sexta-feira, 24 de abril de 2020

01 01 76

Aoud, 

      Há alguns dias atrás, verificando que 75 nada mais me fora que fracassos, pensei e falei: este próximo ano, vai ser pra valer. Quero começá-lo mandando aquela brasa. Mas o último dia veio (e foi ontem), sem eu sequer ter terminado o meu milhão de Daimokus. Faltaram ainda mais de vinte horas. E isso foi o que me deixou mais desanimada. Não saí para fazer compras pra ninguém, a não ser os sapatos que comprei na Futurista. Compra essa que em nada agradou. Com exceção do sapato de sola plástica (ou látex) igual ao da Matilde, que comprei pra mim. As crianças (pois até a Jussara e a Vitória) optaram pelo tênis de luxo (Rainha, pediram, mas, na falta deste, trouxe-lhes o Buzolim) ao invés de sapatos. Não sei que graça acham em tal calçado! Quando cheguei da Penha, ao anoitecer, o Américo estava aqui. E dormiu conosco esta noite. Admirei-lhe a coragem. Mesmo sabendo-se perseguido aqui no bairro, não titubeou e veio nos ver. Menino danado e exemplar em tudo. Deus o conserve sempre assim. Logo de manhã, achando-se deslocado, sem ninguém com quem conversar, achando (creio) tudo muito monótono para um primeiro de ano, foi-se. Para mim, ontem foi um último dia do ano muito feio. Não estava com a menor vontade de fazer nada. Nem mesmo ir lá na casa de Dona Luíza, como havíamos combinado eu e a Dona Antoninha. E tão logo arranjei a desculpa quente, mandei que a Jussara fosse avisá-la que não iria mesmo não, pois o Ita estava na chácara e eu não poderia deixá-lo em casa sozinho. A Jussara foi e voltou dizendo duas coisas: uma bem triste, que uma menininha, do tamanho dela, havia morrido afogada no rio; pensei: que coisa horrível, ainda mais sendo um dia de ano; e outra: que a Dona Toninha havia mandado eu me arrumar, que teria de ir sim, e dali à pouco, ela viria me buscar. Mulher danada! Pequenininha no tamanho mas nas decisões bate em qualquer do meu tamanho. Como eu gostaria de ser como ela é. Mesmo sem querer, e tendo que me arrumar, tratei de ir tomar banho. Iria levar comigo a Vitória e a Jussara. Que pena ter de deixar o Ita e atravessar para o outro ano longe dele! Nunca aconteceu isso. Sempre, em todos os anos, principalmente no Natal e Ano Novo, os meus tesouros estão ao meu lado. Só esse ano que vai ser diferente. O João, lá na casa da avó, e o Ita, sozinho em casa. A baixinha chegou e eu já estava quase pronta. Aconselhou-me a deixar a Vitória em casa pra ir com o Ita e o Jorge lá na Dona Luíza no dia seguinte, que é hoje. Chegamos já quase oito horas lá. E a Júlia, minha irmã gêmea, já tinha feito tudo sozinha para o aniversário do pai dela. Que vergonha! Nós, que ficáramos de ir lá para ajudar, fomos só pra comer.
      Hoje, saímos para ir no Gongyo de Ano Novo, lá no Tikubutyo. Preocupada, pois as crianças deveriam vir cedo para também participar e já passavam das dez e não haviam chegado. A preocupação me dominou o dia todo, pois eles não vieram mesmo. Fiquei pensando bobagens, que expus à Dona Toninha. Ela respondia: não foi nada não; se tivesse acontecido algo o Jorge teria vindo avisar. Mas a preocupação não me deixou. Comi bem mais do que devia, tanto à noite como de dia também. E passei o dia todo me sentindo mal. Com as roupas apertadas e se recusando a fechar. Fecharam-se mas, me esmagando e me sufocando no escaldante calor do tempo e do aperto. A Júlia me convidou para ir com ela e família do marido em Santos. Tal convite em nada me seduziu. Nunca gostei de Santos. Ainda mais para ir desacompanhada e sem nem meus filhos, não, não dava. Dei várias desculpas, sem conseguir recusar. Ela atacando sempre e tentando me convencer. Por fim, lembrei-me de que estava a perigo (menstruada). Comuniquei-lhe e foi aceita a minha justa recusa. À tarde fomos, com a Tikutan e o Stoshi, lá no Templo. Chegamos do Templo e o Seu Antenor chegou em seguida bêbado e contando que fora roubado. Estragou com toda a alegria de Dona Toninha. E o resto da tarde foi Dona Toninha a se maldizer da vida que leva com o marido e até a chorar. O Stoshi veio nos trazer. Ao passar defronte ao seu castelo, Aoud, estava todo iluminado. E, na rua do fundo, uma multidão de carros prenunciava que vocês estavam com muitas e grossas visitas. Mostrei apontando-os para Dona Toninha e ela se admirou exclamando: - Nossa! Que fileira de carros, hein? 
