XXXIV – 12/10/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Dia da Criança. Feriado de Nossa Senhora Aparecida, ou seja, Dia da Padroeira do Brasil, e dia do aniversário do Américo, 26 aninhos. Pena que, ainda na flor da idade, ele já esteja como está, ou seja: um farrapo humano. Pena porque, de lá de casa é ele quem sempre teve a maior chance para estar muito bem hoje. Se não tivesse enveredado para o caminho das más companhias e do vício da maconha, hoje ele seria de todos os irmãos, o mais rico.
2) “Lá em cima onde o meu amor sempre passa”. Estou me referindo nesta frase, sobre a paisagem vista do Elevador Lacerda na Bahia, através da Folhinha na parede da cozinha.
3) Ao contrário do que eu esperava, ou seja, que Vitória teria pelo menos os dois milhões para nos dar e para salvar a situação do Ita em relação à Faculdade, ela disse que não tem. E que está passando por apertos. Que só tem dívidas, e que inclusive está pagando as prestações da máquina atrasada e com juros muito altos. E que, por conseguinte, nem uma parte do dinheiro ainda tem pra me pagar. E já estamos em outubro. Isto equivale dizer que vai terminar o ano sem eu ver a cor dos sete milhões que ela prometeu me pagar pelas máquinas. Ao mesmo tempo que ela só conta desvantagem a seu respeito, contrastando com tudo, ela diz que rosinha e Jandira a trocaram de carro. Rosinha para um Chevette metálico e Jandira para uma Belina belíssima. Ora, se as costuras não estão dando nem pra ela pagar as próprias dívidas em dia, porque uma hora tem bastante costura e não tem costureira e por isso, todas elas estão com problemas, como é que pras meninas está dando até pra trocarem de carro? É um contra senso muito grande. Disse que Rosinha trocou de carro porque tinha um dinheiro na poupança. Mas Rosinha só vivia reclamando que estava sem dinheiro, que estavam com dívidas, e que até o dinheiro que tinha na poupança já tinha gastado. E Jandira também gastou tudo o que tinha com a construção da casa. Como isso? a não ser que veio de outras fontes, como por exemplo, ajuda dos namorados da Rosinha. Mas estes, segundo Vitória, sumiram todos. E então? Alguma coisa está errada em tudo isso. dá a impressão que Vitória está sendo explorada. Ou ela está sendo explorada por elas, ou então, ela não quer contar que está ganhando dinheiro. Talvez ela tenha posto o dinheiro na poupança para render os juros com os quais ela precisa me pagar no fim do ano. E diz que não tem dinheiro, só pra não precisar tirá-lo da poupança, e deixar assim de perder os juros que está ganhando. Ou se for o contrário, ou seja, que ela está sendo explorada, chega até a ser bem feito porque ela sempre deu mais valor às pessoas de fora do que aos familiares. Aos de fora tudo. Aos de dentro, nada. Prefere se aliar aos de fora que, com os de dentro. É egoísta, só com os de dentro. É igual à Matilde. Por isso, ambas, estão sempre se danando. Sobre isso, dei-lhe hoje a maior lavada. Desabafei tudo o que estava engasgado aqui, na minha garganta. Ela pensa que a gente é besta. Mostrei-lhe em poucas palavras que ninguém aqui é cego. E que a gente sabe muito bem ver as coisas e qual foi a intenção dela para agir como agiu. Tomara que isto sirva para pelo menos ela meditar mais um pouco, e se auto analisar melhor. E se não quiser mais vir aqui, é melhor. Que fique pra lá, que a gente se vira pra cá. Depois voltarei ao assunto, com mais detalhes.
4) Matilde foi embora para a casa dela hoje. Até que enfim. Graças a Deus. Eu já não aguentava mais a encheção daquela menina chata que ela tem chamada Domitila.
5) E o Capitão não veio. Também com a bagunça que estava aqui, foi até bem melhor ele não ter vindo. Só fui acabar de dar uma arrumada mais ou menos na casa lá pelas oito horas. Se ele viesse teria vindo à tarde. E se tivesse vindo à tarde, como é que eu poderia recebê-lo com a casa toda em desordem, e eu toda desarrumada? Foi melhor não. É lógico que fiquei um tanto decepcionada por tê-lo esperado à noite e ele não ter aparecido. Mas, homem é isso mesmo. Nem sei se vale a pena começarmos alguma coisa. Pra eu ter mais decepções, até é melhor que nada aconteça. Acho que só amizade seria bem melhor. Mas seja o que Deus quiser. Ou ele me cura, ou ele me mata. Às vezes até e preferível morrer de vez, do que ficar neste morre e não morre, vive e não vive, nesta instabilidade doentia e que não leva a nada, como estou. Ele poderá ser o meu remédio, como poderá ser o meu veneno. Tenho que arriscar. O que tiver que ser, será. Acho que não tenho mais resistência para suportar mais uma desilusão de amor. E o pior é que eu me deixo me prender muito pelas pessoas, e acabo exigindo demais delas. Imagino-as perfeitas, ideais, e no fundo, não são nada do que eu espero, e eu sofro, e eu me revolto, e eu me odeio comigo mesma por ter errado uma vez mais. Esse o meu mal. Eu queria tanto encontrar o homem a quem eu completasse e que me completasse em tudo. Mas isso é utópico. Pra mim, sempre foi utópico.
Clô
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