domingo, 22 de fevereiro de 2015

10/02/84 – sexta-feira – DIA DOS 90 ANOS DE MÃE MENININHA


17:20 h – Estamos chegando no Gantois. Que emoção! Mãe Menininha deveria se sentar em sua cadeira às 17 horas para receber os cumprimentos de seus filhos. Já deve ter se retirado pois ali está sua cadeira, a mesma cadeira que apareceu na televisão. Cheio de gente, cinegrafistas, fotógrafos, personalidades, turistas, baianas com suas roupas brancas de santo e seus turbantes. Quero ver se vejo Jorge Amado, Caetano, Bethânia, Gil e outros e outros e outros. Músicas de candomblé em alto volume nos alto-falantes. Na frente, bem na frente na parede onde está a cadeira de Mãe Menininha, uma pintura (quadro) de mar azul e céu azul cheio de nuvens brancas com uma sereia deitada na areia e com a cara e os cabelos de Maria Bethânia. Na outra parede após a porta, letreiros em azul a dizer “DEUS ABENÇÕE OS 90 ANOS DE NOSSA MÃE MENININHA”. TV Bandeirantes trazendo buquê de flores para Mãe Menininha e nos focalizando. Vamos passar na TV hoje para todo o Brasil. E a Baiana que está em todas, que estava no Bonfim, na Conceição, no Rio Vermelho, está aqui também. Está chegando alguém: Antonio Carlos Magalhães, o grande político da Bahia. Está chegando, são 17:35 h, para cumprimentar Mãe Menininha. Emocionante. Agora, Carybé, 17:45 h. Agora é Mãe Menininha quem vem vindo. Um Cristo crucificado num andor bem no meio da pintura de Yemanjá, atrás da poltrona cor de abóbora de Mãe Menininha e à sua esquerda uma estátua de São Jorge em seu cavalo. As pessoas que estão no lugar onde Mãe Menininha deve chegar a sentar não querem sair, apesar dos rogos no alto falante. Estão pedindo aos seguranças para por ordem mas estes não aparecem. E já está passando da hora. Mãe Menininha deveria chegar não às 17 mas às 18 horas e já são 18:03. Estão tumultuando a porta, todo mundo fechando os caminhos de Mãe Menininha. O Gantois repleto. Carybé passou aqui encostado a nós. 18:05 e nada. Na parede, o grande retrato de Mãe Menininha onde ela está mais nova e sorrindo. Muito bonita! O João disse que nós vamos embora às 18:30 h em ponto. E já são 18:10 e ela que não vem. Estão cantando agora a música de Mãe Menininha “ai, minha mãe/ minha mãe Menininha/ ai, minha mãe/ Menininha do Gantois”. Esta canção que correu Brasil sendo cantada aqui no lugar original e pelas pessoas originais é outra coisa. É o máximo. É emocionante. Agora, a filha de Mãe Menininha e sua possível sucessora cantando aqui na frente das câmeras e à nossa frente. “Yeieiê/ ora yeiê ô”. Agora, 18:20, Caetano, sua mulher Dedé e seu filho Moreno, uma gracinha. Caetano, a nossa glória nacional. Moreno, menino e lindo. Bethânia cantando “eia, eiô, eia, eiô/ eia, eiô, eia, eiô”. 18:45 e nada de Mãe Menininha.
                                                                                                   Clô

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

QUEM É QUEM


                  Olhos negros, tez morena, corpo forte,
                  Alto, simpático, alegre, sorridente,
                  É vida que surgiu-me, após a morte
                  Do amor, que ressurgiu e está presente

                  Dentro de mim, pois sabe Deus, quanto o sinto
                  Mais que ninguém, hoje e depois de tanto tempo,
                  Com formas de homem bom, franco, distinto,
                  Nem sei me dominar quando o contemplo.

                 Cabelos já grisalhos, fascinantes,
                 Seu modo de falar calmo e sincero,
                 Sua idade, seu sorriso dominante,
                 Seu jeito de fazer tudo o que eu quero.

                 Pareço-me a sonhar quando a seu lado,
                 Recebo o seu carinho, o seu calor,
                 E esqueço-me do fel do meu passado
                 Vivo inteirinha só para ele e para o amor.

                               Clotilde Sampaio

                                        São Paulo, 1965

MOVIMENTO EXPLOESIA - idealizado por CLOTILDE SAMPAIO

1a edição - janeiro de 2015




                                                           2a edição - fevereiro de 2015


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

05/03/84 - 15:30 horas – SEGUNDA-FEIRA DE CARNAVAL – 1984 – SALVADOR

O taxidermista João Pinho carregando um boi e duas cabras empalhadas. Certeza com críticas à situação e à política. Mortalhas apropriadas sem trio elétrico. Tocando seus próprios instrumentos no comecinho da Av. Sete, após o relógio de São Pedro.

