terça-feira, 30 de setembro de 2014

Quarta-feira, 18 de outubro de 1978.


Seu Sérgio está deixando o banheiro joinha. Hoje ele veio mais cedo que ontem. Já vi que ele é bem o oposto do seu José. Não conta papo mas capricha o que faz. Nem fiz Gongyo nem rezei nada hoje. E tanto que eu precisava rezar! Saí cedo com a Vitória e o Ita para Suzano. Fomos fazer vários pares de coisas como: fazer compras no SESI, onde gastei Cr$ 333,00, fazer compras no Guaió onde gastei Cr$ 59,00. Fui na reunião de pais e mestres do CENE (Colégio Estadual) onde soube que a Vitória está péssima em inglês, matemática, física e outras, e com as probabilidades de repetir o segundo colegial no ano que vem. Só neste semestre ela teve 10 faltas em aulas. Desapontei-me. Ela que sempre foi tão inteligente agora fazendo destas. E sem motivo pois falta de tempo não é. Tem quase o tempo todo integral para os estudos. Pois a fim de não prejudicá-la nos estudos, cheguei até a tirá-la do emprego na Frentex. E, em casa, ela não faz mais que limpar a casa e fazer comida, ainda não todo dia. E agora ela me vem com essa de repetir. Bem que eu dizia e agora comprovo. Namorar só atrapalha. Se não caísse nessa bagunça de namorar este ano, certamente não estaria nesta situação. Fui ao Nacional e depositei quatro mil cruzeiros (Cr$ 4.000,00). Eis o total que tenho no Nacional: Cr$7.009,00. Passei na serralheria para saber do vitrô da cozinha. Ainda não está feito. Mas de novo ficou prometido para a próxima semana. Mesmo assim dei Cr$ 1.000,00 de sinal. Resta só Cr$ 800,00. Passamos eu e o Ita no Pop Som. Comprei a porcaria do segundo elepê do Geraldo Luís por Cr$ 45,00. O Ita ficou envergonhado porque eu o designei para o ato de efetuar o pagamento e retirada do mesmo. Fomos para Itaquera. Fiquei na praça e o Ita foi lá na loja. Voltou dizendo que o Aoud não estava hoje e só estaria amanhã. Deve ter ido viajar. E é lógico que não foi sozinho. E é lógico que fiquei cozida de ciúmes. Fomos para São Paulo na Transterra onde, por quatro prestações atrasadas dos dois terrenos paguei Cr$ 6.060,00. Seu Raimundo me falou que o Grego foi à falência e que está perdendo os terrenos aqui vizinhos e que ele vai ajeitar para que o Grego me transfira os dois terrenos nºs 22 e 23. Boa. O corretor José Tardioli nos convidou para comer uma pizza. O Ita só deu furos. Falei ao corretor do meu desejo de também me tornar uma corretora. Ele me disse que eu devo tentar falar com doutor Mário e chegou até a me dar boas esperanças a respeito. Fiquei de ir na sexta à tarde falar com Dr. Mário. Encontramos Matilde que foi receber o PIS. E ficamos um tempão no Mappin comprando calça pro Ita.
                                                            Clô
                                                                          Monte Cristo, Suzano, SP.

domingo, 28 de setembro de 2014

UMA GOTA DE EMERAUDE


(em algum momento entre 1963 e 64)*

Uma gota de “Emeraude” em um dos pulsos.
Uma gota de “L’Aimant” no outro pulso.
É é como seu eu estivesse ainda
Lá em cima no nº 507
Do 5º andar do Edifício Leste
Da rua Monsenhor Andrade
nº 144, Braz – São Paulo
Depois das 23 horas te esperando
E olhando desesperadamente
Da janela da rua para ver se te vejo
Lá embaixo chegando.
Chegar, subir pelo elevador
E enfiar a chave na porta
E entrar, e desesperadamente
Vir ao meu encontro
E me abraçar e me devorar
De beijos e me engolir
Nos teus beijos, e me
Desmanchar nos teus braços
E me matar de amor,
Tanto, tanto, tanto, tanto
Que até hoje estou morta.

