segunda-feira, 31 de agosto de 2020

10 fevereiro 1982 - (poemeto de retorno)

Aoud,
Meu querido amor,






E o que você não faz por você mesmo, hem, Aoud?
Já vi: não há o que você não faça por você.
Chegar ao cúmulo de voltar pra mim… Sem ter vontade!
(Despersonalizando assim, sua própria personalidade)
Desespero de causa? Burrice? Ou… o quê?


                                       Beija-lhe, a burra e sempre 
                                                                        só sua:

                                                                 Clotilde

                                            Suzano, 10 de fevereiro de 1982.




domingo, 30 de agosto de 2020

VERSOS ESPARSOS


E agora, eu não estou mais a mesma.
Mesmo porque
Foi o meu espírito quem envelheceu.

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Neste fundo do poço onde eu nasci
Onde, na ânsia de lutar pra sair,
Só arrastei mais gente ao fundo dele.

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Eu finjo que finjo pra viver.
E é no escuro que eu acho mais coragem.

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Será que inda tem jeito?
São tantas sujeiras entre tantas sujeiras
Gerando tantas sujeiras…

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Poeta quase todo mundo quer ser.
Mas bem poucos hoje o são.
Não os que realmente o são
Mas só os que não.
Os ricos.

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Qualquer besteira que um rico faz, é arte.
Qualquer arte que um pobre faz, é besteira.

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Nova República?
Só nome.
Novas Esperanças?
Só nome.
Mudanças?
Em quê?
Só novos nomes.
Novos engodos.
Tudo só novos nomes.
Novos engodos, novas formas.
De camuflar velhos engodos.

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                                                                           Clotilde Sampaio    08/10/85

domingo, 23 de agosto de 2020

02/01/86

Eu creio que para nós já não existe mais nenhuma possibilidade. Eu só não quero te odiar. Porque ódio faz mais mal ao que odeia, do que ao próprio odiado. Por isso eu procurei fazer as pazes e ficar de bem com você. Só. Pois, se o meu coração te ama, o meu amor próprio, a minha dignidade de mulher ferida, ofendida, humilhada, decepcionada, te repudia. E há uma guerra dentro de mim, do meu espírito contra o meu corpo, da minha mente contra o meu coração. Não posso dizer que desta água não mais beberei pois não quero correr o risco de ter de fazer o contrário. Pois é falar e pagar. Prefiro passar o resto dos meus dias completamente sozinha, a tê-lo de novo em minha vida. E no que depender de mim, ainda que este desprazer ameace acontecer de novo, eu vou tentar adiá-lo o mais possível, até o ponto em que esse adiamento possa alcançar a minha ou a sua morte, e essa ameaça deixe de existir justamente com o que, de nós dois se for primeiro. 

 

                        Clotilde Sampaio. 

POR ENQUANTO


De uma certa forma, amor,
Viajei... Mas não parti.
Estou toda em... Salvador.
Pois? Não mais me vejo aqui.

Se quiseres comprovar
Verás com veracidade
Que estou em todo lugar
Da sua maga cidade:
No ar, nas ruas, no mar,
Em formatos de saudade.

Caso ofusquem teu desdém,
Pelos destaques do espanto,
É só procurar-me bem
No melhor canto do canto
Entre estas duas janelas
Do "Boulevard" da Cantina.
Estou a olhar-te com elas:
Tuas portáteis meninas.

(. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
...A bebericar com os santos...
Ouço de Claudete o canto...
Enquanto...
                    janto...
                                  o teu encanto.)

