domingo, 30 de junho de 2024

31 12 85

LXXVI – 31/12/85 – quarta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Já véspera de 86. Graças que esse ano de 85 já expira. Não guardo nada de lembranças boas desse ano a não ser a vitória do Jânio. Foi o ano também que o Ita começou trabalhando na Cia Suzano de Papel. E graças à isto, estamos terminando este ano e começando o outro senão com tudo em dia, pelo menos sem grandes aflições financeiras e com boas perspectivas futuras. Mas o ano todo foi de aflições, de insegurança, de momentos desesperadores e depressivos em que eu tive, por várias vezes, vontade de dar um basta a tudo e desistir de viver. Mas ainda não estou bem ciente se fiz bem ou fiz mal em não chegar às vias de fato. Espero que cada vez eu comprove mais que isto foi por bem. E também uma das duas melhores coisas que me aconteceram neste ano foi o nascimento da minha neta Lorena em 09 de abril deste 1985. E o passeio recente do João aqui.

 

2) Mudo-me para Itaquera ou para a Bahia? Ô dúvida cruel! É tão horrível ficar-se neste pendente dilema, nesta instabilidade sem tamanho de tão grande. A Bahia tem tudo. Itaquera só tem Aoud, os meus amigos da política e Jânio. E o dever quase obrigatório de ter que trabalhar para alguém nestas eleições de 86. E surge outra dúvida. Farabulini? Sujim? Nem sei ainda bem qual o apito que ele toca. Só tenho ainda muitas dúvidas à seu respeito. Uma incógnita, um poderá ser ou não. Poderá significar mais dinheiro. Afinal, valerá a pena eu me privar de tanto lá na Bahia por tão pouco e incerto aqui? Eu quero é ser feliz. E eu quero perseguir esta felicidade onde ela estiver. Por isso preciso ter certeza se é lá ou cá, onde ela está.

 

3) Se, de um lado, eu não estou querendo abrir mão das coisas ótimas que me aguardam lá na Bahia, por outro eu gostaria de realizar o meu antigo e novamente impulsionado sonho de morar em Itaquera mais para sondar a vida de Aoud e anotar dados. Pretendo logo que na Bahia.

 

4) Estou como se estivesse carregando uma carga pesada sobre os meus ombros dia e noite pois não consigo levantar-me cedo e só consigo deitar-me bem tarde. 

 

5) Reinaldo de Barros, ex-prefeito de São Paulo no governo Paulo Maluf, toma posse amanhã como Secretário da Viação e Obras Públicas do prefeito Jânio Quadros. Wilson Pereira é também Secretário de Jânio, só não sei de quê ainda. Cláudio Lembo, Rafael Baldacci e outros que eu não lembro o nome, mas que vou saber, também. Jânio teve plena liberdade de escolher os seus secretários. Ele sabe o que faz. E, pelo que percebo, ele desapontou até a própria filha que, logo de cara, anunciou Fauze Carlos como Secretário de Higiene e Saúde. Pelos nomes que ouvi, ele, Fauze, não faz parte da lista. Bem feito pra Tutu que não sei o que veio fazer aqui senão tentar estragar a personalidade tão marcante e única do pai. 

 

                                                 Clô

divulgação livro A INFINITA CLÔ

quinta-feira, 20 de junho de 2024

26 12 85

LXXV – 26/12/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Sonhei que tinha ido lá na loja do Aoud após as 18 horas. Não me lembro fazer o quê. Só sei que ele apareceu-me em pé atrás do balcão, sorriu-me e pediu-me que esperasse e desapareceu lá para dentro. Fiquei em pé esperando um tempão. Mais de uma hora. Quando ele apareceu, entregou-me uns embrulhos leves. Ao chegar em casa que fui abrir os pacotes, constatei que neles ele havia me devolvido uma porção de badulaques como: brincos antigos pares e avulsos, de bijuterias, assim como broches, fivelas de cabelo, agulhas, pentes, alfinetes, alguns brincos antigos lindos que eu comecei a escolher para poder usá-los agora. Todos bem diferentes, mais bonitos e bem mais trabalhados que os feitos hoje. Alguns ainda em perfeito estado, como novos. Outros feios, ímpares e velhos, havia fotos e pedaços de brinquedos de crianças em meio aos apetrechos. Engraçado é que minhas fotos de verdade, as minhas cartas de verdade, as poucas coisas de verdade como os dois pares de meias que um dia, no começo, eu dei a ele, e o lenço que um dia as crianças lhe deram, e as fotos de verdade do Ita e da Jussara, as minhas poesias, isto ele não devolveu. Só devolveu coisas que não tinham nada com as coisas que eu poderia ter dado a ele. 

 

2) Portuga, depois de muito tempo apareceu por aqui no dia de Natal. Veio rápido, só para desejar Boas Festas. Ainda está sem os dentes. Mas, prometendo pô-los já. Falou-me dos filhos, do neto e perguntou dos meus filhos e soube da minha neta e da Lilinha. Perguntou sobre Aoud, disse-lhe que brigamos por causa da Ação na Justiça. Perguntou-me sobre a Ação, disse-lhe que está correndo e que falta ainda fazer os exames. Que em nenhum lugar se faz sem pagar. E para pagar vai ficar uns treze milhões. 

