LXXIV – 23/12/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Foram sonhos verdes e bons os que eu tive esta noite. Graças ao Gohonzon. Bem, sonhei que o Ferreira apareceu com um baita carrão aberto, todo verde. Um carro muito engraçado, ou melhor, sui generis, parecia-se com aquele carrão verde aberto que o Aoud desfilou à minha frente no dia das eleições. Só que era um carrão maior, bem maior e quadrado. Tinha a porta larga da frente onde ficavam o motor, isto é, mais uma ou duas pessoas, e um quadradão mais alto em cima, todo gramado, assim como os beirais mais baixos também gramados, mas cercados. Sei que estávamos em campanha. E ele foi me levar, até uma localidade onde havia, além da vila de casas de alvenaria, lojas e bares e praça. Ao redor, à frente destes, logo de cara, dávamos com algumas casas, bares e até igreja, todas feitas de madeira, como nos filmes de cowboy. E numa praça entre estas construções de madeira e que seria um comício (o meu). Chegamos e quase não tinha ninguém ainda. Só uma senhora ainda meio jovem com uma criança de uns seis meses já no colo. Enquanto esperávamos vir mais gente, convidei esta senhora para subir e deitar-se no gramado do carro. Ferreira também se deitou e eu me deitei encostada a ele. Começamos a conversar e dar risadas. Estava tudo bem, ele estava simpático e feliz, eu simpática e feliz. Mas nem ele se esfregava em mim, nem eu me esfregava nele. Depois, saímos de lá. Não sei pra onde fomos. Quando cheguei, o carro estava cheio de recos, ou seja, jovens soldados do exército ou do Tiro de Guerra que, sentados na frente, ou sobre o gramado, guardavam-no. Eram, rapazes risonhos, brancos, bonitos e simpáticos, de uniformes verdes-olivas. Assim que me viram chegar, despediram-se sorrindo e se foram. Vi que o gramado do carro estava cheio de sujeiras como papéis, latas, etc. Vi que precisava varrê-lo e deixá-lo limpo enquanto o Ferreira estava ausente para que, quando ele chegasse, tudo estivesse em ordem. E me pus a varrer. Varri em cima e, quando eu estava varrendo de um dos lados, escorreguei, caí e quase que varei por uma das janelas laterais, pois estavam todas abertas. Cheguei a atravessar uma das pernas fora da janela da grade. Mas consegui pô-la pra dentro de novo e fiquei esticada sobre uma barra de ferro, ou seja, num cano largo de bronze cinzento que serve de apoio a quem viaja nas beiradas. Fiquei numa posição que não sabia como me levantar dali. Pensei em chamar alguém que estivesse em cima para me dar a mão e me puxar, mas seria arriscado esta pessoa não poder com o meu peso e cair, ele também, com tudo e eu, e virarmos o carro e cairmos com profundo impacto para fora do carro, que era bem alto do chão. Pensei bem e cheguei a uma conclusão. Eu teria que tentar sair dali, me levantar dali sozinha. Segurei-me num dos frágeis pilares das janelas e me levantei da cintura pra cima. Depois mudei as mãos para um pilar mais à frente, me escorreguei até lá e consegui me levantar e sair do cano. Foi só pular com dificuldade para o alto e já estava salva. Graças a Deus. Mais uma dificuldade vencida. Mas não me lembro de ter visto mais, depois deste incidente ultrapassado, nem Ferreira, nem os recos. Mas logo depois vejo Jussara, ainda menina, com os cabelos cortados, um vestidinho azul acima dos joelhos e calçada com umas sandálias havaianas bem mixas e bem menores que os pés dela.
2) Sonhei também esta noite, e anteriormente ao sonho citado acima, que eu estava voando de helicóptero bem baixo sobre umas vilas cheias de boas casas, eu estava com um menino branco mais claro que o Ita e que deveria ter uns seis anos e que era meu filho. E esse meu filho estava com um brinquedo na mão, deveria ser um carrinho de plástico, que ele deixou cair sobre uma dessas casas. Logo um pouco à frente, decolamos e voltamos, fomos até onde ele tinha deixado cair o brinquedo que já estava nas mãos de um menino entre mais outros meninos. Eu reclamei o brinquedo e eles não quiseram devolver. E eu acabei xingando-os e, conforme iam aparecendo os pais deles, eu contava o caso e xingava os pais deles também porque eles não davam importância ao que tinha acontecido. Saímos dali eu e meu filho, tomamos de novo o helicóptero, fomos até um outro lugar resolvermos outro problema e depois, na volta, eu parei de novo para pedir tanto às crianças como aos pais deles desculpas e perdões pelas ofensas que eu lhes tinha dito. No fim, ficamos todos de bem e amigos. Entre estas pessoas, eu vi um senhor já de uma certa idade, bem corado e bem vestido que disse que já me conhecia. Eu disse a ele que ele também não me era estranho.
- O senhor não é parente da Nancy?
- Sou.
- Então é por isso que eu estou lhe conhecendo. Nancy é muito minha amiga e eu já vi o senhor na casa dela. E já que o senhor é parente da Nancy deve ser também de fulana de tal... (que eu não me lembro quem é agora).
Ele ficou contente em saber que eu também conhecia esta outra mulher. E confirmou sorrindo que era mesmo.
3) Pela primeira vez vi Fidel Castro falar pela televisão pessoalmente ontem. Fiquei sua fã incondicional. É um homem que tem tudo pra ser o grande e verdadeiro líder que é. Firme. Inteligentíssimo. De uma convicção pessoal à prova de qualquer coisa. Simpático. Humilde. Que pensa e age de modo mais acertado. Gostei. Gostei. Gostei. Salve, Fidel. É um dos maiores líderes da América Latina, senão o maior. Agora o tenho no rol dos meus líderes. Jânio no Brasil e Fidel na América Latina.
4) Jussara não veio ontem, domingo. Apesar de dizer que vinha. Por que será? Estou bastante preocupada com ela. Se o Ita tivesse deixado o carro iria lá ver o que aconteceu.
5) Lilinha às vezes me tira fora do sério e eu penso mil coisas feias contra ela. Inclusive o de entregá-la de novo aos pais. Depois, diante daquele rostinho lindo, do seu sorriso que nenhuma criança tem igual, dos seus olhinhos tão lindos, tão tristes, tão carentes e que dizem tanto pra gente, me arrependo de tudo (que faço e digo contra ela), e reafirmo meu objetivo de nunca, nunca, nunca, em hipótese nenhuma, me separar dela.
Clô
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