sábado, 20 de julho de 2024

V - 08 01 86

V – 08/01/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Beijos reais, não mais. Nossos beijos e nosso amor agora serão só subjetivos.

 

2) Eu sinto e vejo o Jânio tão próximo.

 

3) Você Vitória, como minha filha, está irreconhecível. Mas como cônjuge da Rosinha, não poderia estar melhor. Está perfeita. 

 

4) “Estou desinfetando esta política porque nádegas indevidas a usaram”. Foi a frase que o Jânio disse ao desinfetar com Rodiasol a sua cadeira na prefeitura onde Fernando Henrique se sentara já certo da vitória alguns dias antes das eleições. 

 

5) Já que Vitória não veio como prometeu, nem no sábado nem no domingo, Ita ontem foi até a Vila Formosa saber dela sobre as máquinas. Voltou dizendo que ela já vendeu a galoneira por treze milhões e que não vai vender a outra porque ela e a Rosinha vão levá-la pra Bahia para lá montarem uma confecção. Isto quer dizer que, ao invés dela vir falar com o Ita e através dele pagar pelo menos 20 milhões, preferiu fazer sozinha as coisas e tomou prejuízo. Quero ver só o quanto de dinheiro ela virá me trazer. Não aceito menos que dez. a máquina, por todos os direitos, é minha uma vez que ela não cumpriu com a palavra até dezembro e também pela falta de consideração que ela tem tido para comigo e os irmãos. Engraçado é que ela faz questão das mínimas coisas. Coisas que, para mim não dizem nada, para ela faz. Egoísta, só pensa nela. Já que ela age assim nada mais justo que eu faça o mesmo com relação a ela. Já que ela não usa a menor consideração para conosco, sua mãe e irmãos, também não temos a menor obrigação de considerá-la. É elas por elas. Toma lá, dá cá.

 

6) Ita voltou dizendo que achou Rosinha e Vitória muito esquisitas.

 - Eu não sei não, mãe. Eu não quero dizer nada, mas que Vitória está muito estranha, está. E quando eu perguntei pra ela do lance do Paulo a Rosinha chegou mais perto para escutar melhor, desconfiada.

 

7) A vida é dela. E ela sempre foi assim. Não é novidade. Ela sempre foi egoísta. Sempre se julgou superior a todos em casa e toda vida se rebelou contra os meus desígnios. Portanto, o melhor que eu faço é deixá-la pra lá. Não devo ficar gastando minhas preocupações com ela nem com a Jussara que já são adultas bastante para cuidarem de suas próprias vidas. Agora, o que eu não devo permitir é que ela tire proveito da minha boa fé.

 

8) Jussara, desde o dia da grande mentira, ou seja, 1º de janeiro que se foi e não mais voltou. Deve estar esperando que eu vá atrás dela. Não vou não. Ela que fez as coisas erradas, que as conserte. Do contrário, se for preciso eu ir pra Bahia sem revê-la, irei. Sou muito boa, muito boa.

 

9) Estou paradona estes dias em matéria de escrita. Coisas sem conteúdo, coisas sem importância e que nem merecem ser ditas; só as que preenchem o meu vazio de ideologias substanciais.

 

10) Pedi ao Gohonzon, entre outras coisas, para que eu possa emagrecer, ficar um palito, comendo de tudo. Basta o Gohonzon querer e acontecer. 

 

11) A duras custas, tenho conseguido fazer os dois Gongyos diários até aqui, 08/01. E que o Gohonzon me dê bastante coragem, força e fé, para que eu nem que seja, a duras custas, não falhe nenhuma vez este ano.

 

12) Gostaria de poder falar com Aoud a cerca da Jussara ainda uma vez antes de ir embora. Vamos ver se será possível que ele atenda às nossas reivindicações. Quero que, e ele há de convir, que Jussara só deve estudar até se formar. 

 

13) Briguei com todo mundo hoje, com Vitória, com Miriam, com Ita, com Doca e comigo mesma. 

 

14) Não concordei com os sete milhões que Vitória veio me trazer ontem e soltei os cachorros em cima dela. Falei tudo o que estava engasgado. Dela ter vindo aqui só pra pegar todas (e mais que) as suas coisas sem dizer nada, do tempão que ela passou sem vir aqui, passando sempre aí na frente, vinha em Suzano sem vir aqui. Do trem que quebrou em Poá e ela, estando tão perto daqui, preferiu ficar até duas horas da madrugada na rua, sem certeza de chegar lá, e não vir aqui. Do pouco caso que fez com o Ita, quando ele precisou do dinheiro para o carro. E outras cositas mais. Falei que o dinheiro não valia mais nada. Mas que a falta de consideração dela sim. Que já que ela fazia caso das coisas mínimas, eu também começo a fazer. Que já que ela não tem nenhuma consideração comigo e com os irmãos, eu também não tenho obrigação de considerá-la. Ela chorou e não respondeu nada. 

 

15) Falei-lhe também que o Ita, logo no começo, me falava que ela tinha me dado uma rasteira e que eu sempre a defendia, até que constatei que ela tinha levado tudo e aí entendi que ela tinha feito tudo com segundas intenções. E que ela sempre se achou superior a mim e aos irmãos. Que ela nasceu sozinha, aliás, apareceu, que é como se nunca precisasse de mãe. E que não era porque a Rosinha e a Dona Nair estavam aqui que eu iria deixar afogar pelo que há muito vinha me engasgando.

