sexta-feira, 27 de junho de 2025

XVI – 27/01/86

XVI – 27/01/86 – segunda – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) João telefonou logo de manhã. Disse que Vitória foi ontem na reunião de Tikusá em Salvador e que está bem animada a morar lá. E que ela está decidida a praticar na Divisão das Moças e que chegou tarde, não mais encontrou matrícula para a faculdade. Mas que vai descansar neste semestre, por a vida em ordem e no fim do ano termina. Ótimo. Estou contente com isso. disse que estão procurando casa. Mas que Rosinha está desanimada e não foi na reunião de ontem. E que vão ficar lá até o carnaval ou até arranjar casa. Que ela fique lá e que faça sua felicidade lá está ótimo. Não precisa Rosinha ficar. Ela é ela, e tem que pensar nela. Rosinha é Rosinha. Vitória tem que fazer a vida dela independente da Rosinha. Cada uma é cada uma. Oxalá também Jussara fosse para lá pra mudar de vida e ser alguém também. Só assim eu viveria menos preocupada e melhor. *(abaixo mensagens psicografadas).

 - Clotilde, você tem que ser a maior poeta do Brasil agora. Mande o seu livro para a Global.

 - E sobre Aoud?

 - Aoud te ama. Ele está querendo que você volte pra ele.

 - Ele vai fazer o que eu vou pedir pra ele com relação à Jussara? 

 - Sim. 

 - Se eu pedir um carro pra ele, ele me dá?

 - Sim. 

 

2) Ita disse que levou o carro hoje no funileiro para orçar a funilaria. Vai ficar em oitocentos mil cruzeiros fora a pintura. Ita disse que está barato porque tem muita coisa para ser feita: desamassamentos, ferrugens e podridão.

 

3) Transcrição completa do poema NUNCA ME DEIXES SÓ. 

 

                                                                                                      Clô

XV – 26/01/86

XV – 26/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) Estou esperando desde o fim de semana que alguém da Bahia. Mas ninguém se toca, nem eles, nem o telefone. Resolvo falar com Claudete do Pelourinho. E ela me disse que estava doente e que está participando do filme Jubiabá, que está sendo feito em Salvador e Cachoeira. Disse que sua participação é de atriz (e não extra) e que faz o papel de uma pessoa mais ajuizada do Pelourinho, que aconselha as prostitutas para mudarem de vida. Chamou-me para ir para lá, ofereceu-me a sua casa. Disse que vai ver sobre apartamento para alugar tanto no seu prédio quanto em outros vizinhos. Contou-me que Clarindo é candidato a deputado estadual. À noite telefonei para Clarindo e ele confirmou: é candidato pelo PMDB que é o partido mais em evidência no momento em Salvador. Aconselhei-o a ir para o PTB. Disse que talvez até mude mais tarde. E que vai precisar de trinta mil votos para se eleger. – Você ganha sim. Você tem o dom de fascinar as pessoas. Não há quem resista ao seu charme, disse-lhe eu. De fato, Clarindo é o negro de alma luminosa. Brilha tanto, clareia tanto, que, se não fosse a sua pele negra, que funciona de quebra contra sua luz, diante da sua pessoa, ficaríamos todos irremediavelmente cegos, diante de tanto fascínio para com tanto brilho.

 

2) Chegamos atrasadas, eu, a Dinorá e a Liliam à reunião de Tikusá das 15 horas de hoje. Já havia passado o Gongyo e a 2ª parte da palestra já havia começado também. Arimura estava lá. Foi o último a falar e disse coisas importantes respondendo a algumas perguntas feitas por alguns dos outros membros que enchiam, superlotando o salão Kadono. Entre outras coisas que vi, entrou e veio a calhar em mim (pelo menos eu senti que talvez fosse para comigo mesma que ele orientava): que não adianta a gente sair de um lugar para tentar ser feliz noutro lugar. O que vale é a gente lutar no lugar onde já se está. E eu pensei: então por que é que ele saiu do Japão e veio para aqui? Na saída, Akytian e Dona Miê, ao me cumprimentarem, se referiram ao mesmo assunto: que eu não deveria ir, que o meu lugar de luta é aqui. E Akytian contou que Kaoro, seu irmão, foi pra Rondônia, está muito bem e lutando bastante. E eu falei: mas a Sra. Nagasawa também não veio do Japão para aqui? Não é aqui que ela se sente bem? Dona Miê disse que ela veio conhecer o Gohonzon aqui. – Mas muita gente que já tinha o Gohonzon lá também veio pra cá já com o Gohonzon. E Kaoro também não foi para Rondônia com Gohonzon e não está se sentindo muito bem lá? E João também que foi pra Bahia não ficou bem lá? Então. Quando a gente não está bem num lugar mesmo com Gohonzon é melhor tentar outro lugar e recomeçar uma nova vida. Quem sabe é lá o meu lugar? 

