sábado, 29 de agosto de 2015

16/04/ a 06/05/83 – sábado – 2:20 horas – POÁ - SP

Ah! Meu amor, você é mau, você é sádico. Você é o meu Macunaíma. Você é o meu herói sem nenhum caráter.   
                                              Clô.

2:40 horas

Meu Amor.
Posso até enganar quem me vê, mas, a mim, não iludo. Esta é a minha verdade. Pois se perco o calor do teu corpo, eu me afogo em saudades. Eu sou nada se estou sem você que é tão pouco, tão nada, mas que é o meu tudo.
                                                                                          Clô.

2:40 horas

Estou apreensiva quanto à Vitória, e quanto ao João. À Vitória porque estou sentindo que ela não está feliz. E ao João pelo seu silêncio, desde que se foi para a Bahia, após o casamento de Vitória.
                                         Clô.

2:40 horas

Eu gostaria de ter dado a um homem a metade de toda essa minha gigantesca força interior. Se ele assimilasse bem, teria sido o suficiente para que ele se tornasse o mais forte, o mais respeitável e o mais vitorioso de todos os homens.
                                                                                                       Clô.

19/04/83 – segunda-feira – 22 horas

Somos eu e você um desencontro que não tem tamanho nem razão de ser.
                                                                                                                       Clô.
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Cada vez que você vem
Eu dou-lhe a minha vida
Pois cada vez que você vem pra mim
É uma despedida.
                                  Clô.
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Agora
Que você chegou?
Já passou do tempo
Já passou da hora.
E o nosso agora também já passou
E este agora agora,
Já é outro agora.  
                                Clô.

06/05/83 – sexta-feira – 20:30 horas.

Hoje poderia ter sido a minha grande noite. Poderíamos ter ido jantar. Aliás, você veio preparado para irmos jantar. Eu é que não estava com nenhuma disposição apesar de ter sido a primeira a ter pensado nisso. O importante é que você veio preparado, na hora certa, e sem intencionado, atendendo ao meu pedido. Eu é que não estava com o espírito nada bem para isso. Poderíamos ter ido jantar, conversarmos um pouco sobre nós. Relembraríamos numa boa, velhas e belas coisas de nossa vida nos tempos de vinte anos atrás, erguiríamos um brinde aos nossos já passados vinte anos, e outro a mais vinte anos juntos, e as nossas intimidades, ficariam  para um outro dia. Mas nada disso aconteceu. E ao contrário do que de bom poderia ter sido, o que aconteceu foi verdadeiramente frustrante. Nem você foi o que eu esperava que você fosse, nem eu fui o que gostaria de ter sido. Mas, nem tudo está perdido. Agora é nos preparar para os próximos 20 anos. E até o fim do ano de 83 ainda poderemos comemorar numa ocasião melhor o aniversário dos nossos vinte anos de convivência. Onde, se nem tudo foi bom, algumas coisas foram explêndidas. O mais importante é que estamos juntos, e que ficamos cada vez mais juntos.

                                                                                             Clô.                                                                                

domingo, 23 de agosto de 2015

O QUE A SAUDADE FAZ QUANDO É DEMAIS

Já nem me importo mais, amor
Também pudera!
Quando quiseres vir,
Estarei sempre à tua espera.
A qualquer hora,
Seja noite ou seja dia,
Sorrindo de prazer,
Chorando de alegria,
Hás de encontrar-me,
Ao descerrar para ti a porta,
Louca de ansiedade
E de saudades quase morta.

Cá sempre hei de ficar,
Todinha, inteira, ao teu dispor
A mendigar faminta
Uma migalha desse amor
Que tu dizes ser meu;
Jesus! Quanta ironia!
Se para dá-lo a mim
Só sabes vir de correria,
Se nada fazes mais
Que me trazer restos apenas.
Quando, a viver sem ele,
Tanto tempo me condenas.

Se me relegas sempre
Ao abandono, ao esquecimento,
Entre róseas e azuis
Paredes deste apartamento,
Se me esqueces de regar,
Com teu olhar, a parasita
Que morre quando vais
Mas quando voltas... ressuscita!
Se quando vens a mim,
Sem dar-me a mínima importância,
Deixas teus pensamentos
Além, quilômetros de distância.

Como ele é meu?
Se tu me dás dele tão pouco?
Se a tudo que eu te peço
Fazes teu olfato mouco?
Como ele é meu?
Se nem te agrada ver sequer
Às vezes satisfeitos
Meus anseios de mulher?
Se te desgosta sempre
Dar-me um pouco de prazer,
Se nada há que te importa
No meu modo de viver?

Amor, por tudo isto,
Eu te desculpo; muito embora
Haja outras coisas,
Que eu não vou dizer agora.
Já falei muito.
E me perdoe se houve ofensa.
Chega-te a mim
Que eu te darei a recompensa...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . Oh! Amor, embora tarde,
Vejo agora, reconheço:
Te ofendi tanto, Deus do céu!
Eu não mereço o teu perdão
Pois só agora, infelizmente, compreendi:
Fui egoísta, quis demais e me esqueci:
                     - Tu que me ouviste cabisbaixo, mudo e triste,
Deste-me tudo, e nada em troca pediste.

                   Clotilde Sampaio


                        1965 – Brás - SP