sábado, 20 de julho de 2024

V - 08 01 86

V – 08/01/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Beijos reais, não mais. Nossos beijos e nosso amor agora serão só subjetivos.

 

2) Eu sinto e vejo o Jânio tão próximo.

 

3) Você Vitória, como minha filha, está irreconhecível. Mas como cônjuge da Rosinha, não poderia estar melhor. Está perfeita. 

 

4) “Estou desinfetando esta política porque nádegas indevidas a usaram”. Foi a frase que o Jânio disse ao desinfetar com Rodiasol a sua cadeira na prefeitura onde Fernando Henrique se sentara já certo da vitória alguns dias antes das eleições. 

 

5) Já que Vitória não veio como prometeu, nem no sábado nem no domingo, Ita ontem foi até a Vila Formosa saber dela sobre as máquinas. Voltou dizendo que ela já vendeu a galoneira por treze milhões e que não vai vender a outra porque ela e a Rosinha vão levá-la pra Bahia para lá montarem uma confecção. Isto quer dizer que, ao invés dela vir falar com o Ita e através dele pagar pelo menos 20 milhões, preferiu fazer sozinha as coisas e tomou prejuízo. Quero ver só o quanto de dinheiro ela virá me trazer. Não aceito menos que dez. a máquina, por todos os direitos, é minha uma vez que ela não cumpriu com a palavra até dezembro e também pela falta de consideração que ela tem tido para comigo e os irmãos. Engraçado é que ela faz questão das mínimas coisas. Coisas que, para mim não dizem nada, para ela faz. Egoísta, só pensa nela. Já que ela age assim nada mais justo que eu faça o mesmo com relação a ela. Já que ela não usa a menor consideração para conosco, sua mãe e irmãos, também não temos a menor obrigação de considerá-la. É elas por elas. Toma lá, dá cá.

 

6) Ita voltou dizendo que achou Rosinha e Vitória muito esquisitas.

 - Eu não sei não, mãe. Eu não quero dizer nada, mas que Vitória está muito estranha, está. E quando eu perguntei pra ela do lance do Paulo a Rosinha chegou mais perto para escutar melhor, desconfiada.

 

7) A vida é dela. E ela sempre foi assim. Não é novidade. Ela sempre foi egoísta. Sempre se julgou superior a todos em casa e toda vida se rebelou contra os meus desígnios. Portanto, o melhor que eu faço é deixá-la pra lá. Não devo ficar gastando minhas preocupações com ela nem com a Jussara que já são adultas bastante para cuidarem de suas próprias vidas. Agora, o que eu não devo permitir é que ela tire proveito da minha boa fé.

 

8) Jussara, desde o dia da grande mentira, ou seja, 1º de janeiro que se foi e não mais voltou. Deve estar esperando que eu vá atrás dela. Não vou não. Ela que fez as coisas erradas, que as conserte. Do contrário, se for preciso eu ir pra Bahia sem revê-la, irei. Sou muito boa, muito boa.

 

9) Estou paradona estes dias em matéria de escrita. Coisas sem conteúdo, coisas sem importância e que nem merecem ser ditas; só as que preenchem o meu vazio de ideologias substanciais.

 

10) Pedi ao Gohonzon, entre outras coisas, para que eu possa emagrecer, ficar um palito, comendo de tudo. Basta o Gohonzon querer e acontecer. 

 

11) A duras custas, tenho conseguido fazer os dois Gongyos diários até aqui, 08/01. E que o Gohonzon me dê bastante coragem, força e fé, para que eu nem que seja, a duras custas, não falhe nenhuma vez este ano.

 

12) Gostaria de poder falar com Aoud a cerca da Jussara ainda uma vez antes de ir embora. Vamos ver se será possível que ele atenda às nossas reivindicações. Quero que, e ele há de convir, que Jussara só deve estudar até se formar. 

 

13) Briguei com todo mundo hoje, com Vitória, com Miriam, com Ita, com Doca e comigo mesma. 

