1) Aniversário da Vitória! 24 aninhos! Puxa! Como passa o tempo! Ainda outro dia ela era uma menininha magrinha, moreninha, de janelinha dental na boca, sobrancelhas muito grossas, risonha, brincalhona. Agora, já uma mulher esforçada, responsável, sofrida e bonita. Ah! Meus filhos, meus filhos! Eu quero tanto que vocês sejam todos bem sucedidos e felizes. Vitória deveria ter vindo aqui ontem e não veio. Será por qual motivo? Deus ajude que com ela e com os seus empreendimentos esteja tudo bem. Mas ela virá quando será? Eu fico meio apreensiva. Será que ela não veio porque ainda não tem o dinheiro para me pagar? Ou será porque, mais uma vez, ela está querendo se distanciar da gente? Mais de um mês sem eu vê-la. Mais de um mês que ela não vem em casa. E tem passado aí perto. Tanto para vir em Suzano quanto para ir na Faculdade em Mogi. Por que não tira um tempinho e vem mais cedo e passa aqui?
2) Devo rezar primeiro? Devo primeiro arrumar a casa? Ou devo continuar escrevendo? Três opções e eu indecisa entre as três. Mas, enquanto Lilinha ainda dorme, e enquanto não me decido, continuo escrevendo. Uma dorzinha de barriga enjoada está querendo apertar. E se apertar vou precisar me levantar daqui e ir até o banheiro. Princesa deu cria ontem. Sete cachorrinhos! Conta de mentiroso. Duas fêmeas e cinco machos. Conta de mentiroso outra vez, mas verdadeira. Realmente, desta vez ela conseguiu uma proeza rara. Ter mais filhotes machos que fêmeas. São todos da cor dela. Brancos e amarelos. Bonitinhos. Todo cachorrinho, enquanto pequenininho, é uma gracinha. Depois que crescem é que ficam feios. Por que é que crescem? Por que é que a gente cresce? Deveríamos ficar sempre pequenininhos, engraçadinhos, irresponsáveis e felizes. Os meninos estão se divertindo com os cachorrinhos. Leandro veio me perguntar onde deveria fazer a casa para eles. Já deve ter feito. E já deve ter feito a mudança deles do mato para um lugar melhor.
3) Ah! Num sei. Nem quero saber. O que eu sei é que tenho que tomar o Dobesix que ainda não tomei. Estou com frio. E com uma fisionomia muito feia. E sem vontade de fazer nada. Deveria aproveitar enquanto a Lilinha dorme e me deitar também. Mas ao mesmo tempo fico com dó. O Ita, a Jussara, a Vitória, (sabe lá Deus como) estão todos se sacrificando enquanto eu aqui, totalmente à toa? Mas é esta falta de sol que me faz ficar assim desanimada. O sol hoje está também tão indeciso quanto eu. Toda hora fica sem saber se sai ou não sai.
4) Não tenho fósforo para acender o fogo nem para rezar. Preciso pedir à Miriam alguns palitos. Daqui à pouco Liliam acorda. E eu preciso dar o café para ela. Sol (....). Frio. E eu nesta “intenguidez” desanimadora. Ao Gohonzon eu devo tudo o que tenho. E também tudo o que já não tenho. Por isso essa indecisão: devo continuar rezando ou não? Papel, eu te respeito. Eu te respeito, papel. Gosto mais de você sem a minha mácula, que com ela. Os meus pensamentos, também ficam bem melhores só comigo, que escritos.
5) Estou quente, queimando. De um fogo que está me incomodando. Preciso aliviar-me desta tensão. Preciso fazer amor comigo mesma. Dá licença. Desta vez com quem? Quem encarnará o objeto figurado? Aoud? Jehová? Ou os dois? Veremos.
