Tentando não estar sozinha,
Fumo um cigarro.
Um cigarro afinal
Sempre faz alguma companhia.
Depois, o ato de tragá-lo, é bom.
Entorpece e distrai.
Só que, logo após o melhor,
A fumaça tragada
Encarde, embaça, bagunça e estrangula
O pouco que resta de minha mente.
E eu volto sentir
Uma terrível sensação de mal estar.
Na qual fundem-me como sempre
O tédio, o medo,
O vazio, a insatisfação,
A ansiedade, a asfixia,
A solidão, a insegurança.
Tudo em maciças e transbordantes doses
Bem trituradas e bem misturadas entre si
Compactas. Nítidas.
É quase uma demência.
E outra vez,
Eu me arrependo de ter fumado.
Ah! Eu não devia ter fumado,
Mas fumei.
E vou voltar a fumar
Tão logo esqueça os malefícios do cigarro
Tão logo lembre os maus efeitos de ser só.
Não fosse o medo da maldita benção
De ser demente
E eu abusaria bem mais do cigarro.
Mas,
Eu prefiro ainda a maldição do cigarro
Com todos os seus jagunços,
À maldição de ser imaculadamente só.
Clotilde Sampaio
Salvador, terça-feira, 20/12/1983 - 19:40 horas.
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