segunda-feira, 1 de abril de 2024

MALDIÇÕES

Tentando não estar sozinha,

Fumo um cigarro.

Um cigarro afinal

Sempre faz alguma companhia.

Depois, o ato de tragá-lo, é bom.

Entorpece e distrai.

 

Só que, logo após o melhor,

A fumaça tragada

Encarde, embaça, bagunça e estrangula

O pouco que resta de minha mente.

 

E eu volto sentir

Uma terrível sensação de mal estar.

Na qual fundem-me como sempre

O tédio, o medo,

O vazio, a insatisfação, 

A ansiedade, a asfixia,

A solidão, a insegurança.

Tudo em maciças e transbordantes doses

Bem trituradas e bem misturadas entre si

Compactas. Nítidas.

É quase uma demência.

 

E outra vez,

Eu me arrependo de ter fumado.

Ah! Eu não devia ter fumado,

Mas fumei.

E vou voltar a fumar

Tão logo esqueça os malefícios do cigarro

Tão logo lembre os maus efeitos de ser só.

Não fosse o medo da maldita benção

De ser demente

E eu abusaria bem mais do cigarro.

 

Mas,

Eu prefiro ainda a maldição do cigarro

Com todos os seus jagunços,

À maldição de ser imaculadamente só.

 

                          Clotilde Sampaio

                    Salvador, terça-feira, 20/12/1983 - 19:40 horas.

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