 

16) A menina da Rosinha veio dizer a ela que o Eduardo da Miriam mexeu com ela. A Rosinha foi falar com ele e com a Miriam e tudo ficou por isso mesmo porque ele se defendeu jogando a culpa no Rodrigo. A Miriam, mais uma vez, acreditou nele. E tudo bem. A Rosinha deu uma surra na menina dela, pra não brincar mais com moleque. A Miriam entrou aqui, eu toquei no assunto, ela defendeu os filhos dela, deu umas respostas que menino tem que fazer isto mesmo. Ela falou que ela não tem tempo, e eu falei que não tem tempo mesmo nem pra olhar os filhos dela. Que eles fazem tudo o que querem e ela bate palmas. E que já que eles são sem vergonha, que eu não quero nem mais eles aqui dentro. Que já que eles não respeitam a menina que é pequena e fala, como é que vão respeitar a Liliam que não fala? Ela saiu com raiva e contou pro Doca. E ele veio aqui fazer perguntas e eu falei a ele tudo o que tinha falado a ela. Que os meninos não respeitam a gente. Que eu falo com ele e ele sai de lado fazendo o maior pouco caso dos outros; que na próxima vez que ela vier que ele vai fechar os meninos dentro de casa e não deixar sair e vai ver se ele fala alguma coisa. Quer dizer que ele está criando aí um tarado? E saiu furioso. Eu ia com elas pra Bahia amanhã e, por falta de confiança, de deixar a Liliam sozinha, não fui. Fui dormir bastante contrariada pelo dia polêmico que tive hoje. 

01- 11 – 13 – 91 – 00 – números da loto. 

                                                                          Clô

 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

poema de CLÔ na Academia de Letras da Bahia

O poeta Jorge Baptista Carrano lê um trecho do poema BAHIA REVISITADA de Clotilde Sampaio.

IV - 06 01 86

IV – 06/01/86 – segunda-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jânio assumiu a prefeitura há quatro dias e São Paulo já não é mais a mesma. Ele terá que governar quatro anos em três. E quem sobreviver verá que São Paulo, após Jânio, nunca mais será a mesma. 

 

2) Sobre o carnaval paulista Jânio insiste: não perguntem a ele prefeito, perguntem ao Rei Momo.

 

3) Jânio Quadros disse que, ao efetuar o desemprego de 20.000 funcionários, cumpre o ser dever e que a prefeitura não é entidade beneficente. Todo mundo que não trabalhar vai pra rua. É uma legião tal que redistribuída pode atender a todas as necessidades sociais. Perguntado como se sentia na prefeitura Jânio respondeu:

 - Estou tão bem que os outros estão se sentindo mal.

E sobre a opinião de Mário Covas contra ele:

 - Não interessa o que ele pensa. Interessa o que eu penso. 

Disse que na prefeitura não tem lugar para vagabundos. E que o Montoro que os reempregue no estado. Aplausos. Aplausos. Aplausos a Jânio!

 

                                                                   Clô

 

A INFINITA CLÔ na Biblioteca Central dos Barris

Ivan de Almeida da Editora Cogito adquiriu um exemplar da nossa escritora em julho de 2024.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

III - 05 01 86

III – 05/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Vitória veio aqui na quinta-feira sem que eu esperasse. Veio ela, a Rosinha e a Vanessa. Preferia que ela tivesse vindo sozinha para que eu pudesse conversar com ela melhor. Mas, por outro lado, foi bom. Assim pude ver como a Rosinha tem ganhado dinheiro com as minhas máquinas. Digo isso porque, até há bem pouco tempo, ou seja, em julho, ela estava completamente sem dinheiro e cheia de dívidas. Agora ela comprou carro novo e tudo o que ela quer ela compra e faz enquanto a Vitória nem as dívidas pagou. Acho engraçado é que todo mundo ganhou dinheiro com costuras nesse ano, menos a Vitória. E o engraçado é que a Vitória, que está dentro da coisa, não enxerga que está sendo ludibriada, e como está. Dá a impressão que ela está para a Rosinha como um sapo está para uma cobra, quando cai no campo de mira e domínio desta: completamente hipnotizada, completamente dominada, completamente sem vontade própria, completamente despersonalizada. Não gostei nada de sentir e de ver a situação da Vitória para com a Rosinha. Ela é apenas um simples joguete nas mãos da Rosinha. Rosinha é quem determina o que ela deve fazer. Por exemplo, Vitória disse que ia até a Faculdade resolver uns problemas, Rosinha falou pra ela: 

- Deixa pra outro dia, você já não veio no outro dia? Você já não veio tratar disso no outro dia? O que é que você veio fazer no outro dia aqui? 

- Eu vim só ver as minhas notas.

- Deixa pra vir outro dia. Outro dia você resolve isto. 

E a Vitória obedeceu. Mesmo eu falando pra ela ir na Faculdade e depois voltar aqui pra falar com o Ita. Quer dizer, contrariou até mesmo a vontade dela que era de ir até a Faculdade, só pra não desagradar a Rosinha. O cúmulo também foi o trem ter quebrado em Poá às dez e meia da noite e ela, em vez de vir aqui para casa preferiu ficar na rua até as duas horas da madrugada, correndo o risco de dormir na rua, só para não dar preocupações à Rosinha. Quando que ela se preocupou em não dar preocupações a mim, que sou a mãe dela?

 

2) Eu, CLOTILDE COSTA SAMPAIO, dou ampla e total liberdade a meu filho ITAMARATY JOSÉ COSTA SAMPAIO de agir em meu nome e dos meus interesses como quiser e entender.

