Clotilde Costa Sampaio nasceu em 17 de maio de 1940 em Santa Cruz do Rio Pardo, SP e faleceu em 17 de janeiro de 2010 em Mogi das Cruzes, SP. Poeta desde os 23 anos quando, viúva com dois filhos, conheceu o grande amor de sua vida e com ele teve mais dois filhos, em SP, capital. Construiu sua casa em Suzano, SP. Alternava períodos em Salvador, BA, momento em que sua obra ganhou e alcançou novo vigor poético. Deixou os filhos João, Vitória, Itamaraty, Jussara e Tarcila.
segunda-feira, 29 de abril de 2024
16 e 18 11 85
LI – 16/11/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Engraçado. No capítulo 5, tenho que me referir à vitória estrondosa de Jânio ontem para Prefeito de São Paulo. Bem feito. E tanto que nos chamaram de 51 ontem com relação ao Jânio e aos seus correligionários.
2) Foi um sufoco ontem, mas o que vale mesmo foi a vitória de Jânio.
Clô
LII – 18/11/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
Eu soube sabendo. Naquele dia, ou melhor, naquela noite, eu fiquei alegre por uma coisa e triste por outra. Antes, eu não sabia. Mas fiquei triste. Sou muito sensível e qualquer coisa que pode não atingir ninguém me atinge. Não gostei de ver os pobres coitados voluntários dando o máximo na boca de urna, sem ganhar nada, com fome, pois nem lanche, o lanche que você prometeu que teriam e ainda com aquelas camisas de mendigos, fazendo propaganda de Sujin. Não gostei não. Não gostei nada mesmo. Se fosse eu, não vestiria jamais aquela camiseta horrível dada por você. Ou se dá alguma coisa que valha ou não se dá nada. Era preferível não se ganhar nada. Vestir aquilo pra quê, só pra lhe fazer propagandas?
Clô
10 11 85
L – 10/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Não fosse o vedetismo sem medida
Que existe em seu perfil real
Você seria em seu todo geral
O homem ideal da minha vida.
2) Dito (Benedito Salim) hoje lá na reunião do Comitê. Ainda bem que eu estava muito bem. Tanto em aparência física como psicológica. E ele me viu assim. E deve ter se chocado com o que viu sem esperar em mim. E gostoso que isso aconteça. Me ver assim, sempre por cima, bonita, elegante, classuda e querida. E admirada por todos e até mesmo por ele. E não aquele farrapo humano que, até há bem pouco, morria de amores pelo irmão dele.
3) Seu Jorge, Seu Jorge, será que o Senhor me quer? Quando o Bonfim falou que o Senhor iria adotá-lo, pedi-lhe:
- Adota-me também. Estou precisando tanto ser adotada!
4) Sujin, não precisa ser assim tão formal comigo. Mas a culpa é minha que coloco muita distância entre eu e as pessoas. Deveria tratá-lo por você em vez de senhor, e de Sujin em vez de professor. Afinal somos todos seres humanos iguais. Para quê tanta formalidade? Para quê tanta frescura? Para quê tanto respeito? O melhor é ser o mais simples e o mais natural possível. Creio que aproveitaria melhor a minha beleza e simpatia e eu lucraria bem mais com tudo. Sujin, gostaria que fosses meu par.
5) A turma do PDT de Itaquera, chefiada por Raimundo Nonato, velho político local, com a adesão do Ademar a Fernando Henrique, passou toda para o nosso lado. Que ótimo. E vamos lutar para a vitória esmagadora de Jânio no dia 15 de novembro. Jânio é a nossa última esperança; se perdermos esta, babau. Era uma vez um país chamado Brasil.