                  
                                Clotilde Sampaio

                                           Suzano, 02/01/86, quinta-feira.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

07 de maio de 1991 (texto 2) - ONTEM

Meu Amor, estou te telefonando, para te dar os meus parabéns, e também ganhar de você os teus parabéns pelo nosso aniversário de 28 anos de infeliz e incomum convívio conjugal comemorados no dia 06/05, segunda-feira desta semana. Dia em que eu te telefonei, mas não me lembrei nem que era dia 06, e nem que era nosso aniversário 28 anos, portanto, já mais que bodas de prata do nosso conhecimento. Só fui me lembrar anteontem no dia 07, mas fiquei me segurando para não te telefonar. Hoje, lendo algumas páginas antigas do meu diário, relembrei o quanto de amor existiu entre nós no passado, e mesmo que você me negue, eu também sei do quanto de amor ainda existe entre nós no presente (e eu não falo só de mim não. Falo de você também, que eu tenho um sexto sentido que sempre enxergou muito longe, e sei que você, embora não queira dar o braço a torcer e queira se fazer de durão, de mau, e de perverso para comigo e para com os seus filhos eu sei que você, no fundo, no fundo, você me ama, e nos ama). De mim, e de nós, eu, Ita, Jussara, não preciso nem te falar nada porque sempre, mesmo apesar de todos os pesares, provocados pela sua ignorância e estupidez com relação às coisas mais simples, naturais e mais profundas da vida, e de cuja consequência, você sempre foi a maior vítima, de você mesmo, você já está cansadíssimo de saber o quanto, quanto, quanto, eu te amo, e só te amo, com todas as forças da minha alma, e do meu coração, com verdadeira e inestinguível paixão dessas que desculpa, perdoa e compreende tudo, e até te agradece por todos os teus gestos, tantos os mais belos e dignos para comigo, como para com os mais baixos, feios, sujos e indignos que usou e continua usando contra nós e mais contra você mesmo, e principalmente os tapas que você me deu, que em vez de resultar-me em mal, só resultou em bem, porque foi após eles, que eu pude começar a viver sem precisar de você, e voltar a ser eu mesma e me curar, e crescer. Hoje, aos cinquenta e um anos, graças a você e os seus tapas, eu sou uma bem jovem mulher, dinâmica, saudável, liberta, muito feliz, e querida e respeitada por todos, e principalmente por mim mesma, coisa que não me acontecia antes daqueles tapas. Hoje, aqui na Bahia, eu escrevo, participo de palestras e eventos culturais, declamo, faço conferências, pertenço à Academia Castro Alves de Letras e já estou lançando, a pedidos dos meus muitos fãs, meu segundo livro de poemas. O primeiro esgotou-se. Venci um concurso sobre Fernando Pessoa, aqui no Gabinete Português de Leitura e, agora em junho, (estou até preparando o passaporte), viajarei por conta do Consulado Português, para Portugal, onde ficarei três meses. E vou à Espanha também. Após, irei para São Paulo, e quero que você nos faça o favor de alugar um apartamento pequenino, kitinete, bem no Centro Antigo de São Paulo, de preferência, na antiga Av. da Luz, hoje Prestes Maia, e de preferência no 3º andar, apartamento 33 ou 34? Não me lembro bem. Certo? Porque eu quero voltar a te ver, e voltar a te reencontrar e acabar os meus últimos dias, mesmo que seja para vê-lo ao menos uma só vez por semana, mas eu quero terminar os meus dias com você.  Isto, porque eu te amo, te amo, te amo, com toda a loucura, e com toda a paixão que nem os anos, nem nenhum dos obstáculos, por maior que tenham sido, conseguiram destruir. E também porque eu tenho certeza absoluta de que ninguém te ama nem te merece mais do que eu. "E olha, que para além de mim já não há nada e nunca mais me encontras nesta vida!” (Florbela Espanca). Ouviu bem? Voltarei outra vez em setembro, com a Primavera de 91, para você. Só para você. Prepare-se, e me espere com tudo, sim? Beijos, beijos, beijos. Vou te dizer um dos últimos poemas que te fiz em homenagem a nós, chama-se “O que eu faço?”. Não sei se você o recebeu pelo correio, recebeu? Então vai lá. 