 

3) Lilinha, depois que foi em Guararema na casa da senhora espírita que a benzeu e que tomou os nove banhos de arruda, guiné e trança de alho, ficou mais calminha e mais ligada comigo, parece que sente e entende mais as coisas ao seu redor. Ficou mais sensível. Por outro lado, ficou impossível. Ou seja, ficou mais arteira, mais ágil, mais esperta para fazer as coisas que quer e mais reacionária para não fazer as coisas que não quer. Hoje iremos eu, Doca e Sr. Agostinho levá-la de novo lá. Seu Agostinho deu certeza que essa senhora a curará. Por outro lado, essa senhora também deu certeza de que ela se curará. Então a nossa obrigação é levá-la lá. E Oxalá ela se cure mesmo. Pelo menos tenho fé e esperança de vê-la totalmente curada muito em breve. Não importa por quais meios. Se pelo budismo, se pelo espiritismo. O importante é que ela se cure. E seja qual for o meio que a cure, terá o meu completo louvor, a minha completa fé, a minha completa gratidão. Lilinha é um desafio. Vamos ver quem vencerá este desafio. Se é o budismo, se é o espiritismo.    

 

4) Lilinha está rezando. Primeiro ela levanta-se impossível. Não quer fazer nada do que a gente quer. Até para levá-la no banheiro é preciso arrastá-la. Porque ela se encurva e empaca no lugar e se joga no chão. Agora, depois que foi benzida, é um sacrifício levá-la de um canto a outro. Só vai arrastada. Gosta também de deitar-se no chão, debaixo da cama, de morder tudo, de jogar os banquinhos no chão. Tornou-se mais violenta e mais rebelde depois da benzedura e dos banhos. Será para melhor? Acho que é a transição. É a revolução que está se operando dentro dela. Depois disso tudo, nascerá uma nova Lilinha. 

 

5) Um espírito vem me dizer que Aoud morreu hoje, ou seja, aos 23 minutos de hoje 05/01/86, domingo, de derrame cerebral, em sua casa e que vai ser enterrado às 16 horas de hoje, domingo. Não estou acreditando. Deve ser só brincadeira deste espírito. Os espíritos geralmente gostam de fazer deste tipo de brincadeira com a gente. E esta não é a primeira vez que um espírito vem com esse tipo de brincadeira comigo. Já me disseram que Orlando, pai da Dinorá, estava morto e ele está vivo. Já me disseram que o Sr. Antonio Collalilo estava morto e eu soube também que ele ainda está vivo. Mas fico imaginando-me na hipótese de que isso tenha realmente acontecido, e não consigo me aprofundar tanto na questão, não consigo me ver triste.

 

6) Foi até bom ter acontecido este boato para que eu pudesse me reanimar a respeito. E pude constatar que, nada mais de muito importante como acontecia até bem há pouco tempo me prende mais a ele. Parece-me até que, se eu não chegar a ficar contente com o acontecimento de tal evento, também não vou sentir qualquer falta, qualquer saudade. Esta é a vantagem de eu ter me esforçado no empenho de não mais fazer-lhe caso a ponto de até parecer-me já o ter matado bem antes até de ele vir a morrer de fato. Eu só vou receber esta notícia como automática e necessária oficialização do féretro.

 

7) Tive um sonho esta noite relacionado com o Portuga e com Portugal. Foi um sonho bom e bonito. Mas não posso descrevê-lo porque já o esqueci.   

 

                                                                                                     Clô

 

A INFINITA CLÔ na Academia de Letras da Bahia

Vitória Régia e o escritor Paulo Ramos - em 25 de abril de 2024

segunda-feira, 15 de julho de 2024

II - 04 01 86

II – 04/01/86 – sábado – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) O Jânio está botando pra quebrar. Como era previsto por todos os janistas, está fazendo uma verdadeira revolução na prefeitura de São Paulo. E por mais que as más línguas, ou seja, os deturpadores de verdade falem, não vão conseguir camuflar o valor dele. Está trabalhando e obrigando trabalhar. Montoro agora quer queira ou não, vai ter que trabalhar também. Por exemplo: os médicos do INANSP do estado de São Paulo estão em greve já há noventa dias. E nada do governador nem do antigo prefeito Mário Covas atender às reivindicações dos responsáveis pela nossa saúde. O Jânio mal entrou e já se interessou pelo caso e vai resolver o problema no tocante ao município de São Paulo, dando um bom aumento nos vencimentos dos médicos que atendem nos hospitais concernentes à capital. Desse modo ele obriga o Montoro, sem querer, a dar aumento também aos médicos do estado e acabar com a greve dos médicos em todo o estado. Outro exemplo: a guarda municipal que Jânio vai criar ganhará de três e meio a quatro milhões contra os menos de um milhão e meio de vencimentos de cada policial militar do estado de São Paulo. Isto provoca uma evasão da Polícia Militar do estado para a prefeitura ou então que o governador pague os mesmos três e meio a quatro milhões para a PM do estado.

 

2) Jânio desativou a EMURB e a PAULISTUR. E vai exonerar vinte mil servidores públicos. É lógico que, para isso, ele vai fazer uma rigorosa seleção. Só despedindo os recém admitidos e os que não tenham um bom currículo. Disse Jânio que não precisa de todo esse contingente para governar São Paulo. Que com bem menos pessoas ele fará uma prefeitura ideal. Isso, Jânio. Precisa mesmo mostrar pra essa gente como é que se governa. Precisa deixar todos esses corruptos, inimigos do povo, com a cara no chão.

