Todo dia é a mesma rotina: levantar às seis, lavar o rosto,
escovar os dentes, fazer a maquiagem que consta de base líquida em bastão cover fluid rosa mauve da Helena Rubinstein,
pó de arroz compact Jugel-Face, cigano, rouge da Coty nas faces, recurvar os
cílios, passar a escovinha de cílios com rímel azul seco da Coty nos cílios e
sobrancelhas, para dar aquele ar de mistério, beleza e sensualidade no olhar,
batom cor de carne (cujo nome pelejo para lembrar mas não consigo e que hoje
não existe mais na mesma cor), desmanchar os bobis, escovar os cabelos e
penteá-los soltos e jeitosos, caindo graciosamente sobre os ombros, vestir a
mesma surrada saia branca de pano bom, justa e blusa preta de seda de mangas
japonesas curtas e gola esporte aberta, com a cintura bem marcada sobre a saia,
vestir as meias bem finas indesfiáveis da Kaiubê, calçar os sapatos pretos
estilo clássico de saltos altos, pegar a bolsa também preta de couro de dois
anos ou mais de uso, mais velha que a minha viuvez, me olhar inteira no espelho
do guarda-roupa, consciente do sucesso que iria repetir lá fora, dar dois
beijos e dois abraços no meu filhinho João, de três anos e outro beijo e outro
abraço lembrando da minha filhinha Vitória Régia de pouco mais de um ano, que
há vários meses estava sendo criada com a madrinha na Vila Diva, e à qual eu só
ia ver nos fins de semana. Dizia adeus à minha mãe, recomendava para ela ter
cuidado com o Joãozinho, para não deixar ele sair na rua e saía atrasada para o
ponto de ônibus Itaquera, que era em frente da venda do Antoninho. Enquanto
venho pela estrada, em direção ao ponto de ônibus, vários carros ao passar por
mim dão uma brusca freada e me oferecem carona. Viro o rosto e continuo meu
caminho como se nada estivesse acontecendo. Enquanto espero o ônibus ouvia o
rádio da venda ligado no programa Primeira Hora da Rádio Bandeirantes dando as
notícias e informando a hora certa. Passava um ônibus lotado e não parava.
Passava outro também lotado, parava mas avançavam na frente os homens e só eles
que iam todos dependurados na porta. As mulheres como eu, continuavam esperando
no ponto. Às vezes só quinze para as oito é que passava um ônibus mais vazio
que parava e dava para eu ir.
Mal entrava no ônibus, já me via alvo de todas as atenções.
E como os meus colegas passageiros eram gentis comigo! Uma se oferecia para
segurar a bolsa, outros chegavam ao cúmulo de se levantarem para me ceder o
lugar para eu sentar e viajar mais bem acomodada e quando eu menos esperava a
minha passagem havia sido paga por alguém que eu nem de vista sequer conhecia.
Atravesso o ônibus lotado de gente e vou me postar bem à frente segurando-me na
barra de ferro forte. Volto-me da frente para os que estão atrás de mim, e
deixo-me ser admirada à vontade, como quem não está sabendo de nada. E todos os
olhares de admiração, simpatia, gulodice, inveja, são unânimes e absolutamente
meus, disto eu tenho plena certeza. Mas como quem não quer nada, apenas de vez
em quando e do modo mais discreto possível, observo-os e intimamente me envaideço.
Clô
*
(Escrito em 1978. Porém, o fato descrito deve ter ocorrido entre o final de 1962 e o início de 1963.)
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