quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

II – 29/03/87 – Nova Mogi – Mogi das Cruzes – domingo

- Olha só ela pondo defeito na Bahia! Estranho. Porque ela nunca o fez. Bahia pra ela é sagrada, é o máximo, é a terra da sua adoração. De uns dias para cá, começou a enxergar defeitos, a se antipatizar com tudo aqui começando a generalizar, chamando todos os homens baianos de oportunistas e de prostitutos. Coisas da cabeça dela. Está na idade da menopausa, e esta idade, para toda mulher, é problemática. Está instável. Tem momentos que tudo está bem para ela, tudo é lindo, tudo é ótimo, bonito, gostoso e alegre. Vem com aquele sorrisão a lhe tomar todo o rosto beijando com três beijinhos todo mundo sem distinção, e cheia de si como se, para todos, estivesse no auge da felicidade. De repente vira tudo, e já está de cara fechada, sem muita conversa, nada a alegra, nada a atrai, ninguém nem nada presta. Em qualquer lugar que for, seja com quem estiver, nada tem razão de ser. Passa a se sentir uma droga, a se sentir inútil, horrível, imprestável, um traste à toa que já não cabe no mundo. Que só merece morrer. Tem medo da vida. Nada lhe vale nada. Quer morrer. Porque agora, a coisa mais deliciosa para ela é morrer.
- Que coisa gostosa, poder ficar lá debaixo da terra quietinha para sempre, sem ver nunca mais ninguém, sem ser nunca mais vista por ninguém. (Não há mais nada para mim fazer, senão morrer). Sim, pois não há mais lugar bom para mim. Nem a Bahia me serve mais. Bahia é só cambalacho. Ninguém aqui é sincero. Tudo aqui é só aparência. Não se pode levar nada sério aqui. Esses prostitutos, esses ciganos, essas sapatões, só servem para enfeiar e envergonhar esta cidade tão bonita.
Bahia e a baianos em geral, não liguem não. São coisas da cabeça dela. Só da
 cabeça dela, e só quando não está bem.
                                                                          Clô



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