 

3) Jussara chegou mais tarde. Trouxe-me um presente, uma correntinha de ouro de pescoço com um pingente de menininha, também de ouro. Trouxe-me uma caixa contendo produtos como: uma Sidra Pullmê, um quilo de castanhas do Pará, azeitonas, balas, um litro de vinho, amendoim, um docinho marrom glacê pequeno, uma lata de pêssegos em calda. E trouxe um presente para o Ita, uma camisa da Adidas de malha, azul clara com beiras e golas amarelas. Bonita. E de boa qualidade. Coitada, não precisava fazer nada disso. Já ganha pouco e ainda fica se preocupando com os outros. Bastava que ela comprasse coisas pra ela mesma. Não gostei de ela ter comprado o cordão de ouro. Preciso abrir-lhe os olhos, para não gastar à toa com coisas supérfluas. Se ela não abrir os olhos, ela acaba comprando tudo o que aparece e não vai ganhar nem pra pagar o que compra. E as coisas que realmente ela precisa comprar, vai ficar sem.

 

                                                                                                                Clô

Live Internacional BOOK BOX da FOCUS BRASIL

Programa BOOK BOX – 20 de JUNHO | Host: Patrícia Fraga e convidadas: Márcio Aaragão, Stela Gomes, Monika Papescu e Vitória Régia Costa Sampaio.

Obrigada mais uma vez por sua participação!

 

Link para assistir e compartilhar do YouTube:    https://www.youtube.com/watch?v=Mx_4yjCHpMo    

Link para assistir e compartilhar do Facebook:    https://www.facebook.com/events/1196476168378292







segunda-feira, 10 de junho de 2024

23 12 85

LXXIV – 23/12/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Foram sonhos verdes e bons os que eu tive esta noite. Graças ao Gohonzon. Bem, sonhei que o Ferreira apareceu com um baita carrão aberto, todo verde. Um carro muito engraçado, ou melhor, sui generis, parecia-se com aquele carrão verde aberto que o Aoud desfilou à minha frente no dia das eleições. Só que era um carrão maior, bem maior e quadrado. Tinha a porta larga da frente onde ficavam o motor, isto é, mais uma ou duas pessoas, e um quadradão mais alto em cima, todo gramado, assim como os beirais mais baixos também gramados, mas cercados. Sei que estávamos em campanha. E ele foi me levar, até uma localidade onde havia, além da vila de casas de alvenaria, lojas e bares e praça. Ao redor, à frente destes, logo de cara, dávamos com algumas casas, bares e até igreja, todas feitas de madeira, como nos filmes de cowboy. E numa praça entre estas construções de madeira e que seria um comício (o meu). Chegamos e quase não tinha ninguém ainda. Só uma senhora ainda meio jovem com uma criança de uns seis meses já no colo. Enquanto esperávamos vir mais gente, convidei esta senhora para subir e deitar-se no gramado do carro. Ferreira também se deitou e eu me deitei encostada a ele. Começamos a conversar e dar risadas. Estava tudo bem, ele estava simpático e feliz, eu simpática e feliz. Mas nem ele se esfregava em mim, nem eu me esfregava nele. Depois, saímos de lá. Não sei pra onde fomos. Quando cheguei, o carro estava cheio de recos, ou seja, jovens soldados do exército ou do Tiro de Guerra que, sentados na frente, ou sobre o gramado, guardavam-no. Eram, rapazes risonhos, brancos, bonitos e simpáticos, de uniformes verdes-olivas. Assim que me viram chegar, despediram-se sorrindo e se foram. Vi que o gramado do carro estava cheio de sujeiras como papéis, latas, etc. Vi que precisava varrê-lo e deixá-lo limpo enquanto o Ferreira estava ausente para que, quando ele chegasse, tudo estivesse em ordem. E me pus a varrer. Varri em cima e, quando eu estava varrendo de um dos lados, escorreguei, caí e quase que varei por uma das janelas laterais, pois estavam todas abertas. Cheguei a atravessar uma das pernas fora da janela da grade. Mas consegui pô-la pra dentro de novo e fiquei esticada sobre uma barra de ferro, ou seja, num cano largo de bronze cinzento que serve de apoio a quem viaja nas beiradas. Fiquei numa posição que não sabia como me levantar dali. Pensei em chamar alguém que estivesse em cima para me dar a mão e me puxar, mas seria arriscado esta pessoa não poder com o meu peso e cair, ele também, com tudo e eu, e virarmos o carro e cairmos com profundo impacto para fora do carro, que era bem alto do chão. Pensei bem e cheguei a uma conclusão. Eu teria que tentar sair dali, me levantar dali sozinha. Segurei-me num dos frágeis pilares das janelas e me levantei da cintura pra cima. Depois mudei as mãos para um pilar mais à frente, me escorreguei até lá e consegui me levantar e sair do cano. Foi só pular com dificuldade para o alto e já estava salva. Graças a Deus. Mais uma dificuldade vencida. Mas não me lembro de ter visto mais, depois deste incidente ultrapassado, nem Ferreira, nem os recos. Mas logo depois vejo Jussara, ainda menina, com os cabelos cortados, um vestidinho azul acima dos joelhos e calçada com umas sandálias havaianas bem mixas e bem menores que os pés dela. 