      Já no Monte Cristo, o Stoshi e a baixinha inventaram de passar no Seu Laudelino para cumprimentá-lo pelo Ano Novo. Ele não estava. Só a mulher. Sentada à mesa, com um carinha cabeludo, fumando e bem próximos. Ficaram muito dos sem-graças, para complicar ainda mais as aparências. A um canto e ao redor da vitrola, mais dois carinhas cabeludos controlando discos em altos volumes. Dona Toninha comentou: -Viu como está feia a coisa aqui? É isso. Ele não reza. São obstáculos atrás de obstáculos. Agora é a mulher dele corneando ele na própria casa dele. E ele não sabe. É assim. É só ele sair e ela põe outro dentro de casa. O Stoshi falou calmo, discreto, pausado: - É, vamos deixar pra lá, Dona Toninha. Seja lá o que for, não podemos ficar comentando. Devagarinho as coisas chegam no lugar. 
      Viemos todos aqui pra casa. Sentamo-nos ao redor da mesa e começamos a conversar abordando vários assuntos. E, ao mesmo tempo, a baixinha de cara amarrada, implica com tudo que o Seu Antenor diz. E este se defendendo engraçado que só ele. E o Stoshi e eu ríamos a valer com os ânimos exaltados do casal e procurávamos apaziguá-los. O Stoshi dizia: - Sabe, Dona Toninha, o importante é a gente. Tudo de mal, que a gente passa com os outros, é destino da gente mesmo. E é através da prática sincera que a gente afasta. A senhora, praticando firme e corretamente, toda essa desarmonia entre o Seu Antenor e a senhora acaba. -Ah! Quer dizer então que só eu tenho que praticar. E ele não pratica? Disse ela indignada. – Eu já trouxe o Gohonzon, disse firme e com a boca murcha o Seu Antenor. Todo mundo caiu na gargalhada. -Ah! Quer dizer que, com isso, o senhor já fez tudo, não é? Perguntou-lhe a baixinha. – Então. Precisa mais? Não foi eu quem trouxe o Gohonzon pra casa? – É lógico que foi, respondeu-lhe a mulher. – Então já disse tudo. Portanto, fim de papo. Todos continuaram a rir sem parar. A Vitória, pilheriando em lugar de todos, saiu-se com esta: - Ô, Dona Toninha, o seu Antenor é vivo, hein? Trouxe o Gohonzon pra senhora rezar pra ele. Ele já fez muito de trazer o Gohonzon pra casa e falou que, agora, o resto é com a senhora. A senhora é que tem que se virar. Os ares estavam propícios para confissões e o Stoshi falou: - É, cada um tem seu problema. O meu, por exemplo, com a Zailda, eu nunca disse pra ninguém, mas vou falar agora pra vocês. É que era pra ser duas crianças. Nós forçamos o aborto e tudo arriou entre nós. Foi como se cortássemos o fio que nos ligava. Agora, não há mais nada que nos prenda um ao outro.  – Você já era praticante nesta época? Perguntei. – Já, respondeu. – Mas ele não era praticante firme, não. Falou a baixinha. – Mas quem forçou... ela ou você? Quis saber eu. – Os dois, respondeu-me. – E ela, sua mulher, já praticava também? – Já. - A Zailda era firme. Recebeu muitos benefícios, retrucou de novo a irrequieta baixinha. – Pra ver como é importante a vida humana. Nós dois fizemos isso, nós dois sofremos. E estamos agora separados por causa disso e sofrendo até hoje. 
      Não tinha nada para oferecer-lhes. Ofereci, inibida, alguns restinhos de bebida que haviam sobrado do Natal. Que, com exceção do Seu Antenor, que, de cara entrou no vinho, ninguém quis. Quando se foram eram quase 22 horas. Ainda rezei meia hora de Daimoku pra você, depois fui dormir. Tchau. Um ótimo Ano Novo pra você e um beijo. Clô.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

L I Ç Õ E S

                 
...(“Oh! tanta cinza morta... o vento a leve!
      Vou sendo agora em ti a sombra leve
      De alguém que dobra a curva duma estrada...”)
                                          FLORBELA ESPANCA


Para o Sr. Domingos Nunes


NÃO mais estar... Na tua companhia.
Nem mais te ver. (Os teus olhos... me vencem!)
Sequer pisar, ou estacionar nas guias...
Nem nas calçadas... Que sei: te pertencem.

