sábado, 13 de abril de 2024

14 10 85

XXXVI – 14/10/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Dona Iracy e Egna continuam insistindo que o menino filho da sobrinha dela é filho do João meu filho e, por conseguinte, meu neto. Pode até ser. João disse que não pode ser. E em meio a uma porção de razões que pelo modo de ver dele (não que ele se negasse a assumir; e eu creio que meu filho jamais faria isso; uma porque eu jamais ensinei a ele fugir das responsabilidades; e outra que pela própria índole dele, jamais ele seria covarde a esse ponto; e ainda mais gostando de crianças como ele gosta) se realmente a criança é filho dele, a culpa é da mãe do garoto que não avisou nada, e que até agora se nega a dizer quem é o pai da criança e que, por isso, fica acima de tudo e em todos, principalmente nós, eu e ele, e os tios, muitas dúvidas a respeito se é mesmo ou deixa de ser. De nossa parte, até que gostaríamos mesmo que fosse. Seria melhor que fosse. Mas, para abrandar a celeuma, eu disse, embora confiando mais no que o meu filho disse que, sendo ou não sendo, eu considero-o como se fosse. E gostaria de revê-lo de novo, pra ver se realmente tem algo do João. 

 

2) Hoje não saí, não fiz nada, esperando que o Capitão viesse. E ele não veio. Estou muito desapontada com ele e comigo mesma. Creio que me enganei a seu respeito. Pensei que ele fosse um tipo de homem confiável. E pelo que estou percebendo, ele é outro. É do mesmo tipo de todo homem que existe em Suzano: sem palavra, convencido, que só gosta de tirar proveito de mulheres. Chego a ficar arrependida de ter-lhe escrito aquela carta. E se for para eu ter mais decepções, é até melhor que ele nem venha mais. Que ele me decepcione por completo, de vez. Nem sempre é bom a gente forçar uma situação. Pelo menos no meu caso, isso nunca funcionou. Nas vezes que eu tentei ressuscitar Jose’, só me arrependi. Fiz tudo para ressuscitar o Amor do Aoud, e quando consegui, a coisa que eu mais queria na vida era voltar com ele, só me decepcionei. Agora, que forcei uma aproximação maior com o Capitão, nem bem começamos, e já estou colhendo só decepções. Eu não resisto mais a outra desilusão de amor. Agora, ou tudo dá certo, ou eu me mato.

 

3) Estou preocupada com Jânio que, em todas as pesquisas, está perdendo terreno para Fernando Henrique. É uma pena. Também, ao redor dele, só existe hoje um bando de oportunistas que não fazem nada, e só querem tirar prestígio do nome dele para seus próprios interesses pessoais. Será que eles ainda não perceberam que em vez de fazerem campanha com os próprios nomes agora, o mais importante é fazer tudo, dar o máximo para que o Jânio ganhe? O mais importante agora é o Jânio ganhar. Depois, quando for a eleição para deputado, aí sim se pensa só no próprio nome. Não adianta nada pensar agora nos interesses pessoais e esquecer o Jânio. Pois, se o Jânio não ganhar esta eleição, na outra eleição também, ninguém ganha. Se ele ganhar agora, com a amostra do seu próprio trabalho, do seu próprio valor, fortificará o partido, e todos quantos trabalharam para a vitória dele agora, terão credibilidade para ganharem estourado nas próximas eleições. Eu enxergo assim. É uma pena que os outros não vejam isso. e tudo continuará como foi na eleição passada. E o PTB continuará sendo apenas um partido como outro qualquer. Sem moral, sem credibilidade. Inconvincente. Contraditório. E tudo isso não por causa do partido em si. Mas pelos individualistas, pelos oportunistas, pelos aventureiros que o representam. Coitado do Jânio, está rodeado de gente falsa, comunista, vendida, que só denigre a sua integridade moral, ou seja, os verdadeiros valores tão deturpados pelos quais ele tenta, sozinho, para restabelecê-los. A verdade é que, quanto mais a gente mexe na política, mais ela fede. É um verdadeiro e pobre vale tudo. Ninguém sabe quem é quem. Quem é limpo e sincero acaba não sendo nada. Quem é sujo e safado, acaba sendo acreditado. No fim, acaba ganhando sempre o que mente mais, o que tem mais dom pra enganar, o pior. O povo é besta. Vota sempre contra si próprio. 

 

4) Chico Buarque nojento. Artistas nojentos. Intelectualidade nojenta.

 

5) Não tenho mais ninguém. Nem nada mais para acreditar. Nem em política, nem em religião, nem na sociedade, nem em pessoas. Estou completamente céptica. Sem ânimo, e sem objetivo algum que me impulsione continuar lutando com prazer pela vida. Acho que mais nada vale a pena. Só estou dando um tempo, só estou empurrando a vida. Lutar? Não vale a pena. A única solução, a única coisa que vale a pena, é desistir de viver.

 

                                                                                                      Clô

 

 

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