segunda-feira, 24 de abril de 2023

XI – 18/09/85 – quarta-feira – (Monte Cristo)

1) Se eu fosse aproveitar o dia de hoje só para escrever teria escrito bastante pois, levanto-me muito inspirada. Mas passei o dia sem fazer nada, só lendo as três revistas “AFINAL” que o Ita trouxe ontem (que por sinal, não gostei) e nem fiz nada, nem escrevi nada. Mas entremeando a ociosidade só senti muitas, muitas, muitas saudades e preocupações com a Vitória. Por que será que ela não vem? O que estará acontecendo? É estranho, muito estranho todo este distanciamento dela para conosco, seus familiares. Eu não estou preocupada que ela me pague as máquinas até o fim do ano, ou não. Nem estou exigindo, nem estou cobrando nada. O que eu quero é que ela não se sacrifique tanto assim por causa de dinheiro. Não vale a pena pois dinheiro não é tudo nem vale tanto quanto a saúde, a felicidade e a vida dela. O que eu só desejo para ela e para todos os meus filhos é que sejam felizes e se realizem como pessoa. 

 

2) De repente esta febre, esta epidemia de Constituição e Constituinte que não acaba mais. Em qualquer canal ou em qualquer hora ou programa em que se ligue a televisão é Constiuição, é Constituinte. Jornais idem, revistas idem, escolas idem. Que coisa! Em todos os meus quarenta e cinco anos nunca vi isso. É moda, é estatus, é doença, estas duas palavras. E alguns dizem que teremos que votar nas pessoas encarregadas de fazê-la. Para quê? Se, no fim, acaba ficando tudo na mesma? É só perda de tempo. No fim, só servirá para desviar as nossas atenções contra alguma coisa muito feia que estão fazendo contra nós e que não queiram que a gente saiba. É o Brasil! Se a gente for pensar em toda a sujeira que existe por trás de muita coisa, a gente acaba ficando louco e não vive. O melhor é não se levar nada a sério e ir levando a vida sem se deixar influenciar. Para quê? Se a gente é importante para poder consertar ou mudar as coisas? 

 

3) Graças a Deus, conforme explicações dadas por sua uma das professoras da Dinorá, finalmente descobrimos que Lilinha é autista. Assim, dos males o menor.

                                                                                                                                  Clô 

REENCONTRO (valsa)

     Para Aoud Id


Se algum dia

Depois deste adeus

Eu puser

Meus olhos nos teus

Vou lembrar

Teu amor e talvez

Aquela sensação

De te amar outra vez

Volte em mim

Suplicando a chorar

Que eu me humilhe

A teus pés

Para um beijo ganhar.

 

Se algum dia 

Eu voltar

A rever 

Quem me quis

Vou sorrir!

Vou cantar!

Vou ficar 

Bem feliz

Se algum dia

Eu voltar

A ver quem

Tanto eu quis

De alegria demais

Sou capaz 

De chorar

De feliz!

 

Se algum dia

Eu voltar

A te ver

Vou chorar

De tanto prazer!

Vou lembrar

Quanto quanto

Eu te quis

Quando fui 

Teu amor

E o quanto

Eu fui feliz!

E a saudade

Virá toda então

Ocupar teu lugar

Vago em

Meu coração.

 

                          Clotilde Sampaio

 

                                 Brás, SP, 05/07/1964

sexta-feira, 21 de abril de 2023

X – 17/09/85 – terça-feira – 12 horas – (Monte Cristo)

1) Nasci. Ou melhor, renasci. Lendo o livro “Relações Humanas”. Cheguei à conclusão de que não vale nada se pensar negativo. Nem fazer coisas negativas nem deixar com que coisas ou pessoas negativas nos atinjam. O melhor mesmo é dar braços ao positivismo e caminhar, de cabeça erguida, sorriso imenso e grande, sempre para a frente, sem olhar para as coisas ruins que ficaram para trás e com ânimo e coragem para realizar o impossível e alcançar o inatingível.

 

2) Levantar! Agir, mudar todos os venenos em remédios! As derrotas em vitórias! Todas as coisas ruins em boas. Agora! Já. Sem mais perder tempo. Já basta o muito que perdi. Agora é recuperar, ganhar, vencer. Em todos os momentos, em todos os sentidos.

