X - 13/01/86 – segunda-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Jânio irá visitar todos os Estados, segundo ele, para fortalecimento do PTB e para escolha dos candidatos aos governos de cada Estado e à Constituinte pelo nosso PTB. Que bom. Isto equivale dizer que, em eu estando na Bahia, posso recepcioná-lo lá e mexer com política pelo PTB lá também. Seja onde for, cá como lá, o importante é levarmos Jânio de volta ao Alvorada. Ele ainda tem que ser o nosso presidente de novo e integralmente. Graças a Deus que ele está vivo. Só ele tem a coragem de tomar certas medidas e agir com rigorosidade e honestidade à toda prova. Não importam as más línguas. Importa é que ele, só ele, pode desmenti-los provando o contrário.
2) Fui levar o Ita até lá embaixo, na padaria do Monte Cristo, onde um carro de luxo azul claro já o esperava. Que mordomia! Isto demonstra que a firma se importa com a pessoa dele. E que ele tem importância na firma. Que bom. Como mãe coruja, morro de orgulho por ele. E por todos os outros também. Mas, mais por ele, é claro, que em todos os sentidos sempre me deu motivos de alegria, e de orgulho.
3) A primeira pessoa que vi hoje ao chegar de volta, de levar o Ita, foi o Doca, que ia saindo. Procurei demonstrar-lhe que não estava nada contente com a atitude dele ontem de, em vez de fazer os meninos guardarem a tábua que estava jogada por eles no meio do quintal, só pegou os meninos e saiu com eles na Kombi bem na hora em que eu estava reclamando a ele e à Miriam sobre eles. E, embora ele tenha vindo após perguntar-me sobre o cadeado, que o Ita na pressa deve ter levado, respondi-lhe seca e séria. Quero que ele e a Miriam sintam, a partir de hoje, só e todo o meu desprezo tanto por eles como pelos meninos. E quero me mudar daqui o quanto antes. Não dá para aguentá-los mais. Se continuar assim, vou acabar ficando louca. Eles têm um jeito totalmente diferente de viver e de olhar a vida de mim. Aliás eu já disse que, entre eu e meus pais e meus irmãos, não há mesmo nenhuma afinidade, nenhum apego. É como se não tivéssemos mesmo nenhuma ligação de sangue. Nem de família. Cada vez percebo mais que Miriam foi quem mais puxou a minha mãe. Tem uma visão muito pequena das coisas, não pensa em progredir e apoia todas as coisas erradas. E não dá valor nenhum ao correto, ao certo. Ela e o Doca são assim. E os filhos automaticamente serão assim também. Vazios, ignorantes, preguiçosos, sem coragem de luta para alcançar o que está lá no alto. Só fazem o que é fácil, só pegam o que está embaixo. Não fazem o menor esforço por nada. Pode ser que mudem. Mas, pelo jeito, se em casa já foram educados assim, será difícil ou então vão sofrer muito para mudar.
4) A Miriam reclama muito da Liliam, demonstra e fala mesmo que a pior coisa que aconteceu na vida dela foi ter a Liliam. E parece que o maior desejo que ela tem é que a Liliam morra. Assim acaba o seu pesadelo. Mas ela não enxerga, na sua cegueira, que são os meninos que vão fazê-la sofrer bem mais que a Liliam. E por isso que eu não posso nem pensar em deixar a Liliam mais com ela. Devo fazer tudo para que a Liliam seja só minha. De sentimento e de direito. Não consigo entender como ela pode ser, para a Liliam, uma mãe assim tão desnaturada. Deixa ela. Ela precisa sofrer bastante para começar a entender a vida. Por enquanto, o que ela já sofreu ainda não bastou. Ela quis dizer que não se importa nem tem nada demais criar a Liliam para servir de posto sexual para o instinto animal e anormal dos próprios irmãos. Parece mesmo que ela até propiciava e, se a Liliam ficar com ela, ela até propiciará para que isso aconteça. Ela não tem o menor remorso em ter transformado a Liliam de uma menina quase normal, ou seja, de uma menina só com deficiência auditiva e nervosa por não poder se comunicar, e que poderia ter ficado normal se eles tivessem cuidado dela a tempo, no que ela é hoje. Uma criança com sérios problemas mentais, quem sabe até imensuráveis, só porque ela não deu a menor importância quando a menina batia a cabeça em tudo o que era duro como os blocos da parede, as quinas das grades do berço. Ela preferia que a menina batesse a cabeça onde fosse preciso do que batesse a cabeça nela. Agora ela fica chamando a menina de diabo e desejando que ela morra. Tenho que sair com a menina o quanto antes do meio de toda essa má influência que a cerca.