Este, o Ideal! De mais uma Teoria,
Que oponho às tuas. (Não mais me convencem.)
Por mais perito, não me enganarias:
(Por, só verdades, - mais me ganharias!
Por... “não poderes”, não me perderias.)
- “Drogas?... Estou fora”. – Que “penses”... Que “pensem”...

Também “pensei”-te, o meu... Deus!!! – (No começo.)
Tanto! Que, até, comecei... pelo avesso:
- Te... me confiei!!! (Sem vencer... Tentações.) .............

...Quantas contradições! – Nos teus verbos... Em teus atos...
“Boatos”, nos quais não cri... – Ouvi-senti, em... Fatos.
- Não me és... QUEM!!! “pensei” ser...
- Não sou... “quem” me “pensas”... “eu”, ser.
                                                     - Grata! (Pelas... LIÇÕES.)

                                             Clotilde Sampaio

                                                   Suzano, 17/12/1990.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

16 12 75

      Aoud,

      Algumas pessoas, quando se desgostam, perdem o controle de si próprios, começam a beber desenfreadamente, só parando depois de atiçarem as mais funestas consequências. Eu sou igual. Só que, em vez de beber, quando eu própria ou algo me decepciona, como. Só parando de comer depois de ingerir comida o bastante para, no outro dia, amanhecer repolhuda e feia. Foi o que se deu comigo hoje, depois de ter percebido que, na carta que eu lhe escrevi e entreguei ontem à tarde, levei um tremendo escorregão no português. Em vez de eu escrever: “uma Kombi 68 que não é o ideal”, escrevi “uma Kombi 68 que não seria o ideal”. Não sei como fui trocar assim tão bestamente o tempo do verbo. Pois sei que o mínimo deslize gramatical meu é imperdoável para você. E logo isso, um erro tão grande, foi me passar despercebido assim? Não tem mesmo perdão. Mas procure ao menos me desculpar, sim? Só em casa é que fui notar. Que vergonha!
      Depois disso, estou sem ânimo! Não rezei durante o dia e agora à noite; lá na casa do Seu José rezei só por rezar. E me senti como se estivesse grogue. Participei dos estudos como se estivesse aérea. Isto é, nas mesmas condições.
      Ontem, quando em Itaquera, primeiramente telefonei. Alguém veio atender, perguntei de você, pediu-me que esperasse um pouco e foi chamar-lhe. Desliguei, sem esperar resposta, pensando: já são quase uma (hora) mas ele ainda está na loja. Mais que depressa, fui até lá, não o vi e me disseram que você não estava. Não contente, tornei a telefonar. Foi o Dito quem atendeu desta vez. E respondeu logo de cara, simpaticamente:
      - Como vai, Clotilde? Viu como eu conheço a sua voz?
      Fiquei embaraçada e só perguntei:
      - O Auade está aí?
      - Não. Ele saiu. Onde você está?
      - Estou aqui mesmo em Itaquera.
      - Dê um pulo até aqui.
      - Já dei.
      - Eu não vi. Dê outro.
      - Mas eu já fui aí agora mesmo. Para que?
      - Ora, pra gente bater um papo.
      - Estou com pressa. Mas não custa nada eu ir.
      Pensei: ele vai me crivar de perguntas. Mas estou curiosa e vou sim. Desliguei e rumei para lá.
      Vi-o, de longe, já à minha espera, do outro lado da rua. Assim que me viu, atravessou e, de cara, perguntou:
      - Como vai a vida, Clotilde? Tudo bem? E as crianças?
      - Tudo em ordem. As crianças já estão grandes. O mais velho tem onze e a menor nove.
      - Passaram de ano? Em que série estão?
      - O maior, passou para a sexta série e, a menor, para a quarta.
      - E o Aoud, já legitimou as crianças?
      - Já sim - respondi meio indecisa.
      - Já mesmo? Você não me respondeu direito.
      - Por que é que você quer saber? Ele não te falou nada?
      - Falou sim. Mas ele legitimou, ou não?
      - Vocês não conversam a esse respeito, conversam?
      - Não. Não conversamos não.
      - Legitimou sim. Mas por que quer saber?
      - Ora, porque, se ele fez isso, eu acho muito bacana da parte dele agir assim.
      - Acha mesmo?
      - Acho sim. Penso que, o homem, já que chega a esse ponto, deve arcar com as responsabilidades até o fim.
      - Será mesmo isso o que você pensa?
      - Você duvida? Por que? Você não pensa assim também?
      - Não sei. Cada qual tem um modo de pensar. Eu penso assim como você disse. Mas não creio que você pense como eu.
      - Ora, e por que?
      - Por nada. 
      - E o Auade? Te ajuda?
      - É lógico. Se nós temos dois filhos. 
      - E vocês continuam bem? Não há nenhum problema?
      - Nenhum. Tudo bem, mesmo. Houve um tempo em que brigávamos muito. Mas hoje, isso já passou.
      Chegou uma menininha, de mais ou menos nove anos, que estendeu a mão simpaticamente, e ele apresentou:
      - Minha filha.
      Cumprimentei-a também com simpatia e perguntei:
      - É a menor?
      - Não. Depois dela ainda tem mais. Eu tenho quatro filhos.
      - Está igual a mim. Eu também tenho quatro.
      - Também quatro? Eu pensei que você tinha só aqueles dois. Mas não são do Aoud, são?
