sexta-feira, 7 de junho de 2024

15 12 85

LXVIII – 15/12/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Pelos meus cálculos, é hoje que seria a comemoração da Vitória do Jânio em Itaquera. E os danados nem me convidaram. Nem bateram uma linha para me avisar. Amigos da Onça. Deixa estar que virão outros acontecimentos. Outras circunstâncias. Outras oportunidades. Outras necessidades. E é lógico que eles ainda precisarão de mim. Eu estou aqui, na minha. E na minha vou continuar ficando. Na hora da luta é todos juntos. Na hora da festa é só eles? Que isso! dor de barriga não dá uma vez só. Deixa estar. Urubu também tem o seu dia de gorgeio e que gorgeio vou dar. 

 

2) Ontem, sábado, dia 14/12/85, graças a Deus, graças ao Gohonzon, foi um dia inteiro e completamente bem aproveitado. Fiz o patê e os sanduíches com os apetrechos que eu havia trazido na sexta, ou seja, dois pães Pullmans, duas latas pequenas de sardinhas Rubi em óleos comestíveis, um vidro pequeno de maionese Maionegs, e lá fomos nós, eu e o Ita para o cherrasco da turma da sessão dele lá da Papelão. Comi muito, bebi muito, cantei muito, ri muito, falei muito, conheci uma turma super bacana composta de gente de primeira e algumas pessoas especiais como Elzira, o irmão dela João, o senhor japonês, o cantor baiano, Sebastiana, a filha e o genro. Me descontraí tanto quanto na Bahia. Valeu. Valeu. Gostei de todo mundo e acho, não, tenho a certeza, de que também agradei. O mal é que eu não estava na minha melhor forma. Engordei muito nestes dias. Estou me vendo balofa, deformada, feia. O ideal seria se eu me estivesse sentindo ideal para os meus quarenta e cinco anos. De repente, sentada perto do meu filho, senti um orgulho imenso dele. Uma emoção fantástica de ter um filho como ele. E aquele sentimento de gratidão total ao Aoud por ter me proporcionado ter este filho dele. O filho ideal que eu gostaria de ter, tenho. Aliás, os filhos e as filhas ideais que eu gostaria de ter, tenho. Graças a Deus. Graças ao Gohonzon. Graças aos homens que eu tive. E principalmente graças a mim por tê-los como são, e graças a eles por serem o que são.

 

3) Na volta do churrasco, Ita e eu fomos levar um amigo dele, a esposa e filhinha em casa deles no Parque Maria Helena. E já que estávamos na São Paulo-Rio, pedi ao Ita que fôssemos na casa da Sarah janista. Fui sem avisá-la desta vez, já que das duas vezes que a avisei que iria visitá-la, as visitas furaram. Fiquei contente em encontrar Sarah tão jovem quanto de quando a conheci, apesar da sua doença e do seu sofrimento. Ita gostou dela. Ela também gostou muito do Ita. Uma grande mulher em todos os sentidos. Uma cabeça, uma inteligência e uma força, uma cultura, incomuns. Ita saiu da casa dela perplexo com a sabedoria e cultura de Sarah. Quer fazer tudo para ajudá-la a se recuperar. E quer que de minha parte eu também faça tudo para que ela se cure e seja de novo uma mulher normal, cheia de vida e atuante. Conhecemos também Dona Branca e Sandra respectivas mãe e sobrinha de Sarah. Simpaticíssimas. Dois amores de pessoas, tanto quanto Sarah. Orientamos para que elas rezassem o Namyohorenguekyo que, para essa oração, não existe o impossível. E vamos lutar todas juntas para unidas, saudáveis, fortes e animadas, com a força do Gohonzon, modificar o mundo. 

 

4) Na volta de Mogi ontem, deveriam ser já quase dezoito horas, ao passarmos por Jundiapeba, na estrada, estava aquela visão feia de um desastre horrível e recente. O ônibus caído à margem da pista sentido Mogi e, na outra pista sentido Suzano, uma Brasília vinho virada em sentido Mogi toda com os vidros estourados. O Ita falou: 

  - Neste pedaço sempre acontecem desastres. Este é o trecho da morte. Abusou aqui, vai. Deve ter sido causa de ultrapassagem. Pior são os passageiros do ônibus. 

 

5) Bem cedinho hoje, ou seja, lá pelas quase onze horas, hora que eu consegui levantar-me, o telefone tocou. Era Yone Kadono avisando da morte do filho mais jovem do Sr. Kawakami, nosso primeiro Tikubutyo em Suzano, por um acidente de carro.

  - Onde? Quando?

  - Ontem. Em Jundiapeba. 

  - Puxa! Ontem à tarde quando passamos, eu e o Ita, vindos de Mogi, vimos um ônibus grande caído à margem da estrada e uma Brasília vermelha com os vidros todos estourados. Seriam estes?

  - Deve ter sido. Porque o que sei é que foi com um ônibus. O carro entrou debaixo do ônibus. Estavam em três. Ele não era quem estava dirigindo. Mas foi o único que morreu. 

  - Quantos anos ele tinha?

  - Era bem jovem. Uns vinte e três anos.

  - O endereço, onde é Yone? Ainda é lá no Palmeiras?

  - Não. É aí no Jardim Imperador, na Rua J. Nigri, 203, perto do Raul Brasil.

  - Tá. Nós vamos sim.

  - Às três horas da tarde o Reverendo vai fazer a missa. E às quatro será o enterro. Eu estou avisando a senhora e as pessoas que lutaram juntas, pra dar força pro Sr. Kawakami. Dá tanta dó! Era um rapaz novo e inteligentíssimo.

  - É. A gente não entende. Mas era o karma dele que era muito pesado. E ele não teve como cortar. Que fazer? É a vida. Vou ver se aviso a turma daqui. E iremos sim. Tchau. Muito obrigada pelo aviso, Yone. Até logo. 

Mas o relógio estava atrasado mais de uma hora. E eu pensando que ainda era cedo. Fui avisar Ivonete já eram 15:15 horas. A missa já era. Queria ir pelo menos no enterro. Mas ainda tinha que terminar o almoço, dar almoço e trocar a Liliam e almoçar. Quando terminei já eram 16:30 horas. E já não adiantava mais ir. Fiquei com aquele dó, aquela dor, aquele remorso. Não fui. Faltei mais uma vez e me danei.

 

                                                                                                       Clô

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