6) Foram os dois. Como se fossem uma só pessoa. Jehová é de uma sensualidade destemida e Aoud de uma sensualidade comprimida, inibida, medrosa. Coitado. Por isso, viva Jehová! Que não tem medo de nada. E que assume. Onde for e com quem for. É pau pra toda obra. Vivas para Aoud! E vivas e palmas para Jehová! Pena é que eu não pude conhecê-lo quando jovem. Tenho certeza que teria sido eu o grande amor da vida dele. E ele o grande amor da minha vida. Mas ainda não é sem tempo. Pelas quatro ou cinco que demos, houve de fato, entre nós, uma bem forte atração. Ele foi magnífico. Eu creio que também não o decepcionei. E quero voltar à Bahia à sua altura. Para isso, estou me empenhando. E para isso, que estou escrevendo. E para isso que quero ser reconhecida brasileira e internacionalmente como uma grande poeta e escritora.
7) Vamos dar mais uma, Jehová? Ainda está coçando. Ainda estou no cio. Me salve. Jehová, faça o que quiser de mim, sim? Assim, eu te aguardo, enquanto você me aguarda.
8) E seremos uma apoteose. Salvador Praia Hotel, com todos os seus requintes, aguarda-nos. Nós, os Deuses, brevemente o honraremos com a nossa presença. Jehová, você pode. E só você vai me dar aquela felicidade que eu procuro. E pela qual luto. E sem a qual nem tenho necessidade de viver. Jehová, meu Deus Jehová, só você pode me salvar. Estou prestes a deixar tudo que tenho aqui, por você. E, se você me decepcionar, serei mais uma desertora da vida.
9) Lilinha acordou brava às dez para as dez. Tenho tanta coisa pra fazer. E ainda indecisa. Preciso rezar para dar mais ênfase e decisão à minha vida. Creio que é o que eu vou fazer após dar o café à Lilinha. Preciso mudar o ralo desta janela para outra janela. Aqui ela está entupindo todo o esgoto da pia. Esse terreno está um lixo. Preciso dar um jeito de carpi-lo e de limpá-lo.
10) Que nariz, Lilinha! Só você tem desse nariz. Mais ninguém tem nariz igual ao seu. Isso é que é nariz. E o dia inteiro produzindo catarro. Incessantemente produzindo catarro. Não há quem vença limpá-lo. Tomar remédio... café, não é? Depois você já pode fazer a arte que quiser. Não pode lamber a pia. Mamãe bate aqui, ó, Boquinha. Seu marido, o Juquinha. Seu filhinho, o Juquinha, já começou a falar. (...) E o papai disse a chorar. Meu Lulu mordeu sua sogra, não sei como aconteceu. Lá lá lá lá lá lá lá lá. É Que o Lulu morreu. Enquanto dou café para Liliam ligo a televisão no canal 7 para assistir “A mulher dá o recado”. Bom programa. Melhor do que o “TV Mulher”. “Faça você mesmo”. É o que está passando.
11) Preciso rezar. Quando eu sinto esta ansiedade, este sufoco, é porque realmente preciso rezar. E eu, que prometi tanto ao Gohonzon e que vergonhosamente não estou cumprindo nada. Eu creio no Gohonzon, eu respeito a filosofia Budista. O que me faz duvidar são as pessoas. Esse jeito, este método que eles usam para fazer a nossa cabeça para impor o que a gente deve e não deve fazer. Essa lavagem cerebral que eles querem, a todo custo, fazer com os membros. Religião, para mim, não é isto. Por isto essa apatia, este ceticismo que, no fundo no fundo, eu não gostaria de ter, mas que obrigam a ter. O ideal seria se eu pudesse “descascar todas as tintas com que me pintaram” o cérebro, como diz Alberto Caieiro, e me sentir livre. Independente, no fundo, o que eles cada vez mais me convencem é que toda religião não passa de “empregos” para alguns tirarem proveito pessoal da ingenuidade dos demais.
12) Os teus cifrões não cobrem os teus chifrões. Avisa-lhe e abraça-lhe um dos teus. Patrícios, amigos e sócios (inclusive nos teus cinco “legítimos” filhos).
Caro Patrício, Amigo e Sócio.
Os teus cifrões não cobrem os teus chifrões.
Avisa-lhe e abraça-lhe um dos teus sócios, inclusive nos teus cinco (legítimos?) filhos.
13) É como se eu estivesse vivendo meus últimos momentos. Nada mais me atrai. Nada mais me convence de nada. Nada, ou quase nada, mais tem importância. Sinto-me presa, abafada, dentro de mim mesma. E a única coisa que eu aspiro é me libertar.
Clô