LXVI – 12/12/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Ontem sonhei com Jorge Amado e com Zélia Gattai. Que eles estavam não sei bem se numa conferência ou se numa manhã de autógrafos, num clube vizinho daqui de casa, só que esta casa não era esta casa. E sim, uma casa menor e bem rústica. Isto é, tipo quase um barracão com alguns cômodos, ou seja, só uns três cômodos, mal divididos, ou seja, todos pegados uns aos outros todos, grandes, tipo essa casa no fundo, só que mais abertos, com piso de tijolo, com telhados de amianto, ou seja, brasilit, com alguns móveis também bem rústicos e antigos, inclusive uma mesa grande daquelas bem antigas tipo envernizada, para oito a doze lugares, retangular. Estava tudo muito limpo. As paredes eram de uma pintura de cal azul anil, meio manchada. E o Jorge e a Zélia ambos tinham prometido que, após a Conferência, viriam almoçar em casa. E enquanto eles estavam fazendo a Conferência eu me esmerava em fazer o melhor almoço pra eles. Só que eu não tinha grandes recursos nem grandes opções, e fiz o que era possível ser feito. Cozinhei uma galinha, salada, macarrão. Dali a pouco eles chegaram alegres, faladores, me abraçando, percorrendo a casa, conhecendo e cumprimentando os meus filhos. Senti-os deslocados, decepcionados com a minha pobreza, mas faziam tudo para disfarçar. Eu também estava deslocada, envergonhada, sem ação, tentando também disfarçar sem poder. Na hora do almoço, faltaram pratos. Tive que mandar emprestar pratos na vizinha, não tinha os necessários e eu tive que me virar com pratos e talheres que haviam. Mas eles almoçaram em casa mesmo assim ao mesmo tempo em que comentavam os meus escritos de forma benigna.
- Ela também escreve, dizia Zélia a Jorge. Você já viu?
E Jorge respondia:
- Já vi sim. Escreve muito bem.
Eu, embora constrangida, não sabia se deveria acreditar neles ou não. Não sabia se eles estavam falando a verdade ou não. Recebia com reservas aquelas econômicas críticas deles como se eles tivessem só falando a meu favor em agradecimento ao almoço. Ou então tirando um sarro de mim e dos meus escritos.
Após este sonho, sonhei mais outro relacionado a banho em banheiros na casa de Dona Augusta, não sei bem. Não está nada nítido. E os principais acidentes eu me esqueci.
2) Nestes dias tenho estado num estado de desânimo e de insegurança, instabilidade total. Penso tanta coisa e não tenho coragem de fazer nada. Mas Lilinha tem estado bem. Graças a Deus. Calminha, bem calminha, parece até que entende a gente na maior parte dos casos e dormindo sem sentir as convulsões, graças a Deus. Está uma gracinha. Só que está perigosa. Por isso tenho deixado ela presa no quarto do meio. Porque é um perigo ela derrubar o fogão como fez esses dias ou então, por um descuido da gente, se queimar o rostinho nas chamas do fogão, porque ela gosta de ser enxerida e por bem a cara em cima das panelas, sobre as chamas do fogão. E qualquer descuido da gente pode ser fatal. Por isso, pra evitar o pior, é que eu a prendo no quarto. Ela não gosta, fica triste. Demonstra que não gosta de se sentir sozinha. Mas que fazer?
3) Jussara estava aqui de manhã e contou que o homem, que ela e o namorado viram no Voyage branco, estava morto mesmo. Foi encontrado morto dentro do carro lá na NGK. Tratava-se de um advogado de Mogi. Deve ter sido fechado por aquela quadrilha do Wolks para roubar. Ele deve ter reagido. E foi morto. A quadrilha só queria mesmo o dinheiro dele. Porque o abandonaram no carro. Se fosse por causa do carro teriam levado o carro. Foi só pelo dinheiro. Ele estava bem vestido. De terno, de gravata, e sozinho. Já deviam saber de quem se tratava e o atacaram, quem sabe ao sair de casa; ou de um banco?
4) Jussara disse que está contente com o seu trabalho lá no Supermercado Guaió. Disse que é querida por todos. E que é ela quem faz compras para os patrões. Mas, disse que quer por um comércio por conta dela. Quem sabe um armazém aqui mesmo no salão daqui de casa? Falei-lhe que estou quase de bem com o pai dela. E que vou falar com ele a respeito. Ela disse que fica contente por mim. Mas que, por ele, ela prefere nem pensar nem lembrar do pai dela por nada. Prefere fazer de conta que ele não existe.
5) Prefiro ficar de bem com o diabo do que ficar de mal com ele. É por isso que eu quero mais é ficar de bem com o Aoud. Mas se pudermos vencer sem ele, tanto melhor. Graças ao Gohonzon o Ita está conseguindo pagar a Faculdade sem precisar dele.
6) Farabulini me telefonou. Lembrou-se de tudo o que aconteceu aqui em casa há três anos atrás, da bronca que ele deu nos candidatos do PTB daqui de Suzano, e no cafezinho. Simpático. Um líder em todos os sentidos. E o único em quem acredito desde criança. Depois do Jânio, é ele. Preciso expor-lhe o que se passa aqui em Suzano com vistas já à prefeitura da cidade. Espero dele o maior apoio. Quero ser deputada estadual e prefeita de Suzano. Ele se lembrou de mim. E de tudo. Que bom. Valeu, farabulini. Disse que no início do ano me fará uma visita. Ótimo. E vamos lutar para levar o Jânio até o Alvorada de novo.
7) Vitória telefonou à noitinha. Avisei-lhe que o Omar já telefonou pra ela duas vezes e que ontem ele telefonou de novo. E que eu disse que é quase certeza ela estar mesmo aqui sábado à tarde.
8) O Ita chegou cedo. Mais ou menos 18 horas. Antes ele já havia me telefonado perguntando como estava tudo aqui e avisando que iria chegar cedo. Lavou o carro e saiu. Disse que iria visitar um amigo. Perguntou-me se deveria voltar com a Meire. Disse-lhe que é ele quem sabe. Ele é quem deve saber o que faz. Perguntou-me se eu gostava da Meire.
- Se ela gosta do meu filho, eu só tenho que gostar dela. Mas não me meto na sua vida. Você deve saber o que é melhor pra você.
9) Telefonei para Dona Sônia, aquela senhora muito simpática que eu tive o prazer de conhecer na reunião do Comitê do Jânio em São Mateus. Só por tê-la conhecido valeu minha ida lá. Ela se lembrou de mim. E voltou a repetir que eu era muito bonita. Disse-me que naquele dia eu lhe chamei muito a atenção por isto. Que bom. Estar com quarenta e cinco anos e receber desses elogios, ainda mais vindo de uma mulher, é a glória. Ainda bem. Agora tenho certeza que o Aoud também me achou linda lá naquele dia da eleição. E que o Dito idem, lá no Comitê naquele mesmo dia em que fomos lá em São Mateus após. Preciso aproveitar minha beleza e simpatia para estas e as outras eleições. E ainda mais com o Gohonzon, não há quem me segure. Graças ao Gohonzon, durante o tempo em que frequentei o Comitê, consegui cativar a todos. E se a Organização Nitiren Shoshu me apoiar, melhor. É eleição garantida. Na outra remei contra a maré. Nesta a maré tem que ser a meu favor.
Clô
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