 

3) Um tarado agarrou Jussara hoje na hora em que ela passava na Av. Mogi das Cruzes a caminho do seu trabalho. Mas, graças a Deus, ao Gohonzon, nada de mal lhe aconteceu. Além do choque e do susto. E nem por isso vou deixar me abater de novo. Vamos ultrapassar todas as coisas negativas. E vamos vencer. Pois Deus assim quis. 

                                                               Clô

RELEMBRANÇAS

(Sendo a mulher, do AMOR, a quintessência

Só podendo na vida, ser um Bem

Que ilumina os escuros da existência...

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Vá vivendo, viu, Clô? Pois é preciso

Fazer da vida, com você, também

O mais delicioso... Paraíso!)

 

São Paulo! Brás, ano três... mais sessenta.

Bairro Brás! São Paulo! Ano três, mais sessenta!

São Paulo! Brás! Ano sessenta e três!

Ano sessenta e três... Bairro do Brás... São Paulo.

São Paulo (capital) bairro do Brás.

Mês de setembro, ano sessenta e três. 

 

                          Clotilde Sampaio

 

                                     1985 ?

IX – 16/09/85 – segunda-feira – 00:30 horas (Monte Cristo)

1) Ontem, quando passamos por Itaquera, eu me senti tão mal. Por isso, só por isso, é que eu acho que, se eu fosse para Bahia, sararia de vez dessa depressão. Porque lá, eu fico bem distante das coisas ruins que marcaram a minha vida no passado e das coisas ruins que ainda estão me marcando. 

 

2) Minha mãe. Coitada. Dá uma pena tão grande vê-la no estado em que está e não poder fazer nada por ela. 

 

3) Eu acredito no Gohonzon e nos ensinamentos de Nitiren Daishonin. O que eu duvido é das intenções das pessoas que se dizem representantes legítimas do que ele pregou e quis que pregássemos. Vejo falar tanto em dinheiro, em ajuda monetária que acabo crendo que o interesse maior de tais dirigentes é a ganância e os interesses pessoais através da exploração do poder de uma filosofia tão verdadeira e limpa. Por esse motivo eu gostaria de separar as coisas que eu creio das que não creio e fundar uma espécie de nova religião. Dizer direitinho tudo o que sei e acredito às pessoas sofredoras, mas sem interesse monetário ou pessoal de espécie alguma a não ser a de divulgar a filosofia de Buda às pessoas sofredoras, a fim de servir ao Buda, fazendo novas pessoas felizes, e sendo feliz também. Eu sei que tenho uma missão a cumprir, por isso estou aqui ainda, apesar dos pesares, me debatendo comigo mesma, procurando encontrar uma solução para os meus conflitos emocionais e mentais. Creio que só assim me reencontrarei de novo. Por isso preciso por mãos à obra o quanto antes na realização do meu ideal, do meu objetivo de fazer valer as coisas que eu acredito certas e puras, para o bem comum. Fora disso, é melhor que eu nem viva mais, ou melhor, acho que já estou mais morta do que viva. 

 

4) Não sei se fiz bem, se fiz mal, ao rasgar a carteirinha de doação de olhos da Jussara. Vejo falar tanta coisa, e tenho medo que eles arranquem os nossos órgãos antes mesmo de estarmos realmente mortos, só para terem com que fazerem as suas “experiências” e não com o verdadeiro intuito de fazer com que alguém enxergue ou continue vivendo. Se é tão importante para os médicos essas doações, por que não se vê médicos ou familiares de médicos doarem órgãos? Só se vê doadores entre as gentes do povo, as pessoas mais simples e mais pobres. Ontem mesmo houve mais uma experiência neste sentido com o coração de um jovem da minha cidade, Ourinhos, que morreu na sexta-feira em um desastre de motocicleta, cuja mãe, que eu inclusive acabei de vê-la na televisão, dizendo que todos deixassem de ser egoístas, doou do próprio filho morto os olhos, os rins, (fígado) e o coração. Coragem e desprendimento que eu admiro mas que, pelo menos até o momento, não tenho capacidade de seguir. O referido coração viajou ontem, de avião, até São Paulo assim que foi constatada a morte cerebral do jovem. Viajou 400 quilômetros e foi colocado ontem mesmo no peito de um senhor de 42 anos, pedreiro, no Instituto do Coração, mais uma vez, ao mesmo tempo em que louvo, lamento também a atitude da senhora mãe do doador.