 

3) A entrevista coletiva que Jânio teria com os órgãos de imprensa de São Paulo não se realizou simplesmente porque Jânio vetou onze órgãos entre eles, em primeiro lugar a Globo, a Manchete, a Gazeta (?), etc. E os outros que poderiam entrar, que eu não sei bem ainda quem são, ficaram do lado dos corruptos e também não entraram. Diante disso, Jânio se absteve de dar a entrevista e disse que a população vai ficar informada do que ele está fazendo através do Diário Oficial e de um outro órgão, que eu não sei bem ainda qual é. O Jânio é danado. 

 

4) A Globo só se refere às coisas contra o Jânio. Parece até que ela virou indústria de fabricar difamações e descontentamentos contra o governo de Jânio Quadros. Cachorra. Não mais vou usá-la. 

 

                                      Clô  

90a edição Movimento Exploesia

segunda-feira, 8 de julho de 2024

I - 01 01 86

ANO 1986

 

I – 01/01/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jussara chegou ontem deveriam ser já umas nove horas. Eu estava tomando banho quando ela chegou. Veio bonita. Com um conjunto de saia e blusa amarelo clarinho de algodão de blusa bem transada e de sandálias baixas brancas. O conjunto lhe caiu muito bem. Ficou elegante, mais alta, mais magra, um mulherão. Falei-lhe que iria devolver-lhe a correntinha de ouro que ela me deu no Natal. Ela não gostou. Disse-me que todas as mães que ela conhecia tinham uma corrente com uma menininha igual. Disse-lhe que todas as filhas que eu conhecia tinham uma igual dada pelas mães, como o caso de Nair do Forum que deu pra filha dela uma igual. Disse-lhe também que iria devolver-lhe porque não gosto mais de usar nada. Muito menos de ouro. Só bijouteria boa. Já fiz uma promessa de não usar mais ouro. Não adianta nada eu usá-lo e ficar com medo de sair na rua. E que, já que ela gostava, que usasse por mim. Em seguida, coloquei a corrente e a menininha no pescoço dela junto com as outras. Ficou bem. Só que eu a preferia sem ter comprado e sem estar usando nada disso. O medo que eu deixei de ter por mim agora tenho que ter por ela. É um perigo andar com joias. Ladrões aqui em São Paulo agora é o que não falta e...

 

2) Comecei a falar pra Jussara tudo o que precisava falar-lhe: do ano que repetiu, do trabalho inexpressivo que ela tem lá no mercado e da mentalidade cada vez menor que ela está tendo depois que saiu de casa. “Estou vendo só você indo para trás. Não vi vantagem nenhuma na sua vida depois que você saiu de casa. Saiu daqui para passar de ano e não passou. Você e a Vitória neste ano só regrediram. Uma de um jeito, outra de outro. Só no João e no Ita que eu vi progresso neste ano. Dinorá é que é Dinorá, que faz um sacrifício tão grande, passou de ano. A sua vida agora é só trabalhar para comer, namorar, ir passear com o namorado e dormir. Nada mais”. Ela ficou triste, se fechou no quarto do Gohonzon, e estava chorando.

 

a) Mentiu sobre a urna.

 

b) Fomos na Ivonete e no Joãozinho. E só voltei às seis da manhã.

 

c) O dia todo e até agora às seis da manhã é aquele calor insuportável.

 

d) A posse do Jânio na prefeitura hoje.

 

e) Jânio falou no pequeno discurso da sua posse que vai ser não um prefeito mas o prefeito. E que vai ser o prefeito de todos os humildes e desacreditados. E de todas as Vilas Marias abandonadas estejam elas onde estiverem.

 

f) Às três horas da tarde Jânio voltou ao seu gabinete para desinfetar a sua cadeira de prefeito onde Fernando Henrique, às vésperas da eleição, sentou-se nela fazendo pose para todos os repórteres, já com a plena convicção de já ser o prefeito eleito, o vencedor. Jânio usou, para o seu primeiro trabalho como prefeito, um spray Rodiasol. E disse que a estava desinfeccionando porque nádegas inconvenientes sentaram-se ali.

 

g) Jânio, de barbas e cabelos brancos e sem bigodes, está lindo. Um galã. Nunca o vi tão lindo como agora. Mas as más línguas da gente que fala sem saber o que fala, como a Maria Thereza, professora do Ita e da Vitória, disse à Jussara que ele está horroroso, parecendo-se com o Mengele, carrasco nazista. Coitada, ela vai é tomar um susto daqueles. 

 

h) A filha dele feiosa e besta estava ao lado com uma cara bem feia e bem arrogante. Bobona. Volta para os E.E.U.U. que você ganha mais, Tutu. Aqui, você só está prejudicando a personalidade do seu pai. Você nem parece ser filha do grande e incomum homem que Jânio Quadros é. Ter tudo para ser inteligente e não conseguir. Você mais se parece uma mulher vulgar. Nada mais. Aliás, ainda não vi seu marido. Você o tem mesmo? Será?

 

i) Houve uma coisa bonita, um dia bonito, um dia de sol.

 

j) A visita do José no dia do ano novo? Não, foi no dia de Natal. Eu que me equivoquei, pois lembro-me agora que até falei a esse respeito aí um pouco atrás. 

