sábado, 20 de abril de 2024

23 10 85

XLIV– 23/10/85 – quarta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Quase nada dormi esta noite. Ao ir deitar-me, à meia noite e meia de ontem, inventei de trocar Lilinha que estava mais do que mijada. Nisto ela acordou-se. Dei-lhe mais Gardenal. Ela estava inquieta, e eu não conseguia dormir. Deu-lhe um ataque de tosse, dessa tosse incômoda, seca, que ela está tendo ultimamente e que lhe provoca às vezes até vômitos. E também estes dias me preocupou muito porque, junto com a tosse ela começou a por sangue pela boca. Pensei: Meu Deus, será que ela está com problemas no pulmão? Ou será que, com a força dessa tosse seca, esfolou-lhe a garganta e por isso sangrou. Graças a Deus foi só uma vez que isso aconteceu. Se tivesse continuado eu não teria outra alternativa senão providenciar-lhe o mais que depressa um exame dos seus pulmõezinhos. Com essas coisas não se brinca. Essa tosse dela, e engraçado, passa uns três dias sem ela tossir nada. Quando volta, volta violenta e persistente. Parece até que ela vai por garganta, estômago, tudo, para fora. Parecia que ela estava vomitando pois o pano que eu sempre costumo por, para aparar-lhe a baba de noite, um instante ficou todo ensopado. Acendi de novo a televisão só para fazer claridade no quarto, e poder assim assisti-la melhor. Estava eu com sono, mas nada de dormir. Lilinha se remexia, e lá se ia de novo meu sono já quase pego. A uma certa hora, sei que dormi. Acordei logo após com a televisão fora do ar. Lilinha estava dormindo também. Acordei de um sonho com Manoel. Desliguei a televisão e comecei a reviver o sonho. Manoel havia voltado, estava o mesmo, só que com os cabelos mais grisalhos. Veio sorrindo. Dizendo que não tinha morrido não. Que apenas tinha ido embora da minha vida. E passou todo esses vinte e poucos anos fora daqui e que agora tinha voltado pra ficar. Eu passava as mãos nos cabelos dele e lhe falava: 

  - Você se lembra quando eu passava as mãos antigamente no seu cabelo assim? Eu gostava tanto do seu cabelo bem negro e brilhante como eram. 

Eu fiquei contente com a volta dele. Me senti feliz, feliz, e cada vez mais excitada conforme íamos conversando, só que ele me parecia um tanto frio, sem carinho, falava comigo como se nunca tivesse estado longe. Normalmente, sem aquele jeito carinhoso que ele tinha de me tratar. Mas mesmo assim, eu só me excitava cada vez mais, e não via a hora de podermos nos sentir a sós para termos relações. Estávamos esperando que todos dormissem para que isso acontecesse. Na hora em que ficamos completamente a sós, e que isso ia acontecer, acordei. Que raiva! Foi um sonho tão nítido, tão real, que parecia tudo estar acontecendo realmente. Pena que foi só sonho. Passei tantos anos sem sonhar nada a respeito de nada e agora, de repente, eis que volto a sonhar. E todos estes últimos dias tenho sonhado. E sempre sonhos relacionados com homens como Aoud, Jânio, Manoel, e com erotismo. Por que será? Será pela carência que tenho de sexo? Ou será porque estou amando o Capitão Expedito? Ou será porque estou frustrada por ele ainda não ter estado intimamente comigo? Ou será que existe alguma premonição em todos estes sonhos? Graças à Deus que todos eles têm sido sonhos bons, e até gostosos. Desses dos quais seria bom eu nunca despertar. 

 

2) De novo, não sei. Também hoje não passei nada bem. Levantei-me às três e meia da manhã, rezei uma hora e quarenta minutos de Daimoku e o Gongyo. Após o café, deitei-me de novo. Estávamos eu e a Lilinha hoje na pior, só querendo deitar. Dormimos. Até às duas e meia da tarde. Levantei-me tonta. Nada bem. Parece-me que a minha pressão outra vez estava lá embaixo. Não tinha disposição pra nada. Levantei-me, dei o almoço pra Lilinha, troquei-a, limpei a casa. E passei uma maquiagem no rosto para um caso do Capitão vir, estar mais ou menos arrumada. Mas de novo, outra vez mais um dia, sem ele vir. Queria tanto decidir logo isto com ele. Ou pra bem ou pra mal, agora eu o quero, de qualquer jeito. Ainda que seja pra mal, ainda que seja pra ele me matar, qualquer coisa será melhor que esta vida. Assim, como estou, não quero continuar. Nem posso continuar.

 

3) Agora estou deprimida. Nada para mim está bom. Não tenho solução pra nada. A única solução é morrer. Estou já há três anos lutando, tentando todos os meios para vencer esta crise existencial que atravesso. E que está sendo muito difícil de ser atravessada. Será que consigo chegar do outro lado? Um tédio imenso, uma apatia, um ceticismo por tudo. Viver não vale a pena. Nada vale a pena. Só estou vivendo ainda, se ainda estou viva, devo à Lilinha. Não sou quem cuido dela pra viver. É ela quem cuida de mim pra eu não morrer.

 

                                                                                        Clô

 

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