É como se eu ouvisse ainda
O ronco do teu carro
Parando lá embaixo,
É como se eu ouvisse ainda
Os teus passos chegando pelo
Corredor e se aproximando
Da porta, e o barulho da
Tua chave abrindo pelo
Lado de fora a porta. E você
Entrando, dentro de casa,
Dentro do quarto, e dentro
De mim, todinho. Ah!
Como eu te amo, te amo
Tanto, tanto, tanto, que
Até dói.

     Clotilde Sampaio

            Suzano, 1981
* Título e observação da filha, Vitória Régia, em 2014.





Monte Cristo - 06/11/92 – sexta



1-   Tenho estado anestesiada. Oca. Vazia. Inútil. Sem emoções nem sensações de espécie alguma. Por isso, nada, nada, nada, tenho escrito, (isto desde a Bahia). É como se nada de importante estivesse me acontecendo, nem se dando ao meu redor. E olha que tem acontecido coisas! O processo de derrubada de Collor! O massacre na Casa de Detenção, a morte de Ulisses Guimarães, Embu em pé de guerra, a revolta e evasão dos menores da FEBEM no Tatuapé. E tantas outras coisas que seriam marcantes mas que não conseguem me tocar nem me mobilizar. Não tenho tido mesmo a mínima vontade de escrever nada, nem sobre nada. E quando o faço, como agora, é com muito esforço, e com muito incômodo para mim, e sem saber o que escrever, e sem ter nada que falar. Por isso, só saem estas porcarias que não têm nem sentido nem motivação qualquer para serem escritas, a não ser apenas para ocupar, de algum modo, o espaço branco no papel.

2-   Não tenho lido nada também por causa das vistas, pois já não consigo enxergar nada de perto sem óculos. De longe enxergo até bem mas de perto, nada.

3-   E engordei muito desde que cheguei da Bahia, em início de julho, até agora. Cheguei aos 72 quilos! Agora, desde sábado, dia 31/10 (Dia das Bruxas!), estou fazendo regime com os remédios do Doutor Eugênio.

4-   Tenho ido, às vezes, no bar do Seu Vital (vizinho de Dona Maria Pereira, na av. Paulista, aqui atrás de casa), tomar cerveja com a turma: Joãozinho, Seu Edmundo, Vagner, Seu José Ferreira, Seu Pedrão, e outros, e por último, até a Efigênia, esposa do Joãozinho. Tem sido gostoso porque, entre as cervejas, há o toque de violão bem tocado do Seu Edmundo, a voz e as músicas caipiras cantadas tão bem por Joãozinho, e por último também as minhas declamações. Somos um grupo alegre de artistas e boêmios, todos vizinhos já conhecidos há muitos anos, irmãos, uma família. Me falaram que eu sou uma coroa muito bonita, e se extasiaram com as minhas declamações, de Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Morais e Fanatismo, de Florbela Espanca. Estou me sentindo muito bem entre eles, mas a cerveja que tenho bebido tem me feito mal. Tem me dado uma depressão horrível, com sensação horrorosa de culpa, e muita dor de cabeça.

5-   Fui no sábado com Ivonete na “Pérola Negra”. Até então eu não a conhecia, nem conhecia ninguém lá. Fiquei conhecendo o presidente (Tonhão?), o mesmo que o Pedrinho do Mercado falou muito mal. Achei-o simpático e gostei dele, como gostei da Escola, e da freqüência da nossa Escola. Só não gostei da tremenda dor de cabeça que as cervejas me provocaram no domingo.

6-   Fui na Secretaria da Cultura para tratar sobre o Recital e Lançamento do meu livro “Está Escrito”, em Suzano. Adelaide, a secretaria de Cultura me disse que, neste ano, o Auditório Municipal já está todo esgotado por causa das formaturas de fim de ano. Só no começo do ano que vem. Falamos com Vilma Bentivegna, eu e Matilde, que se realizou ao falar pessoalmente com sua Ídola. Reencontrei o Gigio da Nancy, que se parece com o pai dele Guilherme, e me disse que vai fazer jeito de eu declamar no dia na inauguração do novo prédio da Cultura em dezembro. Vi Ronnie de longe, com o rosto todo negro pelas tatuagens.