 

                                          Clô

Foto Clotilde e banner do Movimento EXPLOESIA - by Heloísa Lima

domingo, 30 de junho de 2024

31 12 85

LXXVI – 31/12/85 – quarta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Já véspera de 86. Graças que esse ano de 85 já expira. Não guardo nada de lembranças boas desse ano a não ser a vitória do Jânio. Foi o ano também que o Ita começou trabalhando na Cia Suzano de Papel. E graças à isto, estamos terminando este ano e começando o outro senão com tudo em dia, pelo menos sem grandes aflições financeiras e com boas perspectivas futuras. Mas o ano todo foi de aflições, de insegurança, de momentos desesperadores e depressivos em que eu tive, por várias vezes, vontade de dar um basta a tudo e desistir de viver. Mas ainda não estou bem ciente se fiz bem ou fiz mal em não chegar às vias de fato. Espero que cada vez eu comprove mais que isto foi por bem. E também uma das duas melhores coisas que me aconteceram neste ano foi o nascimento da minha neta Lorena em 09 de abril deste 1985. E o passeio recente do João aqui.

 

2) Mudo-me para Itaquera ou para a Bahia? Ô dúvida cruel! É tão horrível ficar-se neste pendente dilema, nesta instabilidade sem tamanho de tão grande. A Bahia tem tudo. Itaquera só tem Aoud, os meus amigos da política e Jânio. E o dever quase obrigatório de ter que trabalhar para alguém nestas eleições de 86. E surge outra dúvida. Farabulini? Sujim? Nem sei ainda bem qual o apito que ele toca. Só tenho ainda muitas dúvidas à seu respeito. Uma incógnita, um poderá ser ou não. Poderá significar mais dinheiro. Afinal, valerá a pena eu me privar de tanto lá na Bahia por tão pouco e incerto aqui? Eu quero é ser feliz. E eu quero perseguir esta felicidade onde ela estiver. Por isso preciso ter certeza se é lá ou cá, onde ela está.

 

3) Se, de um lado, eu não estou querendo abrir mão das coisas ótimas que me aguardam lá na Bahia, por outro eu gostaria de realizar o meu antigo e novamente impulsionado sonho de morar em Itaquera mais para sondar a vida de Aoud e anotar dados. Pretendo logo que na Bahia.

 

4) Estou como se estivesse carregando uma carga pesada sobre os meus ombros dia e noite pois não consigo levantar-me cedo e só consigo deitar-me bem tarde. 

 

5) Reinaldo de Barros, ex-prefeito de São Paulo no governo Paulo Maluf, toma posse amanhã como Secretário da Viação e Obras Públicas do prefeito Jânio Quadros. Wilson Pereira é também Secretário de Jânio, só não sei de quê ainda. Cláudio Lembo, Rafael Baldacci e outros que eu não lembro o nome, mas que vou saber, também. Jânio teve plena liberdade de escolher os seus secretários. Ele sabe o que faz. E, pelo que percebo, ele desapontou até a própria filha que, logo de cara, anunciou Fauze Carlos como Secretário de Higiene e Saúde. Pelos nomes que ouvi, ele, Fauze, não faz parte da lista. Bem feito pra Tutu que não sei o que veio fazer aqui senão tentar estragar a personalidade tão marcante e única do pai. 

 

                                                 Clô

divulgação livro A INFINITA CLÔ

quinta-feira, 20 de junho de 2024

26 12 85

LXXV – 26/12/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Sonhei que tinha ido lá na loja do Aoud após as 18 horas. Não me lembro fazer o quê. Só sei que ele apareceu-me em pé atrás do balcão, sorriu-me e pediu-me que esperasse e desapareceu lá para dentro. Fiquei em pé esperando um tempão. Mais de uma hora. Quando ele apareceu, entregou-me uns embrulhos leves. Ao chegar em casa que fui abrir os pacotes, constatei que neles ele havia me devolvido uma porção de badulaques como: brincos antigos pares e avulsos, de bijuterias, assim como broches, fivelas de cabelo, agulhas, pentes, alfinetes, alguns brincos antigos lindos que eu comecei a escolher para poder usá-los agora. Todos bem diferentes, mais bonitos e bem mais trabalhados que os feitos hoje. Alguns ainda em perfeito estado, como novos. Outros feios, ímpares e velhos, havia fotos e pedaços de brinquedos de crianças em meio aos apetrechos. Engraçado é que minhas fotos de verdade, as minhas cartas de verdade, as poucas coisas de verdade como os dois pares de meias que um dia, no começo, eu dei a ele, e o lenço que um dia as crianças lhe deram, e as fotos de verdade do Ita e da Jussara, as minhas poesias, isto ele não devolveu. Só devolveu coisas que não tinham nada com as coisas que eu poderia ter dado a ele. 

 

2) Portuga, depois de muito tempo apareceu por aqui no dia de Natal. Veio rápido, só para desejar Boas Festas. Ainda está sem os dentes. Mas, prometendo pô-los já. Falou-me dos filhos, do neto e perguntou dos meus filhos e soube da minha neta e da Lilinha. Perguntou sobre Aoud, disse-lhe que brigamos por causa da Ação na Justiça. Perguntou-me sobre a Ação, disse-lhe que está correndo e que falta ainda fazer os exames. Que em nenhum lugar se faz sem pagar. E para pagar vai ficar uns treze milhões. 

 

3) Jussara chegou mais tarde. Trouxe-me um presente, uma correntinha de ouro de pescoço com um pingente de menininha, também de ouro. Trouxe-me uma caixa contendo produtos como: uma Sidra Pullmê, um quilo de castanhas do Pará, azeitonas, balas, um litro de vinho, amendoim, um docinho marrom glacê pequeno, uma lata de pêssegos em calda. E trouxe um presente para o Ita, uma camisa da Adidas de malha, azul clara com beiras e golas amarelas. Bonita. E de boa qualidade. Coitada, não precisava fazer nada disso. Já ganha pouco e ainda fica se preocupando com os outros. Bastava que ela comprasse coisas pra ela mesma. Não gostei de ela ter comprado o cordão de ouro. Preciso abrir-lhe os olhos, para não gastar à toa com coisas supérfluas. Se ela não abrir os olhos, ela acaba comprando tudo o que aparece e não vai ganhar nem pra pagar o que compra. E as coisas que realmente ela precisa comprar, vai ficar sem.