      - Não. Só os menores. Tenho um já de dezesseis anos e outra de quatorze.
      - E de quem são?
      - Do meu falecido marido.
      Fez mais algumas perguntas que eu não guardei. Só sei que, por fim, eu o chamei de malandro.
      - Eu, malandro? Por que?
      - Malandro sim, pois, às vezes, você atende o telefone se fazendo de Aoud. Não é?
      - Isso não, Clotilde. Você está enganada. Eu sei que sou três vezes pior do que o Auade, mas essa baixeza eu nunca cometi.
      - Não mesmo? Ainda um dia desses, há umas duas semanas, alguém fez isso. A voz era a sua. Eu percebi e desliguei. Depois, perguntei para o Auade,  e ele confirmou que não era ele.
      - Mas também não fui eu, não. Deve ter sido outra pessoa. Por que seria eu? Em tanto tempo que nos falamos acho que nunca te maltratei, não é?
      - Não. Quanto a isso, não tenho o que reclamar, não. Você sempre foi muito legal comigo. 
      - Aqui nós não temos esse costume. Pode telefonar quem for para o meu irmão que eu não ligo. E nem ele liga para as garotas que telefonam pra mim. 
      Um homem, com um papel na mão, nos olhava, esperando por ele.
      - Quer falar comigo? - Perguntou.
      Disse que sim. Eu, fiz de conta que acreditei nele, irmão do Audade, e aproveitei para me despedir:
      - Até logo, Dito. E desculpe-me por ter pensado que era você. 
      - Ora, desculpar o que? Mas pode ficar certa de que eu não me presto a isso. 
      Tomei o ônibus para o Jardim Fernandes. Fui ver a Miriam com o seu neném novo e, ao mesmo tempo, ver se conseguia falar com o Clóvis. 
      Demorei-me pouco lá. Minha mãe falou que o Clóvis tinha estado lá e havia dito que viria em casa naquele dia. Fiquei chateada pelo desencontro que iria se dar. Achei a Miriam bem mais bonita agora do que nunca. E o neném dela, de fisionomia idêntica, só que mais delicada que a do Dudu. Ao sair pedi:
      - Mãe, se o Clóvis vier aí, e eu não tiver me encontrado com ele, a senhora fala pra ele não dar mais a chave pro Davi não, porque os vidros lá da vidraçaria estão sumindo e eu não estou vendo dinheiro nenhum. E ainda estou devendo os vidros lá na Real. Daqui à pouco, se continuar assim, quando eu precisar reabrir ou vender a loja, ou vou precisar comprar outros vidros, ou então, entregar as paredes vazias para o dono, e nada mais. E diz para o Clóvis, se ele puder, para ir lá em casa amanhã cedo. Que eu tenho muita coisa pra falar com ele e desta conversa é que vai depender minha decisão, de fechar ou de abrir de vez a loja. 
      De novo em Itaquera, telefonei outra vez.
      De novo, o Dito foi quem atendeu e perguntou quem era.
      - É Dona Maria.
      Deu uma sonora risada e respondeu:
      - Está bem, Dona Maria, um momento. E foi chamar você.
      Você veio atender e eu lhe falei:
      - Você pode dar uma saída até a porta?
      Titubeou, mas respondeu:
      - Está bem.
      Quando dobrei a esquina, vi você já fora, de camisa azul, vindo ao meu encontro. Veio se aproximando de mim até chegar defronte à casa da sua mãe. Frente-a-frente, me falou:
      - Amanhã eu vou lá.
      Entreguei-lhe o branco envelope dizendo-lhe:
      - Eu só quero lhe entregar isto.
      Você entrou numa das portas da sua mãe e eu vim embora. Tomei o trem logo em seguida. E só não passei na casa da Telina porque já eram quatro horas e, às cinco, eu tinha aula de volante em Suzano. Mas estou muito preocupada com ela. O Henrique voltou a fazer das suas e, desta vez, é ela o Cristo. Pelo que ouço dizer, o casamento deles não está nada bem. Até fora de casa eu sei que ele está. Por isso preciso passar lá, o quanto antes, para saber ao certo o que anda se passando. 
      Da auto-escola, voltei para casa. Ainda era cedo. Como faz muito tempo que não vou na Dona Glória, resolvi ir lá. Só voltei à noite. Mas achei-os esquisitos, parecia que cada palavra que diziam era uma indireta pra mim. É sempre assim. Devagarinho, vou notando que as pessoas vão fugindo de mim, e eu vou ficando cada vez mais sozinha. Mas não faz mal. Embora, às vezes, eu me desespere de ver, ao meu redor, tanta solidão, prefiro viver sozinha do que viver no meio de pessoas inconvenientes. 
      Embora isso não tenha muita importância, hoje, depois de muito tempo, revi o Lauro da Dona Vitória, lá no ponto do ônibus do Jardim Fernandes. Ele, que há algum tempo atrás, foi o tipo do rapaz senão bonito, vistoso, hoje é o tipo contrário do que foi. Está velho, de dentes podres, um caco. Pareceu-me simpático mas, tão logo me viu, começou a contar fofocas da própria família. O que não é novidade pois, contar fofocas sempre foi o fraco e a especialidade de toda a família dele. 
                               Até logo, Aoud. 
                                                         16.12.75           Clotilde
                                             

