XXXVII – 15/10/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Sonhei um sonho esquisito com a Vitória. Que eu tinha ido cortar o cabelo em Suzano e a cabelereira, junto com o salão, tinha também uma oficina de costura. Comecei a prestar atenção e, de repente, vi a Vitória costurando numa das máquinas. Aproximei-me dela, e perguntei-lhe espantada:
- Ué, Vitória, você aqui?
Ela ficou meio sem jeito, sorriu sem graça, e não respondeu nada. Tornei a insistir:
- Você costurando aqui? Por que? O que aconteceu?
De novo, ela sorriu sem jeito. Suspendeu e abaixou o ombro, várias vezes e sem graça. Com muito custo, respondeu:
- Não deu certo lá.
- Mas como não deu certo? Depois que a gente levou as máquinas, depois que você levou todas as suas coisas, não deu certo? Você brigou com a Rosinha?
- A gente não estava combinando. Ela dizia que eu não dava produção, que eu era muito mole, que só estava atrapalhando.
- E aqui você está costurando na galoneira?
- Não. Aqui só tem reta e overloque.
- E você está se dando bem aqui?
- É o jeito.
- É o jeito, não senhora. Eu vou lá e vou resolver essa história direito. Bem que eu falei que se a gente trabalhasse todos em casa, teria sido melhor. Você não quis me ouvir. Casa dos outros não é como a da gente. Por melhor que seja a amizade, termina, por uma coisa ou outra, acabando.
Mais que depressa fui até a casa de Dona Nair. Ela estava acabando de chegar não sei de onde. A casa dela estava bonita, ela estava bem arrumada, elegante, alegre e com ar de arrogante. Perguntei-lhe o que é que tinha acontecido que a Vitória tinha deixado de costurar na Rosa. Ela me respondeu com ar de pouco caso.
- Não sei. A Rosa que sabe melhor. O que eu sei é que ela não tem jeito pra costura. Ficou tanto tempo aqui e não aprendeu a dar produção. Mais atrapalhava do que ajudava.
Fui na Rosinha e vi logo de cara que as escadas da casa dela estavam revestidas com um tipo de carpete escuro que mais parecia borracha. Cheguei lá e a Rosinha de cara foi me falando a mesma coisa. Xinguei bastante a Dona Nair e a Rosinha, e vim me embora. Por que elas não falaram antes? Só depois de tudo é que falaram.
2) Se você não tivesse vindo
Teria sido melhor.
3) Mais uma vez, outro engano.
Mas enganar-se é preciso.
Daí que, pois, enganar-se, é humano.
4) Agora, você decide: está em suas mãos ser meu remédio, ou o meu veneno.
5) Aqui em casa, desde a semana passada, está tudo arrumadinho do melhor modo possível à sua espera. E você não vem. Não veio antes do sábado que eu esperava mas preferia que você não viesse, por estar ainda a casa com aquela bagunça, com Matilde e crianças de Matilde, e sem jeito de arrumar. Não veio no sábado que eu esperava também, embora nada tivesse em ordem ainda. Mas, me esforcei e dei uma arrumada mais ou menos no sábado ainda, me arrumei e te esperei por volta de oito horas a mais tarde da noite e você não veio. Por fim, não veio nem ontem, que eu estava certa que você viria. E hoje será que você virá? Estou ansiosa que você venha. Preciso que você venha. Deixei de fazer tanta coisa ontem só pra ficar aqui: à tua espera. Deixei de ir lá em Itaquera no Comitê. Estou até abandonando o Jânio por tua causa. Hoje também não sei. E tudo por tua causa. Só penso em você. Estou com tantas saudades suas! De olhar o teu rosto, lindo, os teus olhos lindos, o teu sorriso lindo. E de sentir os teus beijos na minha boca, os teus braços ao redor do meu corpo, e de experimentar, pela primeira vez, você dentro de mim. Como será? Eu vou me dar ao máximo a você. Estou doida, estou fervendo, estou tinindo. Estou te amando de verdade. E te necessito muito. Será que você me entendeu errado? Será que você ficou com raiva? Naquele dia, embora eu também quisesse, não dava meu amor. A casa estava cheia de gente. Minha irmã, os meus sobrinhos. Não poderia jamais, por nada, desrespeitar meus sobrinhos. O que eles iriam dizer se me vissem de repente entrar no quarto com um homem? Não, nunca fiz isso na frente deles. E não seria agora que eu iria perder o respeito para com eles.
6) Bem, se você me entendeu mal, problema seu. Não vejo por quê. Ou você pensou que só porque você queria e porque eu tomei a iniciativa escrevendo-lhe, iria me entregar a você assim, sem mais nem menos, a qualquer hora, na frente de quem quer que fosse? Se você está acostumado com mulheres fáceis, mulheres que fazem qualquer coisa por sexo, e pensou que eu também fosse assim, caiu do cavalo comigo. Você foi quem prometeu-me vir aqui quase todo dia. Ficaria contente se realmente assim fosse. Mas você já me faltou com a sua palavra. E eu já estou quase certa que me enganei a respeito da sua pessoa. Você está me cheirando a todas as características que eu abomino na personalidade de todos os homens de Suzano. E se assim for, e se eu não estiver enganada, até é melhor que você aqui nem apareça mais. Não gosto de homem sem palavra. Não gosto de homem sem caráter. Não gosto de homem mentiroso, exibido, convencido de que é o tal e que pode fazer as mulheres de gato e sapato, não gosto de homem sem personalidade, medroso e covarde. Homem pra mim tem que ser bem homem em todos os sentidos. Não basta ter só uma bonita aparência de homem não. Você é um belo espécime de homem mas de que me adianta isso se dentro da sua personalidade há muito a desejar? Não. É melhor até que nem comecemos mesmo nada. O que fizemos já foi até demais. Para os contrastes que existem entre nós, não deveríamos nem ter ido até onde fomos. Não deveríamos nunca ter passado de troca de ideias e de simpatia pessoal. Chego a me arrepender do que fiz. Chego a me revoltar por ter lhe mandado aquela carta. Ah! Se me provasses o contrário. Como haveria de me sentir bem mais aliviada e feliz. É como eu disse: Eu sempre só. / Só tem que ser assim: / Sempre intranquilos, os olhos / que a zombar passam por mim. / Iguais quem nunca viu o fim de um fim. / Já que a vida para mim / consiste em adorar um DEUS que não existe / em prol do meu destino de poeta, / só tem que ser assim: Está escrito!
7) Preciso falar com Aoud em favor de Ita e Jussara. E quero ir lá na loja. Quero só ver a reação dele quando me ver lá. Quero mostrar a ele que não tenho medo dele. E, se ele quiser aparecer mais uma vez, dou-lhe a outra face. Pretendo ir sem falta até a semana que vem. O ideal seria eu ir num sábado, ou numa segunda-feira de manhã.
Clô
Nenhum comentário:
Postar um comentário