 

2) Sonhei também esta noite, e anteriormente ao sonho citado acima, que eu estava voando de helicóptero bem baixo sobre umas vilas cheias de boas casas, eu estava com um menino branco mais claro que o Ita e que deveria ter uns seis anos e que era meu filho. E esse meu filho estava com um brinquedo na mão, deveria ser um carrinho de plástico, que ele deixou cair sobre uma dessas casas. Logo um pouco à frente, decolamos e voltamos, fomos até onde ele tinha deixado cair o brinquedo que já estava nas mãos de um menino entre mais outros meninos. Eu reclamei o brinquedo e eles não quiseram devolver. E eu acabei xingando-os e, conforme iam aparecendo os pais deles, eu contava o caso e xingava os pais deles também porque eles não davam importância ao que tinha acontecido. Saímos dali eu e meu filho, tomamos de novo o helicóptero, fomos até um outro lugar resolvermos outro problema e depois, na volta, eu parei de novo para pedir tanto às crianças como aos pais deles desculpas e perdões pelas ofensas que eu lhes tinha dito. No fim, ficamos todos de bem e amigos. Entre estas pessoas, eu vi um senhor já de uma certa idade, bem corado e bem vestido que disse que já me conhecia. Eu disse a ele que ele também não me era estranho. 

  - O senhor não é parente da Nancy?

  - Sou.

  - Então é por isso que eu estou lhe conhecendo. Nancy é muito minha amiga e eu já vi o senhor na casa dela. E já que o senhor é parente da Nancy deve ser também de fulana de tal... (que eu não me lembro quem é agora). 

Ele ficou contente em saber que eu também conhecia esta outra mulher. E confirmou sorrindo que era mesmo.

 

3) Pela primeira vez vi Fidel Castro falar pela televisão pessoalmente ontem. Fiquei sua fã incondicional. É um homem que tem tudo pra ser o grande e verdadeiro líder que é. Firme. Inteligentíssimo. De uma convicção pessoal à prova de qualquer coisa. Simpático. Humilde. Que pensa e age de modo mais acertado. Gostei. Gostei. Gostei. Salve, Fidel. É um dos maiores líderes da América Latina, senão o maior. Agora o tenho no rol dos meus líderes. Jânio no Brasil e Fidel na América Latina.

 

4) Jussara não veio ontem, domingo. Apesar de dizer que vinha. Por que será? Estou bastante preocupada com ela. Se o Ita tivesse deixado o carro iria lá ver o que aconteceu.

 

5) Lilinha às vezes me tira fora do sério e eu penso mil coisas feias contra ela. Inclusive o de entregá-la de novo aos pais. Depois, diante daquele rostinho lindo, do seu sorriso que nenhuma criança tem igual, dos seus olhinhos tão lindos, tão tristes, tão carentes e que dizem tanto pra gente, me arrependo de tudo (que faço e digo contra ela), e reafirmo meu objetivo de nunca, nunca, nunca, em hipótese nenhuma, me separar dela.

 

                                                       Clô

divulgação do livro A INFINITA CLÔ


 

domingo, 9 de junho de 2024

21 e 22 12 85

LXXII – 21/12/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) O Chico Xavier disse ontem pela TV, no programa da Hebe, que toda criança excepcional foram pessoas que, numa existência anterior muito próxima, se suicidaram com tiros na cabeça. E que confirma o dano que o projétil fez em suas mentes, em suas cordas vocais, em seus órgãos visuais, não falam, não enxergam e a mente não funciona. Se morreram enforcadas, ficam paraplégicas. Se fizeram homicídio e depois, por arrependimento se suicidaram, se tornam esquizofrênicas. E que Deus só põe estas crianças em lares cujos pais têm a capacidade para amar até o infinito. E que estas crianças sentem tudo o que se passa ao redor delas. Que dentro do seu mundo, elas são completamente normais e sentem quando são bem tratadas e quando são maltratadas. E tanto se apegam a pessoas que as tratam bem como se desapegam das pessoas que as tratam mal. E que geralmente estas crianças têm pouco tempo de vida. Vivem no máximo até 13, 20 ou 30 anos. Só o tempo que lhes resta para terminar a existência que teriam se não tivessem se matado. Grande Chico Xavier. Como eu o respeito! Como eu o admiro! Como eu gostaria de ser como você!

 

LXXIII – 22/12/85 – domingo

 

1) Cheia de interrogações. Questiono e requestiono a vida a todo segundo. Nenhuma resposta objetiva. Nenhuma definição definitiva. Só interrogações e reticências. Mais 10 dias para acabar este ano, mais dez dias para nascer 86. Por que 86? Porque não para junto com este ano que se finda também a vida, também o mundo? Esse impulso de vida inútil, afinal, leva ao quê? Se tudo tem que ter um fim, pra que não um fim de tudo já? Fica só nesse lenga-lenga de hipocrisias, de mentiras, de fingimentos, de cinismos, de falsidades, de egoísmos, de futilidades, de angústias, de perversões, de depressões, de pressões, de domínio, de prepotências, de arrogâncias, de despotismos, de carências, de humilhações, de descrenças, de cepticismos, de negativismos, de pessimismos, de desafios, de perigos, de lutas, de quedas, de aflições, de dores, de desesperanças. 