Clô
CLÔ - no livro ANTOLOGIA Movimento EXPLOESIA
sábado, 27 de abril de 2024
09 11 85
XLIX– 09/11/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Tudo virou zebra hoje. A minha ida ao encerramento da Campanha de Jânio em Itaquera e em São Mateus, respectivamente às 16:30 h em Itaquera/Cohab, e às 17 h em São Mateus. Fui com o Ita ao Bamba, em São Paulo, e terminei não participando de nenhuma, e de nada. E culminou em não termos podido fazer compras também pois o prazo do Ita poder fazer compras, para descontar na folha de pagamento no dia 25, era até o dia 07/11. Hoje ele só poderia comprar se fosse em dinheiro ou cheque. Como não levou cheque, só compramos algumas das coisas mais necessárias, nas quais ele gastou os sessenta cruzeiros que tinha, só para não voltarmos com as mãos abanando. E por último, o encontro que tínhamos marcado, o Capitão Expedito e eu, aqui em casa às sete horas da noite, também foi para as cucuias, não só o encontro como ele também e tudo que poderia continuar havendo entre nós. Foi melhor assim. Estou cônscia de que não poderia ter agido melhor com ele do que da forma que agi. Não gosto de homem vedete. Foi o compromisso mais curto que eu tive com alguém em toda a minha vida. Começou no dia 05/11/85, terça-feira, pessoalmente, e terminou em 09/11/85, sábado, por telefone. Corro de homem vedete aqui em Suzano, sô! Mas vedetismo de homem comigo, não tem vez. Agora, sim, estou calma e compenetrada de que não poderia ter feito melhor.
2) Vedetismo! Vejam só; querer brilhar sem paetês. Eu não admito vedetismo sem paetês.
Clô
CLÔ em 1982
quarta-feira, 24 de abril de 2024
27 10 e 01 11 de 85
XLVII– 27/10/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Fui na reunião do Comitê em Itaquera onde fiquei conhecendo melhor o candidato a Deputado Federal Antenor Sugiro. É o dono da fábrica Ret Lit, de Poá. Me pareceu sincero. Pelo que me disseram algumas pessoas confiáveis, trata-se de uma boa pessoa, amicíssimo do Jânio. E porque ele não veio no Comitê no dia da visita do Jânio em Itaquera e Guaianazes, fico com as minhas reservas. Apareceram tantos aventureiros nas últimas eleições que agora fica um tanto difícil crer. Apesar de que ele tem a vantagem de ainda ser um tanto ingênuo (creio eu que seja a primeira vez que ele se candidata a deputado federal) e também de pertencer a esta minha região. Ou seja, um legítimo representante desta região por residir em Poá.
2) Fico na dúvida: mudo ou não mudo? Pelo bairro e pela cidade já teria me mudado. Só pela casa é que eu vacilo, e que eu temo. Já pensaram? Estar presa a um bairro e a uma cidade só por causa de uma casa?
Clô
XLVIII– 01/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Diante de todo o teu descaso comigo, acho que você não me entendeu. Ou entendeu muito mal. Que pena. Tanta coisa boa poderia acontecer entre nós. E é o que não está acontecendo. Sim, porque eu sinto que você poderia ser até... O HOMEM DA MINHA VIDA. É tanto o que eu tenho pra te dar, num acúmulo de há muito paciente e esperançosamente aguardado.
2) Jânio já ganhou! Que bom!
Clô
DEFININDO
Letra e música - Clotilde Sampaio
Você quer que eu lhe esqueça e eu vou tentar
Para tanto eu já começo a me ajudar
Suportando esta saudade e este sofrer
Castigando este desejo de lhe ver
Sufocando esta vontade de chorar
Maldizendo esta ansiedade de lhe amar
Rejeitando o dom maçante de viver
Sem me dar ao luxo de morrer
Aceitando até com resignação
A presença horrenda desta solidão.
Você quer que eu lhe esqueça e eu vou fingir
A mim mesma que eu já deixei de sentir
A doidice de querer lhe procurar
Para ouvir sua voz e para lhe implorar
Que você volte de novo para mim
Devolvendo a paz que carregou de mim
Você quer que eu lhe esqueça
E pra fazer que seja assim
Mesmo que a última esperança
Hoje se vá toda de mim
Você quer que eu lhe esqueça
E hei de esquecer se Deus quiser
Pois se o querer chega a Poder
Coisa qualquer volta à Mulher.
Brás, SP
25 10 85
XLVI– 25/10/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Quando aqui
Não existir mais ninguém
Daí
Você vem.
