sexta-feira, 21 de abril de 2023

V - 12/09/85 – quinta-feira – 7:30 horas (Monte Cristo) – VINTE ANOS

1) VINTE ANOS

 

    Vinte anos... Sonho, ou vida?

    Se foi sonho, não é mais.

    Se for vida, foi perdida

    Em saudades. Nada mais.

    Dirão os amigos:

    Amar vinte anos

    Sem ser correspondida.

    É coisa de poeta.

    E eu aqui comigo!

    Mas eu, modéstia à parte,

    Sou poeta. 

 

2) Vinte anos... Isto mesmo: vinte anos. Hoje nem dá para acreditar que eu passei vinte anos amando um ser que nunca existiu. Ou melhor, que só existiu na minha cabeça. Algo qualquer, quem nem chegou a um homem e eu vesti de Deus, de ideal. Despertei muito tarde, sim. Mas o importante é que eu despertei e que consegui me libertar desta doença, este pesadelo. 

 

3) Afinal, qual era a de Lilinha? Acordou muito cedo. Paramentei-a. Lavou o rosto, tomou água e, antes de tomar o café, dormiu de novo. 

 

5) Hoje eu não estou bem. Sinto uns arrepios por todo o corpo. O que será? Será espiritual ou material? Estou desanimada. E até agora que já devem ser mais de 13 horas ainda não fiz nada. A casa está um reboliço. Tanta coisa pra fazer e eu sem nenhum pouco daquele antigo dinamismo que me movia. Se eu pudesse, hoje, eu só ficava deitada. Acabei de ler um livro bobo sobre noções bem rudimentares de psicologia que não me acrescentou nada. Só por ler. E só pra perder tempo. E só para ficar revoltada. Fico furiosa quando descubro que perdi meu tempo com um livro, com um filme, ou com conversas inúteis. Anteontem mesmo, fui dormir 3:30 horas da madrugada assistindo uma porcaria de um filme que só me decepcionou. “55 dias em Pequim”. Com Ava Gardner, Charleston Heston e David Niven. 

 

6) Tem algum espírito querendo se comunicar comigo? Se tiver que venha logo e escreva logo. Sim? Quem é?

 - Manoel Leite Sampaio

 - O que você quer me dizer?

- Clotilde, eu estou feliz porque você busca ser escritora e você vai conseguir.

 

7) Só isso que você quer me falar, seu bobo? Nem sei se é você mesmo quem está falando. Já me falaram (vocês espíritos) tantas mentiras a esse respeito, que eu já não quero mais nem acreditar em mais nada do que vocês dizem, pelo menos até que me provem o contrário.

 

8) Se eu continuar acreditando nas bobagens e mentiras que esses espíritos dizem, eu vou acabar não fazendo mais nada na minha vida. 

                                                                                                    Clô

 

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