 

                                                                                                 Clô      

A Infinita Clô - no site de Dóris Pinheiro


 

20 12 85

LXXI – 20/12/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Não gostei do que passou ontem sobre o Jorge Amado na TV. Não o achei nada natural. E aquele filho dele então, o João Jorge, nada tem que se aproveite. Bem que Ari falou que ele parece mais um débil mental. Como não tem como aparecer, por ele mesmo, faz questão de se mostrar com o pai! Andando a pé pelo Pelourinho. Zélia Amado fez plástica. Quer ser simpática pela televisão. Será que consegue? Jorge Amado também cada vez mais mostra que não está mais com nada. Embora o tutu negro em dólares que o cobre. Só tem produção em cima dele. É puxa-saquismo de todo lado. Achei muito artificial a coisa. Muito forçada. Muito sem graça. Muito fútil. Muito vazio tudo o que foi dito e mostrado sobre ele. Só o que se aproveitou mesmo, foram os cenários do Pelourinho, do Mercado Modelo, do Forte do mar, do mar cinzento (em dia de chuva) da Bahia que eu conheço tão bem e morro de amores. De toda a Bahia enfim que é a minha paixão. Sem conhecê-lo pessoalmente já o estou achando, de antemão, um homem metido a besta, isto se não for uma verdadeira besta. Não tem escrito grande coisa ultimamente. A não ser pornografias sobre pornografias. A Bahia bem que merecia alguém melhor para representá-la. Mas ele se intitulou representante cultural da Bahia. Sem ter a menor responsabilidade por isto, e temos de fazer de conta que realmente é e aturá-lo. Só pelo valor do dinheiro. Felizmente, estes valores estão passando. Pelo menos parece. E eu sou a maior torcedora para que estes falsos valores, que não estão com nada, caiam e deixem de existir bem depressa.

 

2) Ah! Eu quero viver fazendo amigos

    De todas as idades, gêneros, raças,

    Ideologias, índoles, fés, partidos.

    Sem restrições. Individuais. E em massas.

 

    Tanto eu tenho pra dar: força, sorrisos,

    Abraços, olhares, falas e esta certeza

    Do poder de fazer o que é preciso

    Para um mundo de paz e de beleza.

 

3) O Ita veio me dizer que todos os companheiros dele lá da sessão de manutenção da Papelão, que estavam presentes na Confraternização no sábado passado, sem exceção gostaram muito de mim. E me acharam jovem e muito bonita. E o Ita me falou: mãe, a senhora tem que sair daqui deste buraco, tem que aproveitar esta beleza. A senhora ainda tem uns dez a quinze anos só de beleza (generoso e otimista, meu filho?) e tem que aproveitá-la ao máximo. A turma lá da fábrica falou que a senhora era minha namorada e não minha mãe. Todos foram unânimes em dizer que a senhora é muito bonita. 

  - Eu estava tão feia naquele dia, estava tão gorda. Preciso emagrecer mais e me apresentar pra eles numa melhor forma. Aí sim. É que eu vou me sentir bem. E eles vão sentir o que é beleza.

 

                                         Clô

A INFINTA CLÔ em sites de notícias



 

17 12 85

LXX – 17/12/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Meus amigos espirituais, estou sem fé, sem objetivo, sem razão e sem motivação pra lutar e pra viver. O que devo fazer?

  - Clotilde, você precisa vender esta casa e ir embora pra Bahia.

  - Por quanto devo vender esta casa?

  - Por duzentos milhões à vista.

  - Vou achar comprador logo?

  - Sim.

  - Se eu vendê-la assim como está vou achar quem dê duzentos milhões à vista, assim mesmo e logo?

  - Sim.

  - O que devo fazer com a Lilinha?

  - Deve entregá-la aos pais dela.

Coisa horrível. Não. Não. Não. Não. Jamais me separarei da Liliam. Quero só poder dar-lhe sempre do melhor e ter bastante saúde e bastante paciência para tratá-la o melhor possível e com o máximo de carinho possível.

 

2) Antes não tivesse marcado a minha consulta do INPS, aquele médico estragou o meu barato. Mas não faz mal. Quem sabe foi melhor assim? De alta. Estou livre e desimpedida para fazer qualquer coisa na minha vida. Ou voltar a trabalhar... E quem sabe na Prefeitura de São Paulo? Ou fazer a minha campanha de deputada estadual com Sujim ou com Farabulini? De preferência com Farabulini. Isto se Sujim não arcar com a ajuda monetária aos meus interesses. Ou então, quem sabe? Trabalhar com os dois? O povo é quem vai votar. O povo é quem escolhe dos dois o melhor. Celso Amaral? Nunca mais.

 

3) De uma certa forma, amor

    Viajei. Mas não parti.

    Estou toda em Salvador

    Por que? Não me vejo aqui.