 

5) É involuntária esta minha apatia pela vida. Mas, tantas razões contribuem para que ela exista que, embora tente, não consigo me livrar dela. Os problemas com Aoud, a situação da minha mãe, os traumas de toda a minha vida passada com a minha família, o que minha vida poderia ter sido e que não foi por causa de tudo isso. As decepções que tenho tido com todas as instituições e pessoas em quem acreditava. O problema de Lilinha. Eu gostaria tanto de sair desta, mas não tenho encontrado a força necessária para isso. Às vezes, por momentos, eu até consigo sair. É quando chego a fazer planos. Mas é tão efêmero. Preciso arranjar, com urgência, alguém para compartilhar da minha vida, só para ver se este fantasma some.

 

6) Uma coisinha tão de nada me atinge tanto... Não sei porquê. Agora mesmo, só porque eu me lembrei de toda a negligência do Aoud, com relação ao nascimento do Ita, há uma trituração, uma corrosão no meu interior. Ah! Gohonzon! Me ajude, me ajude, me ajude. Eu não posso me lembrar dessas coisas. Preciso ir pra Bahia. Mas nem isso eu posso fazer enquanto não terminar a ação com o Aoud.

 

7) Lilinha, até bem pouco tempo, pronunciava algumas palavras como “dia, deda” e outras derivadas do D ou até do T ou N. Agora só grita. E às vezes sons estranhos, esquisitos, que não me soam nem me fazem bem ouvi-la. Tenho a impressão de que ela regrediu de novo. Não sei se com o excesso de Corintol e Gardenal, se por algum trauma causado por minha impaciência de ultimamente para com ela. Gostaria tanto que ela fosse, pelo menos, quase normal, para que a gente pudesse deixa-la desamarrada, bem vestidinha, bem bonitinha. E para que ela entendesse a gente, sentisse todas as principais emoções e se comunicasse. A vida “taí” e eu “tou” aqui completamente de mal com a vida.

 

8) Trepidam neste momento todo o meu corpo, o meu coração, e a minha mente, abalados por não sei o quê indefinível e invisível.

 

9) Gostoso trair esses homens. Esses homens têm mais é que ser traídos. (duas ou três frases rabiscadas por cima). 

 

10) Eu queria ser forte, resistente, inflexível e, no entanto, sou frágil, sensível, imprestável. 

 

11) Fatigada. Impaciente. Sufocada. Eis como eu me encontro ultimamente. Não posso mais esperar. Não há mais tempo. Tudo terá que ser agora. Ou nunca mais. 

 

12) Loreninha de vovó deve estar linda. Cinco “mesinhos” já. Deve estar uma sapequinha de primeira. Uma vontade de vê-la. De matar saudades com ela pulando e gargalhando no meu colo.

                                                                      Clô 

ESTRANHO CORAÇÃO

              Para Aoud Id

 

Não te conheço, e nem tampouco sei quem és,

Vejo-te apenas à noite na rua

Sempre que faço o meu percurso a pés,

Noto, a me perseguir, a imagem tua.

 

Prostras-te sempre à beira da calçada

E mostras que algo tem para me falar.

Mas, se aproximo então, não dizes nada,

Apenas põe em mim, teu fixo olhar.

 

Mesmo nas noites frias deste inverno,

Quando a rua é passarela dos meus fãs,

Distingo o tom escuro do teu terno

Entre as demais figuras neutras, vãs.

 

Para a minha alma transbordante de poesia

Que se alimenta apenasmente de ilusão

Basta-lhe, e muito, viver só da fantasia

De ser a amada de um estranho coração.

 

                               Clotilde Sampaio

 

     Brás, São Paulo, (provavelmente 1963, do livro cinza encadernado). 

 

VI – 13 a 15/09/85 – sexta-feira – 11:55 horas – (Monte Cristo)

1) Fiquei tão danada hoje com as travessuras da Lilinha que cheguei a dar duas chineladas nas perninhas dela. Que pecado. Bater numa criança que nem falar sabe. Depois que passa a minha raiva é que eu tenho dó. E me arrependo. Queria tanto ter toda a paciência de que ela necessita. Queria tanto que ela sarasse, que ficasse normal. Que entendesse a gente. Que sentisse todas as emoções e que pudesse se comunicar. Uma menina tão linda! E tão problemática! Mas eu tenho certeza de que, logo logo, ela vai sarar e vai poder entrar na escola e aprender tudo que uma criança normal aprende. 

