LXX – 17/12/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Meus amigos espirituais, estou sem fé, sem objetivo, sem razão e sem motivação pra lutar e pra viver. O que devo fazer?
- Clotilde, você precisa vender esta casa e ir embora pra Bahia.
- Por quanto devo vender esta casa?
- Por duzentos milhões à vista.
- Vou achar comprador logo?
- Sim.
- Se eu vendê-la assim como está vou achar quem dê duzentos milhões à vista, assim mesmo e logo?
- Sim.
- O que devo fazer com a Lilinha?
- Deve entregá-la aos pais dela.
Coisa horrível. Não. Não. Não. Não. Jamais me separarei da Liliam. Quero só poder dar-lhe sempre do melhor e ter bastante saúde e bastante paciência para tratá-la o melhor possível e com o máximo de carinho possível.
2) Antes não tivesse marcado a minha consulta do INPS, aquele médico estragou o meu barato. Mas não faz mal. Quem sabe foi melhor assim? De alta. Estou livre e desimpedida para fazer qualquer coisa na minha vida. Ou voltar a trabalhar... E quem sabe na Prefeitura de São Paulo? Ou fazer a minha campanha de deputada estadual com Sujim ou com Farabulini? De preferência com Farabulini. Isto se Sujim não arcar com a ajuda monetária aos meus interesses. Ou então, quem sabe? Trabalhar com os dois? O povo é quem vai votar. O povo é quem escolhe dos dois o melhor. Celso Amaral? Nunca mais.
3) De uma certa forma, amor
Viajei. Mas não parti.
Estou toda em Salvador
Por que? Não me vejo aqui.
Se quiseres comprovar
Verás com veracidade
Que estou em todo lugar
Da tua maga cidade
No ar, nas ruas, no mar,
Em formatos de saudade.
Caso ofusques teu desdém
Pelo destaque do espanto
É só procurar-me bem
No melhor canto do canto
Entre estas janelas
Do Boulevard da Cantina.
Estou a olhar-te com elas
Tuas portáteis meninas.
A bebericar com os santos...
Ouço de Claudete o canto...
Enquanto janto teu encanto.
4) Essência (um fado feito com João Sampaio)
Eu sou.
Tudo que existir, é o que eu sou.
Em qualquer lugar, é onde estou.
Onde o vento leva, é onde vou.
Saí.
Mas não arredei os pés daqui.
Eu não sei ficar longe de ti.
Eu apenas sou.
Viver.
Mais que uma paixão
É um prazer.
E o que eu quero
É só querer
Ser um ser que ao menos
Possa ser.
Nada mais
Que um ser.
5) poema ZERO A ZERO
E pensar que eu me vi a me ver
Sendo muito muito muito amada
Por você Sol e Céu do meu ser...
Foi um sonho. E findou sendo nada.
E pensar que eu temi o temor
De saber-me por tantos amada
Sem poder a ninguém dar amor
E foi este o placar da jogada.
Mas, contenho-me. E estou contida
No sonhar que jamais se realiza
No temor que se concretizou:
Eu, (que sou tão amada!) Na vida
Nunca amei a quem quer que me amasse
Só amei a quem nada me amou.
6) ESSÊNCIA
Eu sou
Tudo o que existir é o que eu sou
Em qualquer lugar, é onde estou
Onde o vento leva, é onde vou
Saí.
Mas não arredei os pés daqui
Eu não sei ficar longe de ti
Eu apenas sou
Te ver
Mais que uma paixão
É um prazer
E o que eu quero
É só querer
O teu ser para
Que eu possa ser
Muito mais
Que um ser.
Clô
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