 

14) Não concordei com os sete milhões que Vitória veio me trazer ontem e soltei os cachorros em cima dela. Falei tudo o que estava engasgado. Dela ter vindo aqui só pra pegar todas (e mais que) as suas coisas sem dizer nada, do tempão que ela passou sem vir aqui, passando sempre aí na frente, vinha em Suzano sem vir aqui. Do trem que quebrou em Poá e ela, estando tão perto daqui, preferiu ficar até duas horas da madrugada na rua, sem certeza de chegar lá, e não vir aqui. Do pouco caso que fez com o Ita, quando ele precisou do dinheiro para o carro. E outras cositas mais. Falei que o dinheiro não valia mais nada. Mas que a falta de consideração dela sim. Que já que ela fazia caso das coisas mínimas, eu também começo a fazer. Que já que ela não tem nenhuma consideração comigo e com os irmãos, eu também não tenho obrigação de considerá-la. Ela chorou e não respondeu nada. 

 

15) Falei-lhe também que o Ita, logo no começo, me falava que ela tinha me dado uma rasteira e que eu sempre a defendia, até que constatei que ela tinha levado tudo e aí entendi que ela tinha feito tudo com segundas intenções. E que ela sempre se achou superior a mim e aos irmãos. Que ela nasceu sozinha, aliás, apareceu, que é como se nunca precisasse de mãe. E que não era porque a Rosinha e a Dona Nair estavam aqui que eu iria deixar afogar pelo que há muito vinha me engasgando.

 

16) A menina da Rosinha veio dizer a ela que o Eduardo da Miriam mexeu com ela. A Rosinha foi falar com ele e com a Miriam e tudo ficou por isso mesmo porque ele se defendeu jogando a culpa no Rodrigo. A Miriam, mais uma vez, acreditou nele. E tudo bem. A Rosinha deu uma surra na menina dela, pra não brincar mais com moleque. A Miriam entrou aqui, eu toquei no assunto, ela defendeu os filhos dela, deu umas respostas que menino tem que fazer isto mesmo. Ela falou que ela não tem tempo, e eu falei que não tem tempo mesmo nem pra olhar os filhos dela. Que eles fazem tudo o que querem e ela bate palmas. E que já que eles são sem vergonha, que eu não quero nem mais eles aqui dentro. Que já que eles não respeitam a menina que é pequena e fala, como é que vão respeitar a Liliam que não fala? Ela saiu com raiva e contou pro Doca. E ele veio aqui fazer perguntas e eu falei a ele tudo o que tinha falado a ela. Que os meninos não respeitam a gente. Que eu falo com ele e ele sai de lado fazendo o maior pouco caso dos outros; que na próxima vez que ela vier que ele vai fechar os meninos dentro de casa e não deixar sair e vai ver se ele fala alguma coisa. Quer dizer que ele está criando aí um tarado? E saiu furioso. Eu ia com elas pra Bahia amanhã e, por falta de confiança, de deixar a Liliam sozinha, não fui. Fui dormir bastante contrariada pelo dia polêmico que tive hoje. 

01- 11 – 13 – 91 – 00 – números da loto. 

                                                                          Clô

 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

poema de CLÔ na Academia de Letras da Bahia

O poeta Jorge Baptista Carrano lê um trecho do poema BAHIA REVISITADA de Clotilde Sampaio.

IV - 06 01 86

IV – 06/01/86 – segunda-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jânio assumiu a prefeitura há quatro dias e São Paulo já não é mais a mesma. Ele terá que governar quatro anos em três. E quem sobreviver verá que São Paulo, após Jânio, nunca mais será a mesma. 

 

2) Sobre o carnaval paulista Jânio insiste: não perguntem a ele prefeito, perguntem ao Rei Momo.

 

3) Jânio Quadros disse que, ao efetuar o desemprego de 20.000 funcionários, cumpre o ser dever e que a prefeitura não é entidade beneficente. Todo mundo que não trabalhar vai pra rua. É uma legião tal que redistribuída pode atender a todas as necessidades sociais. Perguntado como se sentia na prefeitura Jânio respondeu:

 - Estou tão bem que os outros estão se sentindo mal.

E sobre a opinião de Mário Covas contra ele:

 - Não interessa o que ele pensa. Interessa o que eu penso. 

Disse que na prefeitura não tem lugar para vagabundos. E que o Montoro que os reempregue no estado. Aplausos. Aplausos. Aplausos a Jânio!

