quarta-feira, 17 de abril de 2024

19 10 85

XLI– 19/10/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Tinha prometido também que às oito horas estaria no Comitê pra ajudar os preparativos para o Comício do Jânio, mas já são nove horas e meia, ainda estou me arrumando e tentando convencer o Ita pra ir lá também comigo. Já que ele faltou na escola, bem que também pode ir lá prestigiar a chegada do Jânio. Outra vez prometi e faltei. O jeito é não prometer mais nada. Sempre na hora de realizar acontece alguma coisa que muda tudo em zero.

 

2) Com muito custo, consigo convencer o Ita a ir. Mas já estou pronta. Ontem que fez frio, fui com um vestido vaporoso. Hoje, parece que vai fazer aquele calor. E eu estou com este vestido estampado de amarelo e marrom que já me deu azar duas vezes, uma no julgamento com Aoud, outra lá na Cantina da Lua, na Bahia. Vamos ver o que dará hoje. Estou assim mais social. Vestido social, sapatos e meias finas sociais. Respeito ao Jânio. O Ita disse que iremos de carro. Melhor. Saímos em cima da hora. E passa no posto pra por gasolina, e calibra pneus, e já são quase dez e meia, chegamos quase às onze. A frente do Comitê repleto de gente. O Jânio ainda não chegou, ainda bem. Mas mesmo com toda essa gente, está muito longe ainda da multidão que comparecia a todos os comícios do Jânio na década de sessenta. Mas não faz mal, o importante é que ele ganhe. E o pior, que a maioria do povo que está aqui, principalmente os políticos, a maioria são todos só oportunistas. Só cercam o Jânio de hipocrisia e de falsidades. Meu Deus, ajude que mesmo com tudo isso, ele ganhe e ganhe estourado. Porque se ele perder, não é ele quem perde, somos nós quem perdemos. É o povo que perde. É sempre o povo que perde.

 

3) Jânio chegou por volta de onze e meia da manhã. Ele, Dona Eloá, Sra Kalina. E, ao contrário do que se esperava, que ele entrasse e falasse ao povo da janela. Jânio começou e deu sua mensagem ao povo lá mesmo de fora, ou seja, da varandinha do Comitê. Falou sobre as coisas básicas que ele pretende fazer em Itaquera, falou sobre a insegurança do povo, falou sobre o jogo sujo e contraditório do Montoro, falou sobre a campanha suja e baixa de Fernando Henrique. E pediu que o povo lhe desse a Prefeitura através dos seus votos, que ele se encarregaria de moralizá-la. Após o seu comício relâmpago, o povo o conduziu a ele, a Dona Eloá e Sra. Kalina para os fundos, ou seja, para o escritório e lugar de honra do Comitê onde algumas pessoas puderam cumprimentá-lo e tirar fotos com o ex-presidente da república, e o homem mais falado e mais caluniado e injustiçado pelos corruptos de todo esse nosso Brasil. Enquanto isso, Dona Eloá, ao ver-se cercada de uma imensa hipocrisia que rondava ela e o marido, não se sentindo bem, retirou-se para o carro. Jânio foi obrigado a aguentar o carinho de muitos, mas a encenação da maioria. Tirou fotos com duas menininhas a pedido dos pais de ambas e muita gente fez pose para tirar fotos com ele, o ex-presidente que teve coragem de renunciar às honrarias desse cargo para não comprometer sua honra. Em meio a todo aquele empurra-empurra, eu pude abraçar Dona Eloá: “eu fui presidente, em 58, de um Comitê da senhora em prol do candidato a governador Carvalho Pinto, do candidato a senador Padre Calazans, do deputado federal Emílio Carlos e de um deputado estadual que eu não consigo mais lembrar o nome”. Ela sorriu e me disse “muito obrigada, continue nos ajudando. O Jânio precisa do seu apoio”. Em meio aquele monte de hipocrisia, era tanta gente fazendo pose, gente que não tinha nada a ver para tirar fotos e aparecer ao lado do mito. Eu e meu filho conseguimos nos por ao lado do grande homem. Foi preciso que eu lhe chamasse:

  - Presidente!

Jânio se voltou para o meu lado, eu lhe apresentei um dos meus panfletos e lhe falei:

  - Presidente, eu fui candidata com o Sr. na última eleição. 

