terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Suzano, SP, 26/03/1982. (11:38 horas) - É PERDER TEMPO

Aoud,
Meu amor,

          Aos teus: egoísmo, fingimentos, preconceitos, desprezos, ódios, desnaturamento, e etcs, etcs,  etcs; às tuas: máscaras, mentiras, chantagens, hipocrisias, covardia, injustiças, calúnias, desumanidade, canalhices, baixezas,  e etcs, etcs, etcs, eu respondo com amor, com poesia, e... se preciso, com baixezas também. Pois, meu querido, tudo o que você já fez, está fazendo, ou pretende fazer contra mim, contra os nossos filhos, e contra o infinito e indestrutível amor que sinto por você, você está fazendo para você mesmo, para os outros teus filhos, e principalmente para as tuas filhas e as tuas netas. Ou será que você é tão cego, tão insensível, e tão ignorante que não enxerga, não sente, nem acredita que existe uma Lei Divina tomando conta, julgando, e punindo todos os nossos maus atos? Mas, saiba que, quer você queira ou não, ela existe. E eu quero estar bem viva, e bem lúcida, para poder assistir e apreciar o teu ajustamento de contas com Deus. Porque, que você vai pagar, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, por bem ou por mal, tudo o que você deve aos teus filhos e a mim, isso vai. Ora, se vai! E como vai!! E bonitinho, bonitinho, e bem caprichadinho mesmo. Porque tudo o que você plantou e está plantando, inevitavelmente, (assim como já está colhendo) você vai ter que colher. E o mal nunca venceu o Bem, meu amor. E quem semeia ventos, colhe tempestades. E, no fim, o feitiço vira-se sempre contra o feiticeiro, o tiro sai pela culatra, e quem ri por último, ri melhor. Portanto,

                        É PERDER TEMPO

                 Meu amor,
                 É potente demais,
                 Este amor que te dou:
                 Ele nunca cedeu
                 Nem curvou-se jamais,
                 A quem o ameaçou.

                Veja bem que este amor resistiu
                Ao ciúmes, solidão, saudades,
                Ao mais fundo e impreenchível vazio,
                Ao desprezo, injustiças, ansiedades,
                Ao relento, à chuva, ao vento, ao frio,
                Terremotos, tufões, tempestades.

                Às calúnias, grosserias, e injúrias
                Dos teus baixos e reles sentimentos.
                Enfim, todas as mais violentas fúrias
                Dos mais prepotenciais elementos,
                E por mais pretensões más que tenhas,
                Atacar-me, meu bem, É PERDER TEMPO.

                Porque em mim, em sentido geral
                Não vai ser nem este vendaval
                Nem esta dor fenomenal
                Quem vai tirar-me do nor-mal.
                Pois este meu amor por ti, amor,
                É mesmo ALGO MUITO ESPECIAL.


          Meu querido, na justiça dos homens, pode haver falhas. E você, com o dinheiro que tem, pode comprar testemunhas e circusntâncias falsas, e, pelo menos temporária e ilusoriamente, levar a melhor. Mas, a Justiça Divina, meu amor, esta é soberana, absoluta, e perfeita, e nesta, por mais dinheiro, posição social, e amigos importantes e influentes que você tenha, e por mais corrupções que haja por aí, nesta não há quebra-galhos. E tão certo como existe Deus, e como existe a Verdadeira Justiça, eu quero assistir, de camarote especial, o magnífico espetáculo da sua estrondosa, pavorosa e definitiva queda. Okay? Boa sorte, querido. Beija-lhe a sua:

                                                                                  Clô.

domingo, 27 de dezembro de 2015

DESENCANTO

Todos os meus amores
Um a um, se foram
Nas horas incertas.
Largando-me ao largo
Deixando-me ao longo
De estradas desertas.

Só e abandonada
Marchando, caminho.
Por este caminho
Que me traz de um nada
Pra dar-me (quem sabe?)
Talvez pra outro nada.

