terça-feira, 29 de abril de 2025

XXXI - 16/02/86

XXXI- 16/02/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Lua cheia, traz a jangada pro mar

    Ó sereia, como é lindo o teu cantar

    Das estrelas, a mais linda fé no canzuá

    Bahia, terra de encantos

    Caymmi a inspiração

    Que mora em meu coração 

    Bahia terra dos Deuses

    Iemanjá, Iansã

    Mangueira super-campeã

    Tem xinxim e acarajé

    Tamborim e samba no pé

    Tem xinxim e acarajé

    Tamborim e samba no pé

    Bahia!

Samba enredo da Mangueira campeã deste ano que eu levantei cantando hoje. E que está me perturbando, sem querer sair da minha cabeça.

 

2) Minhas antecessoras Miriam e Madalena. Que Deus as proteja e lhes dê muitos e muitos anos de vida. Eu não quero querer mal a ninguém. E gostaria, mas, gostaria mesmo de ser muito amiga de Dona Miriam. E até de Dona Madalena algum dia, quem sabe? Assim como já sou de Ivani.

 

3)   POR ENQUANTO

 

De uma certa forma, Amor,

Viajei... mas não parti.

Estou toda em... Salvador.

Pois? Não mais me vejo aqui.

 

Se quiseres comprovar

Verás com veracidade

Que estou em todo lugar

Da sua maga cidade:

No ar, nas ruas, no mar,

Em formatos de saudade.

 

Caso ofusquem teu desdém,

Pelos destaques do espanto,

É só procurar-me bem

No melhor canto do canto

Entre estas duas janelas

Do "Boulevard" da Cantina.

Estou a olhar-te com elas:

Tuas versáteis meninas.

(Poliúteis).

 

(Por enquanto...

...A cocabramar... com os santos!

Ouço de Claudete o canto!

Espio-te... em atarantos!

Dos teus requebros... me imanto!

Quizilam-me teus quebrantos...

De Clarindos... me abrilhanto!

Assisto-te... em relevantos!

Quase... me desgovernanto!

Enquanto...

                    janto...

                                  os teus encantos.)

                                                                Clotilde Sampaio

 

4) Se a gente tenta, por uma só pessoa, infinita quantidade de amor com infinita quantidade de ódio bem misturadas ao mesmo tempo, o que é que dá? Desprezo e dó. 

 

5) e 6) (conversa espiritual – psicografada mas rabiscada e incompreensível)

 

7) Lilinha pegou uma gripe hoje. Está espirrando e com o nariz só escorrendo sem parar, a tarde toda. Estava enjoadinha, resmungando, não queria dormir.  Olhava pra mim resmungando esperneando os braços dentro dos meus braços em torno dela. Perdi a paciência e gritei com ela. 

 - Ô menina chata que não dorme, não dá sossego, só faz o que não pode ser feito. Pára menina, vê se dorme! A minha paciência já acabou. Faz tudo pra ser chata e pra gente deixar de gostar dela. Vê se aprende a ser gente!

Ela ficou tristinha e logo dormiu. E agora, estou com dó de ter gritado com ela. Tadinha. Não sabe nem falar nem pra comunicar pra gente o que sente. Mamãe xingou nenê, né filhinha. Mamãe besta. O nenê da mamãe não pode ficar “singado”, né filhinha. O nenê mais “monitinho” do mundo da mamãe, não é filhinha?

 

8) Esta semana que vem quero rezar bastante a semana inteirinha. Se possível quero rezar 20 horas de Daimokus. Quero vencer. Quero que o Gohonzon de novo acenda uma luz bem forte de Budismo dentro de mim. Fiz objetivo de ir pra Bahia e fazer o Pelourinho inteiro rezar o Nam-myoho-rengue-kyo para mudar a vida de toda aquela gente, e mudar todo o Pelourinho num ambiente do mais alto astral.

 