Ontem, 
quando eu chorava ou sorria,
martirizando os meus dias, 
me recusando o teu amor, 
ontem, o teu orgulho exagerado 
é que me fez ficar de lado 
como objeto sem valor. 
Hoje, 
aconteceu em nossas vidas 
uma subida e uma descida, 
a sua estrela se apagou. 
Hoje, 
em nossas vidas 
houve o reverso 
o teu progresso é o meu sucesso
A própria vida te ensinou. 

Dar tempo ao tempo. 

ADN. Pelos íntimos. 

                                                  Clotilde Sampaio

                                 Salvador, 07 de maio de 1991, quarta-feira.



Voltar contigo?

Voltar contigo?
Não sei…
Não digo que desta água
Não mais beberei
Pra não correr o risco
De vir, ainda a ser ridícula.
Pois é falar
E pagar.
Mas no que depender de mim
Eu vou tentar adiar
O mais que puder
Este momento.
   
                                      Clotilde Sampaio
                                                            Suzano, 27/12/85, sexta-feira.

sábado, 8 de agosto de 2020

07 de maio de 1991

                                                           Salvador, 07 de maio de 1991. (terça)


Aoud,

Meu Amor,


          Estou com muitas saudades suas, e com muita necessidade de revê-lo e de ouvir-lhe e falar-lhe pessoalmente. (Engraçado, acabo de me lembrar, neste exato instante, em que continuo esta, que ontem, dia 06 de maio de 1991, segunda-feira, completou 28 anos do nosso conhecimento, coisa que, por INCRÍVEL que, me possa parecer, nunca mais pensei, e, nem mesmo ontem, que foi o dia D, fui capaz de relembrá-lo). Não, não é mais como éramos antes, que eu quero reencontrá-lo, ainda que seja uma vez mais, ou pela última vez, num dia qualquer desses nossos já poucos restantes dias. Mas, de preferência, gostaria que fosse logo, e com bastante tempo. Porque se demorarmos, pode ser que esse dia acabe sendo NUNCA MAIS. Sim, na nossa idade, eu, já com quase 51 anos, e você já com quase 65 anos, o que poderemos esperar viver mais daqui pra frente? Devemos dar graças à Deus por estarmos vivos, lúcidos e saudáveis ainda quanto tanta gente, nossos contemporâneos, já se foram com bem menos idade que nós e, quando a média de vida nos dias atuais é sempre menos que cinquenta anos de idade. E, também, quem poderá nos dizer, quem de nós dois partirá primeiro, se eu, se você? Interessante, é que eu, que passei a minha vida quase toda e, principalmente dos 26 anos, ou seja, do nascimento de nossa filha Jussara, até os 38 anos mais ou menos, com graves problemas de saúde físicos (que até me ocasionaram inúmeras e perigosíssimas cirurgias, tantas que até nem sou capaz de me lembrar o número exato da soma de todas elas, se quatro ou cinco) e depois, dos quarenta e dois anos de idade até os meus quarenta e nove anos, passeio-os, a princípio, com os complexos distúrbios mentais, que depois foram diagnosticados como consequentes por vários tumores malignos por todo o meu cérebro, os quais me ocasionaram também, além de alguns internamentos prévios em clínicas para tratamentos psiquiátricos e neurológicos, aquela primeira e arriscadíssima e caríssima operação que, com a sua ajuda, e com a ajuda de Deus, (que nunca me desamparou em nenhum dos meus mais críticos, piores e mais decisivos momentos) mesmo com 99% de riscos de vida, entre morrer e morrer, num raro momento de lucidez, e até de muita coragem, preferi enfrentar a cirurgia e a morte mais rápido, para tentar salvar a vida, do que continuar sentindo as dores terríveis e indescritíveis que normalmente mais me faziam querer morrer, pedir pra morrer, e fazer tudo para morrer de vez e o mais depressa, do que continuar viva. E não fossem a vigilância incessante e infalível tanto do meu filho