segunda-feira, 8 de julho de 2024

I - 01 01 86

ANO 1986

 

I – 01/01/86 – quarta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Jussara chegou ontem deveriam ser já umas nove horas. Eu estava tomando banho quando ela chegou. Veio bonita. Com um conjunto de saia e blusa amarelo clarinho de algodão de blusa bem transada e de sandálias baixas brancas. O conjunto lhe caiu muito bem. Ficou elegante, mais alta, mais magra, um mulherão. Falei-lhe que iria devolver-lhe a correntinha de ouro que ela me deu no Natal. Ela não gostou. Disse-me que todas as mães que ela conhecia tinham uma corrente com uma menininha igual. Disse-lhe que todas as filhas que eu conhecia tinham uma igual dada pelas mães, como o caso de Nair do Forum que deu pra filha dela uma igual. Disse-lhe também que iria devolver-lhe porque não gosto mais de usar nada. Muito menos de ouro. Só bijouteria boa. Já fiz uma promessa de não usar mais ouro. Não adianta nada eu usá-lo e ficar com medo de sair na rua. E que, já que ela gostava, que usasse por mim. Em seguida, coloquei a corrente e a menininha no pescoço dela junto com as outras. Ficou bem. Só que eu a preferia sem ter comprado e sem estar usando nada disso. O medo que eu deixei de ter por mim agora tenho que ter por ela. É um perigo andar com joias. Ladrões aqui em São Paulo agora é o que não falta e...

 

2) Comecei a falar pra Jussara tudo o que precisava falar-lhe: do ano que repetiu, do trabalho inexpressivo que ela tem lá no mercado e da mentalidade cada vez menor que ela está tendo depois que saiu de casa. “Estou vendo só você indo para trás. Não vi vantagem nenhuma na sua vida depois que você saiu de casa. Saiu daqui para passar de ano e não passou. Você e a Vitória neste ano só regrediram. Uma de um jeito, outra de outro. Só no João e no Ita que eu vi progresso neste ano. Dinorá é que é Dinorá, que faz um sacrifício tão grande, passou de ano. A sua vida agora é só trabalhar para comer, namorar, ir passear com o namorado e dormir. Nada mais”. Ela ficou triste, se fechou no quarto do Gohonzon, e estava chorando.

 

a) Mentiu sobre a urna.

 

b) Fomos na Ivonete e no Joãozinho. E só voltei às seis da manhã.

 

c) O dia todo e até agora às seis da manhã é aquele calor insuportável.

 

d) A posse do Jânio na prefeitura hoje.

 

e) Jânio falou no pequeno discurso da sua posse que vai ser não um prefeito mas o prefeito. E que vai ser o prefeito de todos os humildes e desacreditados. E de todas as Vilas Marias abandonadas estejam elas onde estiverem.

 

f) Às três horas da tarde Jânio voltou ao seu gabinete para desinfetar a sua cadeira de prefeito onde Fernando Henrique, às vésperas da eleição, sentou-se nela fazendo pose para todos os repórteres, já com a plena convicção de já ser o prefeito eleito, o vencedor. Jânio usou, para o seu primeiro trabalho como prefeito, um spray Rodiasol. E disse que a estava desinfeccionando porque nádegas inconvenientes sentaram-se ali.

 

g) Jânio, de barbas e cabelos brancos e sem bigodes, está lindo. Um galã. Nunca o vi tão lindo como agora. Mas as más línguas da gente que fala sem saber o que fala, como a Maria Thereza, professora do Ita e da Vitória, disse à Jussara que ele está horroroso, parecendo-se com o Mengele, carrasco nazista. Coitada, ela vai é tomar um susto daqueles. 

 

h) A filha dele feiosa e besta estava ao lado com uma cara bem feia e bem arrogante. Bobona. Volta para os E.E.U.U. que você ganha mais, Tutu. Aqui, você só está prejudicando a personalidade do seu pai. Você nem parece ser filha do grande e incomum homem que Jânio Quadros é. Ter tudo para ser inteligente e não conseguir. Você mais se parece uma mulher vulgar. Nada mais. Aliás, ainda não vi seu marido. Você o tem mesmo? Será?

 

i) Houve uma coisa bonita, um dia bonito, um dia de sol.

 

j) A visita do José no dia do ano novo? Não, foi no dia de Natal. Eu que me equivoquei, pois lembro-me agora que até falei a esse respeito aí um pouco atrás. 

 

                                          Clô

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