Domingo...
Que nem parece ser domingo.
Pelo menos, não é este o domingo
Que eu gosto de ter.
Muita gente em casa
Que eu nem seu quem são
E nem desejo saber.
Falatórios... Conversas...
E um rádio ligado só em músicas estrangeiras
Tocando quase à toa em meio a tudo,
Só para me fazer barulho.
Um barulho que atravessa o meu quarto
Mesmo de portas fechadas
E vem me incomodar
Sabe Deus quanto e como.
São quase três horas da tarde
Ainda não almocei
Nem estou querendo almoçar
Só para não topar com as visitas.
Não quero que ninguém me veja
Assim do jeito que estou bem à vontade
Só com este vestido relaxado
E com a vontade nenhuma de me arrumar.
Desengonçada. Espalhafatosa. Disforme.
E, além de tudo, com dor de cabeça.
De uma dor de cabeça que me dá medo.
Tal a forma enjoativa que dói.
Ari, João, Áurea, Zé Airton
Jogam cartas desde a manhã.
Enquanto isso, eu lia...
E li todo o livro de Jorge Amado, sobre a Bahia.
Agora, recostei-me ao travesseiro
E tenho fome e sono.
Fome de muita coisa.
E sono de muitas necessidades.
E já que não tenho motivação para fazer nada hoje
Quem sabe eu consiga dormir?
E uma afta dolorida e de muitos dias
Que não quer sarar e me atrapalha até
A usar os meus dentes dentro de minha boca.
E ai! Que martírio!
É mastigar, falar,
E deitar do lado que ela dói.
Lá fora um sol tão quente
Para um dia que amanheceu escuro, nublado.
Tão quente, que até dá vontade
De dar um passeio aí pelas ruas
Apreciar a mudez e o vazio da Avenida Sete em dia de domingo
Ou do Campo Grande onde está o Teatro Castro Alves.
Hoje é o último dia de apresentação do cantor Jessé.
Mas, sozinha...
Sem partilhar nada com ninguém...
Não. Para quê?
Prefiro ainda, ficar aqui
Namorando Fernando Pessoa
Em “Canções do Interlúdio 4”
Só para me sentir mais uma vez
Apaixonada! Insexualmente morta de amores
Por este meu ídolo imortal!
Como me incomoda esta afta!
Se eu pudesse, bem que eu tiraria todos os meus dentes.
Mas, devo ficar mais horrorosa e ridícula
Do que já sou, sem eles.
Lá fora, algazarras das crianças brincando lá embaixo
Clotilde Sampaio
OBS: (O texto não se conclui, ou as folhas sequentes e soltas se perderam. Estima-se que Clotilde Sampaio escreveu em dezembro de 1983, numa fase em que esteve bastante depressiva, numa temporada baiana, na casa do filho João, com a nora Ari, quando residiram no Minhocão do Politeama, Rua Moacir Leão.)
Digitado em 24/06/23 por VR.
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