 

                                                                   Clô

 

A INFINITA CLÔ na Biblioteca Central dos Barris

Ivan de Almeida da Editora Cogito adquiriu um exemplar da nossa escritora em julho de 2024.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

III - 05 01 86

III – 05/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Vitória veio aqui na quinta-feira sem que eu esperasse. Veio ela, a Rosinha e a Vanessa. Preferia que ela tivesse vindo sozinha para que eu pudesse conversar com ela melhor. Mas, por outro lado, foi bom. Assim pude ver como a Rosinha tem ganhado dinheiro com as minhas máquinas. Digo isso porque, até há bem pouco tempo, ou seja, em julho, ela estava completamente sem dinheiro e cheia de dívidas. Agora ela comprou carro novo e tudo o que ela quer ela compra e faz enquanto a Vitória nem as dívidas pagou. Acho engraçado é que todo mundo ganhou dinheiro com costuras nesse ano, menos a Vitória. E o engraçado é que a Vitória, que está dentro da coisa, não enxerga que está sendo ludibriada, e como está. Dá a impressão que ela está para a Rosinha como um sapo está para uma cobra, quando cai no campo de mira e domínio desta: completamente hipnotizada, completamente dominada, completamente sem vontade própria, completamente despersonalizada. Não gostei nada de sentir e de ver a situação da Vitória para com a Rosinha. Ela é apenas um simples joguete nas mãos da Rosinha. Rosinha é quem determina o que ela deve fazer. Por exemplo, Vitória disse que ia até a Faculdade resolver uns problemas, Rosinha falou pra ela: 

- Deixa pra outro dia, você já não veio no outro dia? Você já não veio tratar disso no outro dia? O que é que você veio fazer no outro dia aqui? 

- Eu vim só ver as minhas notas.

- Deixa pra vir outro dia. Outro dia você resolve isto. 

E a Vitória obedeceu. Mesmo eu falando pra ela ir na Faculdade e depois voltar aqui pra falar com o Ita. Quer dizer, contrariou até mesmo a vontade dela que era de ir até a Faculdade, só pra não desagradar a Rosinha. O cúmulo também foi o trem ter quebrado em Poá às dez e meia da noite e ela, em vez de vir aqui para casa preferiu ficar na rua até as duas horas da madrugada, correndo o risco de dormir na rua, só para não dar preocupações à Rosinha. Quando que ela se preocupou em não dar preocupações a mim, que sou a mãe dela?

 

2) Eu, CLOTILDE COSTA SAMPAIO, dou ampla e total liberdade a meu filho ITAMARATY JOSÉ COSTA SAMPAIO de agir em meu nome e dos meus interesses como quiser e entender.

 

3) Lilinha, depois que foi em Guararema na casa da senhora espírita que a benzeu e que tomou os nove banhos de arruda, guiné e trança de alho, ficou mais calminha e mais ligada comigo, parece que sente e entende mais as coisas ao seu redor. Ficou mais sensível. Por outro lado, ficou impossível. Ou seja, ficou mais arteira, mais ágil, mais esperta para fazer as coisas que quer e mais reacionária para não fazer as coisas que não quer. Hoje iremos eu, Doca e Sr. Agostinho levá-la de novo lá. Seu Agostinho deu certeza que essa senhora a curará. Por outro lado, essa senhora também deu certeza de que ela se curará. Então a nossa obrigação é levá-la lá. E Oxalá ela se cure mesmo. Pelo menos tenho fé e esperança de vê-la totalmente curada muito em breve. Não importa por quais meios. Se pelo budismo, se pelo espiritismo. O importante é que ela se cure. E seja qual for o meio que a cure, terá o meu completo louvor, a minha completa fé, a minha completa gratidão. Lilinha é um desafio. Vamos ver quem vencerá este desafio. Se é o budismo, se é o espiritismo.    

 

4) Lilinha está rezando. Primeiro ela levanta-se impossível. Não quer fazer nada do que a gente quer. Até para levá-la no banheiro é preciso arrastá-la. Porque ela se encurva e empaca no lugar e se joga no chão. Agora, depois que foi benzida, é um sacrifício levá-la de um canto a outro. Só vai arrastada. Gosta também de deitar-se no chão, debaixo da cama, de morder tudo, de jogar os banquinhos no chão. Tornou-se mais violenta e mais rebelde depois da benzedura e dos banhos. Será para melhor? Acho que é a transição. É a revolução que está se operando dentro dela. Depois disso tudo, nascerá uma nova Lilinha. 