 

2) Loreninha linda da vovó tem um olhar firme. Um olhar de muita personalidade, e de muito inteligente. Peta, peta, petinha. Peta, peta, petinha.

 

3) Faz mais de duas semanas que não tomo banho. E não estou nem aí.

 

 

VII – 14/09/85 – sábado – 10:20 horas.

 

1) Mulher não existe. Nem precisa existir. É um ser inútil que só serve para atravancar o mundo. 

 

 

VIII – 15/09/85 – domingo.

 

1) Estive bem disposta hoje. Acordei e levantei-me mais ou menos cedo e, após dar o café à Lilinha, limpei toda a casa, isto é, varri, lavei a área de fora e a arinha do portão. Varri todo o quintal. Dei bronca no Dudu porque não me obedeceu quando eu lhe pedi que jogasse uma folha de jornal no lixo. A Jussara saiu bem cedo para ir a uma churrascada do Guaió, lá no Cenaturis. O Ita dormiu até duas da tarde. Fomos todos, eu, Dinorá, Liliam com o Doca, Miriam e crianças em casa dos nossos parentes lá em Vila Lisboa, em São Paulo. Lilinha também estava bem o dia inteiro, graças a Deus. Estava alegrinha e bem animada. Princesa não está dando ânimo para os filhotes que vão acabar morrendo todos desse jeito, porque eu é que não vou perder meu tempo cuidando dos filhotes dela. O Ita disse que o que a gente está fazendo tem retorno. E que a Princesa só sai pra fora porque ela não tem comida aqui. Conversa! Ela sai porque é sem vergonha e desnaturada. Vitória esqueceu-se mesmo da gente. Eu só quero que o motivo que não a traz aqui seja por ela estar muito bem. 

                                                                       Clô

V - 12/09/85 – quinta-feira – 7:30 horas (Monte Cristo) – VINTE ANOS

1) VINTE ANOS

 

    Vinte anos... Sonho, ou vida?

    Se foi sonho, não é mais.

    Se for vida, foi perdida

    Em saudades. Nada mais.

    Dirão os amigos:

    Amar vinte anos

    Sem ser correspondida.

    É coisa de poeta.

    E eu aqui comigo!

    Mas eu, modéstia à parte,

    Sou poeta. 

 

2) Vinte anos... Isto mesmo: vinte anos. Hoje nem dá para acreditar que eu passei vinte anos amando um ser que nunca existiu. Ou melhor, que só existiu na minha cabeça. Algo qualquer, quem nem chegou a um homem e eu vesti de Deus, de ideal. Despertei muito tarde, sim. Mas o importante é que eu despertei e que consegui me libertar desta doença, este pesadelo. 

 

3) Afinal, qual era a de Lilinha? Acordou muito cedo. Paramentei-a. Lavou o rosto, tomou água e, antes de tomar o café, dormiu de novo. 

 

5) Hoje eu não estou bem. Sinto uns arrepios por todo o corpo. O que será? Será espiritual ou material? Estou desanimada. E até agora que já devem ser mais de 13 horas ainda não fiz nada. A casa está um reboliço. Tanta coisa pra fazer e eu sem nenhum pouco daquele antigo dinamismo que me movia. Se eu pudesse, hoje, eu só ficava deitada. Acabei de ler um livro bobo sobre noções bem rudimentares de psicologia que não me acrescentou nada. Só por ler. E só pra perder tempo. E só para ficar revoltada. Fico furiosa quando descubro que perdi meu tempo com um livro, com um filme, ou com conversas inúteis. Anteontem mesmo, fui dormir 3:30 horas da madrugada assistindo uma porcaria de um filme que só me decepcionou. “55 dias em Pequim”. Com Ava Gardner, Charleston Heston e David Niven. 

 

6) Tem algum espírito querendo se comunicar comigo? Se tiver que venha logo e escreva logo. Sim? Quem é?

 - Manoel Leite Sampaio

 - O que você quer me dizer?

- Clotilde, eu estou feliz porque você busca ser escritora e você vai conseguir.