2) Você foi só mais uma tentativa, talvez, a última tentativa que eu fiz tanto para continuar vivendo, como para continuar vivendo em Suzano. Não deu certo. De um lado, que pena! Mas por outro, antes assim!
3) Querido amigo Capitão Expedito. Estou me mudando definitivamente de Suzano. E devido à exuberante e exagerada escassez do seu quase nenhum tempo disponível, talvez não nos vejamos mais sim? Pois, sendo o senhor o homem muitíssimo ocupadíssimo que é.
4) Hoje foi um dia que não fiz nada. Nem o trivial. E o Capitão também não veio hoje. Estou me sentindo muito só e insignificante. Parece-me que não valho nada. Só limpei a geladeira e tomei duas horas de sol com o biquini velho verde da Jussara, ou será aquele mesmo biquini que a Vitória comprou para concorrer, aos dezoito anos, ao concurso de Miss Carnaval no Auditório Municipal, em Suzano.
5) Se as coisas que eu lembro não tivessem nome seria bem melhor porque, assim, eu não lembraria como as lembro.
6) As figuras gramaticais que aprendi no primário e no normal, graças a Deus, que eu me esqueci todas. E não quero lembrá-las nunca mais.
7) Esta casa não é mais uma casa. De casa, passou a ser um transtorno, um pesadelo do qual eu preciso me livrar o quanto antes a qualquer preço.
8) Teus olhos, são as coisas que mais lembram você, quando eu quero te lembrar.
Clô
ESSÊNCIA
Fado – (em parceria com Clotilde Sampaio)
Eu sou
Tudo o que existir
É o que eu sou
Em qualquer lugar
É onde estou
Onde o vento leva
É onde eu vou
Saí
Mas não arredei
Os pés daqui
Eu não sei ficar
Longe de mim
Eu apenas sou
Viver
Mais que uma missão
É um prazer
E o que eu quero
É só querer
Ser um ser
Que ainda possa ser
Nada mais que um
Ser
João Francisco Sampaio, 1982, filho de Clotilde Sampaio, poeta e compositor, frequentador do Movimento Exploesia.
sábado, 20 de abril de 2024
24 10 85
XLV– 24/10/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Parece que hoje o dia está pra chuva. Também não vou sair hoje. Quem sabe o Capitão vem hoje? Seria tão bom que ele viesse, assim resolveríamos o que temos que resolver já. e não ficaríamos mais nessa lenga-lenga de não sabermos o que somos um para o outro. Da minha parte creio que vou amá-lo muito. Este é o perigo. Não tenho feito nada a não ser pensar nele e esperar por ele, que parece não estar muito a fim. Se estivesse, já teria vindo aqui, e já a situação entre nós seria outra. Ele, se for mesmo um Deus como eu imagino, será capaz de desbancar o turco Aoud. Preciso realmente que ele o desbanque. Quero me livrar para sempre do estigma Aoud, e de todas as suas funestas consequências. Hoje estou bem animada e talvez faça uma faxina aqui em casa. Lilinha também levantou-se bem outra hoje. Alegrinha, animada, como eu gosto de vê-la. Já a troquei e só falta dar-lhe o café. Estou contente de ver o Jânio liderando as pesquisas da Jovem Pan. Ele tem que ganhar. Só ele tem o poder de mudar esta situação corrupta que está aí, dominando tudo. E onde só alguns privilegiados têm vez.
2) Fiquei muito triste ontem ao constatar que um destes meus papelotes, o de número 2, sumiu. Não poderia sumir. Agora que enfim, através deles, estou conseguindo me soltar. A falta de um deles me põe em desânimo. Como foi sumir? Será que alguém o pegou? Será que ainda vou encontrá-lo? Preciso dele para completar as minhas anotações a respeito do cotidiano. Vou ficar bastante frustrada se não o encontrar.
3) Da mesma forma que o povo não perdoa o Jânio não ter se deixado matar ou ter morrido, você também não me perdoa eu não ter me deixado prostituir, e não ter me prostituído. Você é indigno de todas as mulheres do mundo, em primeiro lugar de sua mãe, de quem você nasceu. Depois de suas irmãs, de sua esposa, de suas filhas, e de suas netas. O homem que bate numa mulher não é digno de nenhuma mulher. Nem da mais baixa mulher.