 

                                                                                                                Clô

Live Internacional BOOK BOX da FOCUS BRASIL

Programa BOOK BOX – 20 de JUNHO | Host: Patrícia Fraga e convidadas: Márcio Aaragão, Stela Gomes, Monika Papescu e Vitória Régia Costa Sampaio.

Obrigada mais uma vez por sua participação!

 

Link para assistir e compartilhar do YouTube:    https://www.youtube.com/watch?v=Mx_4yjCHpMo    

Link para assistir e compartilhar do Facebook:    https://www.facebook.com/events/1196476168378292







segunda-feira, 10 de junho de 2024

23 12 85

LXXIV – 23/12/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Foram sonhos verdes e bons os que eu tive esta noite. Graças ao Gohonzon. Bem, sonhei que o Ferreira apareceu com um baita carrão aberto, todo verde. Um carro muito engraçado, ou melhor, sui generis, parecia-se com aquele carrão verde aberto que o Aoud desfilou à minha frente no dia das eleições. Só que era um carrão maior, bem maior e quadrado. Tinha a porta larga da frente onde ficavam o motor, isto é, mais uma ou duas pessoas, e um quadradão mais alto em cima, todo gramado, assim como os beirais mais baixos também gramados, mas cercados. Sei que estávamos em campanha. E ele foi me levar, até uma localidade onde havia, além da vila de casas de alvenaria, lojas e bares e praça. Ao redor, à frente destes, logo de cara, dávamos com algumas casas, bares e até igreja, todas feitas de madeira, como nos filmes de cowboy. E numa praça entre estas construções de madeira e que seria um comício (o meu). Chegamos e quase não tinha ninguém ainda. Só uma senhora ainda meio jovem com uma criança de uns seis meses já no colo. Enquanto esperávamos vir mais gente, convidei esta senhora para subir e deitar-se no gramado do carro. Ferreira também se deitou e eu me deitei encostada a ele. Começamos a conversar e dar risadas. Estava tudo bem, ele estava simpático e feliz, eu simpática e feliz. Mas nem ele se esfregava em mim, nem eu me esfregava nele. Depois, saímos de lá. Não sei pra onde fomos. Quando cheguei, o carro estava cheio de recos, ou seja, jovens soldados do exército ou do Tiro de Guerra que, sentados na frente, ou sobre o gramado, guardavam-no. Eram, rapazes risonhos, brancos, bonitos e simpáticos, de uniformes verdes-olivas. Assim que me viram chegar, despediram-se sorrindo e se foram. Vi que o gramado do carro estava cheio de sujeiras como papéis, latas, etc. Vi que precisava varrê-lo e deixá-lo limpo enquanto o Ferreira estava ausente para que, quando ele chegasse, tudo estivesse em ordem. E me pus a varrer. Varri em cima e, quando eu estava varrendo de um dos lados, escorreguei, caí e quase que varei por uma das janelas laterais, pois estavam todas abertas. Cheguei a atravessar uma das pernas fora da janela da grade. Mas consegui pô-la pra dentro de novo e fiquei esticada sobre uma barra de ferro, ou seja, num cano largo de bronze cinzento que serve de apoio a quem viaja nas beiradas. Fiquei numa posição que não sabia como me levantar dali. Pensei em chamar alguém que estivesse em cima para me dar a mão e me puxar, mas seria arriscado esta pessoa não poder com o meu peso e cair, ele também, com tudo e eu, e virarmos o carro e cairmos com profundo impacto para fora do carro, que era bem alto do chão. Pensei bem e cheguei a uma conclusão. Eu teria que tentar sair dali, me levantar dali sozinha. Segurei-me num dos frágeis pilares das janelas e me levantei da cintura pra cima. Depois mudei as mãos para um pilar mais à frente, me escorreguei até lá e consegui me levantar e sair do cano. Foi só pular com dificuldade para o alto e já estava salva. Graças a Deus. Mais uma dificuldade vencida. Mas não me lembro de ter visto mais, depois deste incidente ultrapassado, nem Ferreira, nem os recos. Mas logo depois vejo Jussara, ainda menina, com os cabelos cortados, um vestidinho azul acima dos joelhos e calçada com umas sandálias havaianas bem mixas e bem menores que os pés dela. 

 

2) Sonhei também esta noite, e anteriormente ao sonho citado acima, que eu estava voando de helicóptero bem baixo sobre umas vilas cheias de boas casas, eu estava com um menino branco mais claro que o Ita e que deveria ter uns seis anos e que era meu filho. E esse meu filho estava com um brinquedo na mão, deveria ser um carrinho de plástico, que ele deixou cair sobre uma dessas casas. Logo um pouco à frente, decolamos e voltamos, fomos até onde ele tinha deixado cair o brinquedo que já estava nas mãos de um menino entre mais outros meninos. Eu reclamei o brinquedo e eles não quiseram devolver. E eu acabei xingando-os e, conforme iam aparecendo os pais deles, eu contava o caso e xingava os pais deles também porque eles não davam importância ao que tinha acontecido. Saímos dali eu e meu filho, tomamos de novo o helicóptero, fomos até um outro lugar resolvermos outro problema e depois, na volta, eu parei de novo para pedir tanto às crianças como aos pais deles desculpas e perdões pelas ofensas que eu lhes tinha dito. No fim, ficamos todos de bem e amigos. Entre estas pessoas, eu vi um senhor já de uma certa idade, bem corado e bem vestido que disse que já me conhecia. Eu disse a ele que ele também não me era estranho. 