TRIO CAMALEÃO, um pouco à frente na Av. Sete, indo para o relógio de São Pedro, tocando músicas de Moraes Moreira: “no carnaval todo mundo quer, todo mundo quer, todo mundo quer, ser o que é, homem ou mulher”. Toda a avenida já cheia. Em alguns trechos, difícil de ser transitada. Outro homem gigante. Cada homem gigantesco aqui na Bahia. No Largo da Piedade onde está o trio TRAZ-OS-MONTES tocando “Pererê pererê pererê” de Gal Costa. São 15 horas pelo relógio da Secretaria de Segurança Pública. Está uma delícia aqui no banco onde estou sentada. Agora o TRAZ-OS-MONTES toca “Eva venenosa”. “Venenosa êêêêê Eva venenosa êêê/ é pior do que cobra cascavel/ seu veneno é cruel…”. E eu me lembro da Jussara cantando isso pra mim sempre que eu lhe dava bronca.

A Praça da Piedade toda tomada por barracas e mesas e cadeiras. Um ambiente gostoso, sem violência. O baiano sabe viver e se divertir. Outro trio, o BRILHAÊ, chegando no Relógio de São Pedro. BEIJO é o trio que vem vindo depois do Relógio de São Pedro. Chego com muito custo aqui na Praça Castro Alves, enfim repleta e com o trio SKULAXO. Aqui na rua Chile, o trio CHEIRO DE AMOR vem voltando da Praça Municipal. Trio TRAZ A MASSA aqui na Praça Municipal. Será este o do CHICLETE COM BANANA? O som dele é lindo. Limpinho. Arquibancadas da Praça Municipal vazias. Um monstrengo vazio só para atrapalhar. Já passam das 16 horas. É este mesmo o CHICLETE COM BANANA tão famoso, tocando “Ai, minha mãe/ minha mãe Menininha” e cantando “que bloco é esse, nega/ que traz esse axé/ é tão bonito, nega/ diz como é que é”. Aqui na Praça Municipal, a praça inteira bate palmas. Eu, que estou aqui numa barraca em frente à Casa do Thomé de Souza, tomo uma Coca enquanto ouço o trio TRAZ A MASSA com a Banda CHICLETE COM BANANA. Arquibancadas, uma vergonha de tão vazias. Todo mundo calmo, alegre, sem violência. E o trio continua atacando de novo: “Ai, minha mãe/ minha mãe Menininha/ Ai, minha mãe/ Menininha do Gantuá”, com um som maravilhoso e mais músicas do candomblé. Agora é o Hino da Bahia, em homenagem ao compositor Sosígenes Costa, que faleceu há poucos dias e que o compôs. Aqui atrás, vindo da Praça da Sé, na rua da Misericórdia é o trio VERÃO TROPICAL. Enquanto o CHICLETE COM BANANA toca a música que parece ser do Raimundo Sodré “olé, olé olé, olé, olé” e “No infinito”, VERÃO TROPICAL também com um som lindo tocando “oi, tum tum/ bate coração/ oi tum/ coração pode bater” da Elba Ramalho.

Rua da Misericórdia e o bloco AMIGOS DA FOLHAGEM, todos vestidos de folhagens e de réstias de cebola e de alho. A Praça da Sé também cheia e também com um trio pequeno mas bom: o METALÚRGICA CANTO DA CRUZ, dos Blocos AMIGOS DO PAPAGAIO e AFOXÉ BADAUÊ. Lá, embaixo do Elevador Lacerda, a maior calma. O mar calmo e azul infinito. O baiano está com tudo e não está prosa. BLOCO DO PAPAGAIO na Praça Municipal tocando e cantando “O beabá dos baianos/ beabá do Senhor do Bonfim”, de Elba Ramalho. Amigos da Folhagem que encontrei na rua da Misericórdia, antes da Praça da Sé, agora aqui na rua Chile. VERÃO TROPICAL ainda aqui, na descida da Rua Chile para a Castro Alves. Eu, uma turista anônima, uma pessoa avulsa e só cortando e recortando esta multidão cada vez maior, desde o Politeama até o Terreiro, onde fui dar uma olhada no Pelourinho e que nem ousei descer a Alfredo Brito por medo de algumas caras esquisitas que vi por lá. Vou de volta devagarinho, em meio à multidão, devagarinho, curtindo a multidão, os trios, os sons, de volta para casa até o Campo Grande, ver os FILHOS DE GANDHY. De lá desço a Politeama da Baixo e volto a apreciar o resto do Carnaval de hoje pela televisão, que está melhor que aqui. Isto, para quem só quer ver.
                    Clô