terça-feira, 14 de abril de 2020

POR QUE GOSTO DE TI


Aoud,
Meu amor,

Gosto de ti... desde aquele seguro instante
Que, sem querer, te contemplei bem de pertinho.
Pois julguei ver, na placidez do teu semblante,
Que, como eu, necessitavas de carinho.

Gosto de ti... ao perceber que a timidez
Te acompanha quando vens falar comigo.
Pois só gaguejas. E eu bem noto em tua tez
Aquele ar de quem não sabe ser fingido.

Gosto de ti... sempre que dás aos meus ouvidos
O sibilar da tua voz, tão mansa e calma.
Que és sincero, percebem-te os meus sentidos.
E que és bom, compreende-te a minha alma.

Gosto de ti... do teu perfil de beduíno
Onde admiro os olhos teus, negros, brilhantes.
Gosto do teu jeito de ser, bem masculino
Que é, do teu todo, o que há de mais predominante.

Gosto de ti... e isso me enche de vaidade.
Pois tudo em ti, só me deslumbra e me fascina.
Teu corpanzil, o teu sorriso, a tua idade,
Os teus cabelos salpicados de platina.

Gosto de ti... por te saber bem diferente
Dos demais homens, hipócritas, aventureiros,
Que a nós, mulheres, enganar buscam somente
Sem dar valor a um sentimento verdadeiro.

Gosto de ti... porque és um homem de verdade.
Porque me sinto, junto a ti, mais protegida
Da multidão, de toda espécie de maldades
Que, a todo instante, vêm rondar a minha vida.