 

3) Sabe no momento de quem mais tenho inveja? Daqueles que estão deitadinhos, quietinhos, sossegadinhos, escondidinhos, mortinhos, desfrutando alheios e despreocupados de todo o conforto, deliciosamente repousante das suas respectivas sepulturas. 

 

4) Dual, dualidade, dueto. Dividida em duas... De repente sou duas habitando em mim mesma, ao mesmo tempo. E é aquela briga de foice violenta e contínua entre as duas, no meu íntimo. Cada qual delas quer dominar-me mais, quer apoderar-se do mais do meu corpo e, no momento, quem está ganhando é a mais forte, é a que reúne todas as qualidades suas: a negativa, depressiva, covarde, desanimada, a que só quer morrer. Esta é a mais forte, a mais dominadora. A outra, a positiva, a alegre, corajosa, ambiciosa, otimista, ousada, diante da presença da primeira, quase não me comparece. E quando vem, nem tão rápido e com tanta pressa, que mal eu a sinto, e ela já me deixa. E eu fico entregue aos cuidados da outra por tanto tempo, que até perco as esperanças de que a positiva volte. E é tanto e tão forte a influência da má que eu às vezes quero desistir de viver. E é quando ela quase consegue atingir sua meta que é a de me destruir por completo. Por pouco que ela não consegue. Mas temo que, desse jeito, qualquer dia conseguirá. Pois cada dia eu enfraqueço mais. E é isso o que ela quer: minar as minhas forças.

 

5) Tem hora que eu sou capaz de tudo. Tem hora que eu sou capaz de nada. 

 

6) Quem nos comanda? O cérebro. Com ele poderemos nos fixar para sempre a um só lugar, percorrermos muitos lugares ou não irmos a parte alguma. 

 

7) Num desses dias, acho que foi no sábado, amanheci e fiquei quase a tarde toda cantando esta canção bem nordestina:

      A vida aqui só é ruim

      Quando não chove no chão

      Mas se chover dá de tudo

      Fartura tem de porção

      Tomara que chova logo

      Tomara, meu Deus, tomara

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

      Enquanto a minha vaquinha

      Ficar na pele e no osso

      E puder com o chocalho

      Pendurado no pescoço

      Vou ficando por aqui

      Que Deus do Céu me ajude

      Quem sai da terra natal

      Em outros cantos não para

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

E cantava e repetia automaticamente esta música e ela não queria me deixar por nada. Achei até esquisito isto porque antes nunca me importei de cantá-la assim por inteiro nunca, e nunca ela me apareceu tão fácil e tão completamente para ser assim tão insistentemente cantada. No fundo, a única explicação que me vem é a de questão psicológica relacionada com a seca braba que, pela primeira vez desde que me conheço por gente, está fazendo aqui nos estados do sul, ou seja, de São Paulo para baixo, tão semelhantes às já costumeiras do Nordeste e à minha pretensão de deixar São Paulo para sempre e ir me para a Bahia. Talvez inconscientemente eu tenha me posto na pele de um nordestino que pensa vir mas não está ainda bem decidido se deve vir mesmo para o Sul na hora do desespero como é o que está acontecendo comigo exatamente neste momento: ao mesmo tempo que penso ir, penso também não ir. 

 

8) Depois do Tikusá, passamos na casa da Jussara. (É o 2º domingo que ela não vem em casa e que eu vou vê-la). Eu não gostei nada de vê-la como está. Pálida. Branca por falta de tomar sol. Não passou de ano. E não quer mudar para melhor o seu estilo de vida. Pelo menos confessou que não quer ir para a Bahia. Prefere ficar como está, com o namoradinho bobo, mole que arranjou, com os colegas que não estudam e que se acomodam como estão. Está muito contente de estar com eles, e com a mesma mentalidade pequena que eles têm. Só trabalhar em qualquer emprego, pagar um aluguel barato de um cômodo e cozinha qualquer em qualquer lugar, comer, dormir, namorar, sustentar e dar mordomias a todos os namoradinhos bestas que arranjarem e aos gatos que fazem parte da família. Bela vida. Bela droga de vida. Bela droga, sem objetivos. É fácil viver assim. Tranquilamente, sem se preocupar com um futuro melhor, sem se preocupar em ser alguém de gabarito na vida. Como se a vida só fosse isso. Só que a vida não é só isso. Ela precisa de partir para uma realidade mais alvissareira que as dela, muita coisa para poder se manifestar. Não reza, não luta, não tem ideais, não tem objetivos incomuns. Só está desperdiçando juventude e beleza à toa. E não enxerga.