    Se quiseres comprovar

    Verás com veracidade

    Que estou em todo lugar

    Da tua maga cidade

    No ar, nas ruas, no mar,

    Em formatos de saudade.

 

    Caso ofusques teu desdém

    Pelo destaque do espanto

    É só procurar-me bem

    No melhor canto do canto

    Entre estas janelas

    Do Boulevard da Cantina.

    Estou a olhar-te com elas

    Tuas portáteis meninas.

    A bebericar com os santos...

    Ouço de Claudete o canto...

    Enquanto janto teu encanto.

 

4) Essência (um fado feito com João Sampaio)

     Eu sou.

     Tudo que existir, é o que eu sou.

     Em qualquer lugar, é onde estou.

     Onde o vento leva, é onde vou.

 

     Saí.

     Mas não arredei os pés daqui.

     Eu não sei ficar longe de ti.

     Eu apenas sou.

   

     Viver.

     Mais que uma paixão

     É um prazer.

     E o que eu quero

     É só querer

     Ser um ser que ao menos

     Possa ser.

     Nada mais

     Que um ser.

     

5) poema ZERO A ZERO

 

    E pensar que eu me vi a me ver

    Sendo muito muito muito amada

    Por você Sol e Céu do meu ser...

    Foi um sonho. E findou sendo nada.

 

    E pensar que eu temi o temor

    De saber-me por tantos amada

    Sem poder a ninguém dar amor

    E foi este o placar da jogada.

 

    Mas, contenho-me. E estou contida

    No sonhar que jamais se realiza

    No temor que se concretizou:

 

    Eu, (que sou tão amada!) Na vida

    Nunca amei a quem quer que me amasse

    Só amei a quem nada me amou.

 

 

6) ESSÊNCIA

 

     Eu sou

     Tudo o que existir é o que eu sou 

     Em qualquer lugar, é onde estou

     Onde o vento leva, é onde vou

 

     Saí.

     Mas não arredei os pés daqui

     Eu não sei ficar longe de ti

     Eu apenas sou

   

     Te ver

     Mais que uma paixão

     É um prazer

     E o que eu quero

     É só querer

     O teu ser para

     Que eu possa ser

     Muito mais

     Que um ser.

 

                             Clô

cont. Clô no site de Lícia Fábio



 





16 12 85

LXIX– 16/12/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) A pia cheia de louça. Levantei já um pouco tarde, e me dei a lavá-los. Mal acabei, Vitória chegou. Devia ser umas oito e meia. Tocaram a campainha várias vezes. Eu não fui ver porque costumo deixar para a Miriam ou os meninos dela que têm a chave se incumbir. Vitória chegou, me abraçou e eu me surpreendi porque não a esperava e ainda mais tão cedo. Ela me abraçou, me beijou, deixei o fogão ainda por limpar, só varri a cozinha e sentei-me à mesa com ela para conversarmos. Disse que estava devendo três meses da prestação da máquina e que o cheque dela de uma das prestações voltou e que o rapaz perguntou se ela queria vender a máquina que o Sr. Antônio pagaria na hora onze milhões à vista. É sinal que a máquina vale muito mais, disse-lhe. 

  - É. Estes dias teve um rolo lá com a Jandira. A senhora das confecções descobriu que ela vinha roubando as blusas dela. Sumiram 1.200 e o coreano veio de repente e a Jandira estava costurando de portas fechadas. Ele entrou e pegou ela costurando as blusas dele escondido. A senhora ficou revoltada com a Jandira, disse que tinha ajudado a pessoa errada e retirou a máquina reta da Jandira e deu para Rosa, e disse que agora vai ajudar muito a Rosa. Ali é a maior guerra entre as duas. No mesmo dia, para poder aparecer, a Jandira foi lá no seu Antônio e comprou outra galoneira. E pagou vinte e dois mil. Já pensou, ele compra por onze milhões e vende por vinte e dois, quanto que ele ganha? 

 

2) Outra vez Vitória e Paulo. Puxa vida. Mas já não bastou uma vez? Tem gente que basta apanhar uma vez para aprender. E outras apanham a vida inteira e não aprendem nunca. Matilde é um exemplo. E Vitória, pelo que vejo, segue-lhe em tudo as pegadas. Mais se parece filha dela e não minha. Aliás, não estou reconhecendo Vitória como minha filha, nem como filha de Manoel. Nós ambos tínhamos uma personalidade forte, incapaz de nos despersonalizarmos por nada. Ela está sendo o oposto. Imagina: mal chegou, telefonou para o Paulo, perguntando alheio:

  - Por que você não foi mais lá? Quando você aparece? Vê se vem logo. 

Tudo uma boa, muito boa, mesmo como se nunca tivesse acontecido nada do muito grave que aconteceu entre eles. Perguntei-lhe: 

  - Ué, Vitória, está voltando com o Paulo? Ou estão se separando?

  - Não. Estamos apenas com amizade. É melhor ficar de bem com o diabo. Mas a gente vai se separar.

  - Pelo jeito, daqui a pouco, em vez de se separar, vocês acabam voltando.

  - É, pode até ser. Mas isto depois que a gente se separar. Porque da outra vez quem estragou tudo foi a família dele.