Ele me abraçou e me beijou nas duas faces, e eu lhe beijei também nas duas faces, e ele me falou:

  - E agora? Por que não é? Precisa continuar sendo.

  - O senhor precisa ganhar esta. O senhor precisa voltar à Brasília, o senhor precisa voltar ao Palácio da Alvorada. 

Enquanto o Bonfim espoucava as flores sobre nós, apresentei-lhe ao Jânio o Ita.

  - Presidente, este é o meu filho. 

  - Eu sou um grande admirador do senhor. O nosso partido lá em casa não é nenhum: é o senhor. É Jânio Quadros. Disse o Ita abraçando o Jânio.

O Jânio talvez tenha me achado muito jovem para a idade do meu filho e me disse:

  - Puxa, já um filho desse tamanho? A senhora deve ter orgulho de ter um filho já deste tamanho.

  - Eu tenho sim, Presidente. E é como ele disse: nós não temos partido. Nosso partido lá em casa é o senhor. É Jânio Quadros. 

 

4) De lá Jânio iria almoçar com sua comitiva em Guaianazes, onde para todos os seus correligionários havia uma churrascada. O Ita não queria ir. Eu queria. E ficamos naquele jogo de empurra, eu querendo, ele não. Eu querendo, ele não. Eu querendo vir e ele não. Com muito custo, combinamos que iríamos, mas que logo sairíamos para virmos para casa. Pois ele tinha compromisso que não poderia faltar. E lá fomos todos atrás do Jânio. A tal churrascada era próxima ao Comitê de Guaianazes, atrás de uma auto mecânica, numa casa branca, bem confortável e em meio a uma gente muito agradável. De cara, antes de entrarmos na casa dos churrascos, onde Jânio e Dona Eloá descansavam e almoçavam, demos de cara com Moacir Franco e um senhor simpático que logo nos deu de cara um cartão no qual li: Antônio Lopes.

  - O senhor não é o compositor?

  - Sou eu sim.

  - Eu conheci o senhor em 61 a 63 ou 64 na Rádio Nacional. 

Moacir me abraçou, me beijou e Antônio Lopes também. Fomos para a churrascada onde conheci o jovem e lindo rapaz advogado presidente do PFL de Itaquera, Júlio César Cesarini, que é irmão do colega da Jussara de Quinze de Novembro. Simpático. Apresentei-lhe o Ita. Ele sabe que a Jussara e o Ita são filhos do Aoud. Conversei com muita gente a respeito de política e do Jânio. Gente simpática de Guaianazes e que também simpatizaram muito comigo. E se prontificaram a me ajudar na próxima campanha para vereadora. Deixa o Jânio ganhar. Já disse, se o Jânio ganhar, nem irei mais pra Bahia. Só se ele perder. Mas é o que não vai acontecer. Portanto, vou ficar mesmo é por aqui. Preciso me mudar o quanto antes pra Itaquera. Agora eu vejo que é lá o meu lugar. O Ita começou a me encher para irmos embora. Eu queria ver o comício do Jânio em Guaianazes. Ele queria vir embora. Pedi-lhe que então me deixasse o carro. Depois de outro longo jogo de empurra ele veio embora e me deixou lá sozinha e a pé de saltos altos. Fomos ver às três horas o comício do Jânio embaixo do viaduto de Guaianazes, ou seja, na Praça Getúlio Vargas. Dessa vez enxerguei-o bem a falar. Ajudei a bater palmas e a gritar Jânio! Jânio! Jânio! Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou. É gostoso ser janista e saber que estamos lutando por uma causa justa, por um homem que realmente merece tudo, o máximo de nós. Um homem que não sabe usar a hipocrisia em suas metas. Um homem limpo, íntegro, digno. O máximo da personalidade sem dúvidas num homem só. Após o discurso de Guaianazes, Jânio iria pela Ermelindo Matarazzo. Eu vim pra casa, de saltos altos. Deixa estar que o Ita me paga. Demorei uma hora pra vir de lá aqui, e cheguei em casa quebrada. Não quis nem conversar com o Ita. Fui deitar-me e dormir, e não vi mais nada.

      

                                                                                                        Clô

 

 

 

 

 

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