5) À TUA ESPERA
Para Aoud Id
Eu sei meu Bem, quão longe estás do meu afeto.
De tudo enfim, que tenho n’alma pra te dar.
Mas, mesmo assim, teima em bater desinquieto
Dentro de mim, um coração mais que repleto
De amor por ti. Ei-lo! Que chega a transbordar!
E tu não vens. E eu cá sofrendo à tua espera!
Já saturada de aturar tantas saudades.
Destas que mandas em teu lugar, vir de Itaquera
Pra vigiar a tua Clô noutra cidade.
Não crês então, Amor, no quanto eu sou sincera?
Que continuo a ser a mesma que antes era?
Que o que te digo é a quintessência da verdade?
Por que te fazes possuído da maldade
De me deixar por tanto tempo aqui sozinha?
Tenhas por mim um pouco mais de piedade.
Pois, afinal, sei que não tens necessidade
De juntar mais desditas, às muitas que eu já tinha.
Não me tortures tanto assim, te peço agora.
Mande-me mais migalhas de felicidade.
Destas que trazes quando vens, levando embora
Antes mesmo de saciar as ansiedades
Que se acumulam no meu ser à toda hora
Em borbotões que jorram à toda intensidade.
E trazem a mim, a tua voz, rasgando o espaço.
Chegando envolta em plúmeas nuvens de quimera.
Sarcástica, irônica, a perguntar-me o que é que eu faço,
Quando debalde aqui me encontro à tua espera.
Respondo então que, em meu amor, nada se altera.
Apenas vejo na esperança vã, frustrada,
Que estou perdendo a minha Vida. Toda à espera
De quem pra mim ao mesmo tempo é tudo e nada.
Clotilde Sampaio
6) Superei um problema insolúvel, impossível que era Aoud. E não consigo superar outro problema que sou eu mesma. A vida é assim mesmo. Quando se encontra a cura para uma doença até então incurável aparece o desafio de outra doença mais perigosa e mais difícil. Assim aconteceu com a tuberculose que, quando foi vencida, apareceu o câncer. Este foi vencido e está aí vigorosamente desafiante a Aids. Assim tem sido comigo. Mal venci um monstruoso desafiante que era Aoud, apareceu para me desafiar e querendo me vencer a todo custo, esta crise existencial que atravesso já há três anos. E não sei até quando irá e quem será de nós duas a vencedora. Espero que mais uma vez seja eu. Mas está muito difícil. Tem hora que até penso em desistir da luta.
7) Queria tanto acabar com toda esta instabilidade. Com toda esta indecisão sobre o que será melhor: se a morte ou a vida. Queria ficar só com uma, ou só com outra.
8) Ai, meu Deus do céu, que vida! Um sol tão quente lá fora e eu sem a mínima vontade de desfrutá-lo. Aliás, vontade eu tenho. O que me falta é coragem para eu enfrentá-lo justamente por estar tão quente como está. É o medo de ressecar minha pele e me tornar por isso mais flácida do que já estou.
9) Penso na vida. Será que vale a pena pensar na vida? Será que vale a pena viver? Tudo vale a pena, ou nada vale a pena? Estes são os questionamentos que constantemente me faço. Vale a pena lutar? Sumir, não ver nem ser vista mais nunca por nenhum rosto. Talvez fosse o ideal lutar aqui? Lá? Mudar? Partir? Para onde? Só se for para debaixo da terra. Não vejo outro lugar melhor. Bahia? É só fantasia para quem está a fim de se fantasiar. É só ilusão para quem está a fim de se iludir. Itaquera? Itaquera? Só se for para constatar a morte oficial do já morto há muito tempo. E oficializar a minha morte também.
Clô
Nenhum comentário:
Postar um comentário