João, quanto da minha querida e também filha e nora Ari que, se não podiam estar presentes, sempre deixavam comigo um de seus familiares, lógico que eu teria dado cabo da minha vida num mínimo instante de descuido deles. Claro que, naquelas circunstâncias hediondas, me era muito mais fácil, melhor e gostoso, saboroso, delicioso morrer! E eu me lembro que, às vezes, em que tentei chegar à janela para me jogar, do 12º andar do prédio em que eles moravam na época, (aqui próximo, no Politeama e que ficava bem nos fundos do Teatro Castro Alves) eu, com aquela minha imaginação que, de tão doentia, já me fazia não estar mais em mim, eu pensava: “ah! É tão fácil! É só dar um pulinho, só um vôozinho só daqui do alto até lá embaixo, e tudo isso acabar! Será uma delícia! Já imaginou o que seria ficar livre desse corpo, dessa cabeça, desse mundo, e de todo esse pavor que é a vida, e sair voando, voando, voando, cada vez mais para longe, para outro mundo, para outra Galáxia". Mas antes de eu pensar tudo isso, alguém já bem prevenido tinha me agarrado e me tirado das proximidades de qualquer das duas mais perigosas e mais tentadoras janelas. E eu entre crises constantes de choros, risos, que não eram nem choros nem risos, mas, desesperados, inexplicáveis e constantes acessos de histéricos e convulsivos risos, gargalhadas, choros, tudo ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo que dentro da minha cabeça havia uma garra incessante das mais desesperadas e diferentes dores ou dos mais desesperados, diferentes e infinitas zonas de pensamentos. Em suma, era a loucura completa que se instalou em mim, menos só meio e raríssimo milímetro de lucidez. E em meio a tudo isso, eu vivia o dia todo, a noite toda, as horas todas, os minutos todos, os segundos todos, só maquinando um jeito de me matar, fosse como fosse, e de morrer, e de fugir para sempre de todo esse inferno. 99,5% dos meus pensamentos eram todos dos mais negativos possíveis. Só meio por cento, ou meio milímetro da lucidez me separavam de total loucura. E eram nesses raríssimos lapsos de lucidez que, mesmo estando com toda a vontade de morrer, ou seja, de me jogar do 12 º andar, e me estatelar lá embaixo no cimento duríssimo do pátio, eu pensava: “e, se por um azar, eu não morrer? E, se, por um azar, eu só me machucar mais, e ficar sentindo mais dores, e, em vez de dar sossego pra todo mundo, eu ficar ainda viva e dando mais incômodos e trabalho para todos do que os que já estou dando? E também, se ao morrer, ao invés de me livrar de tudo isso, eu apenas aumentar mais, e por mais tempo todo este horror? Isto, eu creio hoje, que pensava, porque sempre aprendi tanto no espiritismo kardecista, que segui durante oito anos, como no budismo, que também já praticara durante oito anos também, que existe a lei de causa e efeito, e que existem reencarnações, e que todas as pessoas que cometem suicídio, por qualquer razão que seja, ela ao invés de se livrar daquele problema, só faz aumentá-lo, e continua sofrendo mais ainda após a morte, e tem que voltar a nascer em condições bem mais inferiores e bem mais sofríveis do que nasceu nesta vida presente da qual ele covardemente desertou, ou tentou fugir, ou dela se livrar. Mas, na maioria do tempo, eu não me lembrava de nada disso, e só queria morrer, morrer, morrer. E nada, nem filhos, nem vantagens, nem desvantagens quaisquer, nem filosofia alguma conseguiam me demover desse meu maior e único objetivo que era só: MORRER. E, quando, após eu ser esclarecida (eu fiz questão, e forcei-os para me deixarem cientes de tudo) de que era preciso arriscar, ou seja, ir de encontro, ou com mais vida, ou com a morte mais rápida, ao fazer aquela