XXXI- 16/02/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Lua cheia, traz a jangada pro mar
Ó sereia, como é lindo o teu cantar
Das estrelas, a mais linda fé no canzuá
Bahia, terra de encantos
Caymmi a inspiração
Que mora em meu coração
Bahia terra dos Deuses
Iemanjá, Iansã
Mangueira super-campeã
Tem xinxim e acarajé
Tamborim e samba no pé
Tem xinxim e acarajé
Tamborim e samba no pé
Bahia!
Samba enredo da Mangueira campeã deste ano que eu levantei cantando hoje. E que está me perturbando, sem querer sair da minha cabeça.
2) Minhas antecessoras Miriam e Madalena. Que Deus as proteja e lhes dê muitos e muitos anos de vida. Eu não quero querer mal a ninguém. E gostaria, mas, gostaria mesmo de ser muito amiga de Dona Miriam. E até de Dona Madalena algum dia, quem sabe? Assim como já sou de Ivani.
3) POR ENQUANTO
De uma certa forma, Amor,
Viajei... mas não parti.
Estou toda em... Salvador.
Pois? Não mais me vejo aqui.
Se quiseres comprovar
Verás com veracidade
Que estou em todo lugar
Da sua maga cidade:
No ar, nas ruas, no mar,
Em formatos de saudade.
Caso ofusquem teu desdém,
Pelos destaques do espanto,
É só procurar-me bem
No melhor canto do canto
Entre estas duas janelas
Do "Boulevard" da Cantina.
Estou a olhar-te com elas:
Tuas versáteis meninas.
(Poliúteis).
(Por enquanto...
...A cocabramar... com os santos!
Ouço de Claudete o canto!
Espio-te... em atarantos!
Dos teus requebros... me imanto!
Quizilam-me teus quebrantos...
De Clarindos... me abrilhanto!
Assisto-te... em relevantos!
Quase... me desgovernanto!
Enquanto...
janto...
os teus encantos.)
Clotilde Sampaio
4) Se a gente tenta, por uma só pessoa, infinita quantidade de amor com infinita quantidade de ódio bem misturadas ao mesmo tempo, o que é que dá? Desprezo e dó.
5) e 6) (conversa espiritual – psicografada mas rabiscada e incompreensível)
7) Lilinha pegou uma gripe hoje. Está espirrando e com o nariz só escorrendo sem parar, a tarde toda. Estava enjoadinha, resmungando, não queria dormir. Olhava pra mim resmungando esperneando os braços dentro dos meus braços em torno dela. Perdi a paciência e gritei com ela.
- Ô menina chata que não dorme, não dá sossego, só faz o que não pode ser feito. Pára menina, vê se dorme! A minha paciência já acabou. Faz tudo pra ser chata e pra gente deixar de gostar dela. Vê se aprende a ser gente!
Ela ficou tristinha e logo dormiu. E agora, estou com dó de ter gritado com ela. Tadinha. Não sabe nem falar nem pra comunicar pra gente o que sente. Mamãe xingou nenê, né filhinha. Mamãe besta. O nenê da mamãe não pode ficar “singado”, né filhinha. O nenê mais “monitinho” do mundo da mamãe, não é filhinha?
8) Esta semana que vem quero rezar bastante a semana inteirinha. Se possível quero rezar 20 horas de Daimokus. Quero vencer. Quero que o Gohonzon de novo acenda uma luz bem forte de Budismo dentro de mim. Fiz objetivo de ir pra Bahia e fazer o Pelourinho inteiro rezar o Nam-myoho-rengue-kyo para mudar a vida de toda aquela gente, e mudar todo o Pelourinho num ambiente do mais alto astral.
9) Minhas regras que estavam ameaçando vir já há vários dias, só hoje chegaram de vez. E vieram com tudo. A propósito, não sei se este mal estar, esta moleza, esta depressão, esta apatia, este tédio, esta não vontade de viver e nem de lutar pela vida, já são só os sintomas da menopausa. Estou com quarenta e cinco anos. Eu nunca fiz tratamento algum para amenizá-la. Fora estes sintomas que citei acima, não sinto mais nada. Mas dizem que é perigosa, muito perigosa a época da menopausa. Que se não for tratada pode-se até ficar louca. E eu já vi caso de mulher que ficou louca nesta época: Ana Gorda lá do Talarico. Era uma senhora de família bem de vida, que ficou louca na época da menopausa e vivia como mendiga, trapeira no meio da rua. Ela era uma mulher de rosto bonito apesar dos seus talvez cinquenta e poucos anos, apesar de até parecerem menos, uns quarenta no máximo. Vivia rodeada de várias trouxas de trapos. Quando a gente passava perto dela, ela olhava pra gente e começava sorrir. Era muito simpática mas dava pena vê-la daquele jeito. Dormia na rua, trocava de roupa na rua, na frente de qualquer um. Fazia cocô e xixi na frente de qualquer um. Tudo no meio da rua. Se maquiava, pois ela vivia sempre maquiada, sempre de batom, penteava o cabelo no meio da rua e vivia com as saias manchadas de sangue das regras. Ela não estava nem aí com nada. A família envergonhada por vê-la daquele jeito, pedindo o que comer pra todo mundo, toda vestida de trapos, levava-a pra casa, onde ela tinha de tudo. Mas ela não queria mais nada do conforto que havia em sua casa. Nem mais a companhia dos seus. A sua casa era a rua. Onde, à noite, ela forrava o chão com suas trouxas e, mesmo no maior inverno, deitava-se e dormia. A sua casa era as calçadas, os seus familiares eram todos que passavam por ela. Eu já tive um tempo que fiquei tão doida que quase fiz isso. a minha vontade era sair de casa e ir indo, ir indo, sem parar e sem ter onde chegar. Só andar, andar, andar, conhecer o mundo, conhecer tudo da vida, sem ter ninguém pra mandar em mim, sem ver mais ninguém de casa, não tomar mais banho, não obedecer mais a nenhuma das normas, fugir de todas as convenções, fugir para muito longe onde ninguém mais soubesse de mim. Ir indo, ir indo, ir indo até cair morta.
Clô