4) Você tem o que eu gosto. Eu tenho o que você gosta. Vamos fazer uma troca? Te dou o que você gosta e você me dá o que eu gosto. Tá bem?
5) NEURÓTICOS ANÔNIMOS
O grupo Neuróticos Anônimos no Brasil oferece ajuda gratuita às pessoas com problemas de angústia, ansiedade, depressão, nervosismo e solidão através do telefone 229-7523 ou
pela Caixa Postal 8.951, CEP 01051, São Paulo, SP.
6) ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS AUTISTAS – SÃO PAULO. Ver telefone na lista telefônica. Ana Maria Ros de Melo, presidente da Associação.
7) Com uma vontade incontida
E irresistível
De apertá-lo contra o meu seio
Mais uma vez esperei-o
E ele não veio.
8) Recebi hoje uma carta do Jânio agradecendo o meu apoio à sua candidatura e pedindo que eu peça os votos da minha família e amigos para ele.
Clô
UM FIO DE ESPERANÇA
letra e música – Clotilde Sampaio
Samba-canção
Eu
Não sei por que ainda te espero
Só
Com este fio de esperança
De
Ainda ver você voltar
Não sei
Como é que não me desespero
Só
Com esta saudade e esta lembrança
Que
Sempre me vêm em seu lugar
Não sei
Como é que não me desespero
De tanto
Tanto, tanto lhe esperar.
Não sei
Por que não perco a paciência
E mando tudo às favas
E deixo de esperar
Por quem
Não tem um pingo de consciência
Por quem disse que voltava
E... se esqueceu de voltar.
Dizem
“Quem espera sempre alcança”
E foi com tanta esperança
Que arranjei você pra mim
Dizem
Que “esperar é uma virtude”
Mas com a sua atitude
A minha
Já está no fim.
Dizem
Que “esperar é uma virtude”
Mas
vou mudar de atitude
Senão
Coitada de mim.
Jardim Maringá, São Paulo, 1967.
23 10 85
XLIV– 23/10/85 – quarta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Quase nada dormi esta noite. Ao ir deitar-me, à meia noite e meia de ontem, inventei de trocar Lilinha que estava mais do que mijada. Nisto ela acordou-se. Dei-lhe mais Gardenal. Ela estava inquieta, e eu não conseguia dormir. Deu-lhe um ataque de tosse, dessa tosse incômoda, seca, que ela está tendo ultimamente e que lhe provoca às vezes até vômitos. E também estes dias me preocupou muito porque, junto com a tosse ela começou a por sangue pela boca. Pensei: Meu Deus, será que ela está com problemas no pulmão? Ou será que, com a força dessa tosse seca, esfolou-lhe a garganta e por isso sangrou. Graças a Deus foi só uma vez que isso aconteceu. Se tivesse continuado eu não teria outra alternativa senão providenciar-lhe o mais que depressa um exame dos seus pulmõezinhos. Com essas coisas não se brinca. Essa tosse dela, e engraçado, passa uns três dias sem ela tossir nada. Quando volta, volta violenta e persistente. Parece até que ela vai por garganta, estômago, tudo, para fora. Parecia que ela estava vomitando pois o pano que eu sempre costumo por, para aparar-lhe a baba de noite, um instante ficou todo ensopado. Acendi de novo a televisão só para fazer claridade no quarto, e poder assim assisti-la melhor. Estava eu com sono, mas nada de dormir. Lilinha se remexia, e lá se ia de novo meu sono já quase pego. A uma certa hora, sei que dormi. Acordei logo após com a televisão fora do ar. Lilinha estava dormindo também. Acordei de um sonho com Manoel. Desliguei a televisão e comecei a reviver o sonho. Manoel havia voltado, estava o mesmo, só que com os cabelos mais grisalhos. Veio sorrindo. Dizendo que não tinha morrido não. Que apenas tinha ido embora da minha vida. E passou todo esses vinte e poucos anos fora daqui e que agora tinha voltado pra ficar. Eu passava as mãos nos cabelos dele e lhe falava:
- Você se lembra quando eu passava as mãos antigamente no seu cabelo assim? Eu gostava tanto do seu cabelo bem negro e brilhante como eram.
