terça-feira, 2 de abril de 2024

TÉDIO

Domingo...

Que nem parece ser domingo.

Pelo menos, não é este o domingo

Que eu gosto de ter.

Muita gente em casa

Que eu nem seu quem são

E nem desejo saber.

Falatórios... Conversas...

E um rádio ligado só em músicas estrangeiras

Tocando quase à toa em meio a tudo,

Só para me fazer barulho.

Um barulho que atravessa o meu quarto

Mesmo de portas fechadas

E vem me incomodar

Sabe Deus quanto e como.

 

São quase três horas da tarde

Ainda não almocei

Nem estou querendo almoçar

Só para não topar com as visitas.

Não quero que ninguém me veja

Assim do jeito que estou bem à vontade

Só com este vestido relaxado

E com a vontade nenhuma de me arrumar.

Desengonçada. Espalhafatosa. Disforme.

E, além de tudo, com dor de cabeça.

De uma dor de cabeça que me dá medo.

Tal a forma enjoativa que dói.

 

Ari, João, Áurea, Zé Airton

Jogam cartas desde a manhã.

Enquanto isso, eu lia...

E li todo o livro de Jorge Amado, sobre a Bahia.

Agora, recostei-me ao travesseiro

E tenho fome e sono.

Fome de muita coisa.

E sono de muitas necessidades.

E já que não tenho motivação para fazer nada hoje

Quem sabe eu consiga dormir?

 

E uma afta dolorida e de muitos dias

Que não quer sarar e me atrapalha até

A usar os meus dentes dentro de minha boca.

E ai! Que martírio!

É mastigar, falar,

E deitar do lado que ela dói.

 

Lá fora um sol tão quente

Para um dia que amanheceu escuro, nublado.

Tão quente, que até dá vontade

De dar um passeio aí pelas ruas

Apreciar a mudez e o vazio da Avenida Sete em dia de domingo

Ou do Campo Grande onde está o Teatro Castro Alves.

Hoje é o último dia de apresentação do cantor Jessé.

Mas, sozinha...

Sem partilhar nada com ninguém...

Não. Para quê?

 

Prefiro ainda, ficar aqui

Namorando Fernando Pessoa

Em “Canções do Interlúdio 4”

Só para me sentir mais uma vez

Apaixonada! Insexualmente morta de amores

Por este meu ídolo imortal!

 

Como me incomoda esta afta!

Se eu pudesse, bem que eu tiraria todos os meus dentes.

Mas, devo ficar mais horrorosa e ridícula

Do que já sou, sem eles.

Lá fora, algazarras das crianças brincando lá embaixo

 

 

                                                           Clotilde Sampaio

  

 

OBS: (O texto não se conclui, ou as folhas sequentes e soltas se perderam. Estima-se que Clotilde Sampaio escreveu em dezembro de 1983, numa fase em que esteve bastante depressiva, numa temporada baiana, na casa do filho João, com a nora Ari, quando residiram no Minhocão do Politeama, Rua Moacir Leão.) 

 

Digitado em 24/06/23 por VR.

 

 

 

 

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