9) Minhas regras que estavam ameaçando vir já há vários dias, só hoje chegaram de vez. E vieram com tudo. A propósito, não sei se este mal estar, esta moleza, esta depressão, esta apatia, este tédio, esta não vontade de viver e nem de lutar pela vida, já são só os sintomas da menopausa. Estou com quarenta e cinco anos. Eu nunca fiz tratamento algum para amenizá-la. Fora estes sintomas que citei acima, não sinto mais nada. Mas dizem que é perigosa, muito perigosa a época da menopausa. Que se não for tratada pode-se até ficar louca. E eu já vi caso de mulher que ficou louca nesta época: Ana Gorda lá do Talarico. Era uma senhora de família bem de vida, que ficou louca na época da menopausa e vivia como mendiga, trapeira no meio da rua. Ela era uma mulher de rosto bonito apesar dos seus talvez cinquenta e poucos anos, apesar de até parecerem menos, uns quarenta no máximo. Vivia rodeada de várias trouxas de trapos. Quando a gente passava perto dela, ela olhava pra gente e começava sorrir. Era muito simpática mas dava pena vê-la daquele jeito. Dormia na rua, trocava de roupa na rua, na frente de qualquer um. Fazia cocô e xixi na frente de qualquer um. Tudo no meio da rua. Se maquiava, pois ela vivia sempre maquiada, sempre de batom, penteava o cabelo no meio da rua e vivia com as saias manchadas de sangue das regras. Ela não estava nem aí com nada. A família envergonhada por vê-la daquele jeito, pedindo o que comer pra todo mundo, toda vestida de trapos, levava-a pra casa, onde ela tinha de tudo. Mas ela não queria mais nada do conforto que havia em sua casa. Nem mais a companhia dos seus. A sua casa era a rua. Onde, à noite, ela forrava o chão com suas trouxas e, mesmo no maior inverno, deitava-se e dormia. A sua casa era as calçadas, os seus familiares eram todos que passavam por ela. Eu já tive um tempo que fiquei tão doida que quase fiz isso. a minha vontade era sair de casa e ir indo, ir indo, sem parar e sem ter onde chegar. Só andar, andar, andar, conhecer o mundo, conhecer tudo da vida, sem ter ninguém pra mandar em mim, sem ver mais ninguém de casa, não tomar mais banho, não obedecer mais a nenhuma das normas, fugir de todas as convenções, fugir para muito longe onde ninguém mais soubesse de mim. Ir indo, ir indo, ir indo até cair morta.

 

                                                                           Clô      

segunda-feira, 21 de abril de 2025

XII - 19/01/86

XII - 19/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Já duas noites que o Ita não dorme em casa. A de ontem, sexta para sábado, e a de hoje, sábado para domingo. Ontem eu fiquei bastante preocupada pois não é costume ele fazer isso. E hoje também eu não deixo de ter lá minhas preocupações. Do jeito que acontecem coisas por aí, gostaria que ele não abusasse como vem abusando ultimamente. Há muitos jeitos de se aproveitar a vida sem esses exageros da juventude a que, com toda certeza, ultimamente ele vem se expondo. É uma sede de viver, de aproveitar ao máximo cada minuto de vida, como se o mundo estivesse para se acabar hoje, agora, já. É uma sede, uma fome, desenfreada e insaciável de viver a vida, de sugá-la ao máximo do que ela ainda tem pra dar e que já não é do que havia de melhor em outros passados tempos. Engraçado é que ele não vê que, sendo homem, ele tem a vida inteirinha para aproveitá-la ao contrário de nós mulheres que temos um tempo estritamente restrito e que nem por isso nos desesperamos. Vamos com calma, tranquilas, colhendo ao longo da vida mais frutos amargos que doces. Mas, conscientes de que, a cada dia, estamos pelo menos tentando fazer o melhor, senão para nós mesmos, mas, e mais importante, para os nossos semelhantes. Doando o que há de melhor em nós para a alegria e bem estar dos que nos são caros. Para nós, mulheres, aproveitar a vida, mais do que receber, é dar e amar a vida e os nossos semelhantes até o infinito. 

 

2) Departamento Cirurgia Plástica do Hospital Humaitá – fone: 32-2484


                                                                                                                        Clô

99a edição ME


 Card da 99a edição do MOVIMENTO EXPLOESIA, grupo de poetas concebido por CLÔ em Suzano, mas efetivado em Salvador. 

XI - 18/01/86

XI - 18/01/86 – sábado – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Acabo de eliminar a possibilidade de morar em Itaquera, de continuar morando aqui, em São Paulo, e de trabalhar na política local com os políticos locais. Nem Suzin, nem Farabulini, Jânio. Depois do que ouvi hoje de Dona Origina e da frieza total de Jânio para comigo, continuarei? Ou também não mais? Uma incógnita. E muitas perguntas no ar: Dona Origina terá razão? 

 

2) Dona Origina. Que senhora simpaticíssima que eu tive bastante prazer de conhecer hoje. Conhecê-la? Não. Revê-la. Pois tenho certeza de que o nosso conhecimento já vem de longe. De muito longe. De outras vidas.

 

3) Ficar aqui pra quê? Para que eu veja você morrer? Ou para que você me veja morrer? Sim porque, daqui por diante, as nossas relações serão só a de pai e mãe dos mesmos filhos. Pessoais? Não mais.