 

9) Só agora Miriam resolveu falar (e não pra mim) que o meu filho João, quando morava lá na casa da avó, quando tinha quatorze anos mais ou menos, desrespeitou-a, ou seja, perdeu o respeito que deveria ter para com ela, sua tia. Fico perplexa, porque não foi esta a educação que dei a ele. E porque aqui dentro de casa eu nunca soube ele ou o Ita tenha desrespeitado nenhuma das irmãs, nem a Dinorá, que sempre morou aqui conosco. Será que aconteceu mesmo? Ou ela só está falando isso porque eu falei do filho dela? E, se aconteceu, por que ela não me contou na época em que aconteceu? Ou melhor, porque ela nunca me contou? Por que ela continuou com amizade com João? Por que só agora eu vim a saber disso pela Matilde e não por ela própria? Na primeira oportunidade quero por tudo isso em prato limpo, acareando os dois, frente a frente, para saber seja qual for e descarar o João se ele for culpado ou se ela tiver fazendo uma calúnia. Essa história está tão esquisita quanto a história da criança que dizem que é do João e da sobrinha da Dona Iracy e que todo mundo só foi saber depois que o João já tinha se casado com Ari.

 

10) Hoje a música que mais me pediu para que eu a cantasse foi aquela do Lupicínio Rodrigues:

      Você sabe o que é ter um amor

      Meu senhor

      Ter loucuras por uma mulher

      E depois encontrar esse amor

      Meu senhor

      Nos braços de um outro qualquer.... (Nervos de Aço, reescrito na íntegra)

 

11) Minha querida e inesquecível mais que mestra Dona Marina Augusta Vicente Caetano. 

 

12) Ita chegou às 22:30 horas de Bertioga e disse que Meire estava triste porque estava pensando que eu estava com raiva dela por ciúmes dele, meu filho. Telefonou a ela e disse que eu estava com a cara feia. Perguntou a ela se queria falar comigo. Ela não quis. E ele desligou dizendo-me que ela me mandou um beijo. Não dei a mínima. 

 

13) Fomos dar umas voltas de carro eu, Dinorá e Liliam após sairmos desajeitadamente e chateada da casa da Jussara. Na volta, vimos um ônibus parado e uma mulher caída à beira do muro como se morta. Rodeada de gente. Parei o carro e perguntei a um moço que passava o que tinha acontecido e ele disse que a mulher estava bêbada e fora atropelada pelo ônibus. Já íamos vê-la quando vimos o motorista e o cobrador do ônibus pegando-a e colocando-a dentro do ônibus. – Será que eles vão leva-la para o hospital? Falei para a Dinorá. – Dá medo deles pegarem a mulher e jogarem em qualquer lugar só para se livrarem dela. Pois o ônibus está vazio, só com o motorista e com o cobrador. E o certo era eles chamarem a polícia. Vamos atrás deles? E viramos o carro e fomos até o Hospital São Marcos sem ver o ônibus à nossa frente. Pensamos até que ele tinha descido para a Nove de Julho ou tomado outro rumo qualquer e desaparecido. Mas quando chegamos lá o ônibus ali estava em frente ao São Marcos. Dei a volta por trás do hospital e, quando ia passando em frente, vimos a mulher sendo conduzida do ônibus por maca para dentro do hospital. E o motorista do ônibus, de cor, indo atrás, para dentro do hospital. Louvei a atitude deles. Vieram à toda, tanto que sumiram de nós na estrada. Deram tudo que puderam para conduzir a mulher o mais depressa possível até o hospital. Ainda bem que tiveram consciência. Já pensou se não tivessem? Poderiam nem ter parado o ônibus. Terem ido embora deixando a mulher caída lá onde foi jogada e também jogar ela em qualquer lugar ermo, só para se livrarem da dor de cabeça e da responsabilidade que iriam ter. Ainda bem que foram humanos. Engraçado, né tia, eles falam tanto de gente preta, e o motorista é preto, e foi humano, falou-me a Dinorá. – E gente preta é gente boa. São mais gente do que qualquer branco, respondi-lhe.

