domingo, 9 de junho de 2024

16 12 85

LXIX– 16/12/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) A pia cheia de louça. Levantei já um pouco tarde, e me dei a lavá-los. Mal acabei, Vitória chegou. Devia ser umas oito e meia. Tocaram a campainha várias vezes. Eu não fui ver porque costumo deixar para a Miriam ou os meninos dela que têm a chave se incumbir. Vitória chegou, me abraçou e eu me surpreendi porque não a esperava e ainda mais tão cedo. Ela me abraçou, me beijou, deixei o fogão ainda por limpar, só varri a cozinha e sentei-me à mesa com ela para conversarmos. Disse que estava devendo três meses da prestação da máquina e que o cheque dela de uma das prestações voltou e que o rapaz perguntou se ela queria vender a máquina que o Sr. Antônio pagaria na hora onze milhões à vista. É sinal que a máquina vale muito mais, disse-lhe. 

  - É. Estes dias teve um rolo lá com a Jandira. A senhora das confecções descobriu que ela vinha roubando as blusas dela. Sumiram 1.200 e o coreano veio de repente e a Jandira estava costurando de portas fechadas. Ele entrou e pegou ela costurando as blusas dele escondido. A senhora ficou revoltada com a Jandira, disse que tinha ajudado a pessoa errada e retirou a máquina reta da Jandira e deu para Rosa, e disse que agora vai ajudar muito a Rosa. Ali é a maior guerra entre as duas. No mesmo dia, para poder aparecer, a Jandira foi lá no seu Antônio e comprou outra galoneira. E pagou vinte e dois mil. Já pensou, ele compra por onze milhões e vende por vinte e dois, quanto que ele ganha? 

 

2) Outra vez Vitória e Paulo. Puxa vida. Mas já não bastou uma vez? Tem gente que basta apanhar uma vez para aprender. E outras apanham a vida inteira e não aprendem nunca. Matilde é um exemplo. E Vitória, pelo que vejo, segue-lhe em tudo as pegadas. Mais se parece filha dela e não minha. Aliás, não estou reconhecendo Vitória como minha filha, nem como filha de Manoel. Nós ambos tínhamos uma personalidade forte, incapaz de nos despersonalizarmos por nada. Ela está sendo o oposto. Imagina: mal chegou, telefonou para o Paulo, perguntando alheio:

  - Por que você não foi mais lá? Quando você aparece? Vê se vem logo. 

Tudo uma boa, muito boa, mesmo como se nunca tivesse acontecido nada do muito grave que aconteceu entre eles. Perguntei-lhe: 

  - Ué, Vitória, está voltando com o Paulo? Ou estão se separando?

  - Não. Estamos apenas com amizade. É melhor ficar de bem com o diabo. Mas a gente vai se separar.

  - Pelo jeito, daqui a pouco, em vez de se separar, vocês acabam voltando.

  - É, pode até ser. Mas isto depois que a gente se separar. Porque da outra vez quem estragou tudo foi a família dele.

E contou que no último júri, o juiz esteve todo, todo, para o lado dele, juiz conversou com ele, pediu que ele lhe esperasse lá embaixo e ela, só porque já tinha combinado de encontrar-se com o Paulo, deu o maior furo no juiz.

  - Mas como você é besta, hem? Vitória só olha pra baixo. Desse jeito você só vai pastar toda vida. Em vez de olhar pra cima e dar valor a quem lhe dá valor, deixa do melhor pra pegar um lixo de homem. Um cara que já tomou o seu dinheiro, que carregou os seus móveis, que enxovalhou o seu nome, até o último, que só te diminuiu e você ainda dá bola prum cara desse. Mas nem que fosse a última hipótese. Um cara que não tem nada pra te dar, só tem pra te tirar. Você precisa é se dar valor. Não sei pra quê estuda, se não vale nada o que você sabe. Só sabe andar feito mendiga e dar atenção pra mendigo. Desse jeito você vai ficar toda vida pastando. Você estragou o meu dia. E até hoje não me recuperei da raiva.

 

                                 Clô

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