terça-feira, 16 de abril de 2024

18 10 85

XL – 18/10/85 – sexta - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Precisa-se de um muso.

    Dado, trocado, vendido, alugado ou roubado.

 

2) Daqui a pouco irei enfrentar Aoud. Gohonzon que ajude que tudo dê certo. Estou otimista.

 

3) Da estação, embora com um certo receio, disquei 944-6856 e respondi decidida:

  - Alô, queria falar com Sr. Aoud. A moça, de imediato, sem perguntar de quem se tratava, passou o telefone pra ele.

  - Alô.

  - Oi, tudo bem?

  - Tudo bem.

  - Aoud eu queria falar com você.

  - Sobre o quê?

  - Sobre os nossos filhos.

  - Só a semana que vem.

  - Ah! Aoud, precisava ser hoje.

  - Hoje não dá.

  - Ah, Aoud, tinha que ser de qualquer jeito hoje. 

  - Só a semana que vem. Não dá pra mim sair.

  - E se eu for aí.

  - Não adianta. Se você vier aqui eu não vou falar com você nem hoje nem a semana que vem, nem nunca mais.

Fiquei indecisa, pensei um pouco e perguntei-lhe:

  - A semana que vem? Que dia da semana que vem?

  - Vamos ver. Você me telefona segunda-feira e a gente marca um dia.

  - Tudo bem. Tchau. Um beijo.

Cheguei cedo no Comitê e comecei a atender pessoas. Estava fervendo o Comitê hoje. Dia 18 de outubro, véspera da visita do Jânio a Itaquera. Está programado que amanhã, sábado, dia 19/10 às 10:30 horas ele estará aqui. Com toda a sua comitiva, ou seja, Dona Eloá, Sra Kalina, etc. Mostro a algumas pessoas alguns dos meus panfletos de candidata da eleição passada. Um senhor nordestino simpático veio até o Comitê pedir que alguns membros daqui mais ligados ao Jânio com Sr. Agenor e outros como Bonfim ir lá numa reunião de janistas, que se foram para um bar vizinho à casa dele, a uns cinco minutos dali. Comprometo-me de participar pois, devido à simpatia exuberante desse senhor, que de um certo modo me cativa. Ele me pede alguns dos meus panfletos. Cedo-lhes alguns e será às sete, esta tal reunião. Ninguém do Comitê veio, só um rapazinho que se compromete a ir lá comigo. Alguns companheiros me chamaram pra tomar café. No bar, todos também são janistas. É gostoso ser janista e podermos novamente nos juntarmos com janistas. O Comitê já está se fechando, são mais de sete horas. Eu e o Lima (nome do rapazinho que me acompanha) estamos indo para esta tal reunião. Cícero, o motorista oficial do Comitê, nos leva até lá. É na rua do Colégio de Itaquera; bem de frente ao Colégio, um bar pequeno, mas já repleto de gente, muito simpáticas, a maioria de nordestinos, inclusive o dono, Sr. Raimundo; está Sr. Oswaldo que foi quem me convidou e trouxe os meus panfletos, que inclusive já estão na parede do bar. Ficam todos muito contentes por me receber. Fazem a maior festa com a minha pessoa, dizem que eu sou linda. (Imagina aos quarenta e cinco anos e ainda isso, que bom!). Ganho de cara um refrigerante, um guaraná caçula pra tomar, quanta gentileza, eu não mereço tanto, mas agradeço. E me apresentam para todos como deputada e, pra todos que vão chegando, eu passo de nem vereadora pra deputada. Gente, muita gente. Encontro aqui não só de amigos, como uma verdadeira família, me sinto bem à vontade, distinguida, destacada, lá em cima com eles. Que gente bacana! Puxa! Não esperava tanto. E nem me acho merecedora de tanto. Mas já que eles acham, tanto melhor. Sr. Oswaldo e sua esposa Dona Sandra, Sr. Raimundo, rapazes, moças, outras senhoras, outros senhores, todos simpaticíssimos. Me levam para o fundo do bar onde há mesas e cadeiras, me servem a mim e ao rapaz que está comigo uma cerveja e um prato de jabá assado picadinho com farinha como tira gosto. E começamos a conversar, eu e Sr. Oswaldo. Chegam alguns jovens, rapazes e moças, que tocam sanfona, pandeiros, e fazem pra mim aquele forró. Estou num ambiente alegre, descontraído, estou feliz, contente, desligada de todos os meus problemas. Seria tão bom se eu pudesse estar sempre com essa gente. Se eu pudesse morar aqui perto, seria tão bom. O Sr. Oswaldo me convida para a reunião maior que haverá amanhã em sua casa, pelo seu aniversário. Prometi-lhe que irei sem falta. Ele me diz que é motorista da CMTC e que trabalha na linha de ônibus que faz o percurso Jardim Ester - Vila Diva. Digo-lhe que foi na Vila Diva que eu perdi meu marido. 