  - O senhor não é parente da Nancy?

  - Sou.

  - Então é por isso que eu estou lhe conhecendo. Nancy é muito minha amiga e eu já vi o senhor na casa dela. E já que o senhor é parente da Nancy deve ser também de fulana de tal... (que eu não me lembro quem é agora). 

Ele ficou contente em saber que eu também conhecia esta outra mulher. E confirmou sorrindo que era mesmo.

 

3) Pela primeira vez vi Fidel Castro falar pela televisão pessoalmente ontem. Fiquei sua fã incondicional. É um homem que tem tudo pra ser o grande e verdadeiro líder que é. Firme. Inteligentíssimo. De uma convicção pessoal à prova de qualquer coisa. Simpático. Humilde. Que pensa e age de modo mais acertado. Gostei. Gostei. Gostei. Salve, Fidel. É um dos maiores líderes da América Latina, senão o maior. Agora o tenho no rol dos meus líderes. Jânio no Brasil e Fidel na América Latina.

 

4) Jussara não veio ontem, domingo. Apesar de dizer que vinha. Por que será? Estou bastante preocupada com ela. Se o Ita tivesse deixado o carro iria lá ver o que aconteceu.

 

5) Lilinha às vezes me tira fora do sério e eu penso mil coisas feias contra ela. Inclusive o de entregá-la de novo aos pais. Depois, diante daquele rostinho lindo, do seu sorriso que nenhuma criança tem igual, dos seus olhinhos tão lindos, tão tristes, tão carentes e que dizem tanto pra gente, me arrependo de tudo (que faço e digo contra ela), e reafirmo meu objetivo de nunca, nunca, nunca, em hipótese nenhuma, me separar dela.

 

                                                       Clô

divulgação do livro A INFINITA CLÔ


 

domingo, 9 de junho de 2024

21 e 22 12 85

LXXII – 21/12/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) O Chico Xavier disse ontem pela TV, no programa da Hebe, que toda criança excepcional foram pessoas que, numa existência anterior muito próxima, se suicidaram com tiros na cabeça. E que confirma o dano que o projétil fez em suas mentes, em suas cordas vocais, em seus órgãos visuais, não falam, não enxergam e a mente não funciona. Se morreram enforcadas, ficam paraplégicas. Se fizeram homicídio e depois, por arrependimento se suicidaram, se tornam esquizofrênicas. E que Deus só põe estas crianças em lares cujos pais têm a capacidade para amar até o infinito. E que estas crianças sentem tudo o que se passa ao redor delas. Que dentro do seu mundo, elas são completamente normais e sentem quando são bem tratadas e quando são maltratadas. E tanto se apegam a pessoas que as tratam bem como se desapegam das pessoas que as tratam mal. E que geralmente estas crianças têm pouco tempo de vida. Vivem no máximo até 13, 20 ou 30 anos. Só o tempo que lhes resta para terminar a existência que teriam se não tivessem se matado. Grande Chico Xavier. Como eu o respeito! Como eu o admiro! Como eu gostaria de ser como você!

 

LXXIII – 22/12/85 – domingo

 

1) Cheia de interrogações. Questiono e requestiono a vida a todo segundo. Nenhuma resposta objetiva. Nenhuma definição definitiva. Só interrogações e reticências. Mais 10 dias para acabar este ano, mais dez dias para nascer 86. Por que 86? Porque não para junto com este ano que se finda também a vida, também o mundo? Esse impulso de vida inútil, afinal, leva ao quê? Se tudo tem que ter um fim, pra que não um fim de tudo já? Fica só nesse lenga-lenga de hipocrisias, de mentiras, de fingimentos, de cinismos, de falsidades, de egoísmos, de futilidades, de angústias, de perversões, de depressões, de pressões, de domínio, de prepotências, de arrogâncias, de despotismos, de carências, de humilhações, de descrenças, de cepticismos, de negativismos, de pessimismos, de desafios, de perigos, de lutas, de quedas, de aflições, de dores, de desesperanças. 

 

                                                                                                 Clô      

A Infinita Clô - no site de Dóris Pinheiro


 

20 12 85

LXXI – 20/12/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Não gostei do que passou ontem sobre o Jorge Amado na TV. Não o achei nada natural. E aquele filho dele então, o João Jorge, nada tem que se aproveite. Bem que Ari falou que ele parece mais um débil mental. Como não tem como aparecer, por ele mesmo, faz questão de se mostrar com o pai! Andando a pé pelo Pelourinho. Zélia Amado fez plástica. Quer ser simpática pela televisão. Será que consegue? Jorge Amado também cada vez mais mostra que não está mais com nada. Embora o tutu negro em dólares que o cobre. Só tem produção em cima dele. É puxa-saquismo de todo lado. Achei muito artificial a coisa. Muito forçada. Muito sem graça. Muito fútil. Muito vazio tudo o que foi dito e mostrado sobre ele. Só o que se aproveitou mesmo, foram os cenários do Pelourinho, do Mercado Modelo, do Forte do mar, do mar cinzento (em dia de chuva) da Bahia que eu conheço tão bem e morro de amores. De toda a Bahia enfim que é a minha paixão. Sem conhecê-lo pessoalmente já o estou achando, de antemão, um homem metido a besta, isto se não for uma verdadeira besta. Não tem escrito grande coisa ultimamente. A não ser pornografias sobre pornografias. A Bahia bem que merecia alguém melhor para representá-la. Mas ele se intitulou representante cultural da Bahia. Sem ter a menor responsabilidade por isto, e temos de fazer de conta que realmente é e aturá-lo. Só pelo valor do dinheiro. Felizmente, estes valores estão passando. Pelo menos parece. E eu sou a maior torcedora para que estes falsos valores, que não estão com nada, caiam e deixem de existir bem depressa.

