III – 05/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Vitória veio aqui na quinta-feira sem que eu esperasse. Veio ela, a Rosinha e a Vanessa. Preferia que ela tivesse vindo sozinha para que eu pudesse conversar com ela melhor. Mas, por outro lado, foi bom. Assim pude ver como a Rosinha tem ganhado dinheiro com as minhas máquinas. Digo isso porque, até há bem pouco tempo, ou seja, em julho, ela estava completamente sem dinheiro e cheia de dívidas. Agora ela comprou carro novo e tudo o que ela quer ela compra e faz enquanto a Vitória nem as dívidas pagou. Acho engraçado é que todo mundo ganhou dinheiro com costuras nesse ano, menos a Vitória. E o engraçado é que a Vitória, que está dentro da coisa, não enxerga que está sendo ludibriada, e como está. Dá a impressão que ela está para a Rosinha como um sapo está para uma cobra, quando cai no campo de mira e domínio desta: completamente hipnotizada, completamente dominada, completamente sem vontade própria, completamente despersonalizada. Não gostei nada de sentir e de ver a situação da Vitória para com a Rosinha. Ela é apenas um simples joguete nas mãos da Rosinha. Rosinha é quem determina o que ela deve fazer. Por exemplo, Vitória disse que ia até a Faculdade resolver uns problemas, Rosinha falou pra ela:
- Deixa pra outro dia, você já não veio no outro dia? Você já não veio tratar disso no outro dia? O que é que você veio fazer no outro dia aqui?
- Eu vim só ver as minhas notas.
- Deixa pra vir outro dia. Outro dia você resolve isto.
E a Vitória obedeceu. Mesmo eu falando pra ela ir na Faculdade e depois voltar aqui pra falar com o Ita. Quer dizer, contrariou até mesmo a vontade dela que era de ir até a Faculdade, só pra não desagradar a Rosinha. O cúmulo também foi o trem ter quebrado em Poá às dez e meia da noite e ela, em vez de vir aqui para casa preferiu ficar na rua até as duas horas da madrugada, correndo o risco de dormir na rua, só para não dar preocupações à Rosinha. Quando que ela se preocupou em não dar preocupações a mim, que sou a mãe dela?
2) Eu, CLOTILDE COSTA SAMPAIO, dou ampla e total liberdade a meu filho ITAMARATY JOSÉ COSTA SAMPAIO de agir em meu nome e dos meus interesses como quiser e entender.
3) Lilinha, depois que foi em Guararema na casa da senhora espírita que a benzeu e que tomou os nove banhos de arruda, guiné e trança de alho, ficou mais calminha e mais ligada comigo, parece que sente e entende mais as coisas ao seu redor. Ficou mais sensível. Por outro lado, ficou impossível. Ou seja, ficou mais arteira, mais ágil, mais esperta para fazer as coisas que quer e mais reacionária para não fazer as coisas que não quer. Hoje iremos eu, Doca e Sr. Agostinho levá-la de novo lá. Seu Agostinho deu certeza que essa senhora a curará. Por outro lado, essa senhora também deu certeza de que ela se curará. Então a nossa obrigação é levá-la lá. E Oxalá ela se cure mesmo. Pelo menos tenho fé e esperança de vê-la totalmente curada muito em breve. Não importa por quais meios. Se pelo budismo, se pelo espiritismo. O importante é que ela se cure. E seja qual for o meio que a cure, terá o meu completo louvor, a minha completa fé, a minha completa gratidão. Lilinha é um desafio. Vamos ver quem vencerá este desafio. Se é o budismo, se é o espiritismo.
4) Lilinha está rezando. Primeiro ela levanta-se impossível. Não quer fazer nada do que a gente quer. Até para levá-la no banheiro é preciso arrastá-la. Porque ela se encurva e empaca no lugar e se joga no chão. Agora, depois que foi benzida, é um sacrifício levá-la de um canto a outro. Só vai arrastada. Gosta também de deitar-se no chão, debaixo da cama, de morder tudo, de jogar os banquinhos no chão. Tornou-se mais violenta e mais rebelde depois da benzedura e dos banhos. Será para melhor? Acho que é a transição. É a revolução que está se operando dentro dela. Depois disso tudo, nascerá uma nova Lilinha.
5) Um espírito vem me dizer que Aoud morreu hoje, ou seja, aos 23 minutos de hoje 05/01/86, domingo, de derrame cerebral, em sua casa e que vai ser enterrado às 16 horas de hoje, domingo. Não estou acreditando. Deve ser só brincadeira deste espírito. Os espíritos geralmente gostam de fazer deste tipo de brincadeira com a gente. E esta não é a primeira vez que um espírito vem com esse tipo de brincadeira comigo. Já me disseram que Orlando, pai da Dinorá, estava morto e ele está vivo. Já me disseram que o Sr. Antonio Collalilo estava morto e eu soube também que ele ainda está vivo. Mas fico imaginando-me na hipótese de que isso tenha realmente acontecido, e não consigo me aprofundar tanto na questão, não consigo me ver triste.
6) Foi até bom ter acontecido este boato para que eu pudesse me reanimar a respeito. E pude constatar que, nada mais de muito importante como acontecia até bem há pouco tempo me prende mais a ele. Parece-me até que, se eu não chegar a ficar contente com o acontecimento de tal evento, também não vou sentir qualquer falta, qualquer saudade. Esta é a vantagem de eu ter me esforçado no empenho de não mais fazer-lhe caso a ponto de até parecer-me já o ter matado bem antes até de ele vir a morrer de fato. Eu só vou receber esta notícia como automática e necessária oficialização do féretro.
7) Tive um sonho esta noite relacionado com o Portuga e com Portugal. Foi um sonho bom e bonito. Mas não posso descrevê-lo porque já o esqueci.
Clô
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