Trago o meu reflexo
De tudo despido.
Confuso e perplexo
Falando sem nexo
No espelho da vida.

Sinto-me castrada.
Reduzida ao esmo
De um não ser complexo.
Não tenho desejo
De nada. Nem mesmo
Sei mais o que é sexo.

Não quero ninguém.
Nem muito, nem pouco.
Nem tudo, nem nada.
Não. Não. Não. Não.

Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaãão!...

          Clotilde Sampaio


            Monte Cristo, Suzano, SP, 1979.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

22 de abril de 1983

Poá
22 de abril de 1983
sexta-feira, 13:15 horas.

Aoud,
Meu amor,

          Hoje eu não fui trabalhar. Emendamos o feriado de ontem. E ainda estou atônita, estupefata, sobre as nuvens. Passeando o meu mais íntimo eu, pelo infinito azul, azul, onde você me elevou ontem, e onde todas as emoções são mais quintessentes, deslumbrantes, magnânimas, supremas.
          Por isso, a esta hora, eu estou aqui em casa, no nosso quarto, sentada à minha máquina de escrever, te escrevendo.
          Agora, eu quase paro de escrever, e estou pensando... pensando... Adivinhe em quem!... E em quê!...
          Penso em você. E em tudo que você me fez ontem. Aliás, eu só penso em você. Em tudo que faço, em tudo que pretendo, só existe uma razão, um objetivo, um começo, um meio e um fim: VOCÊ.
          E é tão bom pensar em você. E até que é bom sentir saudades suas. E as de ontem então! Nossa!!! Como as outras, das primeiras vezes!!! Há quase vinte anos atrás, lembra-se? Eu ainda me lembro. E como!
          Ah! Meu querido, eu sinto tanto você! E sinto tanto a sua falta que, mal você sai de mim, e já estou com saudades.

                     Posso até enganar quem me vê
                     Mas, à mim, não iludo:
                     Eu sou nada, se estou sem você
                     Que é tão pouco, tão nada,
                     Mas, que é o meu tudo.

          Eu já lhe disse numa outra quadra uma vez, e torno a lhe repetir agora: “Eu te amo tanto, tanto, que até dói!”. E por te amar assim, tão doída, doída, e doloridamente, é que eu te preciso, é que eu te necessito muito, muito, muito, tanto, tanto, tanto. E na predestinação de tê-lo assim tão pouco, e com tanta demora, é bem possível até que, qualquer dia desses, você chegue aqui, e não me encontre mais... viva. Diante desta viabilidade, é bom que, antecipadamente, você já fique de sobreaviso: se isto acontecer, o que é bem possível, o que é bem provável, saiba que eu morri de tantas saudades suas.
          Mas vamos falar de ontem. (Dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, o meu herói predileto, (depois de você, é claro), o homem que morreu para nos libertar. E eu acho que, lá do seu túmulo, ou lá das esferas espirituais, ele deve ter se sentido realizado, e deve ter ficado bem feliz pelo nosso feito de ontem, e pelo modo fulgurante com que nós dois comemoramos o seu dia. Ele deve ter ficado contentíssimo, pois nunca, em nenhum desses cento e noventa e um (191) anos após sua morte, nunca o seu dia foi tão bem comemorado, como ontem. E nunca ele viu ninguém tão liberto, como nós, eu e você. E como foi bom! E quão deliciosa foi a nossa liberdade! Que achas?). Ontem, meu amor, você estava demais. Você estava o máximo. Desta vez, você veio com tudo, e me deu tudo. Valeu, meu querido. Valeu mesmo. E eu te vi e te senti tal e qual nos nossos bons e velhos tempos, entre 06 de maio a fins de dezembro de 1963, (daqui a alguns dias, precisamos comemorar os nossos vinte anos, não se esqueça), quando você só tinha trinta e seis aninhos. (E que, não sei por quais ingênuos, inexplicáveis e desnecessários escrúpulos ou complexos, com uma fisionomia bem grave e séria, você me dizia já ter trinta e quatro anos. Lembra-se?).
          De novo, agora, você esteve completo, perfeito. E mais que isto: esplêndido! Colossal! Estupendo! Magnífico! E me deixou feliz, feliz, feliz, feliz!!!...
          E transbordo tanto, de tanta alegria, que sinto-me também como se voltasse a ter só vinte e dois anos de idade outra vez.
          Mas, caso isso não lhe interesse, meu amor, desculpe-me , sim? Como eu tenho que lhe prestar contas do dinheiro que você me deu nos últimos dias, aproveitei para junto, desabafar-me um pouco, e prestar-lhe contas também de tudo que você me proporcionou usufruir nestas últimas horas. Foi só isso. Certo?
          E agora, do mais profundo da minha alma, dando-lhe aquele abraço e aquele beijo, eu digo-lhe:
          - Muito obrigada, meu querido. Mas, muito obrigada mesmo, por tudo, sim?
          