 

2) Ah! Eu quero viver fazendo amigos

    De todas as idades, gêneros, raças,

    Ideologias, índoles, fés, partidos.

    Sem restrições. Individuais. E em massas.

 

    Tanto eu tenho pra dar: força, sorrisos,

    Abraços, olhares, falas e esta certeza

    Do poder de fazer o que é preciso

    Para um mundo de paz e de beleza.

 

3) O Ita veio me dizer que todos os companheiros dele lá da sessão de manutenção da Papelão, que estavam presentes na Confraternização no sábado passado, sem exceção gostaram muito de mim. E me acharam jovem e muito bonita. E o Ita me falou: mãe, a senhora tem que sair daqui deste buraco, tem que aproveitar esta beleza. A senhora ainda tem uns dez a quinze anos só de beleza (generoso e otimista, meu filho?) e tem que aproveitá-la ao máximo. A turma lá da fábrica falou que a senhora era minha namorada e não minha mãe. Todos foram unânimes em dizer que a senhora é muito bonita. 

  - Eu estava tão feia naquele dia, estava tão gorda. Preciso emagrecer mais e me apresentar pra eles numa melhor forma. Aí sim. É que eu vou me sentir bem. E eles vão sentir o que é beleza.

 

                                         Clô

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17 12 85

LXX – 17/12/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Meus amigos espirituais, estou sem fé, sem objetivo, sem razão e sem motivação pra lutar e pra viver. O que devo fazer?

  - Clotilde, você precisa vender esta casa e ir embora pra Bahia.

  - Por quanto devo vender esta casa?

  - Por duzentos milhões à vista.

  - Vou achar comprador logo?

  - Sim.

  - Se eu vendê-la assim como está vou achar quem dê duzentos milhões à vista, assim mesmo e logo?

  - Sim.

  - O que devo fazer com a Lilinha?

  - Deve entregá-la aos pais dela.

Coisa horrível. Não. Não. Não. Não. Jamais me separarei da Liliam. Quero só poder dar-lhe sempre do melhor e ter bastante saúde e bastante paciência para tratá-la o melhor possível e com o máximo de carinho possível.

 

2) Antes não tivesse marcado a minha consulta do INPS, aquele médico estragou o meu barato. Mas não faz mal. Quem sabe foi melhor assim? De alta. Estou livre e desimpedida para fazer qualquer coisa na minha vida. Ou voltar a trabalhar... E quem sabe na Prefeitura de São Paulo? Ou fazer a minha campanha de deputada estadual com Sujim ou com Farabulini? De preferência com Farabulini. Isto se Sujim não arcar com a ajuda monetária aos meus interesses. Ou então, quem sabe? Trabalhar com os dois? O povo é quem vai votar. O povo é quem escolhe dos dois o melhor. Celso Amaral? Nunca mais.

 

3) De uma certa forma, amor

    Viajei. Mas não parti.

    Estou toda em Salvador

    Por que? Não me vejo aqui.

    Se quiseres comprovar

    Verás com veracidade

    Que estou em todo lugar

    Da tua maga cidade

    No ar, nas ruas, no mar,

    Em formatos de saudade.

 

    Caso ofusques teu desdém

    Pelo destaque do espanto

    É só procurar-me bem

    No melhor canto do canto

    Entre estas janelas

    Do Boulevard da Cantina.

    Estou a olhar-te com elas

    Tuas portáteis meninas.

    A bebericar com os santos...

    Ouço de Claudete o canto...

    Enquanto janto teu encanto.

 

4) Essência (um fado feito com João Sampaio)

     Eu sou.

     Tudo que existir, é o que eu sou.

     Em qualquer lugar, é onde estou.

     Onde o vento leva, é onde vou.

 

     Saí.

     Mas não arredei os pés daqui.

     Eu não sei ficar longe de ti.

     Eu apenas sou.

   

     Viver.

     Mais que uma paixão

     É um prazer.

     E o que eu quero

     É só querer

     Ser um ser que ao menos

     Possa ser.

     Nada mais

     Que um ser.

     

5) poema ZERO A ZERO

 

    E pensar que eu me vi a me ver

    Sendo muito muito muito amada

    Por você Sol e Céu do meu ser...

    Foi um sonho. E findou sendo nada.

 

    E pensar que eu temi o temor

    De saber-me por tantos amada

    Sem poder a ninguém dar amor

    E foi este o placar da jogada.

 

    Mas, contenho-me. E estou contida

    No sonhar que jamais se realiza

    No temor que se concretizou:

 

    Eu, (que sou tão amada!) Na vida

    Nunca amei a quem quer que me amasse

    Só amei a quem nada me amou.

 

 

6) ESSÊNCIA

 

     Eu sou

     Tudo o que existir é o que eu sou 

     Em qualquer lugar, é onde estou

     Onde o vento leva, é onde vou

 

     Saí.

     Mas não arredei os pés daqui

     Eu não sei ficar longe de ti

     Eu apenas sou

   

     Te ver

     Mais que uma paixão

     É um prazer

     E o que eu quero

     É só querer

     O teu ser para

     Que eu possa ser

     Muito mais

     Que um ser.

 

                             Clô