 

5) Um espírito vem me dizer que Aoud morreu hoje, ou seja, aos 23 minutos de hoje 05/01/86, domingo, de derrame cerebral, em sua casa e que vai ser enterrado às 16 horas de hoje, domingo. Não estou acreditando. Deve ser só brincadeira deste espírito. Os espíritos geralmente gostam de fazer deste tipo de brincadeira com a gente. E esta não é a primeira vez que um espírito vem com esse tipo de brincadeira comigo. Já me disseram que Orlando, pai da Dinorá, estava morto e ele está vivo. Já me disseram que o Sr. Antonio Collalilo estava morto e eu soube também que ele ainda está vivo. Mas fico imaginando-me na hipótese de que isso tenha realmente acontecido, e não consigo me aprofundar tanto na questão, não consigo me ver triste.

 

6) Foi até bom ter acontecido este boato para que eu pudesse me reanimar a respeito. E pude constatar que, nada mais de muito importante como acontecia até bem há pouco tempo me prende mais a ele. Parece-me até que, se eu não chegar a ficar contente com o acontecimento de tal evento, também não vou sentir qualquer falta, qualquer saudade. Esta é a vantagem de eu ter me esforçado no empenho de não mais fazer-lhe caso a ponto de até parecer-me já o ter matado bem antes até de ele vir a morrer de fato. Eu só vou receber esta notícia como automática e necessária oficialização do féretro.

 

7) Tive um sonho esta noite relacionado com o Portuga e com Portugal. Foi um sonho bom e bonito. Mas não posso descrevê-lo porque já o esqueci.   

 

                                                                                                     Clô

 

A INFINITA CLÔ na Academia de Letras da Bahia

Vitória Régia e o escritor Paulo Ramos - em 25 de abril de 2024

segunda-feira, 15 de julho de 2024

II - 04 01 86

II – 04/01/86 – sábado – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) O Jânio está botando pra quebrar. Como era previsto por todos os janistas, está fazendo uma verdadeira revolução na prefeitura de São Paulo. E por mais que as más línguas, ou seja, os deturpadores de verdade falem, não vão conseguir camuflar o valor dele. Está trabalhando e obrigando trabalhar. Montoro agora quer queira ou não, vai ter que trabalhar também. Por exemplo: os médicos do INANSP do estado de São Paulo estão em greve já há noventa dias. E nada do governador nem do antigo prefeito Mário Covas atender às reivindicações dos responsáveis pela nossa saúde. O Jânio mal entrou e já se interessou pelo caso e vai resolver o problema no tocante ao município de São Paulo, dando um bom aumento nos vencimentos dos médicos que atendem nos hospitais concernentes à capital. Desse modo ele obriga o Montoro, sem querer, a dar aumento também aos médicos do estado e acabar com a greve dos médicos em todo o estado. Outro exemplo: a guarda municipal que Jânio vai criar ganhará de três e meio a quatro milhões contra os menos de um milhão e meio de vencimentos de cada policial militar do estado de São Paulo. Isto provoca uma evasão da Polícia Militar do estado para a prefeitura ou então que o governador pague os mesmos três e meio a quatro milhões para a PM do estado.

 

2) Jânio desativou a EMURB e a PAULISTUR. E vai exonerar vinte mil servidores públicos. É lógico que, para isso, ele vai fazer uma rigorosa seleção. Só despedindo os recém admitidos e os que não tenham um bom currículo. Disse Jânio que não precisa de todo esse contingente para governar São Paulo. Que com bem menos pessoas ele fará uma prefeitura ideal. Isso, Jânio. Precisa mesmo mostrar pra essa gente como é que se governa. Precisa deixar todos esses corruptos, inimigos do povo, com a cara no chão.

 

3) A entrevista coletiva que Jânio teria com os órgãos de imprensa de São Paulo não se realizou simplesmente porque Jânio vetou onze órgãos entre eles, em primeiro lugar a Globo, a Manchete, a Gazeta (?), etc. E os outros que poderiam entrar, que eu não sei bem ainda quem são, ficaram do lado dos corruptos e também não entraram. Diante disso, Jânio se absteve de dar a entrevista e disse que a população vai ficar informada do que ele está fazendo através do Diário Oficial e de um outro órgão, que eu não sei bem ainda qual é. O Jânio é danado. 

 

4) A Globo só se refere às coisas contra o Jânio. Parece até que ela virou indústria de fabricar difamações e descontentamentos contra o governo de Jânio Quadros. Cachorra. Não mais vou usá-la. 