Eu fiquei contente com a volta dele. Me senti feliz, feliz, e cada vez mais excitada conforme íamos conversando, só que ele me parecia um tanto frio, sem carinho, falava comigo como se nunca tivesse estado longe. Normalmente, sem aquele jeito carinhoso que ele tinha de me tratar. Mas mesmo assim, eu só me excitava cada vez mais, e não via a hora de podermos nos sentir a sós para termos relações. Estávamos esperando que todos dormissem para que isso acontecesse. Na hora em que ficamos completamente a sós, e que isso ia acontecer, acordei. Que raiva! Foi um sonho tão nítido, tão real, que parecia tudo estar acontecendo realmente. Pena que foi só sonho. Passei tantos anos sem sonhar nada a respeito de nada e agora, de repente, eis que volto a sonhar. E todos estes últimos dias tenho sonhado. E sempre sonhos relacionados com homens como Aoud, Jânio, Manoel, e com erotismo. Por que será? Será pela carência que tenho de sexo? Ou será porque estou amando o Capitão Expedito? Ou será porque estou frustrada por ele ainda não ter estado intimamente comigo? Ou será que existe alguma premonição em todos estes sonhos? Graças à Deus que todos eles têm sido sonhos bons, e até gostosos. Desses dos quais seria bom eu nunca despertar.
2) De novo, não sei. Também hoje não passei nada bem. Levantei-me às três e meia da manhã, rezei uma hora e quarenta minutos de Daimoku e o Gongyo. Após o café, deitei-me de novo. Estávamos eu e a Lilinha hoje na pior, só querendo deitar. Dormimos. Até às duas e meia da tarde. Levantei-me tonta. Nada bem. Parece-me que a minha pressão outra vez estava lá embaixo. Não tinha disposição pra nada. Levantei-me, dei o almoço pra Lilinha, troquei-a, limpei a casa. E passei uma maquiagem no rosto para um caso do Capitão vir, estar mais ou menos arrumada. Mas de novo, outra vez mais um dia, sem ele vir. Queria tanto decidir logo isto com ele. Ou pra bem ou pra mal, agora eu o quero, de qualquer jeito. Ainda que seja pra mal, ainda que seja pra ele me matar, qualquer coisa será melhor que esta vida. Assim, como estou, não quero continuar. Nem posso continuar.
3) Agora estou deprimida. Nada para mim está bom. Não tenho solução pra nada. A única solução é morrer. Estou já há três anos lutando, tentando todos os meios para vencer esta crise existencial que atravesso. E que está sendo muito difícil de ser atravessada. Será que consigo chegar do outro lado? Um tédio imenso, uma apatia, um ceticismo por tudo. Viver não vale a pena. Nada vale a pena. Só estou vivendo ainda, se ainda estou viva, devo à Lilinha. Não sou quem cuido dela pra viver. É ela quem cuida de mim pra eu não morrer.
Clô
SEPULTE-ME E ESQUECE-ME
letra e música - Clotilde Sampaio
Como às nossas vidas
Tudo vem e tudo passa
Pela tua vida, eu também passei
E não fiquei.
Mas não decaí
Ao ser por ti
Jogada às traças
Com a alma agonizando
Cambaleando, cambaleando,
Caindo, levantando
Eu me reencontrei
E esqueci todos deslizes
Das horas infelizes
Descobri novos matizes
E a ser alguém, voltei.
Voltei
Da glória dos meus fracassos
Voltei
Do Céu dos meus desencantos
Depois
De ser boneca em teus braços
De ser
Um troféu entre outros tantos
Voltei
Mas para ti não existo.
Morri
E em vez de flores ou preces
Te peço,
Imploro, suplico e insisto:
Sepulte-me
E esquece-me.
Sepulte-me
E esquece-me.