                                                                                                                                  Clô  

quarta-feira, 25 de junho de 2025

XIV – 25/01/86

XIV – 25/01/86 – sábado – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) Dia do aniversário de São Paulo e dia do aniversário do Prefeito Jânio Quadros.

 

2) Acordei com uma dor de cabeça tremenda após sonhar um sonho todo muito louco que eu lembrava ao despertar mas, como não o pus na cabeça, se foi completamente. Resolvi que ia me encontrar com Antônio no Hotel Luz, Praça Júlio Mesquita. E fui. Fiquei contente ao revê-lo. Mas não foi aquela emoção de loucura que eu cheguei a ter por ele um dia lá na Bahia. Hotel luxuoso, bem confortável mesmo. Ele estava o mesmo. Evitou falar das coisas desagradáveis, como sempre ele foge. Também, e por isso mesmo, eu já não o considero tanto como antes. É só, ou até menos que amizade. Mas ele me ensinou a entender e a conviver com esse modo de viver que antes eu não sabia. Tivemos sexo só por (...). Senti-o apenas sexualmente sem aquele apego, sem aquela pretensão de posse, sem aquele egoísmo de antes. Talvez eu seja agora assim até com Aoud. Serei capaz de fazer sexo com ele só pelo sexo, sem nenhum interesse senão esse, sem aquele desejo, sem aquele apego, sem aquele amor, sem aquele ciúme, sem aquela possessão. Aprendi isso na Bahia com Antônio e com Jehová. E me senti tão bem comigo hoje. Me achei tão linda. Isto agora, no instante em que estou escrevendo. E também na hora que estava com Antônio. Após deixá-lo no aeroporto de Cumbica, outra Clotilde se incorporou em meu corpo. E eu vim pra casa depressiva, angustiada, sem motivação, sem objetivo nenhum de viver. Nem de lutar por ela. Estou sentindo que ultimamente sou duas pessoas ao mesmo tempo: uma completamente de bem com a vida, outra completamente contrária a ela. E tem sido uma luta conviver com as duas. Não sei qual delas vencerá no final. Torço para que seja a primeira, a otimista, a lutadora, a cheia de vida e de vontade de viver. Esta que estou encarnando agora neste momento às 2:40 horas da madrugada do dia 26/01/86, domingo.

 

3) Conversei, depois de trinta e dois anos ontem, sexta-feira, com Dona Maria Augusta Vicente, minha professora do 4º ano primário. Ela se lembrou de mim, disse que ainda tem o meu caderno de linguagens e que sempre, toda a vida, se lembrou de mim. Foi tanta emoção que até chorei. Aquilo sim que foi e que pode ser chamada de professora.

 

4) Conversei com Aoud também mas foi só decepção. Ele se mostrou frio, arredio. Pediu que lhe telefonasse a semana que vem para marcarmos encontro. Me pareceu triste e decepcionado com alguma coisa. Será que foi porque eu “fui pra Bahia” e não ter lhe telefonado de lá como ele pediu? Chamei-lhe de meu amor. Parece-me que ele ficou mais dócil. Vou continuar a chamá-lo assim. E o Gohonzon vai  ajudar que tudo vai voltar a mudar para o ideal entre nós. E ele será feliz e eu também. E os filhos só ganharão com isso. 

 

5) Ita foi para Bertioga contra a minha vontade. Está chovendo e a estrada para lá é muito perigosa. Foi onde, há poucos dias, faleceu o filho do João Gravé e mais três pessoas: o amigo e a namorada de não sei se dele, se do amigo. Fiquei de cara feia e ele me beijou e saiu dizendo para que eu não me preocupasse com ele. E saiu de Jipe. Só volta amanhã à noite. Como não me preocupar? 