E contou que no último júri, o juiz esteve todo, todo, para o lado dele, juiz conversou com ele, pediu que ele lhe esperasse lá embaixo e ela, só porque já tinha combinado de encontrar-se com o Paulo, deu o maior furo no juiz.

  - Mas como você é besta, hem? Vitória só olha pra baixo. Desse jeito você só vai pastar toda vida. Em vez de olhar pra cima e dar valor a quem lhe dá valor, deixa do melhor pra pegar um lixo de homem. Um cara que já tomou o seu dinheiro, que carregou os seus móveis, que enxovalhou o seu nome, até o último, que só te diminuiu e você ainda dá bola prum cara desse. Mas nem que fosse a última hipótese. Um cara que não tem nada pra te dar, só tem pra te tirar. Você precisa é se dar valor. Não sei pra quê estuda, se não vale nada o que você sabe. Só sabe andar feito mendiga e dar atenção pra mendigo. Desse jeito você vai ficar toda vida pastando. Você estragou o meu dia. E até hoje não me recuperei da raiva.

 

                                 Clô

Clô no site de Lícia Fábio


 






sexta-feira, 7 de junho de 2024

15 12 85

LXVIII – 15/12/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Pelos meus cálculos, é hoje que seria a comemoração da Vitória do Jânio em Itaquera. E os danados nem me convidaram. Nem bateram uma linha para me avisar. Amigos da Onça. Deixa estar que virão outros acontecimentos. Outras circunstâncias. Outras oportunidades. Outras necessidades. E é lógico que eles ainda precisarão de mim. Eu estou aqui, na minha. E na minha vou continuar ficando. Na hora da luta é todos juntos. Na hora da festa é só eles? Que isso! dor de barriga não dá uma vez só. Deixa estar. Urubu também tem o seu dia de gorgeio e que gorgeio vou dar. 

 

2) Ontem, sábado, dia 14/12/85, graças a Deus, graças ao Gohonzon, foi um dia inteiro e completamente bem aproveitado. Fiz o patê e os sanduíches com os apetrechos que eu havia trazido na sexta, ou seja, dois pães Pullmans, duas latas pequenas de sardinhas Rubi em óleos comestíveis, um vidro pequeno de maionese Maionegs, e lá fomos nós, eu e o Ita para o cherrasco da turma da sessão dele lá da Papelão. Comi muito, bebi muito, cantei muito, ri muito, falei muito, conheci uma turma super bacana composta de gente de primeira e algumas pessoas especiais como Elzira, o irmão dela João, o senhor japonês, o cantor baiano, Sebastiana, a filha e o genro. Me descontraí tanto quanto na Bahia. Valeu. Valeu. Gostei de todo mundo e acho, não, tenho a certeza, de que também agradei. O mal é que eu não estava na minha melhor forma. Engordei muito nestes dias. Estou me vendo balofa, deformada, feia. O ideal seria se eu me estivesse sentindo ideal para os meus quarenta e cinco anos. De repente, sentada perto do meu filho, senti um orgulho imenso dele. Uma emoção fantástica de ter um filho como ele. E aquele sentimento de gratidão total ao Aoud por ter me proporcionado ter este filho dele. O filho ideal que eu gostaria de ter, tenho. Aliás, os filhos e as filhas ideais que eu gostaria de ter, tenho. Graças a Deus. Graças ao Gohonzon. Graças aos homens que eu tive. E principalmente graças a mim por tê-los como são, e graças a eles por serem o que são.

 

3) Na volta do churrasco, Ita e eu fomos levar um amigo dele, a esposa e filhinha em casa deles no Parque Maria Helena. E já que estávamos na São Paulo-Rio, pedi ao Ita que fôssemos na casa da Sarah janista. Fui sem avisá-la desta vez, já que das duas vezes que a avisei que iria visitá-la, as visitas furaram. Fiquei contente em encontrar Sarah tão jovem quanto de quando a conheci, apesar da sua doença e do seu sofrimento. Ita gostou dela. Ela também gostou muito do Ita. Uma grande mulher em todos os sentidos. Uma cabeça, uma inteligência e uma força, uma cultura, incomuns. Ita saiu da casa dela perplexo com a sabedoria e cultura de Sarah. Quer fazer tudo para ajudá-la a se recuperar. E quer que de minha parte eu também faça tudo para que ela se cure e seja de novo uma mulher normal, cheia de vida e atuante. Conhecemos também Dona Branca e Sandra respectivas mãe e sobrinha de Sarah. Simpaticíssimas. Dois amores de pessoas, tanto quanto Sarah. Orientamos para que elas rezassem o Namyohorenguekyo que, para essa oração, não existe o impossível. E vamos lutar todas juntas para unidas, saudáveis, fortes e animadas, com a força do Gohonzon, modificar o mundo. 

 

4) Na volta de Mogi ontem, deveriam ser já quase dezoito horas, ao passarmos por Jundiapeba, na estrada, estava aquela visão feia de um desastre horrível e recente. O ônibus caído à margem da pista sentido Mogi e, na outra pista sentido Suzano, uma Brasília vinho virada em sentido Mogi toda com os vidros estourados. O Ita falou: 

  - Neste pedaço sempre acontecem desastres. Este é o trecho da morte. Abusou aqui, vai. Deve ter sido causa de ultrapassagem. Pior são os passageiros do ônibus. 