Sepulte-me
E esquece-me.
quarta-feira, 17 de abril de 2024
20 e 22 10 85
XLII– 20/10/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Não fiz almoço, não lavei as roupas da fábrica do Ita, só para castigá-lo. Ele se levantou às três. E se não fosse a Miriam oferecer-lhe o almoço, por mim, ele não teria almoçado. Escondi a chave do carro. Ele ficou furioso, veio querendo conversar e se desculpar comigo. Não lhe dei a mínima bola. Ele saiu de jipe com raiva. À tarde, ou seja, já à noite, fomos eu, Miriam e crianças na casa do Henrique, onde Telina estava sem água e uma fera. Deitou-se a falar mal do Henrique e do pai dela, e do passado triste que teve com sua família. Não se realmente ela fala a verdade. Deu a impressão que ela não regula bem. E os filhos dela estão crescendo bobos. Aquela menina, a Adriana, parece uma paspalha. Voltamos com uma má impressão da “bondade” da Telina e comentamos, eu e a Miriam, que ela talvez não seja nada daquilo que diz e que quer mostrar ser. Deixa muito a dúvida.
XLIII– 22/10/85 – terça-feira
1) Acordei preocupada, vivendo nitidamente um sonho! Que o Jânio tinha vindo em casa e prometeu algo muito importante à Jussara, que agora eu não me lembro mais. E que propôs à Vitória ir trabalhar nos Estados Unidos, num órgão do governo brasileiro, onde ela iria ganhar muito dinheiro. E que ela só precisaria pra viajar pra lá de CR$ 600.000,00
mil cruzeiros, ou seja, menos de um milhão. E que ela só não ia pra lá por não ter esta importância em mãos, no momento. Fiquei preocupada por isso pois, pela minha vontade, eu queria que ela fosse, que não perdesse, de modo algum, esta rara oportunidade. E falei:
- Você tem que ir sim, Vitória. A gente vende o telefone ou as máquinas e você vai sim.
No sonho, o Jânio já estava bem velho, mais ou menos como ou melhor, como o Galletti, da idade do Galletti. E parecia que ele estava casado comigo. Porque me parecia que ele estava sempre em casa. E me tratava com bastante intimidade, e com muito cuidado e respeito a mim e aos meus filhos. Foi tão nítido esse sonho, e de cores reais. Que mais parecia mesmo estar acontecendo. Ele estava muito preocupado com meus filhos, principalmente com as minhas filhas. Quem sabe ainda um dia isto acontece mesmo? Do jeito que ele me beijou e pediu que eu fosse candidata com ele, e Dona Eloá estava doente, e dizem que ela está com câncer. Quem sabe se este sonho se torna realidade. Eu casada e podendo dar aos meus filhos um homem do gabarito de Jânio Quadros? O homem mais importante desta época? Eu ia ser tão feliz, puxa! Poder ajudar a fazer por todos tudo o que é preciso ser feito. Quem sabe se é para isso que eu estou ainda vivendo?
2) Hoje só tomei sol. E como ontem, também não fui à Itaquera falar com Aoud, nem ao Comitê. E tudo isto por causa do Capitão. Fiquei aqui em casa esperando por ele, e ele não veio.
3) Discutimos agora a pouco eu e o Ita por causa do que ocorreu no sábado. E por causa de eu ainda não ter ido falar com Aoud sobre o dinheiro para ele pagar a Faculdade. Lilinha está dormindo tanto, desde às sete horas da noite até agora, aos 15 minutos do dia 23. Até me assusta. Será por causa do Gardenal que lhe dei hoje?
Clô
QUEBRA-PAU
Samba
letra e música - Clotilde Sampaio
Você precisa perder
O costume de faltar
Você precisa aprender
Sempre que me prometer
A vir, custe o que custar
Pois já cansei de viver
Dia e noite a esperar
Pelo que não posso ser
Pelo que não vai chegar
Você precisa entender
Que santa eu não posso ser
Pra sempre lhe perdoar
Você precisa saber
Que eu não gosto de brigar
Mas a linha eu vou perder
Se assim continuar
Você vai ter que mudar
Todo o seu jeito de ser
Se não quiser escutar
E ver o que eu vou fazer
Pois se a coisa não mudar
Vai ter briga e pra valer
Inda aqui pau vai quebrar
Inda aqui pau vai comer
Inda aqui pau vai quebrar
Inda aqui pau vai comer.