                                                                    Clô
           



domingo, 29 de novembro de 2015

(. . . SEM BOLERO DE RAVEL ? . . . )


                Meu amor, mais atenção
Para a tua imitação
De comprador de consciências:
Pela tua imprevidência,
(Mas, que QI mais carente!)
Nem podes ser comparável
A certo presidenciável
Por demais inteligente.

Que, em defesa de sua meta
(Também por via indireta
E igual à tua: abjeta.)
Não usa intermediários
Nem contrata mercenários.
Mas, vai ele pessoalmente
Negociar diretamente
Tanto os VENDE-SE declarados
Quanto os “vende-se” camuflados.

E incontraditoriamente
Por seus meios té louváveis,
Compra tanto os agradáveis
Quanto os mais inconvenientes.

Visionário admirável!

Para os mais inarredáveis
Toca logo em seu piano
Um “bolero de ravel”!
E a excitar quem é quem
Para orgias inconfessáveis,
Descarrega em seu harém
Os que podem ser compráveis.

Mas há os que não têm preço.
Raríssimos. Mas, inda os há.
Os fiéis a seus começos:
Goiás!!! Bahia!!! Ceará!!!
Os que não se auto-anarquizam
Por dolos gratificantes
Nem por promessas de Céu.
Nem por cargos importantes
Nem por dinheiro a granel.
Que nem se sensibilizam
Com “boleros de ravel”.

E o alvo a esse hostil tropel
(E quem quiser que o contemple!)
Se faz surdo, cego, e mudo.
Mas prossegue. E indiferente,
Leva, até o fim, seu papel.
Mesmo a saber que nem sempre
Petro-dólares compram tudo.
- Com Bolero de Ravel!

E o nosso turco embrulhão
Mesmo a parecer o Cão
Em sua Torre de Babel
(Se não entrar pelo cano)
Poderá chegar no Céu!
E arrebatar o troféu
De melhor ator do ano
Pelo persuasor papel
De bailarina sem véus
Do Respeito ao Ser Humano.
- Com Boleros de Ravel!!!

E tu, meu turco embrulhão,
Quis me embrulhar e, embrulhado
Pela tua embrulhação,
Mesmo a seres o próprio Cão
Já não és mais Cão Pelado.
Perdido em tua Babel
Podes entrar pelo cano
Mas, jamais chegar no Céu.
(... Sem Bolero de Ravel?...)

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

...Sei. Não foi tua intenção.
Não foi tua pretenção.
Nem corresponde ao teu plano.
Mas, como consolação,
Estou te dando o troféu
De pior ator do ano
Por teu inútil papel
De dançarina do ventre
(...Sem Bolero de Ravel?...)
Na dança dos muitos véus
Que intercalaste entre
Teu desnaturado e insano
Desrespeito ao Ser Humano.

(...Sem Bolero de Ravel?...)

Sim.
Sem Bolero de Ravel.

Viu,
Seu Raléu Tabaréu Cascavél Réu ?


           Clotilde Sampaio

              Poá, São Paulo, SP, 19/08/1984.