                                                                                                                            Clô

 

                                                                                                                                                                                       

terça-feira, 24 de junho de 2025

XIII – 21/01/86

XIII – 21/01/86 – terça-feira - Jardim Monte Cristo - SUZANO - SP

1) Poema/soneto ZERO A ZERO – reescrito na íntegra

2) Poema/soneto ESTÁ ESCRITO - reescrito na íntegra

3) Poema/soneto VIDA E MORTE - reescrito na íntegra

4) Poema/soneto INDIFERENÇA - reescrito na íntegra

5) Poema/soneto ENIGMA - reescrito na íntegra

6) Poema FUNÉREO - reescrito na íntegra

7) Poema TESTEMUNHA DE JEHOVÁ - reescrito na íntegra

8) Poema É PENA - reescrito na íntegra

9) Poema POR ENQUANTO - reescrito na íntegra

10) Poema/soneto SOMENTE AMIGOS, SIM? - reescrito na íntegra

11) Poema/soneto NÃO VÊS? - reescrito na íntegra

12) Poema/soneto TEIMOSIA - reescrito na íntegra

13) Poema/soneto TRISTEZA - reescrito na íntegra

14) Música/samba – ALGO MAIS - reescrito na íntegra

15) Música – COBRANÇA - reescrito na íntegra

16) Música – EXALTAÇÃO - reescrito na íntegra

17) Música/bolero – FAÇA O QUE QUISER - reescrito na íntegra. 

                                        Clô

XXXIX – 24/02/86 – segunda-feira

1) Assim como estou treinando escrever sobre o presente e estou quase boa, devo também treinar escrever sobre o passado, só pra conseguir me soltar mais e ser mais natural. E é o que eu vou fazer daqui por diante, descrevendo sempre qualquer coisa que já passou.

2) CÂNTICO NEGRO – de José Régio (* a autora reescreve o poema todo na íntegra).

 

3) Covardia nos homens que se dizem Homens 

    Medo nas mulheres que se dizem Mulheres.

 

4) Quer queira ou não queira 

    Terei que arrastar a vida 

    Até onde for preciso.

 

5) Com gesto indeciso

    Quer queira ou não queira

    Terei que puxar a fieira

    Até onde for preciso.

    Com choro ou com riso

    Relax ou canseira.

 

6) Uma vontade de morrer, meu Deus, uma vontade de morrer... Mas morrerei sem nada ter feito, não tem graça. Pois o valor da morte só consiste em se ter feito em vida alguma coisa de eterno.

 

7) Estou cansada de quê? Não sei do que estou cansada.

 

8) Se eu não consigo escrever minha estória é porque ela não quer ser escrita.

 

9) Ai Namyohorenguekyo, Namyohorenguekyo, Namyohorenguekyo. Que fiz hoje do dia? NADA. Mas poderia ter feito. Dar um jeito no direito do Prefeito. Lilinha dos meus pecados. Lilinha da minha cruz. Lilinha dos meus amores. Lilinha da minha vida. Lilinha, sempre Lilinha. Contida. Comprometida. Só sei que esta menininha é hoje quem me dá vida. Só sei que esta garotinha, bonitinha, engraçadinha, querida, muito querida, é quem manda em minha vida. 

 

10) O amigo do Ita, Alfredo, telefonou pedindo-me que eu o avisasse de que ele, Alfredo, extraviou o esquema deixado pelo Ita para que ele, Alfredo, assinasse a presença nas aulas da Faculdade para o Ita e que, dessa forma, o Ita está não só perdendo aulas como também perdendo presença nas aulas e que, por este motivo, poderá vir a perder o semestre.

 

11) Manipanso: fetiche africano. Será que entrei numa fria? Pois tudo que sinto, penso e falo dá poesia.

 

12) Cabeça tensa, prensou a prensa a crer na crença.

 

13) Não há nada mais chato que uma mulher casada. Não há nada mais chato que ser uma mulher casada.

 

14) Estou me acordando pela 2ª vez esta noite. A primeira foi à meia-noite. Este está sendo agora exatas duas horas. E em nenhuma delas despertou-me o desejo de escrever. O ouvido direito a doer, a coçar e a cheirar podre agora está mais dócil. Já posso varar-lhe a ponte do dedo apontador e ele não xingar. Estou com muito sono. Deixa eu dormir mais. A luz permanecerá acesa, por via das dúvidas. 