19 10 85
XLI– 19/10/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Tinha prometido também que às oito horas estaria no Comitê pra ajudar os preparativos para o Comício do Jânio, mas já são nove horas e meia, ainda estou me arrumando e tentando convencer o Ita pra ir lá também comigo. Já que ele faltou na escola, bem que também pode ir lá prestigiar a chegada do Jânio. Outra vez prometi e faltei. O jeito é não prometer mais nada. Sempre na hora de realizar acontece alguma coisa que muda tudo em zero.
2) Com muito custo, consigo convencer o Ita a ir. Mas já estou pronta. Ontem que fez frio, fui com um vestido vaporoso. Hoje, parece que vai fazer aquele calor. E eu estou com este vestido estampado de amarelo e marrom que já me deu azar duas vezes, uma no julgamento com Aoud, outra lá na Cantina da Lua, na Bahia. Vamos ver o que dará hoje. Estou assim mais social. Vestido social, sapatos e meias finas sociais. Respeito ao Jânio. O Ita disse que iremos de carro. Melhor. Saímos em cima da hora. E passa no posto pra por gasolina, e calibra pneus, e já são quase dez e meia, chegamos quase às onze. A frente do Comitê repleto de gente. O Jânio ainda não chegou, ainda bem. Mas mesmo com toda essa gente, está muito longe ainda da multidão que comparecia a todos os comícios do Jânio na década de sessenta. Mas não faz mal, o importante é que ele ganhe. E o pior, que a maioria do povo que está aqui, principalmente os políticos, a maioria são todos só oportunistas. Só cercam o Jânio de hipocrisia e de falsidades. Meu Deus, ajude que mesmo com tudo isso, ele ganhe e ganhe estourado. Porque se ele perder, não é ele quem perde, somos nós quem perdemos. É o povo que perde. É sempre o povo que perde.
3) Jânio chegou por volta de onze e meia da manhã. Ele, Dona Eloá, Sra Kalina. E, ao contrário do que se esperava, que ele entrasse e falasse ao povo da janela. Jânio começou e deu sua mensagem ao povo lá mesmo de fora, ou seja, da varandinha do Comitê. Falou sobre as coisas básicas que ele pretende fazer em Itaquera, falou sobre a insegurança do povo, falou sobre o jogo sujo e contraditório do Montoro, falou sobre a campanha suja e baixa de Fernando Henrique. E pediu que o povo lhe desse a Prefeitura através dos seus votos, que ele se encarregaria de moralizá-la. Após o seu comício relâmpago, o povo o conduziu a ele, a Dona Eloá e Sra. Kalina para os fundos, ou seja, para o escritório e lugar de honra do Comitê onde algumas pessoas puderam cumprimentá-lo e tirar fotos com o ex-presidente da república, e o homem mais falado e mais caluniado e injustiçado pelos corruptos de todo esse nosso Brasil. Enquanto isso, Dona Eloá, ao ver-se cercada de uma imensa hipocrisia que rondava ela e o marido, não se sentindo bem, retirou-se para o carro. Jânio foi obrigado a aguentar o carinho de muitos, mas a encenação da maioria. Tirou fotos com duas menininhas a pedido dos pais de ambas e muita gente fez pose para tirar fotos com ele, o ex-presidente que teve coragem de renunciar às honrarias desse cargo para não comprometer sua honra. Em meio a todo aquele empurra-empurra, eu pude abraçar Dona Eloá: “eu fui presidente, em 58, de um Comitê da senhora em prol do candidato a governador Carvalho Pinto, do candidato a senador Padre Calazans, do deputado federal Emílio Carlos e de um deputado estadual que eu não consigo mais lembrar o nome”. Ela sorriu e me disse “muito obrigada, continue nos ajudando. O Jânio precisa do seu apoio”. Em meio aquele monte de hipocrisia, era tanta gente fazendo pose, gente que não tinha nada a ver para tirar fotos e aparecer ao lado do mito. Eu e meu filho conseguimos nos por ao lado do grande homem. Foi preciso que eu lhe chamasse:
- Presidente!
Jânio se voltou para o meu lado, eu lhe apresentei um dos meus panfletos e lhe falei:
- Presidente, eu fui candidata com o Sr. na última eleição.