 

7) Só isso que você quer me falar, seu bobo? Nem sei se é você mesmo quem está falando. Já me falaram (vocês espíritos) tantas mentiras a esse respeito, que eu já não quero mais nem acreditar em mais nada do que vocês dizem, pelo menos até que me provem o contrário.

 

8) Se eu continuar acreditando nas bobagens e mentiras que esses espíritos dizem, eu vou acabar não fazendo mais nada na minha vida. 

                                                                                                    Clô

 

ONDE EU FUI TE ENCONTRAR

                       Para Aoud Id

 

Num sonho quase louco, imaginário, 

Numa ilusão vaga, perdida, além, distante,

Num ideal audaz, soberbo, extraordinário, 

Na estrela mais bonita e cintilante.

 

Nas trevas da extinção de uma lembrança,

Na luz que, ao longe, brilha em casa alheia,

Na sacra redenção de uma esperança, 

Num sorriso primor de lua cheia.

 

Atrás de altos píncaros, baixos montes,

Atrás a veste azul do firmamento,

Atrás de nuvens cheias de horizontes,

Atrás do mais sublime pensamento.

 

Num gargalhar de dor, forte, estridente,

Na lágrima de uma sã felicidade,

Na voz da solidão muda, silente,

No anseio que acompanha uma saudade.

 

Nas ondas de águas verdes do oceano,

Na praia escancarada ao sol festivo,

Na vida onde eu fugi do desengano,

Na morte da ilusão disto que eu vivo.

 

              Clotilde Sampaio

 

  Brás, São Paulo, (provavelmente em 1963, pois se trata de uma das primeiras poesias do livro cinza encadernado).

 

IV – 11/09/85 – quarta-feira – 9:30 horas. (Monte Cristo)

1) Será que eu versejo? Ou será que eu poeto? “Pauliceia? Só utopia. Privilégios? Só boato. Força-motriz mesmo e o trato desta constante euforia e desta eterna alegria”.

 

2) Ai, Gohonzon, Gohonzon, eu estou com uma dúvida tão grande... Gostaria de não ter mais religião nenhuma. Porque, no fundo no fundo, tenho dúvidas de todas. E o pior, é que essas dúvidas são bem fundadas. Num sei. Eu não acredito mais em nada. Tudo o que eu tenho feito ultimamente, é só por fazer. Sem nenhuma convicção, sem nenhuma paixão. Mas: vou rezar mesmo assim. Quem sabe eu consiga me reencontrar? Me ajude, Gohonzon. Se tu és verdadeiro me ajude a sair dessa o quanto antes. Que eu já não me suporto mais assim.

 

3) Ah! Gohonzon, Gohonzon. Estou cansada da vida, Gohonzon. A coisa mais triste que pode existir, é uma pessoa sem fé. E me roubaram a fé. O que é que eu faço, Gohonzon? Antigamente, ainda eu tinha espírito de procura, coragem para continuar procurando coisas novas, fazendo novas tentativas, desejando conhecer o desconhecido. Agora nem isso mais eu tenho. Procurar mais o que? Tentar mais o que, se tudo acaba sendo a mesma coisa? 

 

4) Antoninho Mattos... não foi só o mulato mais lindo que eu conheci na Bahia como também em toda a minha vida. 

                                                                          Clô

quinta-feira, 20 de abril de 2023

ANSEIO

                           Para Aoud Id

 

Anseio dar-te tudo aquilo que tu queres.

Anseio dar-te tudo aquilo que mereces.

Mas não pretendo te entregar à outras mulheres,

Nem ser, tampouco, esta que tanto desconheces.

 

Anseio dar-te à luz do sonho, à luz da vida. 

Anseio dar-te o Céu inteiro; e, se pudesse,

O mar também, as águas azuis, de anil tingidas,

E toda a ventura que o Universo contivesse.

 

Anseio dar-te, na beleza nua e calma

Da nuvem cinza, quando lá no Céu passeia,

Toda a ternura deste amor que trago n’alma,

Todo o braseiro deste sol que me incendeia.

 

Anseio dar-te, num só beijo, o mais ardente,

De todos os outros que já dei aos lábios teus,

A minha vida: sim, eu te darei como presente

Só para sentir-te um pouco mais nos braços meus. 

 

                             Clotilde Sampaio

 

   Brás, São Paulo, (provavelmente 1963, dos primeiros poemas do livro cinza encadernado).

