

Estou como se estivesse
Deitada dentro da terra.
E o mundo com paz ou guerra
Não faz mal. Nem favorece.

Só o calor, a chuva, e o frio
Sensibilizam meus ossos.
De resto, nos meus destroços
Só sinto imenso, o vazio.

Não quero pensar. Nem quero
Me lembrar mais nada à toa
Nem que mais nada aconteça.

Zero vezes zero, é zero.
Basta que um só verme roa
Primeiro, a minha cabeça.

                Clotilde Sampaio

                         Poá, 21/08/1983.

                    

   

II – 29/03/87 – Nova Mogi – Mogi das Cruzes – domingo

- Olha só ela pondo defeito na Bahia! Estranho. Porque ela nunca o fez. Bahia pra ela é sagrada, é o máximo, é a terra da sua adoração. De uns dias para cá, começou a enxergar defeitos, a se antipatizar com tudo aqui começando a generalizar, chamando todos os homens baianos de oportunistas e de prostitutos. Coisas da cabeça dela. Está na idade da menopausa, e esta idade, para toda mulher, é problemática. Está instável. Tem momentos que tudo está bem para ela, tudo é lindo, tudo é ótimo, bonito, gostoso e alegre. Vem com aquele sorrisão a lhe tomar todo o rosto beijando com três beijinhos todo mundo sem distinção, e cheia de si como se, para todos, estivesse no auge da felicidade. De repente vira tudo, e já está de cara fechada, sem muita conversa, nada a alegra, nada a atrai, ninguém nem nada presta. Em qualquer lugar que for, seja com quem estiver, nada tem razão de ser. Passa a se sentir uma droga, a se sentir inútil, horrível, imprestável, um traste à toa que já não cabe no mundo. Que só merece morrer. Tem medo da vida. Nada lhe vale nada. Quer morrer. Porque agora, a coisa mais deliciosa para ela é morrer.
- Que coisa gostosa, poder ficar lá debaixo da terra quietinha para sempre, sem ver nunca mais ninguém, sem ser nunca mais vista por ninguém. (Não há mais nada para mim fazer, senão morrer). Sim, pois não há mais lugar bom para mim. Nem a Bahia me serve mais. Bahia é só cambalacho. Ninguém aqui é sincero. Tudo aqui é só aparência. Não se pode levar nada sério aqui. Esses prostitutos, esses ciganos, essas sapatões, só servem para enfeiar e envergonhar esta cidade tão bonita.
Bahia e a baianos em geral, não liguem não. São coisas da cabeça dela. Só da
 cabeça dela, e só quando não está bem.
                                                                          Clô



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

PEJORAÇÃO MUMIFICADA

       
...(“Ser poeta, é ser mais alto, é ser maior
      Do que os homens !
      É ter garras e asas de condor !
      É ter fome, é ter sede de infinito !”)...
                      FLORBELA ESPANCA
...( “Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.”)
                      CECÍLIA MEIRELES
...(“Poeta é a sensibilidade acima do vulgar”)
                       CORA CORALINA

                    Para o Poeta Rolando Roque da Silva
                   e para o Poeta Geraldo P. De Almeida

       - Poeta ! – (e não “poetisa”.) – Por favor,
       Desculpem-me, a imodéstia um tanto... ousada.
       Por mim, por todas AS MAIS... nem tão, caladas-
       Conformes, no ofuscar... do “algum valor”.

       - Poetas, sim, Senhores !  E, por que não ?...
       Só por sermos mulheres ? – Que ojeriza !
       Eu não me calo mais a esse calão
       Com que nos determinam só... “poetisas”.

       Que “...é linda !”, “... é feminina !”, “... é delicada !”
       Seja o que for !  – Nada há que justifique
       Essa pejoração... mumificada.

       Poeta, não tem sexo. E, se sexuada,
       Pende à mulher !  E quer que a reivindique
       A supra essência do sentir. Mais nada.

                           Clotilde Sampaio
                              Suzano, 02/08/1987.


domingo, 7 de dezembro de 2014

VIII – 07/04/87 – (Nova Mogi) – Mogi das Cruzes - POR FALTA DE CABEÇA

1) Angustiada com tudo. Desassossegada por tudo. Nada lhe está bem. A vida, principalmente a sua, pior. Se pudesse correr, se pudesse fugir. Mas para onde? Pensa vários lugares: Bahia... Paraíba... Aqui... Não. Não tem lugar nenhum bom pra ela, nem aqui, nem em lugar qualquer. Pensa às vezes que estaria bem lá na Bahia. Ao mesmo tempo já pensa ao contrario, já não tem mais vontade nenhuma de ir, nem de estar em lugar nenhum. Nem aqui, nem lá, nem acolá.  O lugar melhor para ela agora é morrer. É não existir. É não ser. Mais ainda tem que fazer tanta coisa... Tem que acompanhar e ganhar o processo de alimentos dos filhos, tem que ajudar a criar, e ver crescer os netos, tem ainda que escrever e publicar O SEU LIVRO, tem que fazer a sepultura do marido lá em Emas (na Paraíba), estas as principais. Fora estas, quantas mais! Ainda não pode morrer. Mas quer morrer, precisa morrer. Precisa voltar a se sentir bem. Precisa se reencontrar. E já que se perdeu aqui e não se acha aqui na vida, quem sabe se reencontre lá na morte?

2) Ela quer ver cada vez mais largo e mais longe.

3) Dia bonito. De manhãs de abril mesmo! Que inspira muita coisa boa! Uma apoteose!

4) Não sabe. Não sabe. Não sabe se volta. Não sabe se ainda merece voltar pra Bahia. Talvez não. E ela achou mais que não. Ela acha mesmo mais que não. Quem mandou? Quem mandou inventar-lhe defeitos da última vez? Bahia é sagrada. É terra dos Deuses. Imune a toda e qualquer critica, a todo e qualquer defeito. Pois os seus defeitos é que são as suas maiores virtudes. É só saber enxergá-la bem. Bahia é para quem a merece, para quem tem o privilégio de estar no máximo estado de graça de morar lá. E não para quem, como ela, está ou regrediu para o mais inferior estado de vida que é o da crítica e da calúnia.

5) Por falta de cabeça
 Minhas filhas _ _ _
Que dó.  
Pelo que vejo, vocês
Estão destinadas a sofrer
Bem para além do que
Normalmente deveriam sofrer.
Estão destinadas
A complicar e a recomplicar
O que não está, e o que já está complicado.
E tudo por que?
Por falta de visão,
Por falta de raciocínio.
Por falta de cabeça.
Tão jovens e tão velhas.
Que pena!


6) Pouca palavra para infinitos significados. E não muitas palavras para nenhum significado.
                               Clô

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FAÇA O QUE QUISER



                   Letra e música Clotilde Sampaio

Pense o que quiser
Pense, que eu não tenho coração
Para amar, nem para o amor sentir
Pense que eu só tenho encenação
Que falo de amor só por falar
Que sou mestra, na arte di fingir

Diga o que quiser
Diga que não crê no meu querer
E que nada por mim sente também
Inda que algo venha a me ofender
Diga tudo o que tem pra dizer
Desabafe, que isso lhe faz bem

Faça o que quiser
Ou me leve inteira para o Céu
Dando o seu amor todo pra mim
Ou faça bolinha de papel
Faça, o que melhor lhe convier
Faça o que quiser de mim
Ou me leve inteira para o Céu
Ou faça bolinha de papel
Faça o que quiser de mim . . .

Faça, o que quiser de mim
Faça, o que quiser de mim
Faça, enfim,
O que quiser
De mim.

              São Paulo, 1966.