                                                  Clotilde Sampaio

                                                                20/07/63.


domingo, 12 de abril de 2020

13 12 75

Aoud,

      Nossos relógios estão parados. Mas já deve ser quase ou mais de meia-noite. Deve ser já uma da manhã e sábado. Estou calculando ser isso porque terminei de assistir à novela “O GRITO” já quase às onze e ainda fui corrigir uma carta que escrevi e vou mandar pra você. Desde que o Davi veio aqui, na terça-feira à tarde, perguntando, para e em lugar do Clóvis, se eu ia ou não ia arranjar o carro e, que se eu não fosse, ele (o Clóvis) iria arranjar e começar a trabalhar de motorista em uma transportadora, é que eu me propus escrever-lhe esta carta. Deveria tê-la entregado a você ontem, no máximo. Mas só hoje é que fui terminá-la e ainda só à tarde. Nem hoje, pelo que vejo, não vai ser possível isto, visto que não tomei banho, nem lavei a grudenta cabeça. Portanto, só na semana que vem você tomará conhecimento dela. Está bem?
      Não sei o que está acontecendo com nossa filhinha, Aoud. Ontem à noite, todo o corpinho se encheu de uns calombos vermelhos que, mal começaram, se alastraram rapidamente e não paravam de coçar, e a incomodavam muito. Passei-lhe a pomada Furacim e começaram a desaparecer em ritmo veloz tal qual como vieram. Mas, mesmo assim, a coceira não a deixou dormir sossegada. Hoje de manhã, os calombos e a coceira haviam desaparecido só ficando, de resto, umas pequenas bolhas. Ela ficou e eu também fiquei bastante intrigada com o inesperado aparecimento e desaparecimento daquilo. Seria varicela? Alergia? Ou alguma outra doença maior? Para chatear com ela, falei-lhe que era castigo do Gohonzon. Porque ela mentia dizendo que tinha feito o Gongyo sem fazer e não rezava direito. 
      Pensei que o mal já tinha ido embora pois a pele dela estava já toda limpa. Mas, assim que se tornou noite ontem, começou tudo de novo. Mandei e ajudei-a a passar a mesma pomada nos lugares em que estava reiniciando e creio que hoje não foi tanto como ontem. Porque logo ela pegou no sono e continua dormindo bem. 
      Ontem à tarde, aqui no Monte Cristo, choveu muito. Foi uma chuva de lascar. E entrou, não sei por onde, um monte de chuva no quarto. A beira da cama até parece um rio. Estou preocupada pois, se o rio Guaió já estava cheio ontem, quando o Ita foi tomar banho, e antes da chuva (pois foi ele quem chegou todo molhado e dizendo “Mãe, o rio está cheio. Tão cheio que deu pra eu dar uns mergulhos bem gostosos!”. Já pensou agora, depois que choveu pra valer? É bem capaz do rio transbordar e vir enchente outra vez. 
      Aoud, eu gostaria de poder lhe falar de mais coisas, principalmente de mim, para que você pudesse me conhecer melhor. Mas estou com tanto sono! Você me desculpe por hoje, mas já vou dormir que o sono já está rondando e já é bem tarde. Beijos e até amanhã.
      DE NOVO: A Akiko veio avisar que domingo terá o Tikusá. Não sei com que cara vou aparecer lá. Pois acho que o Sr. Francisco, do Tiku Manchester, já fez a minha transferência. Deveria ir rezar lá no Seu Laudelino mas choveu e estava trovejando muito. E o pior, é que eu também estava sem vontade, e não fui.
      Olhe, hoje, ou melhor, ontem, eu passei o dia todo muito inspirada e pensei muito em você. Lembrei-me de muitas coisas passadas entre nós, tanto de bem, como de mal. Às vezes, senti vontade de me revoltar e de me vingar. Outras, de lhe decantar em prosa, versos e canções, como fazia outrora. Mas nada disso fiz. Só lhe escrevi uma carta e estou a lhe falar nestas linhas. Que tal? Hoje, como ontem, nada rezei pra você. Aliás, nem ontem, nem hoje, eu não rezei nada pra ninguém. O que não é bom. Mas minha fé não está diminuída não. A chuva agora ficou mais forte. Até amanhã. 

                                                                                                               Clô

                                            Jardim Monte Cristo, Suzano, 13-12-75.


sábado, 11 de abril de 2020

A U S Ê N C I A


 AOUD,

AMOR,

Querido... estou tão só...
Sinto tanta saudade!
Há, no meu coração,
Tanta ansiedade
De apertar-te de novo,
Bem junto ao meu ser.
Que chego a imaginar,
Alucinadamente,
Que acabarás chegando, 
Assim, quase que de repente,
Ofegante, a sorrir.
Com um só beijo ardente
Transformando em volúpia
O nosso bem querer. 

Porém, finda a ilusão,
De novo esta ansiedade.
Querido... estou tão só...
Sinto tanta saudade!...