 

 

 

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

III – 10/09/1985 – terça-feira, 2:10 horas. (Monte Cristo)

1) Acho que essa dor de barriga veio só para me fazer levantar cedo e rezar. Deve ter sido o Gohonzon quem me acordou. O Gohonzon sabe que eu preciso rezar. O Gohonzon sabe de tudo muito mais que eu. Ontem depois que eu rezei e pensei que iria ficar melhor fiquei pior. Por que será? Foi aí que apertou aquela depressão, aquela angústia, aquela ansiedade não sei de quê nem porquê. Será que alguma coisa está para acontecer comigo? Não, meu Gohonzon. Eu não quero que nada de mal esteja para acontecer com relação aos meus filhos. Comigo, pode acontecer o que o senhor quiser. Mas com meus filhos, não. Eu quero morrer bem antes. Certo? Meus filhos são a minha vida. E a minha razão de eu ainda estar viva. Lilinha é tudo para mim. Se não fosse ela, eu já não teria mais porquê viver. Eu quero é me reencontrar e ter muita alegria de poder continuar levando a vida em frente com ânimo e coragem. E com muita alegria de viver. 

 

2) Um branco total constante. O que não é normal para minha cabeça que está sempre, constantemente acostumada a pensar. Lilinha dorme. Tadinha. Quer se comunicar com a gente, falar o que sente e o que quer, e não sabe. Esta criança, já deste tamainho, sofre tanto. É tão ruim a gente não poder se fazer entender... A minha boneca de mamãe que só a mamãe que tem, não é, filhinha? Só a mamãe que tem uma boneca bonita e safadinha e semvergoinha dessa, não é, filhinha? Só a mamãe que tem mesmo. Mais ninguém tem. Não é, filhinha? 

 

3) A minha mãe...Como estará? Cada vez que eu penso nela e no estado em que ela vive, o meu coração acelera. Com que destino eu nasci, meu Deus. Nada na minha vida está certo. E, por mais que eu faça para consertar, não consigo. Passei a vida inteira lutando para ver se punha as coisas mais ou menos em ordem. E não consegui. Agora já se esvaíram todas as minhas forças. Uma vida se passou, e eu não fiz nada. A não ser encaminhar os meus filhos para que, da geração deles em frente, a vida decorra de uma forma mais decente. Mais digna de ser vivida por gente. 

 

4) Coitadinho do Ita. Se fosse outro menino, desertava, não queria nem saber. Ao contrário, tem a responsabilidade de uma família nas costas dele. E agora, mais uma vez, a bomba estourou na mão dele. Está com tanta coisa pra pagar e sem dinheiro. Vitória lhe prometeu que lhe daria um dinheiro até hoje, e pisou na bola com ele. Como está pisando com todos nós. Sinceramente eu não sei o que ela está fazendo com o dinheiro das costuras. Se não está adiantando ela lutar tanto, é só vender as máquinas e partir pra outra. Tudo vale como experiência. O que ela não pode é continuar se matando, por nada. Tem coisa que, segundo as próprias palavras dela, para alguns dão certo, para outros não. 

 

5) Engraçado! Um dos meus ouvidos fede e o outro não.

 

6) 255-9911 – Viso Center – Cirurgia Plástica.

 

7) M M M M M M 

 

8) (diálogo espiritual e rabiscado. “Clotilde você precisa falar com Jorge Amado sobre o seu livro.”)

 

                                                    Clô

 

ENIGMA

           Para o poeta Jehová de Carvalho

 

Após... nosso primeiro último instante,

Vejo... que foges. Sinto... que te esquivas.

Por que?... Poeta?... Pois quem sou eu... para?...

Ou... Sou-te, assim... Tão significante?...

 

A ponto de... inibir... tua excessiva

Tão decantada “exibição de tara”?...

Neste teu... me agravar, desagravante,

Eu, impotente, estou... Tão importante!...

 

Que até... tomaste a branda iniciativa

De me evitar... (de forma, um tanto insana)

Por todos os dias... (de todos estes dias).

 

...De tudo quanto, só por mim, te privas...

- Espera, Amor! (Só mais... esta semana).

E eu te devolvo... intacta... a Bahia!