mais do que delicadíssima cirurgia, eu até creio que foi conscientemente, mais a vontade de morrer de vez, sem nenhuma culpa (com relação às religiões, ou Deus, ou à Natureza, ou à própria vida) e de um modo mais fácil e menos indolor pois, totalmente anestesiada não teria como eu precisar sentir qualquer dor para morrer e, portanto, também não deixaria de ser uma morte natural. Tanto que, ao invés de me amedrontar como deveria, me parece que senti até uma espécie rara de alegria ou de alívio, e mais por saber que tinha mais chance de morrer que de viver. Na verdade, eu já não acreditava mais de forma alguma que, após ou mesmo durante, eu poderia continuar viva, o que me fez até gostar daquela ideia de ter que me operar mesmo, o que eu mais queria. Pois, se eu tinha que morrer mesmo de qualquer forma um dia, por que continuar aquele sofrimento? Pra que ficar segurando a vida, pra que continuar arrastando a vida dentro daquele corpo já tão velho, já tão deformado, tão podre e tão dolorido? Só sei que, de nenhuma possibilidade monetária nem espiritual, de minha parte, surgiram, do inteiro caos, do inteiro nada, provindas em primeiro lugar e sobretudo da vontade soberana e absoluta de Deus, tanto a sua ajuda monetária, para que eu pudesse me submeter àquela cirurgia! Quanto aos demais recursos, ou seja, o milagre de eu poder acordar após mais de doze horas entre anestesias e vários cortes e furos em diversos pontos do osso craniano (inclusive na testa) para a extirpação dos seis tumores malignos (que graças também à Deus, vieram todos de uma só vez, e não voltaram nunca mais) e outras tantas anestesias de após, ainda desacordada e na UTI, mas com VIDA. Bem, o certo é que, quando pude acordar mesmo de verdade de tal, e tão, operação, e que dei por mim, e que soube, ou que pude entender que o pior passara, e que após uma muito longa e muito terrível batalha, parecia que a Vida, (e não a Morte), é quem vencera, e que talvez ainda não fosse daquela vez que seria a minha vez de morrer, por 16 dias depois, quando me tiraram da UTI. Só que, algumas horas, ou uns dois dias depois (não sei bem), quando pude me reolhar no espelho, tomei o maior susto: eu estava com o rosto completamente deformado, monstruoso. Não, nunca aquele ser horrendo que o espelho refletia aos meus olhos, tinha sido eu. E como eu iria continuar vivendo com aquela horrorosa aparência facial dali pra frente? Era melhor, bem melhor ter morrido do que ter sobrevivido daquela forma. Fiquei de uma forma que eu tinha medo de mim mesma, e vergonha de ser vista pelos médicos e pelos meus filhos, e por qualquer pessoa de forma monstruosa em que eu estava. E, em. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

* (não foi encontrada a sequência pela digitadora do texto, a filha Vitória Régia, em 08/08/2020) 

                                             Clotilde Sampaio

                                      Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

AUADE / SAUDADE


Auade…
Quantas vezes,
Prostrada na penumbra,
Ladeando a nostalgia,
Meus lábios a tremer,
Fez murmurar teu nome…

Auade…
Quantos dias,
Na algema dos percalços,
Nas grades da agonia,
Dei mãos à persistência,
E te esperei debalde…

Auade…
Quantas noites,
Perdida no abandono,
Escrava do silêncio,
Deitei no teu olhar,
O meu olhar insone.

Auade…
Quantos sonos,
Deixei de adormecer,
Forçando-os não dormir,
Deixando funcionar
A mente só pra ti.

Auade… 
Quantos sonhos,
Imaginei sonhar,
Tendo-te ao meu redor,
Constante ao meu prazer,
Mas meu, nada era meu. 

                                    Clotilde Sampaio 

                               Brás, SP, entre maio de 1963 e início de 64.