Aoud,
Há alguns dias atrás, verificando que 75 nada mais me fora que fracassos, pensei e falei: este próximo ano, vai ser pra valer. Quero começá-lo mandando aquela brasa. Mas o último dia veio (e foi ontem), sem eu sequer ter terminado o meu milhão de Daimokus. Faltaram ainda mais de vinte horas. E isso foi o que me deixou mais desanimada. Não saí para fazer compras pra ninguém, a não ser os sapatos que comprei na Futurista. Compra essa que em nada agradou. Com exceção do sapato de sola plástica (ou látex) igual ao da Matilde, que comprei pra mim. As crianças (pois até a Jussara e a Vitória) optaram pelo tênis de luxo (Rainha, pediram, mas, na falta deste, trouxe-lhes o Buzolim) ao invés de sapatos. Não sei que graça acham em tal calçado! Quando cheguei da Penha, ao anoitecer, o Américo estava aqui. E dormiu conosco esta noite. Admirei-lhe a coragem. Mesmo sabendo-se perseguido aqui no bairro, não titubeou e veio nos ver. Menino danado e exemplar em tudo. Deus o conserve sempre assim. Logo de manhã, achando-se deslocado, sem ninguém com quem conversar, achando (creio) tudo muito monótono para um primeiro de ano, foi-se. Para mim, ontem foi um último dia do ano muito feio. Não estava com a menor vontade de fazer nada. Nem mesmo ir lá na casa de Dona Luíza, como havíamos combinado eu e a Dona Antoninha. E tão logo arranjei a desculpa quente, mandei que a Jussara fosse avisá-la que não iria mesmo não, pois o Ita estava na chácara e eu não poderia deixá-lo em casa sozinho. A Jussara foi e voltou dizendo duas coisas: uma bem triste, que uma menininha, do tamanho dela, havia morrido afogada no rio; pensei: que coisa horrível, ainda mais sendo um dia de ano; e outra: que a Dona Toninha havia mandado eu me arrumar, que teria de ir sim, e dali à pouco, ela viria me buscar. Mulher danada! Pequenininha no tamanho mas nas decisões bate em qualquer do meu tamanho. Como eu gostaria de ser como ela é. Mesmo sem querer, e tendo que me arrumar, tratei de ir tomar banho. Iria levar comigo a Vitória e a Jussara. Que pena ter de deixar o Ita e atravessar para o outro ano longe dele! Nunca aconteceu isso. Sempre, em todos os anos, principalmente no Natal e Ano Novo, os meus tesouros estão ao meu lado. Só esse ano que vai ser diferente. O João, lá na casa da avó, e o Ita, sozinho em casa. A baixinha chegou e eu já estava quase pronta. Aconselhou-me a deixar a Vitória em casa pra ir com o Ita e o Jorge lá na Dona Luíza no dia seguinte, que é hoje. Chegamos já quase oito horas lá. E a Júlia, minha irmã gêmea, já tinha feito tudo sozinha para o aniversário do pai dela. Que vergonha! Nós, que ficáramos de ir lá para ajudar, fomos só pra comer.
Hoje, saímos para ir no Gongyo de Ano Novo, lá no Tikubutyo. Preocupada, pois as crianças deveriam vir cedo para também participar e já passavam das dez e não haviam chegado. A preocupação me dominou o dia todo, pois eles não vieram mesmo. Fiquei pensando bobagens, que expus à Dona Toninha. Ela respondia: não foi nada não; se tivesse acontecido algo o Jorge teria vindo avisar. Mas a preocupação não me deixou. Comi bem mais do que devia, tanto à noite como de dia também. E passei o dia todo me sentindo mal. Com as roupas apertadas e se recusando a fechar. Fecharam-se mas, me esmagando e me sufocando no escaldante calor do tempo e do aperto. A Júlia me convidou para ir com ela e família do marido em Santos. Tal convite em nada me seduziu. Nunca gostei de Santos. Ainda mais para ir desacompanhada e sem nem meus filhos, não, não dava. Dei várias desculpas, sem conseguir recusar. Ela atacando sempre e tentando me convencer. Por fim, lembrei-me de que estava a perigo (menstruada). Comuniquei-lhe e foi aceita a minha justa recusa. À tarde fomos, com a Tikutan e o Stoshi, lá no Templo. Chegamos do Templo e o Seu Antenor chegou em seguida bêbado e contando que fora roubado. Estragou com toda a alegria de Dona Toninha. E o resto da tarde foi Dona Toninha a se maldizer da vida que leva com o marido e até a chorar. O Stoshi veio nos trazer. Ao passar defronte ao seu castelo, Aoud, estava todo iluminado. E, na rua do fundo, uma multidão de carros prenunciava que vocês estavam com muitas e grossas visitas. Mostrei apontando-os para Dona Toninha e ela se admirou exclamando: - Nossa! Que fileira de carros, hein?