 

4) Quero aprender com Dona Origina como se faz para não ter nenhuma religião.

 

5) Nelson Pereira dos Santos, o cineasta que fez “Vidas Secas”, “Memórias do Cárcere”, “Tenda dos Milagres” e está fazendo “Jubiabá” agora, lá na Bahia, é genro de Dona Origina. Quem diria?

 

                                         Clô

aniversário da primeira neta de CLÔ

 


LORENA SAMPAIO, primeira neta de CLÔ, completa 40 anos, 
recebendo presentes da tia Vitória Régia.
Brotas, Salvador, 13/04/25.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

X - 13/01/86

X - 13/01/86 – segunda-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jânio irá visitar todos os Estados, segundo ele, para fortalecimento do PTB e para escolha dos candidatos aos governos de cada Estado e à Constituinte pelo nosso PTB. Que bom. Isto equivale dizer que, em eu estando na Bahia, posso recepcioná-lo lá e mexer com política pelo PTB lá também. Seja onde for, cá como lá, o importante é levarmos Jânio de volta ao Alvorada. Ele ainda tem que ser o nosso presidente de novo e integralmente. Graças a Deus que ele está vivo. Só ele tem a coragem de tomar certas medidas e agir com rigorosidade e honestidade à toda prova. Não importam as más línguas. Importa é que ele, só ele, pode desmenti-los provando o contrário. 

 

2) Fui levar o Ita até lá embaixo, na padaria do Monte Cristo, onde um carro de luxo azul claro já o esperava. Que mordomia! Isto demonstra que a firma se importa com a pessoa dele. E que ele tem importância na firma. Que bom. Como mãe coruja, morro de orgulho por ele. E por todos os outros também. Mas, mais por ele, é claro, que em todos os sentidos sempre me deu motivos de alegria, e de orgulho.

 

3) A primeira pessoa que vi hoje ao chegar de volta, de levar o Ita, foi o Doca, que ia saindo. Procurei demonstrar-lhe que não estava nada contente com a atitude dele ontem de, em vez de fazer os meninos guardarem a tábua que estava jogada por eles no meio do quintal, só pegou os meninos e saiu com eles na Kombi bem na hora em que eu estava reclamando a ele e à Miriam sobre eles. E, embora ele tenha vindo após perguntar-me sobre o cadeado, que o Ita na pressa deve ter levado, respondi-lhe seca e séria. Quero que ele e a Miriam sintam, a partir de hoje, só e todo o meu desprezo tanto por eles como pelos meninos. E quero me mudar daqui o quanto antes. Não dá para aguentá-los mais. Se continuar assim, vou acabar ficando louca. Eles têm um jeito totalmente diferente de viver e de olhar a vida de mim. Aliás eu já disse que, entre eu e meus pais e meus irmãos, não há mesmo nenhuma afinidade, nenhum apego. É como se não tivéssemos mesmo nenhuma ligação de sangue. Nem de família. Cada vez percebo mais que Miriam foi quem mais puxou a minha mãe. Tem uma visão muito pequena das coisas, não pensa em progredir e apoia todas as coisas erradas. E não dá valor nenhum ao correto, ao certo. Ela e o Doca são assim. E os filhos automaticamente serão assim também. Vazios, ignorantes, preguiçosos, sem coragem de luta para alcançar o que está lá no alto. Só fazem o que é fácil, só pegam o que está embaixo. Não fazem o menor esforço por nada. Pode ser que mudem. Mas, pelo jeito, se em casa já foram educados assim, será difícil ou então vão sofrer muito para mudar. 

 

4) A Miriam reclama muito da Liliam, demonstra e fala mesmo que a pior coisa que aconteceu na vida dela foi ter a Liliam. E parece que o maior desejo que ela tem é que a Liliam morra. Assim acaba o seu pesadelo. Mas ela não enxerga, na sua cegueira, que são os meninos que vão fazê-la sofrer bem mais que a Liliam. E por isso que eu não posso nem pensar em deixar a Liliam mais com ela. Devo fazer tudo para que a Liliam seja só minha. De sentimento e de direito. Não consigo entender como ela pode ser, para a Liliam, uma mãe assim tão desnaturada. Deixa ela. Ela precisa sofrer bastante para começar a entender a vida. Por enquanto, o que ela já sofreu ainda não bastou. Ela quis dizer que não se importa nem tem nada demais criar a Liliam para servir de posto sexual para o instinto animal e anormal dos próprios irmãos. Parece mesmo que ela até propiciava e, se a Liliam ficar com ela, ela até propiciará para que isso aconteça. Ela não tem o menor remorso em ter transformado a Liliam de uma menina quase normal, ou seja, de uma menina só com deficiência auditiva e nervosa por não poder se comunicar, e que poderia ter ficado normal se eles tivessem cuidado dela a tempo, no que ela é hoje. Uma criança com sérios problemas mentais, quem sabe até imensuráveis, só porque ela não deu a menor importância quando a menina batia a cabeça em tudo o que era duro como os blocos da parede, as quinas das grades do berço. Ela preferia que a menina batesse a cabeça onde fosse preciso do que batesse a cabeça nela. Agora ela fica chamando a menina de diabo e desejando que ela morra. Tenho que sair com a menina o quanto antes do meio de toda essa má influência que a cerca. 