                                                                                                Clô



sábado, 27 de setembro de 2014

REVERSO

   
                     ...(“......... Eu sinto-me altas tradições
                                         De antes de tempo e espaço e vida e ser...
                                         Já viram Deus as minhas sensações...”)
              FERNANDO PESSOA

Te apraz me fazer mal. Então te esmeras
Na perfeição maior dos teus talentos:
Ser o melhor covarde de Itaquera
Capaz de aniquilar –me cem por cento.

Só que te enganas, meu Amor: difamas
Teu ser por ser um ser do teu tamanho.
Recusas desdramatizar meu drama?
Só te agradeço: em te perdendo, eu ganho!

Louvável é o teu desprezo a este amor tanto.
Avulto ao mal de ser sozinha: enquanto
Mergulhas lodaçais... Deslumbro os astros!

Se a solidão maior não fosse a minha,
Como ocupar meu trono de rainha
Que após me aguarda qual o de Inês de Castro?

                          Clotilde Sampaio

              Nova Mogi, Mogi das Cruzes, 31/05/1988
                           segunda-feira, 18:40 horas


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

20/01/81 – terça-feira

Hoje é dia de São Sebastião, aniversário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e dia do padroeiro de Suzano, São Sebastião do Guaió, portanto hoje é feriado em Suzano. E é também a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Hoje tem ensaio das candidatas a Rainha do Carnaval de Suzano e a Vitória é uma entre as dezoito candidatas, e é o dia em que, pela segunda vez, o João recomeça a trabalhar no Tasaka. O Ita está em Caraguá desde a sexta-feira passada e só virá amanhã, quarta-feira. E a Jussara está aqui em casa. E eu tirei o feriado de hoje para ir à Itaquera brigar com Aoud. O pior é que eu fiquei até as três horas da madrugada apertando cravos do meu rosto, e além de estar com o rosto todo massacrado, também não dormi nada. E justo hoje que estou com o rosto no pior aspecto é que preciso ir em Itaquera. Estava até pensando em não ir, em aproveitar o dia de outro jeito… Mas depois decidi: não, eu vou sim. E me aprontei primeiro, me maquiei depois, pus as sandálias de camurça vinho, já um tanto batidas, mas enfim… e o vestido estampado de fundo azul e de babados que ganhei do Galetti. Até que me achei mais ou menos, na base do “dá pra quebrar o galho”. Saí correndo para tomar o ônibus das onze, que me pareceu estar passando bem adiantado. Meia hora antes da hora! É bom, assim eu chego mais cedo. Mas o trem demorou pra vir. E quando cheguei na telefônica de Itaquera, já eram 15 para o meio-dia. Até que consegui telefonar para o Aoud, já eram cinco para 12 horas. Foi ele quem atendeu. Falei em tom decidido: Aoud, estou aqui e preciso de (Cr$ XX.XXX,XX). E preciso conversar com você hoje.
- Está bem. Daqui a dez minutos eu te encontro, respondeu-me ele.
- Onde? Na praça? Eu não vou conversar com você na praça.
- Eu vou na sua casa. Daqui a pouco a gente conversa.
Esperei dez minutos como ele pediu, e desci. Ele também já ia indo para a praça. E nos encontramos bem no meio da praça. Ele veio dizendo:
- Esta semana eu vou lá na sua casa e a gente conversa.
- Eu quero falar com você hoje, Aoud. Não é amanhã, nem depois, nem lá em casa. É agora, e aqui.
- Amanhã eu vou na sua casa. Sou eu quem preciso falar com você.
- Você não vai, você só fala que vai e não vai. Do mesmo jeito que você falou que ia semana passada e não foi.
- Eu não pude.
- Você nunca pode. Eu preciso falar com você hoje. Você vai lá em casa hoje?
- Não, hoje não vai dar. Só vou amanhã. Depois eu converso com você sobre isso. Tchau.

                                    Clô



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

TRISTEZA

              
Tudo é tristeza à minha volta. Tudo.
O céu, as flores, as vozes e os semblantes
Humanos e animais que, agonizantes
Me cercam em sinfonia de sons mudos.

