XXXIII- 18/02/86 – terça-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Outra noite em que eu não dormi de novo. Com minha cabeça entregue a variedades oriundas de toda sorte. Uma loucura que, se continuar assim, acaba me deixando louca. Não sei por que isso. Não fumei, não tomei café, não tenho preocupações. O sono faltou porque quis. Mas é a minha cabeça que cismou de virar lata com todas estas mesquinharias. Parece até que houve um ou mais sonhos entre eles, que eu não consigo me lembrar de nenhum. Mas sinto que houve uma história de amor no meio. Lembro-me mais ou menos de um sonho em que eu fiz uma laranjada, que não foi feita de laranja mas sim de lima. Dei a todos da família. Depois chegou um rapaz querendo também. Mandei que a Dinorá servisse a ele um pouco que havia sobrado na jarrra. Ele iria pegar. E eu fiquei preocupada se o que tinha sobrado teria o tanto que ele queria. E eu não tinha mais lima pra fazer mais. Deu um copo. Nisso chegou a Titila da Matilde, com aquela falinha enjoada dela, subindo na pia e pedindo também. Fiquei com raiva por causa da falta de educação daquela menina que por isso já me é repulsiva. O rapaz tomava o suco e conversava com a Dinorá. E próximo a nós uma égua (animal) nossa pastava. Ele, o rapaz, ficava comentando que a égua estava com as ferraduras imprestáveis e, inclusive, um dos pés da égua estava infeccionado. E ele disse que, do jeito que estava, ela poderia até morrer. Fiquei preocupada pois, além de não nos preocuparmos com os problemas da égua, ainda a judiávamos usando-a em montarias e a carregar peso, mesmo com ela já mancando há muito tempo. O rapaz tomou o suco e deve ter pago à Dinorá, que eu vi mexendo em sua carteira como se a guardar alguma coisa. E ela falava sorrindo para o rapaz ver qualquer coisa no banco dela pra ele. Como se já o conhecesse de há muito. Talvez ele fosse colega de escola dela. Falei com o Ita sobre o problema da égua (para ele ver e cuidar) e que o rapaz falou que ela poderia morrer. E o Ita falou sorrindo:
- Vou ver sim, mãe. Eu sou tão relaxado. Faz tempo já que eu sei que ela precisa ser tratada e nem ligo. Mas ela pode até morrer sim. Tem que ser cuidada o quanto antes.
2) Que coisa horrível! Duas vezes, no mesmo papel, o mesmo erro. Era pra eu ter começado o capítulo XXXIII aqui e não na página seguinte como fiz. Numa repetição ao erro anterior igual da continuação do capítulo XXXII. Espero que não sirva mais tarde para me confundir à respeito. Mas vou precisar tomar bastante cuidado para não fazer confusão sobre a interpretação e pra não mais errar igual. Fica muito ruim...
3)Viúva Porcina, segundo um jornal daqui de São Paulo, não deve ficar nem com Sinhozinho Malta nem com Roque Santeiro mas sim com Fernando Henrique Cardoso.
4) Jânio está fazendo das suas. Outra inédita dele: suspendeu o responsável pela Regional não sei se da Vila Mariana ou da Vila Maria por não ter concluído serviços e obras das ruas. E deu ordens para que as obras sejam terminadas em 48 horas.
5) Para quem vai tentar vestibular na FUVEST um aviso: urso não se escreve com Ç.
6) Estação de Artur Alvim do metrô está sendo concluída por estes dias.
7) “Que outro país me permitiria isso? O Brasil é o país da oportunidade”, palavras do empresário Klein, jovem de 36 anos.
8) “Quando vejo a potestade de um país chamado Brasil eu sinto orgulho de ser português”, palavras do eleito presidente de Portugal Mário Soares.
9) Foi para que se evitem acidentes, como o incêndio ocorrido ontem no Rio com um velho prédio, o edifício Andorinha, que Jânio está averiguando e multando prédios antigos de São Paulo como vários prédios de escritórios, vários cinemas e vários teatros entre eles o de Ruth Escobar e também o prédio de um banco pertencente ao filho de Herbert Levy do PFL, amigo de Jânio. Mas Jânio é assim mesmo. Não poupa ninguém. A mesma medida que usa para os desconhecidos e pequenos, usa também para os que são amigos. Basta estarem errados. Isto é que é usar de justiça.
10) “Quero sua risada mais gostosa, sua alegria escandalosa, esse teu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa”. Ivan Lins
11) Agora com mais detalhes, o 4º item acima: Jânio encontrou duas ruas da Regional da Vila Mariana (e falou os nomes das ruas das quais uma é Dona Brígida e outra Dona Avelina não sei do quê) com enormes crateras. E deu ordem para que o chefe das Regionais suspendesse o Regional Amauri Cavalcante Borba por três dias e deu o prazo de 48 horas para que as obras de reparos naquelas ruas fossem concluídas. Este Regional pediu exoneração do seu cargo, o que foi prontamente aceito pelo prefeito Jânio Quadros. E, hoje ainda, se saberá o nome do seu substituto.
12) Jânio voltou atrás no seu decreto de tirar as mesas dos bares das calçadas do centro. Mandou um ofício para a Câmara pedindo que seja devolvido e que não se viabilize este decreto. Portanto, todas as mesinhas de bares nas calçadas de novo.
13) Vi, pela televisão, mais precisamente pelo noticiário do canal 2, ou seja, o canal do governador, o Regional da Vila Mariana, o Sr. Amauri Cavalcante Borba. Um senhor simpático e simples. Disse já ter sessenta anos de idade e, nessa idade, já não dá mais para levar suspensão, porque já não é mais tempo de se estar na escola, e que não poderia fazer outra coisa senão pedir a sua demissão da prefeitura após a suspensão que o prefeito Jânio Quadros lhe deu de três dias. Falou que o prefeito talvez esteja sendo mal informado por pessoas que o rondam. E que não sabe se alguém indispôs o prefeito contra ele com vistas no seu cargo. Mas que, de qualquer forma, o seu cargo é muito disputado. O chefe dos regionais disse que o Sr. Amauri já foi substituído mas que as obras das crateras (inclusive ele disse que o que provocou a suspensão do Sr. Amauri não foram as crateras mas sim o estouro de um cano d’água oito metros abaixo da superfície) seriam feitas no menor tempo possível mas em quarenta e oito horas conforme o prefeito havia decretado. Já falaram com o Jânio a respeito e mostraram que não dá pra se fazer o trabalho porque este requer maquinários especiais. O que Jânio concordou.
Clô
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