Aoud,
Algumas pessoas, quando se desgostam, perdem o controle de si próprios, começam a beber desenfreadamente, só parando depois de atiçarem as mais funestas consequências. Eu sou igual. Só que, em vez de beber, quando eu própria ou algo me decepciona, como. Só parando de comer depois de ingerir comida o bastante para, no outro dia, amanhecer repolhuda e feia. Foi o que se deu comigo hoje, depois de ter percebido que, na carta que eu lhe escrevi e entreguei ontem à tarde, levei um tremendo escorregão no português. Em vez de eu escrever: “uma Kombi 68 que não é o ideal”, escrevi “uma Kombi 68 que não seria o ideal”. Não sei como fui trocar assim tão bestamente o tempo do verbo. Pois sei que o mínimo deslize gramatical meu é imperdoável para você. E logo isso, um erro tão grande, foi me passar despercebido assim? Não tem mesmo perdão. Mas procure ao menos me desculpar, sim? Só em casa é que fui notar. Que vergonha!
Depois disso, estou sem ânimo! Não rezei durante o dia e agora à noite; lá na casa do Seu José rezei só por rezar. E me senti como se estivesse grogue. Participei dos estudos como se estivesse aérea. Isto é, nas mesmas condições.
Ontem, quando em Itaquera, primeiramente telefonei. Alguém veio atender, perguntei de você, pediu-me que esperasse um pouco e foi chamar-lhe. Desliguei, sem esperar resposta, pensando: já são quase uma (hora) mas ele ainda está na loja. Mais que depressa, fui até lá, não o vi e me disseram que você não estava. Não contente, tornei a telefonar. Foi o Dito quem atendeu desta vez. E respondeu logo de cara, simpaticamente:
- Como vai, Clotilde? Viu como eu conheço a sua voz?
Fiquei embaraçada e só perguntei:
- O Auade está aí?
- Não. Ele saiu. Onde você está?
- Estou aqui mesmo em Itaquera.
- Dê um pulo até aqui.
- Já dei.
- Eu não vi. Dê outro.
- Mas eu já fui aí agora mesmo. Para que?
- Ora, pra gente bater um papo.
- Estou com pressa. Mas não custa nada eu ir.
Pensei: ele vai me crivar de perguntas. Mas estou curiosa e vou sim. Desliguei e rumei para lá.
Vi-o, de longe, já à minha espera, do outro lado da rua. Assim que me viu, atravessou e, de cara, perguntou:
- Como vai a vida, Clotilde? Tudo bem? E as crianças?
- Tudo em ordem. As crianças já estão grandes. O mais velho tem onze e a menor nove.
- Passaram de ano? Em que série estão?
- O maior, passou para a sexta série e, a menor, para a quarta.
- E o Aoud, já legitimou as crianças?
- Já sim - respondi meio indecisa.
- Já mesmo? Você não me respondeu direito.
- Por que é que você quer saber? Ele não te falou nada?
- Falou sim. Mas ele legitimou, ou não?
- Vocês não conversam a esse respeito, conversam?
- Não. Não conversamos não.
- Legitimou sim. Mas por que quer saber?
- Ora, porque, se ele fez isso, eu acho muito bacana da parte dele agir assim.
- Acha mesmo?
- Acho sim. Penso que, o homem, já que chega a esse ponto, deve arcar com as responsabilidades até o fim.
- Será mesmo isso o que você pensa?
- Você duvida? Por que? Você não pensa assim também?
- Não sei. Cada qual tem um modo de pensar. Eu penso assim como você disse. Mas não creio que você pense como eu.
- Ora, e por que?
- Por nada.
- E o Auade? Te ajuda?
- É lógico. Se nós temos dois filhos.
- E vocês continuam bem? Não há nenhum problema?
- Nenhum. Tudo bem, mesmo. Houve um tempo em que brigávamos muito. Mas hoje, isso já passou.
Chegou uma menininha, de mais ou menos nove anos, que estendeu a mão simpaticamente, e ele apresentou:
- Minha filha.
Cumprimentei-a também com simpatia e perguntei:
- É a menor?
- Não. Depois dela ainda tem mais. Eu tenho quatro filhos.
- Está igual a mim. Eu também tenho quatro.
- Também quatro? Eu pensei que você tinha só aqueles dois. Mas não são do Aoud, são?
- Não. Só os menores. Tenho um já de dezesseis anos e outra de quatorze.
- E de quem são?
- Do meu falecido marido.
Fez mais algumas perguntas que eu não guardei. Só sei que, por fim, eu o chamei de malandro.
- Eu, malandro? Por que?
- Malandro sim, pois, às vezes, você atende o telefone se fazendo de Aoud. Não é?