 

                                 Cloty... Sampahia

 

          Politeama, Salvador, 09/04/1985, terça-feira.

sábado, 15 de abril de 2023

II – 09/09/85 – segunda-feira (Monte Cristo)

1) Aniversário da Vitória! 24 aninhos! Puxa! Como passa o tempo! Ainda outro dia ela era uma menininha magrinha, moreninha, de janelinha dental na boca, sobrancelhas muito grossas, risonha, brincalhona. Agora, já uma mulher esforçada, responsável, sofrida e bonita. Ah! Meus filhos, meus filhos! Eu quero tanto que vocês sejam todos bem sucedidos e felizes. Vitória deveria ter vindo aqui ontem e não veio. Será por qual motivo? Deus ajude que com ela e com os seus empreendimentos esteja tudo bem. Mas ela virá quando será? Eu fico meio apreensiva. Será que ela não veio porque ainda não tem o dinheiro para me pagar? Ou será porque, mais uma vez, ela está querendo se distanciar da gente? Mais de um mês sem eu vê-la. Mais de um mês que ela não vem em casa. E tem passado aí perto. Tanto para vir em Suzano quanto para ir na Faculdade em Mogi. Por que não tira um tempinho e vem mais cedo e passa aqui?

 

2) Devo rezar primeiro? Devo primeiro arrumar a casa? Ou devo continuar escrevendo? Três opções e eu indecisa entre as três. Mas, enquanto Lilinha ainda dorme, e enquanto não me decido, continuo escrevendo. Uma dorzinha de barriga enjoada está querendo apertar. E se apertar vou precisar me levantar daqui e ir até o banheiro. Princesa deu cria ontem. Sete cachorrinhos! Conta de mentiroso. Duas fêmeas e cinco machos. Conta de mentiroso outra vez, mas verdadeira. Realmente, desta vez ela conseguiu uma proeza rara. Ter mais filhotes machos que fêmeas. São todos da cor dela. Brancos e amarelos. Bonitinhos. Todo cachorrinho, enquanto pequenininho, é uma gracinha. Depois que crescem é que ficam feios. Por que é que crescem? Por que é que a gente cresce? Deveríamos ficar sempre pequenininhos, engraçadinhos, irresponsáveis e felizes. Os meninos estão se divertindo com os cachorrinhos. Leandro veio me perguntar onde deveria fazer a casa para eles. Já deve ter feito. E já deve ter feito a mudança deles do mato para um lugar melhor. 

 

3) Ah! Num sei. Nem quero saber. O que eu sei é que tenho que tomar o Dobesix que ainda não tomei. Estou com frio. E com uma fisionomia muito feia. E sem vontade de fazer nada. Deveria aproveitar enquanto a Lilinha dorme e me deitar também. Mas ao mesmo tempo fico com dó. O Ita, a Jussara, a Vitória, (sabe lá Deus como) estão todos se sacrificando enquanto eu aqui, totalmente à toa? Mas é esta falta de sol que me faz ficar assim desanimada. O sol hoje está também tão indeciso quanto eu. Toda hora fica sem saber se sai ou não sai.

 

4) Não tenho fósforo para acender o fogo nem para rezar. Preciso pedir à Miriam alguns palitos. Daqui à pouco Liliam acorda. E eu preciso dar o café para ela. Sol (....). Frio. E eu nesta “intenguidez” desanimadora. Ao Gohonzon eu devo tudo o que tenho. E também tudo o que já não tenho. Por isso essa indecisão: devo continuar rezando ou não? Papel, eu te respeito. Eu te respeito, papel. Gosto mais de você sem a minha mácula, que com ela. Os meus pensamentos, também ficam bem melhores só comigo, que escritos. 

 

5) Estou quente, queimando. De um fogo que está me incomodando. Preciso aliviar-me desta tensão. Preciso fazer amor comigo mesma. Dá licença. Desta vez com quem? Quem encarnará o objeto figurado? Aoud? Jehová? Ou os dois? Veremos. 