Nada me faz viver cantando e rindo.
Sou triste e melancólica. Sou sisuda.
Pareço a correr, sempre fugindo
De uma agonia algoz, contínua, aguda.

Não sei ser venturosa. Nem tampouco
Ser otimista. Ver sorrir a primavera
Que cai sobre o arvoredo a zunir rouco.

Só sei ser nostalgia e desventura.
Só sei chorar a dor. Ah! Quem me dera!
Dar-me às delícias de uma sepultura!

                                   Clotilde Sampaio

                   Brás, São Paulo, SP, 1964.





terça-feira, 23 de setembro de 2014

04/08/92 - segunda-feira - (ensina o neto a ler)


1- Comecei a ensinar o João Vitor a ler no dia 14/07/92. Hoje ele já está na 14º lição ou seja, as do “rra, rre, re”, e começou hoje a escrever.

  2- Hoje falei com a Vitória pelo telefone. Disse que está com muita saudade do João Vitor e de todos nós. Imagino. João Vitor disse-lhe que queria voltar para a Bahia e eu falei pra ele que ele fala assim, do mesmo modo que até chorou no aeroporto, para vir. Ele acha que pode estar pra lá e pra cá, à toa, à toda hora que ele quiser. E que ela não precisa se preocupar que ele está muito bem aqui, e que ele está aprendendo a cartilha e escrevendo e que vai logo escrever-lhe uma carta. Ela disse que  a escola em que leciona está mais ou menos e que está sendo disputada por muitos namorados mas que ela está só saindo fora, e que as fotografias que ela tirou ficaram muito bonitas e que vai mandá-las pelo João, para nós vermos aqui. E que o Pelô está cada vez melhor. Foi bom conversar com minha filha, mas sinto que estou ficando tão distante de todos eles... É uma pena que seja assim. Mas talvez seja até melhor que seja assim, não sei. Só Deus sabe por que tem que ser assim e o porquê de cada coisa ser como é. 

                                                                                                                        Clô

domingo, 21 de setembro de 2014

PEQUENO MUNDO


Você chegou e viu
Tudo, tudo, vazio
Desde a porta da entrada
Aos janelões do fundo
Numa noite que sei
Foi só de chuva e frio
No apartamento que
Foi meu pequeno mundo

Não sei
O que você sentiu
Ao chegar e não me encontrar
Não sei se sofreu, se sorriu
Por não me ver a te esperar

Só sei
Que chorei, que sofri
E quase morri
Vendo a luz da janela
Acender e apagar
Quando estava a espreitar
A alguns passos dali.

              Clotilde Sampaio

                    São Paulo, 1965




12:45 horas (01/01/1987) – quinta-feira

2- Pretendia. Mas não fui. A Procissão do Senhor dos Navegantes já era. Agora só em Boa Viagem. Mas do jeito que Clau me descreveu como fica, muito movimento e com este calor, não não é pra mim. Clau não veio. Emília é quem vai mais tarde. Mas eu, com esta cara de sono danada, pois todos estes dias sem dormir, não me habilito. Prefiro ainda ir com Clau na Cantina. Revejo amigos e fico lá num canto sossegada, tomando as primeiras doses de Campari deste ano. Uma insônia tremenda se apossa de mim ultimamente sem explicações de quê. E mais uma vez eu fico sem ver navios aqui na Bahia. Já é, com esta, a segunda vez.


3- 18:20 horas – Umbus. Meu 1º umbu desde que estou aqui desta vez, chupado agora neste 1º dia de 87. “Um bocado moles”, disse Moisés oferecendo a mim. Clau interveio corrigindo seu linguajar errado. Defendi-o. Ele está falando certo. Está falando de acordo conforme sentiu. Crianças falam muitas vezes melhor que a gente. É o caso do Moisés agora.
                                                             Clô

sábado, 20 de setembro de 2014

NÃO SEI, NÃO SEI



Quantas canções vão nascer
Deste pranto que eu choro
Quantas canções vão surgir
Dos ais da minha dor
Quantas canções cantarão
Quantas canções chorarão
A cada vez que eu amar
Cada vez que eu me enganar
Não sei , não sei
Não sei, não sei
Não sei, não sei
Não sei, não sei

Quantas canções vão vibrar
Cada vez que eu me acabar
A cada vez que eu perder
A cada vez que eu sofrer
Quantas canções vão viver
A cada vez que eu morrer
A cada deslize meu
A cada desprezo teu

Como é que eu vou saber
Se não sou advinha
Como é que eu vou saber
Tudo o que ainda irei cantar
Como é que eu vou saber
Se só aprendi amar
Como é que eu vou saber
Se o amar
Só me ensinou
A amar.