                                    A tua,

                                               Só tua:

                                                                Clô 

                                  Suzano, 27/05/80.
                  

quinta-feira, 9 de abril de 2020

21 08 84

21/08/1984 - terça-feira – 14:10 horas – POÁ, SP


“Vivo sou sua parte. Morto sou tua morte!” 
                                 MARTINHO LUTERO

“Importa menos ser feliz do que ser consciente.”
                                   ALBERT CAMUS

“Penso, logo existo.”                        “Existo, logo penso.”
               DESCARTES                                              MARX

“Os cavalos não existem. O que existe é a imagem que temos deles.”
                                                                                               PLATÃO



Estou só. Mais só do que nunca estive. Em todos os sentidos. Não tenho mais diálogo com ninguém. Nem com a Jussara. Nem com o Ita. Nem com a Vitória. Nem com o Aoud. Nem mesmo com o Gohonzon tenho dialogado nestes dias. Sinto que estou toda fora de ritmo. Nem eu entendo ninguém. Nem ninguém me entende. Por isso estou conversando agora com você, folhinha mixuruca de papel de pão que, se não fosse eu achar que você me serviria ainda de algum proveito, além de embalar o pão, já teria sido amassada, empelotada e posta no lixo. E, a essa hora, você já deveria estar no lixo geral para onde vão todos os lixos e, quem sabe, até queimada e virado cinza e pó. Ninguém aqui, agora, a essa hora, (17:30 de terça-feira 21/08/84), neste apartamento. Vitória trabalhando na Corning e de lá vai direto para a Faculdade. Ita fazendo o estágio na Papelão, de onde deveria ir direto para a Faculdade também. Jussara foi em “15 de novembro” fazer trabalho escolar em casa das amigas, que conhecem Aoud e já sabem que ela é filha dele. João e Ari foram em Mogi das Cruzes marcar a passagem de volta à Bahia para a próxima sexta-feira, dia 24/08/84. Não queria que eles já se fossem, mas Ari não está gostando nada do frio daqui. Abrem a porta, está chegando gente. É Ari e João. Vêm cheios de pacotes, estão alegres, me beijam e me abraçam eufóricos me perguntando se estou bem. Digo-lhes que estou bem sim. A despeito de não estar. Pois estou sentada no sofá, quase que imóvel, só escrevendo estas besteiras que acabei de escrever anteriormente à chegada deles, me sentindo muito só e chateada comigo mesma por ser tão besta. – Está bem mesmo? Pergunta-me Ari. Estou sim, por que? João me entrega um envelope de análises clínicas com o nome de Ari. - Pra senhora, diz. Fico sem entender e pergunto: O que é isso? – Um netinho pra senhora. A senhora já é vovó. – Verdade? Fico sem acreditar. Abro o envelope e leio: Ari Araújo de Santana, exame imunológico para o teste de gravidez – “Positivo”. - Puxa, que alegria! É o melhor presente que vocês poderiam me dar. E me abraço de novo com Ari. Parabéns, Ari, muito obrigada. Ari mamãe, João papai, eu vovó e a turminha toda, aqui agora, titios. Eles vão ficar todos contentes quando souberem. Que bacana. Eu me sinto outra pessoa. É como se eu estivesse mais nova, sinto a emoção de estar grávida outra vez. Era a coisa que eu mais queria: ser vovó. O Ita chegou e entrou direto para o quarto do Gohonzon. Demora um pouco, João entra atrás dele. E estão conversando. Venho também para os fundos com a esperança de dar-lhe a boa nova. Mas João já deu. O Ita está sentado no quarto do Gohonzon, já tomou banho, já se vestiu e está calçando as meias. Ao me ver, diz: “Aí, vovó, está contente agora? Seu neto já está vindo aí. Não era isso que a senhora queria?” – E você agora é tio, digo. Ari também chega e o Ita fala: Parabéns, Ari. Agora é mamãe, ainda bem. Porque eu já estava até desconfiado do meu irmão. E com medo que comigo também viesse a ser assim. – Que o João não era de nada? Não, não é isso. Pensei que ele não pudesse ter filhos e que comigo também acontecesse igual. Agora já fico despreocupado...

                                                       Clotilde Sampaio

                                             Rua Vinte e Seis de Março, Edifício Bonini, Poá, SP.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

O QUE É QUE EU FAÇO?...

                                Para Aoud Id

            ...(“E das tuas riquezas e de ti
                  Nada me deste e eu nada recebi
                  Nem o beijo que passa e que consola.