 

6) Foram os dois. Como se fossem uma só pessoa. Jehová é de uma sensualidade destemida e Aoud de uma sensualidade comprimida, inibida, medrosa. Coitado. Por isso, viva Jehová! Que não tem medo de nada. E que assume. Onde for e com quem for. É pau pra toda obra. Vivas para Aoud! E vivas e palmas para Jehová! Pena é que eu não pude conhecê-lo quando jovem. Tenho certeza que teria sido eu o grande amor da vida dele. E ele o grande amor da minha vida. Mas ainda não é sem tempo. Pelas quatro ou cinco que demos, houve de fato, entre nós, uma bem forte atração. Ele foi magnífico. Eu creio que também não o decepcionei. E quero voltar à Bahia à sua altura. Para isso, estou me empenhando. E para isso, que estou escrevendo. E para isso que quero ser reconhecida brasileira e internacionalmente como uma grande poeta e escritora. 

 

7) Vamos dar mais uma, Jehová? Ainda está coçando. Ainda estou no cio. Me salve. Jehová, faça o que quiser de mim, sim? Assim, eu te aguardo, enquanto você me aguarda. 

 

8) E seremos uma apoteose. Salvador Praia Hotel, com todos os seus requintes, aguarda-nos. Nós, os Deuses, brevemente o honraremos com a nossa presença. Jehová, você pode. E só você vai me dar aquela felicidade que eu procuro. E pela qual luto. E sem a qual nem tenho necessidade de viver. Jehová, meu Deus Jehová, só você pode me salvar. Estou prestes a deixar tudo que tenho aqui, por você. E, se você me decepcionar, serei mais uma desertora da vida. 

 

9) Lilinha acordou brava às dez para as dez. Tenho tanta coisa pra fazer. E ainda indecisa. Preciso rezar para dar mais ênfase e decisão à minha vida. Creio que é o que eu vou fazer após dar o café à Lilinha. Preciso mudar o ralo desta janela para outra janela. Aqui ela está entupindo todo o esgoto da pia. Esse terreno está um lixo. Preciso dar um jeito de carpi-lo e de limpá-lo. 

 

10) Que nariz, Lilinha! Só você tem desse nariz. Mais ninguém tem nariz igual ao seu. Isso é que é nariz. E o dia inteiro produzindo catarro. Incessantemente produzindo catarro. Não há quem vença limpá-lo. Tomar remédio... café, não é? Depois você já pode fazer a arte que quiser. Não pode lamber a pia. Mamãe bate aqui, ó, Boquinha. Seu marido, o Juquinha. Seu filhinho, o Juquinha, já começou a falar. (...) E o papai disse a chorar. Meu Lulu mordeu sua sogra, não sei como aconteceu. Lá lá lá lá lá lá lá lá. É Que o Lulu morreu. Enquanto dou café para Liliam ligo a televisão no canal 7 para assistir “A mulher dá o recado”. Bom programa. Melhor do que o “TV Mulher”. “Faça você mesmo”. É o que está passando.

 

11) Preciso rezar. Quando eu sinto esta ansiedade, este sufoco, é porque realmente preciso rezar. E eu, que prometi tanto ao Gohonzon e que vergonhosamente não estou cumprindo nada. Eu creio no Gohonzon, eu respeito a filosofia Budista. O que me faz duvidar são as pessoas. Esse jeito, este método que eles usam para fazer a nossa cabeça para impor o que a gente deve e não deve fazer. Essa lavagem cerebral que eles querem, a todo custo, fazer com os membros. Religião, para mim, não é isto. Por isto essa apatia, este ceticismo que, no fundo no fundo, eu não gostaria de ter, mas que obrigam a ter. O ideal seria se eu pudesse “descascar todas as tintas com que me pintaram” o cérebro, como diz Alberto Caieiro, e me sentir livre. Independente, no fundo, o que eles cada vez mais me convencem é que toda religião não passa de “empregos” para alguns tirarem proveito pessoal da ingenuidade dos demais. 

 

12) Os teus cifrões não cobrem os teus chifrões. Avisa-lhe e abraça-lhe um dos teus. Patrícios, amigos e sócios (inclusive nos teus cinco “legítimos” filhos). 

             Caro Patrício, Amigo e Sócio. 

             Os teus cifrões não cobrem os teus chifrões.

          Avisa-lhe e abraça-lhe um dos teus sócios, inclusive nos teus cinco (legítimos?) filhos.

 

13) É como se eu estivesse vivendo meus últimos momentos. Nada mais me atrai. Nada mais me convence de nada. Nada, ou quase nada, mais tem importância. Sinto-me presa, abafada, dentro de mim mesma. E a única coisa que eu aspiro é me libertar. 

 

                                                                                                                                   Clô