             Clotilde Sampaio

              São Paulo, 1966



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

04:05 horas – 01/01/1987 – quinta-feira

1- Começamos otimamente bem este Novo Ano de 1987. Como sei que terminamos muito bem o ano passado de 1986 que já ficou na saudade. Eu, João, Ari, Lorena, Hilda, crianças e até Didi. Fizemos o Gongyo da manhã religiosamente à meia-noite em ponto. Vibrantes otimistas, felizes. Com muita fé e confiança (e vontade de lutar) no e para o futuro. Após fomos todos para a casa de Zeth onde estavam ela e o marido, os meninos, Nelito, esposa e filho, Jorge, esposa e filhos e Dona Benedita. Foi bom, ou seja, foi pra lá de bom. Teve licor de jenipapo delicioso, champagne delicioso, churrasquinho, um sarapatel delicioso, que Zeth fez e cerveja. Valeu. João, após passarmos na Liberdade em casa de Nelito, me trouxe até aqui em casa faltando 15 minutos para as quatro da manhã pois pretendo ir com Clau na festa de Bom Jesus dos Navegantes logo bem cedo, às sete ou oito da manhã, portanto, logo mais. Deixa-me dormir que já são 4:15 horas. Bom dia. Bom ótimo 1º de janeiro de 1987! Viva 87! Viva!!!



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SOLAR DO UNHÃO

  
A Obra de Arte Universal mais linda
Que se poder ter
É Aqui do Solar do Unhão.
Das janelas do Solar do Unhão.
Onde os barcos são pintados de barcos,
Os céus de céus, e o mar, de mar.
Ah! Bahia, Bahia
Bahia das belezas impossíveis
Onde a beleza é palpável
Onde a brisa do mar é autêntica.
E realmente, obrigatoriamente sentível.

11:20 horas – Restaurante do Solar do Unhão.
Estou tomando uma coca-cola.
Só uma coca-cola.
Pois, o meu carrasco regime para emagrecer
Me castiga não almoçar.
Peço uma porção de fritas,
Só para mastigar alguma coisa.
Mas, não tem fritas.
O rapaz (garçon ou proprietário?)
Fazendo questão de me tratar muito bem por tão pouco,
Vem em explicar bem detalhadamente e desculpando-se
Descascando as batatas.

Mesas bem postas
Com toalhas vermelhas de fundo
Com outras de rendas brancas sobre.
Bar com prateleiras também adornadas
Com a mesma renda branca.
Tudo exatamente como nos tempos coloniais.
E o mar lá fora
Lá fora da janela
Esbatendo-se suave e carinhoso
Excitando-se eroticamente,
Nas paredes das janelas.
(E este Solar, por estar tão dentro do mar
mais parece uma embarcação).
Querendo nos mostrar seu inimitável colorido
De ouro e azul
De sol e mar
Aqui tão familiar, tão chegado,
Tão doméstico, tão simpático
Tão pai, tão irmão, tão amigo, tão amante e amado
Tão, tão, tão, tão,...
Tão nosso animalzinho feroz de estimação.

Arcadas do Solar do Unhão
Quantos séculos estão aqui comigo
Agora a contemplá-las?
Dois? Três? Menos? Ou mais?
Eu as contemplo com todos os olhos
De todos estes séculos que por ti, passaram.
Eu as amo e as admiro
Com o mesmo amor e veneração
Dos escravos e fidalgos senhores
Que as construíram e que as habitaram.
Aqui tudo é lindo.
Desde os porões, até as janelas mais altas.
É tudo mar, mar, mar
Mar e beleza.
Beleza e mar.