  - E a senhora nunca mais se casou?

  - Não.

  - E não pretende se casar?

  - Também não.

  - A senhora é jovem ainda. E linda. Não casou porque não quis. A senhora não deve ter ainda quarenta anos. 

  - Tenho sim. Aliás, já passei. Tenho quarenta e cinco.

  - Mas não parece. A senhora está muito jovem.

Enquanto a turma toca e dança, vou até o banheiro. Já vai dar dez horas. Volto, e peço-lhes desculpas por ter que me retirar pois amanhã o Jânio vem de manhã e vai ser aquela correria. Por isso tenho que ir-me embora. Se não fosse isso, me demoraria mais, e esperaria o resto das pessoas que estão pra chegar. Desculpem, desculpem, muito obrigada por tudo. Aqui eu encontrei não só amigos como uma família. O Sr. Raimundo ficou indignado por eu ter ido no banheiro popular. 

  - A senhora deveria ter falado, aqui dentro tem o banheiro especial. 

  - Ah, que isso... não tem importância não. Eu não sou de luxo.

Despeço-me de todos e um dos janistas roxos como eu, nos traz de carro até a estação. É pertinho, nem dois minutos, poderíamos ter vindo até a pé, não precisarem se incomodar tanto. Mas querem. Antes que eu viesse embora fizeram que eu marcasse no meu panfleto, pregado na parede do bar, o meu telefone e a que horas eu estaria lá amanhã. Escrevi embaixo 476-1761 e 21 horas. Perguntaram se eu tenho carro pra vir, que se eu não tiver, que eles irão me buscar em Suzano. Digo-lhes que tenho carro sim, e que não precisam se incomodar, obrigado. Se soubessem o que me espera até eu chegar em casa. Que ando a pé quase três quilômetros no escuro e no perigo e passo por caminhos ermos e com o maior medo. Me mandariam levar hoje mesmo em casa. Mas isso fica só pra mim. Já é muito eu já saber disso. O trem demora, chego às quinze pras onze e opto por Calmon. As ruas quase desertas. Venho rezando namyohorenguekyo, cansada, e com medo, e correndo. Graças a Deus chego em casa sã e salva. Mas cansadíssima e quebrada. Miriam veio me avisar que o Capitão esteve aqui à tarde, deveriam ser dez pras quatro mais ou menos, quando ele chegou num carro grande todo preto. 

  - Só veio pra mostrar que tem dois carros. Esperei ele a semana inteira e ele não apareceu. Hoje que eu saí é que ele vem. Não falou quando volta?

  - Não. Eu falei pra ele que você estava aqui só depois das oito ou então amanhã. Ele não disse nada. Nem veio.

Deveria ter perguntado também quando ele voltava, como eu lhe pedi. Mas isso, que era o mais importante, a Miriam esqueceu. Agora vai ser sempre assim: um desencontro total entre eu e ele. Deve demorar mais quinze dias pra voltar de novo. Ou ele só sentiu vontade cada quinze dias, ou tem uma para cada dia. E eu sou a número 15. 

 

                                                                                                             Clô

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