 

                                      Clô  

90a edição Movimento Exploesia

segunda-feira, 8 de julho de 2024

I - 01 01 86

ANO 1986

 

I – 01/01/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jussara chegou ontem deveriam ser já umas nove horas. Eu estava tomando banho quando ela chegou. Veio bonita. Com um conjunto de saia e blusa amarelo clarinho de algodão de blusa bem transada e de sandálias baixas brancas. O conjunto lhe caiu muito bem. Ficou elegante, mais alta, mais magra, um mulherão. Falei-lhe que iria devolver-lhe a correntinha de ouro que ela me deu no Natal. Ela não gostou. Disse-me que todas as mães que ela conhecia tinham uma corrente com uma menininha igual. Disse-lhe que todas as filhas que eu conhecia tinham uma igual dada pelas mães, como o caso de Nair do Forum que deu pra filha dela uma igual. Disse-lhe também que iria devolver-lhe porque não gosto mais de usar nada. Muito menos de ouro. Só bijouteria boa. Já fiz uma promessa de não usar mais ouro. Não adianta nada eu usá-lo e ficar com medo de sair na rua. E que, já que ela gostava, que usasse por mim. Em seguida, coloquei a corrente e a menininha no pescoço dela junto com as outras. Ficou bem. Só que eu a preferia sem ter comprado e sem estar usando nada disso. O medo que eu deixei de ter por mim agora tenho que ter por ela. É um perigo andar com joias. Ladrões aqui em São Paulo agora é o que não falta e...

 

2) Comecei a falar pra Jussara tudo o que precisava falar-lhe: do ano que repetiu, do trabalho inexpressivo que ela tem lá no mercado e da mentalidade cada vez menor que ela está tendo depois que saiu de casa. “Estou vendo só você indo para trás. Não vi vantagem nenhuma na sua vida depois que você saiu de casa. Saiu daqui para passar de ano e não passou. Você e a Vitória neste ano só regrediram. Uma de um jeito, outra de outro. Só no João e no Ita que eu vi progresso neste ano. Dinorá é que é Dinorá, que faz um sacrifício tão grande, passou de ano. A sua vida agora é só trabalhar para comer, namorar, ir passear com o namorado e dormir. Nada mais”. Ela ficou triste, se fechou no quarto do Gohonzon, e estava chorando.

 

a) Mentiu sobre a urna.

 

b) Fomos na Ivonete e no Joãozinho. E só voltei às seis da manhã.

 

c) O dia todo e até agora às seis da manhã é aquele calor insuportável.

 

d) A posse do Jânio na prefeitura hoje.

 

e) Jânio falou no pequeno discurso da sua posse que vai ser não um prefeito mas o prefeito. E que vai ser o prefeito de todos os humildes e desacreditados. E de todas as Vilas Marias abandonadas estejam elas onde estiverem.

 

f) Às três horas da tarde Jânio voltou ao seu gabinete para desinfetar a sua cadeira de prefeito onde Fernando Henrique, às vésperas da eleição, sentou-se nela fazendo pose para todos os repórteres, já com a plena convicção de já ser o prefeito eleito, o vencedor. Jânio usou, para o seu primeiro trabalho como prefeito, um spray Rodiasol. E disse que a estava desinfeccionando porque nádegas inconvenientes sentaram-se ali.

 

g) Jânio, de barbas e cabelos brancos e sem bigodes, está lindo. Um galã. Nunca o vi tão lindo como agora. Mas as más línguas da gente que fala sem saber o que fala, como a Maria Thereza, professora do Ita e da Vitória, disse à Jussara que ele está horroroso, parecendo-se com o Mengele, carrasco nazista. Coitada, ela vai é tomar um susto daqueles. 

 

h) A filha dele feiosa e besta estava ao lado com uma cara bem feia e bem arrogante. Bobona. Volta para os E.E.U.U. que você ganha mais, Tutu. Aqui, você só está prejudicando a personalidade do seu pai. Você nem parece ser filha do grande e incomum homem que Jânio Quadros é. Ter tudo para ser inteligente e não conseguir. Você mais se parece uma mulher vulgar. Nada mais. Aliás, ainda não vi seu marido. Você o tem mesmo? Será?

 

i) Houve uma coisa bonita, um dia bonito, um dia de sol.

 

j) A visita do José no dia do ano novo? Não, foi no dia de Natal. Eu que me equivoquei, pois lembro-me agora que até falei a esse respeito aí um pouco atrás. 

 

                                          Clô

Foto Clotilde e banner do Movimento EXPLOESIA - by Heloísa Lima