O mar é muito grande na Bahia.
Céu estampado
E mar estampado.
Céu estampado de nuvens brancas
Mar estampado de velas brancas, e de todas as cores.
Beleza. Beleza. Beleza.
Só beleza.
E o sol sobre tudo
A realçar tudo.

Ah! Eu não estou querendo mais sair daqui,
Eu não estou querendo mais deixar nada disso,
Eu não estou querendo mais deixar tudo isso.

Os contrastes são muitos.
Gritantes e chocantes contrastes
Predominando o belo.
O êxtase. O mistério.
Que não cansam, que não enjoam
E que nunca se deixam
Desvendar por completo.
É esta a Bahia!
Explêndida!
Embasbacante!
Bahiaiyá Poesia!

                   Clotilde Sampaio


                      (década de 80)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

entre o final de 1962 e o início de 63 (1978)

Todo dia é a mesma rotina: levantar às seis, lavar o rosto, escovar os dentes, fazer a maquiagem que consta de base líquida em bastão cover  fluid rosa mauve da Helena Rubinstein, pó de arroz compact Jugel-Face, cigano, rouge da Coty nas faces, recurvar os cílios, passar a escovinha de cílios com rímel azul seco da Coty nos cílios e sobrancelhas, para dar aquele ar de mistério, beleza e sensualidade no olhar, batom cor de carne (cujo nome pelejo para lembrar mas não consigo e que hoje não existe mais na mesma cor), desmanchar os bobis, escovar os cabelos e penteá-los soltos e jeitosos, caindo graciosamente sobre os ombros, vestir a mesma surrada saia branca de pano bom, justa e blusa preta de seda de mangas japonesas curtas e gola esporte aberta, com a cintura bem marcada sobre a saia, vestir as meias bem finas indesfiáveis da Kaiubê, calçar os sapatos pretos estilo clássico de saltos altos, pegar a bolsa também preta de couro de dois anos ou mais de uso, mais velha que a minha viuvez, me olhar inteira no espelho do guarda-roupa, consciente do sucesso que iria repetir lá fora, dar dois beijos e dois abraços no meu filhinho João, de três anos e outro beijo e outro abraço lembrando da minha filhinha Vitória Régia de pouco mais de um ano, que há vários meses estava sendo criada com a madrinha na Vila Diva, e à qual eu só ia ver nos fins de semana. Dizia adeus à minha mãe, recomendava para ela ter cuidado com o Joãozinho, para não deixar ele sair na rua e saía atrasada para o ponto de ônibus Itaquera, que era em frente da venda do Antoninho. Enquanto venho pela estrada, em direção ao ponto de ônibus, vários carros ao passar por mim dão uma brusca freada e me oferecem carona. Viro o rosto e continuo meu caminho como se nada estivesse acontecendo. Enquanto espero o ônibus ouvia o rádio da venda ligado no programa Primeira Hora da Rádio Bandeirantes dando as notícias e informando a hora certa. Passava um ônibus lotado e não parava. Passava outro também lotado, parava mas avançavam na frente os homens e só eles que iam todos dependurados na porta. As mulheres como eu, continuavam esperando no ponto. Às vezes só quinze para as oito é que passava um ônibus mais vazio que parava e dava para eu ir.
Mal entrava no ônibus, já me via alvo de todas as atenções. E como os meus colegas passageiros eram gentis comigo! Uma se oferecia para segurar a bolsa, outros chegavam ao cúmulo de se levantarem para me ceder o lugar para eu sentar e viajar mais bem acomodada e quando eu menos esperava a minha passagem havia sido paga por alguém que eu nem de vista sequer conhecia. Atravesso o ônibus lotado de gente e vou me postar bem à frente segurando-me na barra de ferro forte. Volto-me da frente para os que estão atrás de mim, e deixo-me ser admirada à vontade, como quem não está sabendo de nada. E todos os olhares de admiração, simpatia, gulodice, inveja, são unânimes e absolutamente meus, disto eu tenho plena certeza. Mas como quem não quer nada, apenas de vez em quando e do modo mais discreto possível, observo-os e intimamente me envaideço.
                                                Clô

  * (Escrito em 1978. Porém, o fato descrito deve ter ocorrido entre o final de 1962  e o início de 1963.)