 

5)    À TUA ESPERA

 

                 Para Aoud Id

 

Eu sei meu Bem, quão longe estás do meu afeto.

De tudo enfim, que tenho n’alma pra te dar.

Mas, mesmo assim, teima em bater desinquieto

Dentro de mim, um coração mais que repleto

De amor por ti. Ei-lo! Que chega a transbordar!

 

E tu não vens. E eu cá sofrendo à tua espera!

Já saturada de aturar tantas saudades.

Destas que mandas em teu lugar, vir de Itaquera

Pra vigiar a tua Clô noutra cidade.

Não crês então, Amor, no quanto eu sou sincera?

Que continuo a ser a mesma que antes era?

Que o que te digo é a quintessência da verdade?

 

Por que te fazes possuído da maldade

De me deixar por tanto tempo aqui sozinha?

Tenhas por mim um pouco mais de piedade.

Pois, afinal, sei que não tens necessidade

De juntar mais desditas, às muitas que eu já tinha.

 

Não me tortures tanto assim, te peço agora.

Mande-me mais migalhas de felicidade.

Destas que trazes quando vens, levando embora

Antes mesmo de saciar as ansiedades

Que se acumulam no meu ser à toda hora

Em borbotões que jorram à toda intensidade.

 

E trazem a mim, a tua voz, rasgando o espaço.

Chegando envolta em plúmeas nuvens de quimera.

Sarcástica, irônica, a perguntar-me o que é que eu faço,

Quando debalde aqui me encontro à tua espera.

 

Respondo então que, em meu amor, nada se altera.

Apenas vejo na esperança vã, frustrada,

Que estou perdendo a minha Vida. Toda à espera

De quem pra mim ao mesmo tempo é tudo e nada.

 

                                Clotilde Sampaio

 

6) Superei um problema insolúvel, impossível que era Aoud. E não consigo superar outro problema que sou eu mesma. A vida é assim mesmo. Quando se encontra a cura para uma doença até então incurável aparece o desafio de outra doença mais perigosa e mais difícil. Assim aconteceu com a tuberculose que, quando foi vencida, apareceu o câncer. Este foi vencido e está aí vigorosamente desafiante a Aids. Assim tem sido comigo. Mal venci um monstruoso desafiante que era Aoud, apareceu para me desafiar e querendo me vencer a todo custo, esta crise existencial que atravesso já há três anos. E não sei até quando irá e quem será de nós duas a vencedora. Espero que mais uma vez seja eu. Mas está muito difícil. Tem hora que até penso em desistir da luta. 

 

7) Queria tanto acabar com toda esta instabilidade. Com toda esta indecisão sobre o que será melhor: se a morte ou a vida. Queria ficar só com uma, ou só com outra.

 

8) Ai, meu Deus do céu, que vida! Um sol tão quente lá fora e eu sem a mínima vontade de desfrutá-lo. Aliás, vontade eu tenho. O que me falta é coragem para eu enfrentá-lo justamente por estar tão quente como está. É o medo de ressecar minha pele e me tornar por isso mais flácida do que já estou.

 

9) Penso na vida. Será que vale a pena pensar na vida? Será que vale a pena viver? Tudo vale a pena, ou nada vale a pena? Estes são os questionamentos que constantemente me faço. Vale a pena lutar? Sumir, não ver nem ser vista mais nunca por nenhum rosto. Talvez fosse o ideal lutar aqui? Lá? Mudar? Partir? Para onde? Só se for para debaixo da terra. Não vejo outro lugar melhor. Bahia? É só fantasia para quem está a fim de se fantasiar. É só ilusão para quem está a fim de se iludir. Itaquera? Itaquera? Só se for para constatar a morte oficial do já morto há muito tempo. E oficializar a minha morte também. 

 

                          Clô   

A jovem poeta Lara

 



A jovem poeta LARA se encanta com a vida e poesia de CLOTILDE SAMPAIO em 15 de abril na Ladeira da Preguiça, Salvador, Bahia.