Já no Monte Cristo, o Stoshi e a baixinha inventaram de passar no Seu Laudelino para cumprimentá-lo pelo Ano Novo. Ele não estava. Só a mulher. Sentada à mesa, com um carinha cabeludo, fumando e bem próximos. Ficaram muito dos sem-graças, para complicar ainda mais as aparências. A um canto e ao redor da vitrola, mais dois carinhas cabeludos controlando discos em altos volumes. Dona Toninha comentou: -Viu como está feia a coisa aqui? É isso. Ele não reza. São obstáculos atrás de obstáculos. Agora é a mulher dele corneando ele na própria casa dele. E ele não sabe. É assim. É só ele sair e ela põe outro dentro de casa. O Stoshi falou calmo, discreto, pausado: - É, vamos deixar pra lá, Dona Toninha. Seja lá o que for, não podemos ficar comentando. Devagarinho as coisas chegam no lugar.
Viemos todos aqui pra casa. Sentamo-nos ao redor da mesa e começamos a conversar abordando vários assuntos. E, ao mesmo tempo, a baixinha de cara amarrada, implica com tudo que o Seu Antenor diz. E este se defendendo engraçado que só ele. E o Stoshi e eu ríamos a valer com os ânimos exaltados do casal e procurávamos apaziguá-los. O Stoshi dizia: - Sabe, Dona Toninha, o importante é a gente. Tudo de mal, que a gente passa com os outros, é destino da gente mesmo. E é através da prática sincera que a gente afasta. A senhora, praticando firme e corretamente, toda essa desarmonia entre o Seu Antenor e a senhora acaba. -Ah! Quer dizer então que só eu tenho que praticar. E ele não pratica? Disse ela indignada. – Eu já trouxe o Gohonzon, disse firme e com a boca murcha o Seu Antenor. Todo mundo caiu na gargalhada. -Ah! Quer dizer que, com isso, o senhor já fez tudo, não é? Perguntou-lhe a baixinha. – Então. Precisa mais? Não foi eu quem trouxe o Gohonzon pra casa? – É lógico que foi, respondeu-lhe a mulher. – Então já disse tudo. Portanto, fim de papo. Todos continuaram a rir sem parar. A Vitória, pilheriando em lugar de todos, saiu-se com esta: - Ô, Dona Toninha, o seu Antenor é vivo, hein? Trouxe o Gohonzon pra senhora rezar pra ele. Ele já fez muito de trazer o Gohonzon pra casa e falou que, agora, o resto é com a senhora. A senhora é que tem que se virar. Os ares estavam propícios para confissões e o Stoshi falou: - É, cada um tem seu problema. O meu, por exemplo, com a Zailda, eu nunca disse pra ninguém, mas vou falar agora pra vocês. É que era pra ser duas crianças. Nós forçamos o aborto e tudo arriou entre nós. Foi como se cortássemos o fio que nos ligava. Agora, não há mais nada que nos prenda um ao outro. – Você já era praticante nesta época? Perguntei. – Já, respondeu. – Mas ele não era praticante firme, não. Falou a baixinha. – Mas quem forçou... ela ou você? Quis saber eu. – Os dois, respondeu-me. – E ela, sua mulher, já praticava também? – Já. - A Zailda era firme. Recebeu muitos benefícios, retrucou de novo a irrequieta baixinha. – Pra ver como é importante a vida humana. Nós dois fizemos isso, nós dois sofremos. E estamos agora separados por causa disso e sofrendo até hoje.
Não tinha nada para oferecer-lhes. Ofereci, inibida, alguns restinhos de bebida que haviam sobrado do Natal. Que, com exceção do Seu Antenor, que, de cara entrou no vinho, ninguém quis. Quando se foram eram quase 22 horas. Ainda rezei meia hora de Daimoku pra você, depois fui dormir. Tchau. Um ótimo Ano Novo pra você e um beijo. Clô.