LXVII – 13/12/85 – sexta - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Sonhei um sonho macabro: Manoel morto de novo e desta vez, mais uma vez, de verdade. Esquisito. Se antes, durante todos esses mais de vinte anos, eu só sonhava com ele vivo, bem vivo, agora, este ano, já são duas vezes quase que em seguida que eu sonho com ele morto, bem morto. E cada vez mais morto. Soube que o cadáver dele estava sendo velado na casa da Ivonete. Alguém de lá, ou da vizinhança, deve ter vindo me avisar. Não dei importância, e continuei a fazer o que estava fazendo, que eu não sei o que era, e nem fui ver. E até me esqueci do fato. Passados uns dias, vieram me avisar de novo, e perguntaram se eu não iria lá ver.
- Puxa! Ainda não foi enterrado?
Larguei o que estava fazendo, e mais tirando um sarro do que levando a sério, enquanto já ia me aproximando da casa do Seu Oliveira, gritei para a Vitória:
- Vitória, você não vem ver o seu pai? Ele está morto e vai ser enterrado. Venha conhecê-lo.
E me fui. Chegando em casa de Ivonete, ao contrário do que imaginei encontrar, ou seja, o corpo de Manoel em cima da mesa, e já com um certo mau cheiro pelos dias já decorridos sem enterrá-lo, ele não estava em cima da mesa. Perguntei-lhes onde ele estava e a Ivonete me disse que ele estava no quarto dela tomando banho. Que os homens funerários estavam lhe dando um banho no quarto dela. E ela me entregou uma pasta modelo escolar antigo só que daquelas gordinhas, meio pequena, azul marinho. Pensei que fosse encontrar lá papeis e documentos, inclusive os documentos pessoais dele, ou seja, a Carteira Profissional, a de Identidade, mas não foi isso que eu vi (embora me pareça que de relance eu tenha visto tanto a Profissional quanto a Identidade nas mãos de alguém) mas sim vários saquinhos e vidros maiores, outros menores, todos em pé, dentro da pasta, ordenados, mas abertos, uns com pós, outros com massas, outros com líquidos de várias cores, ou seja, branco, marrom, vermelho. Seriam espécimes de materiais obtidos em exames post mortem feitos em Manoel. Pela pasta já deu pra eu ter uma ideia do que teria sido a vida dele antes de morrer e falei:
- Ele não estava bem. Digo, de recursos monetários. Pra ele comprar deste tipo de pasta é porque a situação dele não estava bem. Ele era um homem caprichoso, vaidoso, que gostava de se vestir bem e de comprar só coisas boas, de melhor, ou mais que de melhor qualidade. Ele andava só com pastas 007, daquelas com compartimentos invisíveis, além dos visíveis, coisa fina. Se ele estivesse numa boa, nunca que ele iria se expor com uma pasta desta. As roupas eu não vi, mas disseram que eram boas. Agora era a hora de vê-lo. Ivonete me apontou o quarto dela. Eu virei a maçaneta empurrando a porta e entrei. Ele estava dentro de um recipiente que eu não vi bem o que era, sobre alguma coisa como se fossem bancos ou cadeiras, que eu também não reparei, com o corpo e os braços juntos, todo amarrado com arames ao corpo. Dois homens altos e magros e morenos, sérios, estavam dando-lhe banho. Assim que eu entrei, vi que a cabeça dele escorregou para baixo e se virou para o meu lado, como se a querer me olhar. Não sei se, com o susto da minha entrada, os homens largaram a cabeça dele, deixando que ela caísse ou se foi sozinha que ela se mexeu. O certo é que, à minha entrada, ele se movimentou. E parecia me olhar. E parecia querer falar comigo. Mas como? Se ele já estava morto? Entrei e, de uma certa distância dele, parei e cruzei os braços pra frente e fiquei olhando-o numa distância que a minha miopia não me dava a certeza de que ele estaria mesmo me olhando, ou não. Isto é, sem saber se os olhos verdes dele estavam fechados ou abertos. E parada de braços cruzados, ali fiquei só olhando. Os homens que o lavavam a alguma distância à minha frente, viravam-se para trás, olhando-me interrogativamente. E eu, meio sem jeito de ficar ali vendo um homem morto e nu tomar banho, sozinha ali entre os dois homens vivos, vendo outro homem nu e morto. Senti-me na obrigação de explicar:
- Este homem já foi meu marido.
Falei isso pensando que eles não sabiam, mas eles me responderam:
- Antes dele morrer, ele veio várias vezes procurar o seu filho.
- Mas como? Eu não soube disso.
- Ele veio procurar o seu filho mas não conseguiu falar com ele.
- Será que ele precisava de alguma coisa? Puxa, por que não me avisaram? Se eu soubesse não teria deixado de ajudá-lo.
E com essa forte imagem do Manoel morto, nu, e tomando banho ali bem perto de mim nas cores normais, acordei. Preocupada de chamar o Ita. Eram seis horas. Chamei o Ita. Ele disse que hoje não vai trabalhar.
2) Preciso tomar um banho, lavar a cabeça e ir agora de manhã em Mogi, lá no INPS para marcar consulta. Depois quero cortar o cabelo. E me sentir bem. Estou me sentindo muito feia. Não estou nada contente comigo e preciso me gostar para poder levar a vida pra frente. Tenho boas perspectivas para o ano de 86. Portanto, mãos à obra. Gostaria que me chamassem para trabalhar em algum órgão da Prefeitura de São Paulo. Em Itaquera, seria ótimo. Quem sabe? Farabulini me perguntou ontem se eu ainda trabalhava no Forum. Disse-lhe que não aguentei a pressão e saí. Que fui a única que trabalhei aqui em Suzano para o Jânio e para ele e por isso fui muito perseguida. Quem sabe ele me arranja algo importante? Quem sabe algo muito bom está à minha espera?
3) Pensei que tivesse ido muito atrasada no INPS em Mogi e cheguei adiantada demais. Mais de dois meses e o meu caso nada resolvido e sem esperança de resolução ainda para este ano. Pelo jeito vou ter que começar o novo ano de 86 sem receber. Já é uma mixaria o que a gente ganha e eles ainda fazem questão de prejudicar mais. Pelo que vejo, cada governo que entra faz pior. Velha República... Nova República... Promessas de mudanças... Velhos desesperos... Novas esperanças... Pra quê? Só para ajudar fazer correr o tempo. Só para poder passar melhor o tempo.
4) Conheci gente nova hoje. E bacanas. Meu novo e definitivo cabeleireiro da POP da Rua Baruel. Me esqueci do nome dele. Tão fácil, mas já se foi. Uma simpatia. Acabei ensinando-lhe o Namyohorenguekyo.
5) Fui visitar a casa da Jussara e das meninas hoje. Bem ajeitadinha. Simples. Mas bem limpinha.
6) Hoje acordei sonhada com um macabro quadro. Que já descrevi no início.
7) Só usei homem pra fazer os meus filhos.
8) Sabe daqueles defuntos incômodos? Manoel ultimamente tem me revelado um defunto da pesada. Desses que a gente não sabe o que faz com ele. Desses que a gente não consegue enterrar nunca, desses que a gente não consegue se livrar nunca dele.
9) Engraçado é que enquanto a gente está sonhando com o morrer, a gente não tem medo. Só quando a gente acorda é que o medo vem. Igual quando a gente assiste aos filmes de terror que na hora a gente não fica; mas na hora que o filme acaba é que chega o medo.
Clô