 

15) Várias vezes dormi, várias vezes acordei, várias vezes sonhei, e sempre os mesmos sonhos do mesmo teor onde as pessoas com quem eu me relacionava não tinham hábitos salutares. Pareciam mas não eram. E eu, que era, estando junto com eles, não parecia ser no fim. Ficávamos todos sendo a mesma coisa. Eles que eram e eu que não era. Que sonhos sufocantes, asfixiantes, complicantes. Ser puta... mas nem em sonho eu quero ser. Esta noite, a noite inteira, eu sonhando que eu era. Que coisa horrível. Perder o respeito dos outros e, o pior, perder o nosso próprio respeito. Não. Nunca. Nem quero que nenhuma das minhas filhas caiam nessa. Não quero que elas se decomponham. A pior coisa que existe é a decomposição de um ser humano vivo. Que pesadelo sem terror, esta noite. Em parte, ou, parecendo ser, sempre ouvindo ofensas, sempre passando por lugares perigosos, ou seja, por cima de trilhos estreitos que eram o cimo de paredes bem altas do chão que, se caísse dali nada sobraria e que eu tinha que passar porque era ali o único lugar existente pra passar. Às vezes as minhas poucas forças não davam e quase ia eu lá embaixo tudo. E sempre ouvindo pilhérias a meu respeito, sempre ouvindo ofensas diretas e indiretas. Sempre, só lutando pra salvar pra salvar a minha vida, e pra salvar a minha reputação. Ou melhor, arriscando a minha vida e a minha reputação. Que situação dolorosa! Que coisa horrível ser mulher. Deu pra mim entender o quanto é triste a vida de uma prostituta mulher. O quanto uma mulher é estigmatizada só pelo fato de ser mulher. Já começa pela família. Pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, e vai indo por todos, pela vida afora. Uma mulher, só pelo fato dela ser sozinha, já não vale nada. Ainda que ela não queira ser, mas pela sociedade, ela é. Não tem jeito. Coisa horrível. Vale a pena viver assim? “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Fernando Pessoa. 

                                                                                              Clô

                                                                                                                                                                                       

segunda-feira, 23 de junho de 2025

XXXIV- 19/02/86

XXXIV- 19/02/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Amanhã, creio, será o último dia de trabalho da Jussara no Supermercado Guaió como caixa. Daqui pra frente recomeçaremos uma nova etapa da nossa vida. Em condições mais altas, mais folgadas, e melhores, condizentes com o nosso grande merecimento. E... Bahia! Lá vamos nós invadir sua praia. 

 

2) Graças ao Gohonzon os banheiros foram desencantados ontem. Já passavam das 16:30 horas quando eu resolvi que deveria dar um jeito neles e que não deveria passar de ontem pois hoje eu teria que ir sem falta em Mogi pagar a conta do telefone e, para isso, precisaria tomar um bom banho ontem. E para este banho, antes, eu precisava limpar o banheiro e livrá-lo, pra nós, da imundície em que, de há muito, se encontrava. Estava de um jeito e com um mau cheiro insuportáveis. Ataquei primeiro pelas portas, vitrôs, azulejos, armários, pias e vasos sanitários e piso. Já passavam das nove e meia quando terminei. Dei banho na Lilinha, assisti televisão e tomei banho também. Agora sim. Que alívio! Não ficou muito bom pois o lavei de noite e só com aquela luzinha paupérrima. Mas ficou 99 por cento decente. Agora é atacar a cozinha. Talvez hoje não porque vou precisar sair. Mas, mesmo assim, o que havia demais sujo, limpei sim senhor. Eram coisas que, de tão sujas, eu nem tinha a coragem de começar. Mas o Gohonzon me deu ânimo, e que ânimo! O pior foi os banheiros. E hoje deu-me ânimo também para limpar o aparelho de som e o armário que lhe serve de base. Estavam horríveis, todos encardidos forrados de uma substância gordurosa com o pó da sujeira. Mas limpei-os assim como dei também uma limpeza mais ou menos no fogão, na geladeira, na pia e no armário embutido, e passei pano no chão. Ficou tudo mais ou menos limpo. E já me sinto melhor, mais leve. Só de pensar que não tenho mais essas coisas pra fazer tão já.