 

5) Bem cedinho hoje, ou seja, lá pelas quase onze horas, hora que eu consegui levantar-me, o telefone tocou. Era Yone Kadono avisando da morte do filho mais jovem do Sr. Kawakami, nosso primeiro Tikubutyo em Suzano, por um acidente de carro.

  - Onde? Quando?

  - Ontem. Em Jundiapeba. 

  - Puxa! Ontem à tarde quando passamos, eu e o Ita, vindos de Mogi, vimos um ônibus grande caído à margem da estrada e uma Brasília vermelha com os vidros todos estourados. Seriam estes?

  - Deve ter sido. Porque o que sei é que foi com um ônibus. O carro entrou debaixo do ônibus. Estavam em três. Ele não era quem estava dirigindo. Mas foi o único que morreu. 

  - Quantos anos ele tinha?

  - Era bem jovem. Uns vinte e três anos.

  - O endereço, onde é Yone? Ainda é lá no Palmeiras?

  - Não. É aí no Jardim Imperador, na Rua J. Nigri, 203, perto do Raul Brasil.

  - Tá. Nós vamos sim.

  - Às três horas da tarde o Reverendo vai fazer a missa. E às quatro será o enterro. Eu estou avisando a senhora e as pessoas que lutaram juntas, pra dar força pro Sr. Kawakami. Dá tanta dó! Era um rapaz novo e inteligentíssimo.

  - É. A gente não entende. Mas era o karma dele que era muito pesado. E ele não teve como cortar. Que fazer? É a vida. Vou ver se aviso a turma daqui. E iremos sim. Tchau. Muito obrigada pelo aviso, Yone. Até logo. 

Mas o relógio estava atrasado mais de uma hora. E eu pensando que ainda era cedo. Fui avisar Ivonete já eram 15:15 horas. A missa já era. Queria ir pelo menos no enterro. Mas ainda tinha que terminar o almoço, dar almoço e trocar a Liliam e almoçar. Quando terminei já eram 16:30 horas. E já não adiantava mais ir. Fiquei com aquele dó, aquela dor, aquele remorso. Não fui. Faltei mais uma vez e me danei.

 

                                                                                                       Clô

quarta-feira, 5 de junho de 2024

A infinita Clô - na Livraria Escariz


 Conforme o site da jornalista Doris Pinheiro, o livro de Clotilde Sampaio - A INFINITA CLÔ - já está disponível à venda na Livraria Escariz do Shopping Barra, em Salvador. 

13 12 85

LXVII – 13/12/85 – sexta - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Sonhei um sonho macabro: Manoel morto de novo e desta vez, mais uma vez, de verdade. Esquisito. Se antes, durante todos esses mais de vinte anos, eu só sonhava com ele vivo, bem vivo, agora, este ano, já são duas vezes quase que em seguida que eu sonho com ele morto, bem morto. E cada vez mais morto. Soube que o cadáver dele estava sendo velado na casa da Ivonete. Alguém de lá, ou da vizinhança, deve ter vindo me avisar. Não dei importância, e continuei a fazer o que estava fazendo, que eu não sei o que era, e nem fui ver. E até me esqueci do fato. Passados uns dias, vieram me avisar de novo, e perguntaram se eu não iria lá ver.

  - Puxa! Ainda não foi enterrado? 

Larguei o que estava fazendo, e mais tirando um sarro do que levando a sério, enquanto já ia me aproximando da casa do Seu Oliveira, gritei para a Vitória:

  - Vitória, você não vem ver o seu pai? Ele está morto e vai ser enterrado. Venha conhecê-lo. 

E me fui. Chegando em casa de Ivonete, ao contrário do que imaginei encontrar, ou seja, o corpo de Manoel em cima da mesa, e já com um certo mau cheiro pelos dias já decorridos sem enterrá-lo, ele não estava em cima da mesa. Perguntei-lhes onde ele estava e a Ivonete me disse que ele estava no quarto dela tomando banho. Que os homens funerários estavam lhe dando um banho no quarto dela. E ela me entregou uma pasta modelo escolar antigo só que daquelas gordinhas, meio pequena, azul marinho. Pensei que fosse encontrar lá papeis e documentos, inclusive os documentos pessoais dele, ou seja, a Carteira Profissional, a de Identidade, mas não foi isso que eu vi (embora me pareça que de relance eu tenha visto tanto a Profissional quanto a Identidade nas mãos de alguém) mas sim vários saquinhos e vidros maiores, outros menores, todos em pé, dentro da pasta, ordenados, mas abertos, uns com pós, outros com massas, outros com líquidos de várias cores, ou seja, branco, marrom, vermelho. Seriam espécimes de materiais obtidos em exames post mortem feitos em Manoel. Pela pasta já deu pra eu ter uma ideia do que teria sido a vida dele antes de morrer e falei:

  - Ele não estava bem. Digo, de recursos monetários. Pra ele comprar deste tipo de pasta é porque a situação dele não estava bem. Ele era um homem caprichoso, vaidoso, que gostava de se vestir bem e de comprar só coisas boas, de melhor, ou mais que de melhor qualidade. Ele andava só com pastas 007, daquelas com compartimentos invisíveis, além dos visíveis, coisa fina. Se ele estivesse numa boa, nunca que ele iria se expor com uma pasta desta. As roupas eu não vi, mas disseram que eram boas. Agora era a hora de vê-lo. Ivonete me apontou o quarto dela. Eu virei a maçaneta empurrando a porta e entrei. Ele estava dentro de um recipiente que eu não vi bem o que era, sobre alguma coisa como se fossem bancos ou cadeiras, que eu também não reparei, com o corpo e os braços juntos, todo amarrado com arames ao corpo. Dois homens altos e magros e morenos, sérios, estavam dando-lhe banho. Assim que eu entrei, vi que a cabeça dele escorregou para baixo e se virou para o meu lado, como se a querer me olhar. Não sei se, com o susto da minha entrada, os homens largaram a cabeça dele, deixando que ela caísse ou se foi sozinha que ela se mexeu. O certo é que, à minha entrada, ele se movimentou. E parecia me olhar. E parecia querer falar comigo. Mas como? Se ele já estava morto? Entrei e, de uma certa distância dele, parei e cruzei os braços pra frente e fiquei olhando-o numa distância que a minha miopia não me dava a certeza de que ele estaria mesmo me olhando, ou não. Isto é, sem saber se os olhos verdes dele estavam fechados ou abertos. E parada de braços cruzados, ali fiquei só olhando. Os homens que o lavavam a alguma distância à minha frente, viravam-se para trás, olhando-me interrogativamente. E eu, meio sem jeito de ficar ali vendo um homem morto e nu tomar banho, sozinha ali entre os dois homens vivos, vendo outro homem nu e morto. Senti-me na obrigação de explicar:

  - Este homem já foi meu marido. 

Falei isso pensando que eles não sabiam, mas eles me responderam:

  - Antes dele morrer, ele veio várias vezes procurar o seu filho.

  - Mas como? Eu não soube disso.

  - Ele veio procurar o seu filho mas não conseguiu falar com ele. 

  - Será que ele precisava de alguma coisa? Puxa, por que não me avisaram? Se eu soubesse não teria deixado de ajudá-lo. 

E com essa forte imagem do Manoel morto, nu, e tomando banho ali bem perto de mim nas cores normais, acordei. Preocupada de chamar o Ita. Eram seis horas. Chamei o Ita. Ele disse que hoje não vai trabalhar. 

 

2) Preciso tomar um banho, lavar a cabeça e ir agora de manhã em Mogi, lá no INPS para marcar consulta. Depois quero cortar o cabelo. E me sentir bem. Estou me sentindo muito feia. Não estou nada contente comigo e preciso me gostar para poder levar a vida pra frente. Tenho boas perspectivas para o ano de 86. Portanto, mãos à obra. Gostaria que me chamassem para trabalhar em algum órgão da Prefeitura de São Paulo. Em Itaquera, seria ótimo. Quem sabe? Farabulini me perguntou ontem se eu ainda trabalhava no Forum. Disse-lhe que não aguentei a pressão e saí. Que fui a única que trabalhei aqui em Suzano para o Jânio e para ele e por isso fui muito perseguida. Quem sabe ele me arranja algo importante? Quem sabe algo muito bom está à minha espera?

 

3) Pensei que tivesse ido muito atrasada no INPS em Mogi e cheguei adiantada demais. Mais de dois meses e o meu caso nada resolvido e sem esperança de resolução ainda para este ano. Pelo jeito vou ter que começar o novo ano de 86 sem receber. Já é uma mixaria o que a gente ganha e eles ainda fazem questão de prejudicar mais. Pelo que vejo, cada governo que entra faz pior. Velha República... Nova República... Promessas de mudanças... Velhos desesperos... Novas esperanças... Pra quê? Só para ajudar fazer correr o tempo. Só para poder passar melhor o tempo. 

 

4) Conheci gente nova hoje. E bacanas. Meu novo e definitivo cabeleireiro da POP da Rua Baruel. Me esqueci do nome dele. Tão fácil, mas já se foi. Uma simpatia. Acabei ensinando-lhe o Namyohorenguekyo. 

 

5) Fui visitar a casa da Jussara e das meninas hoje. Bem ajeitadinha. Simples. Mas bem limpinha.

 

6) Hoje acordei sonhada com um macabro quadro. Que já descrevi no início. 

 

7) Só usei homem pra fazer os meus filhos.

 

8) Sabe daqueles defuntos incômodos? Manoel ultimamente tem me revelado um defunto da pesada. Desses que a gente não sabe o que faz com ele. Desses que a gente não consegue enterrar nunca, desses que a gente não consegue se livrar nunca dele. 

 

9) Engraçado é que enquanto a gente está sonhando com o morrer, a gente não tem medo. Só quando a gente acorda é que o medo vem. Igual quando a gente assiste aos filmes de terror que na hora a gente não fica; mas na hora que o filme acaba é que chega o medo.

 

                                      Clô