Ele me abraçou e me beijou nas duas faces, e eu lhe beijei também nas duas faces, e ele me falou:
- E agora? Por que não é? Precisa continuar sendo.
- O senhor precisa ganhar esta. O senhor precisa voltar à Brasília, o senhor precisa voltar ao Palácio da Alvorada.
Enquanto o Bonfim espoucava as flores sobre nós, apresentei-lhe ao Jânio o Ita.
- Presidente, este é o meu filho.
- Eu sou um grande admirador do senhor. O nosso partido lá em casa não é nenhum: é o senhor. É Jânio Quadros. Disse o Ita abraçando o Jânio.
O Jânio talvez tenha me achado muito jovem para a idade do meu filho e me disse:
- Puxa, já um filho desse tamanho? A senhora deve ter orgulho de ter um filho já deste tamanho.
- Eu tenho sim, Presidente. E é como ele disse: nós não temos partido. Nosso partido lá em casa é o senhor. É Jânio Quadros.
4) De lá Jânio iria almoçar com sua comitiva em Guaianazes, onde para todos os seus correligionários havia uma churrascada. O Ita não queria ir. Eu queria. E ficamos naquele jogo de empurra, eu querendo, ele não. Eu querendo, ele não. Eu querendo vir e ele não. Com muito custo, combinamos que iríamos, mas que logo sairíamos para virmos para casa. Pois ele tinha compromisso que não poderia faltar. E lá fomos todos atrás do Jânio. A tal churrascada era próxima ao Comitê de Guaianazes, atrás de uma auto mecânica, numa casa branca, bem confortável e em meio a uma gente muito agradável. De cara, antes de entrarmos na casa dos churrascos, onde Jânio e Dona Eloá descansavam e almoçavam, demos de cara com Moacir Franco e um senhor simpático que logo nos deu de cara um cartão no qual li: Antônio Lopes.
- O senhor não é o compositor?
- Sou eu sim.
- Eu conheci o senhor em 61 a 63 ou 64 na Rádio Nacional.
Moacir me abraçou, me beijou e Antônio Lopes também. Fomos para a churrascada onde conheci o jovem e lindo rapaz advogado presidente do PFL de Itaquera, Júlio César Cesarini, que é irmão do colega da Jussara de Quinze de Novembro. Simpático. Apresentei-lhe o Ita. Ele sabe que a Jussara e o Ita são filhos do Aoud. Conversei com muita gente a respeito de política e do Jânio. Gente simpática de Guaianazes e que também simpatizaram muito comigo. E se prontificaram a me ajudar na próxima campanha para vereadora. Deixa o Jânio ganhar. Já disse, se o Jânio ganhar, nem irei mais pra Bahia. Só se ele perder. Mas é o que não vai acontecer. Portanto, vou ficar mesmo é por aqui. Preciso me mudar o quanto antes pra Itaquera. Agora eu vejo que é lá o meu lugar. O Ita começou a me encher para irmos embora. Eu queria ver o comício do Jânio em Guaianazes. Ele queria vir embora. Pedi-lhe que então me deixasse o carro. Depois de outro longo jogo de empurra ele veio embora e me deixou lá sozinha e a pé de saltos altos. Fomos ver às três horas o comício do Jânio embaixo do viaduto de Guaianazes, ou seja, na Praça Getúlio Vargas. Dessa vez enxerguei-o bem a falar. Ajudei a bater palmas e a gritar Jânio! Jânio! Jânio! Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou. É gostoso ser janista e saber que estamos lutando por uma causa justa, por um homem que realmente merece tudo, o máximo de nós. Um homem que não sabe usar a hipocrisia em suas metas. Um homem limpo, íntegro, digno. O máximo da personalidade sem dúvidas num homem só. Após o discurso de Guaianazes, Jânio iria pela Ermelindo Matarazzo. Eu vim pra casa, de saltos altos. Deixa estar que o Ita me paga. Demorei uma hora pra vir de lá aqui, e cheguei em casa quebrada. Não quis nem conversar com o Ita. Fui deitar-me e dormir, e não vi mais nada.
Clô