 

3) Que raiva! Ir em Mogi, só pra pagar o telefone, e não conseguir pagar. Fui ligar o carro, este não deu partida. E já eram três e meia. O jeito foi pegar a estradinha e ir embora. Estava no meio do caminho, vi passar um ônibus. Pensei “até chegar lá em cima, passe outro”. Talvez, na hora que eu cheguei na padaria pra pedir pro seu Antônio me trocar os cinquenta cruzeiros, tenha passado pois, quando cheguei no ponto, este estava sem ninguém. Senti-me a princípio calma pois, se o ônibus viesse logo, eu poderia chegar em Mogi folgada. Mas o ônibus demorou um tempão. Mais de meia hora. E eu cheguei, o banco estava fechado. Ainda insisti. Mas o porteiro deu, com simpatia, algumas desculpas, mas nada de deixar-me entrar. Eu agradeci-lhe pela gentileza e quis dar umas voltas em Mogi. Fui no Bombolinha, onde pedi um merengue, um sonho e uma coca. O merengue e a coca deliciosos. Mas o sonho, antes não sonhasse. De raiva, não paguei a coca. Fui comprar sapatos ou sandálias para mim. Não achei como gosto. Comprei uma amarelinha pra Lilinha por CR$ 39 mil e um chinelo Oceânico por CR$ 24 mil. Engraçadinho de plástico, mais barato que a Havaiana por 28 mil, pra mim usar em casa. Acho que valeu. Na volta, começou a chover. Pensei que fosse tomar uma bela chuva na hora de descer do ônibus. Mas não. Já havia passado e eu vim o mais que depressa amassando altos e grandes barros. 

 

4) Alguém vai fazer pra você o que eu não pude fazer porque não quis. Mesmo que eu não possa ver, alguém vai dizer e eu vou saber. 

 

5) Comecei a assistir o Chico Recarrey no Canal Livre da TV Bandeirantes, e nem o programa acaba nem eu pego no sono e já é tão tarde... Deve já passar das duas. Com essa já são três noites que eu não durmo direito. De repente, sinto que cochilei pois já havia acabado o Canal Livre sem eu ver e o Jornal também estava no fim. E a TV iria entrar fora do ar. Desliguei a televisão. E parece que dormi um pouco dessa vez, mas acordei com o braço doendo muito debaixo do meu corpo, de mau jeito. E me revirei, me revirei, procurando uma posição melhor. Consegui pegar no sono outra vez e acordei já eram quase oito horas com o corpo todo dolorido. Esse colchão fino sobre o chão é que está me quebrando. Parece colchão ortopédico que eu detesto. Mas será que faz bem mesmo? Ou faz mal?

 

                                                                                                                              Clô   

terça-feira, 17 de junho de 2025

XXXIII- 18/02/86

XXXIII- 18/02/86 – terça-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Outra noite em que eu não dormi de novo. Com minha cabeça entregue a variedades oriundas de toda sorte. Uma loucura que, se continuar assim, acaba me deixando louca. Não sei por que isso. Não fumei, não tomei café, não tenho preocupações. O sono faltou porque quis. Mas é a minha cabeça que cismou de virar lata com todas estas mesquinharias. Parece até que houve um ou mais sonhos entre eles, que eu não consigo me lembrar de nenhum. Mas sinto que houve uma história de amor no meio. Lembro-me mais ou menos de um sonho em que eu fiz uma laranjada, que não foi feita de laranja mas sim de lima. Dei a todos da família. Depois chegou um rapaz querendo também. Mandei que a Dinorá servisse a ele um pouco que havia sobrado na jarrra. Ele iria pegar. E eu fiquei preocupada se o que tinha sobrado teria o tanto que ele queria. E eu não tinha mais lima pra fazer mais. Deu um copo. Nisso chegou a Titila da Matilde, com aquela falinha enjoada dela, subindo na pia e pedindo também. Fiquei com raiva por causa da falta de educação daquela menina que por isso já me é repulsiva. O rapaz tomava o suco e conversava com a Dinorá. E próximo a nós uma égua (animal) nossa pastava. Ele, o rapaz, ficava comentando que a égua estava com as ferraduras imprestáveis e, inclusive, um dos pés da égua estava infeccionado. E ele disse que, do jeito que estava, ela poderia até morrer. Fiquei preocupada pois, além de não nos preocuparmos com os problemas da égua, ainda a judiávamos usando-a em montarias e a carregar peso, mesmo com ela já mancando há muito tempo. O rapaz tomou o suco e deve ter pago à Dinorá, que eu vi mexendo em sua carteira como se a guardar alguma coisa. E ela falava sorrindo para o rapaz ver qualquer coisa no banco dela pra ele. Como se já o conhecesse de há muito. Talvez ele fosse colega de escola dela. Falei com o Ita sobre o problema da égua (para ele ver e cuidar) e que o rapaz falou que ela poderia morrer. E o Ita falou sorrindo:

 - Vou ver sim, mãe. Eu sou tão relaxado. Faz tempo já que eu sei que ela precisa ser tratada e nem ligo. Mas ela pode até morrer sim. Tem que ser cuidada o quanto antes.  