- Isso não, Clotilde. Você está enganada. Eu sei que sou três vezes pior do que o Auade, mas essa baixeza eu nunca cometi.
- Não mesmo? Ainda um dia desses, há umas duas semanas, alguém fez isso. A voz era a sua. Eu percebi e desliguei. Depois, perguntei para o Auade, e ele confirmou que não era ele.
- Mas também não fui eu, não. Deve ter sido outra pessoa. Por que seria eu? Em tanto tempo que nos falamos acho que nunca te maltratei, não é?
- Não. Quanto a isso, não tenho o que reclamar, não. Você sempre foi muito legal comigo.
- Aqui nós não temos esse costume. Pode telefonar quem for para o meu irmão que eu não ligo. E nem ele liga para as garotas que telefonam pra mim.
Um homem, com um papel na mão, nos olhava, esperando por ele.
- Quer falar comigo? - Perguntou.
Disse que sim. Eu, fiz de conta que acreditei nele, irmão do Audade, e aproveitei para me despedir:
- Até logo, Dito. E desculpe-me por ter pensado que era você.
- Ora, desculpar o que? Mas pode ficar certa de que eu não me presto a isso.
Tomei o ônibus para o Jardim Fernandes. Fui ver a Miriam com o seu neném novo e, ao mesmo tempo, ver se conseguia falar com o Clóvis.
Demorei-me pouco lá. Minha mãe falou que o Clóvis tinha estado lá e havia dito que viria em casa naquele dia. Fiquei chateada pelo desencontro que iria se dar. Achei a Miriam bem mais bonita agora do que nunca. E o neném dela, de fisionomia idêntica, só que mais delicada que a do Dudu. Ao sair pedi:
- Mãe, se o Clóvis vier aí, e eu não tiver me encontrado com ele, a senhora fala pra ele não dar mais a chave pro Davi não, porque os vidros lá da vidraçaria estão sumindo e eu não estou vendo dinheiro nenhum. E ainda estou devendo os vidros lá na Real. Daqui à pouco, se continuar assim, quando eu precisar reabrir ou vender a loja, ou vou precisar comprar outros vidros, ou então, entregar as paredes vazias para o dono, e nada mais. E diz para o Clóvis, se ele puder, para ir lá em casa amanhã cedo. Que eu tenho muita coisa pra falar com ele e desta conversa é que vai depender minha decisão, de fechar ou de abrir de vez a loja.
De novo em Itaquera, telefonei outra vez.
De novo, o Dito foi quem atendeu e perguntou quem era.
- É Dona Maria.
Deu uma sonora risada e respondeu:
- Está bem, Dona Maria, um momento. E foi chamar você.
Você veio atender e eu lhe falei:
- Você pode dar uma saída até a porta?
Titubeou, mas respondeu:
- Está bem.
Quando dobrei a esquina, vi você já fora, de camisa azul, vindo ao meu encontro. Veio se aproximando de mim até chegar defronte à casa da sua mãe. Frente-a-frente, me falou:
- Amanhã eu vou lá.
Entreguei-lhe o branco envelope dizendo-lhe:
- Eu só quero lhe entregar isto.
Você entrou numa das portas da sua mãe e eu vim embora. Tomei o trem logo em seguida. E só não passei na casa da Telina porque já eram quatro horas e, às cinco, eu tinha aula de volante em Suzano. Mas estou muito preocupada com ela. O Henrique voltou a fazer das suas e, desta vez, é ela o Cristo. Pelo que ouço dizer, o casamento deles não está nada bem. Até fora de casa eu sei que ele está. Por isso preciso passar lá, o quanto antes, para saber ao certo o que anda se passando.
Da auto-escola, voltei para casa. Ainda era cedo. Como faz muito tempo que não vou na Dona Glória, resolvi ir lá. Só voltei à noite. Mas achei-os esquisitos, parecia que cada palavra que diziam era uma indireta pra mim. É sempre assim. Devagarinho, vou notando que as pessoas vão fugindo de mim, e eu vou ficando cada vez mais sozinha. Mas não faz mal. Embora, às vezes, eu me desespere de ver, ao meu redor, tanta solidão, prefiro viver sozinha do que viver no meio de pessoas inconvenientes.
Embora isso não tenha muita importância, hoje, depois de muito tempo, revi o Lauro da Dona Vitória, lá no ponto do ônibus do Jardim Fernandes. Ele, que há algum tempo atrás, foi o tipo do rapaz senão bonito, vistoso, hoje é o tipo contrário do que foi. Está velho, de dentes podres, um caco. Pareceu-me simpático mas, tão logo me viu, começou a contar fofocas da própria família. O que não é novidade pois, contar fofocas sempre foi o fraco e a especialidade de toda a família dele.
Até logo, Aoud.
16.12.75 Clotilde
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