                  E o meu corpo, minh’alma e coração
                  Tudo em risos pousei na tua mão!...
                  ...Ah! Como é bom um pobre dar esmola!...”)
                                             FLORBELA ESPANCA

Quando à toa, bateste em minha porta,
A esmolar-me, o meu ser... tão passivo,
Eu só era uma viva... Bem morta.
Cultuando o meu morto... Bem vivo!...

Repeli-te. Sou a que, não suporta, 
Ter por perto... “qualquer paliativo”.
(Nem... “suspeito”, ou “vulgar”... lenitivo.)
E... saqueios??? - : Dos teus vens... e, voltas...
Vencedor??? - : Meu te olhar... mais esquivo.

Mas... Tanto, que insististe, que, ao final,
Eu, sem saber, se eras Bem, se eras Mal,
Vencida, achei minha Vida... Entre os teus braços!

(E... Foi tão bom!!!!!!!!! – E é... Com Tanta loucura!
Que eu nos lembro!... A indagar... pelo AMOR que perdura:
- O que é que eu faço desse AMOR?...
                                                          ... O que é que eu faço?...

                                    Clotilde Sampaio

                                                       Nova Mogi, 26/09/1990.
                                                       Quarta-feira – 17:40 horas.

                                                       Mogi das Cruzes, 28/09/1990.

terça-feira, 7 de abril de 2020

06 12 74

      Aoud

      Desde a última vez em que você veio aqui espalhafatoso, monstruoso, ridículo, urrando e fazendo frases e gestos obscenos na frente das crianças, (ou melhor, de sua própria e inocente filha), mostrando, mais uma vez com isso, a gigantesca forma da sua mesquinhez e o quanto você tem de canalha e de covarde, eu não tenho mais motivo nem obrigação nenhuma para respeitá-lo nem considerá-lo gratuitamente como antes fazia. E é bom que você saiba que, de agora em diante, eu não quero mais nenhum tipo de amizade, acordo ou cumplicidade com você. E faço questão mesmo de me declarar sua implacável inimiga.

      Medo de trabalhar eu não tenho. Você me conheceu trabalhando. (E, mesmo depois disso, eu nunca deixei de trabalhar pois cuidar de uma casa e da educação de quatro filhos menores sozinha, e em condições desfavoráveis, não é nenhum brinquedo). E, para qualquer eventualidade, eu ainda tenho uma mente, duas pernas e dois braços todos ainda em perfeito estado. Não sou analfabeta e os meus filhos já estão mais ou menos crescidos.

      Estou um vulcão em plena e furiosa erupção, pronta para arrasar com o seu descaramento, com o seu cinismo e com a sua alegria. Só aguardando para isso um mínimo descuido seu. Portanto, muito cuidado comigo. Pois,   dentro das minhas razões, eu não tenho medo de ninguém. Nem de Deus.
    
      Estou precisando não só de dinheiro como também de outras coisas que você sabe muito bem quais são. E, se você não vier me trazer por bem, irei aí buscar... por mal. Será tudo ou nada, não importa, já que nada tenho a perder. O importante mesmo e muito, para mim, será o magnífico espetáculo da estrondosa derrubada da sua grossa e pesada máscara de santo no chão, diante da “sociedade à qual você pertence”, dos seus amigos, fregueses, familiares e, principalmente, da sua esposa e dos seus filhos.

      Já imaginou quão soberbo, magnânimo, divino e inolvidável será esse show? Não? Ora, será que preciso lembrar-lhe que quanto mais alto o coqueiro maior é o tombo do côco?

      “Abraços” e “beijinhos” muito loucos da “sua”

                                                                                   Clotilde

      E, depois da queda, você vai me matar? Não vai. Tenho certeza que não vai. Pelo seguinte: embora você seja muito grande de posição e de estatura, na covardia você ainda é bem maior. Me bater? Bem, isso é bem possível sim. Visto que, negligenciar os próprios filhos e bater numa mulher, são atos dos mais próprios e dos mais dignos de um covardão, de um patife e de um cafajeste como você. E eu estou para o que der e vier. Sou pequenina, um quase nada, sim. Mas para o teu mal, existo. E dentro das minhas razões e das razões dos nossos filhos, você vai ver só e quanto eu resolvo! Okay?

                                                  A “sua” 
                                                                         Clô
       
                                                                                Suzano, 06-12-1974.