 

2) Que coisa horrível! Duas vezes, no mesmo papel, o mesmo erro. Era pra eu ter começado o capítulo XXXIII aqui e não na página seguinte como fiz. Numa repetição ao erro anterior igual da continuação do capítulo XXXII. Espero que não sirva mais tarde para me confundir à respeito. Mas vou precisar tomar bastante cuidado para não fazer confusão sobre a interpretação e pra não mais errar igual. Fica muito ruim...

 

3)Viúva Porcina, segundo um jornal daqui de São Paulo, não deve ficar nem com Sinhozinho Malta nem com Roque Santeiro mas sim com Fernando Henrique Cardoso.

 

4) Jânio está fazendo das suas. Outra inédita dele: suspendeu o responsável pela Regional não sei se da Vila Mariana ou da Vila Maria por não ter concluído serviços e obras das ruas. E deu ordens para que as obras sejam terminadas em 48 horas.

 

5) Para quem vai tentar vestibular na FUVEST um aviso: urso não se escreve com Ç.

 

6) Estação de Artur Alvim do metrô está sendo concluída por estes dias.

 

7) “Que outro país me permitiria isso? O Brasil é o país da oportunidade”, palavras do empresário Klein, jovem de 36 anos.

 

8) “Quando vejo a potestade de um país chamado Brasil eu sinto orgulho de ser português”, palavras do eleito presidente de Portugal Mário Soares. 

 

9) Foi para que se evitem acidentes, como o incêndio ocorrido ontem no Rio com um velho prédio, o edifício Andorinha, que Jânio está averiguando e multando prédios antigos de São Paulo como vários prédios de escritórios, vários cinemas e vários teatros entre eles o de Ruth Escobar e também o prédio de um banco pertencente ao filho de Herbert Levy do PFL, amigo de Jânio. Mas Jânio é assim mesmo. Não poupa ninguém. A mesma medida que usa para os desconhecidos e pequenos, usa também para os que são amigos. Basta estarem errados. Isto é que é usar de justiça.

 

10) “Quero sua risada mais gostosa, sua alegria escandalosa, esse teu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa”. Ivan Lins

 

 11) Agora com mais detalhes, o 4º item acima: Jânio encontrou duas ruas da Regional da Vila Mariana (e falou os nomes das ruas das quais uma é Dona Brígida e outra Dona Avelina não sei do quê) com enormes crateras. E deu ordem para que o chefe das Regionais suspendesse o Regional Amauri Cavalcante Borba por três dias e deu o prazo de 48 horas para que as obras de reparos naquelas ruas fossem concluídas. Este Regional pediu exoneração do seu cargo, o que foi prontamente aceito pelo prefeito Jânio Quadros. E, hoje ainda, se saberá o nome do seu substituto.

 

12) Jânio voltou atrás no seu decreto de tirar as mesas dos bares das calçadas do centro. Mandou um ofício para a Câmara pedindo que seja devolvido e que não se viabilize este decreto. Portanto, todas as mesinhas de bares nas calçadas de novo. 

 

13) Vi, pela televisão, mais precisamente pelo noticiário do canal 2, ou seja, o canal do governador, o Regional da Vila Mariana, o Sr. Amauri Cavalcante Borba. Um senhor simpático e simples. Disse já ter sessenta anos de idade e, nessa idade, já não dá mais para levar suspensão, porque já não é mais tempo de se estar na escola, e que não poderia fazer outra coisa senão pedir a sua demissão da prefeitura após a suspensão que o prefeito Jânio Quadros lhe deu de três dias. Falou que o prefeito talvez esteja sendo mal informado por pessoas que o rondam. E que não sabe se alguém indispôs o prefeito contra ele com vistas no seu cargo. Mas que, de qualquer forma, o seu cargo é muito disputado. O chefe dos regionais disse que o Sr. Amauri já foi substituído mas que as obras das crateras (inclusive ele disse que o que provocou a suspensão do Sr. Amauri não foram as crateras mas sim o estouro de um cano d’água oito metros abaixo da superfície) seriam feitas no menor tempo possível mas em quarenta e oito horas conforme o prefeito havia decretado. Já falaram com o Jânio a respeito e mostraram que não dá pra se fazer o trabalho porque este requer maquinários especiais. O que Jânio concordou.

 

                                                                                  Clô