Salvador, 07 de maio de 1991. (terça)
Aoud,
Meu Amor,
Estou com muitas saudades suas, e com muita necessidade de revê-lo e de ouvir-lhe e falar-lhe pessoalmente. (Engraçado, acabo de me lembrar, neste exato instante, em que continuo esta, que ontem, dia 06 de maio de 1991, segunda-feira, completou 28 anos do nosso conhecimento, coisa que, por INCRÍVEL que, me possa parecer, nunca mais pensei, e, nem mesmo ontem, que foi o dia D, fui capaz de relembrá-lo). Não, não é mais como éramos antes, que eu quero reencontrá-lo, ainda que seja uma vez mais, ou pela última vez, num dia qualquer desses nossos já poucos restantes dias. Mas, de preferência, gostaria que fosse logo, e com bastante tempo. Porque se demorarmos, pode ser que esse dia acabe sendo NUNCA MAIS. Sim, na nossa idade, eu, já com quase 51 anos, e você já com quase 65 anos, o que poderemos esperar viver mais daqui pra frente? Devemos dar graças à Deus por estarmos vivos, lúcidos e saudáveis ainda quanto tanta gente, nossos contemporâneos, já se foram com bem menos idade que nós e, quando a média de vida nos dias atuais é sempre menos que cinquenta anos de idade. E, também, quem poderá nos dizer, quem de nós dois partirá primeiro, se eu, se você? Interessante, é que eu, que passei a minha vida quase toda e, principalmente dos 26 anos, ou seja, do nascimento de nossa filha Jussara, até os 38 anos mais ou menos, com graves problemas de saúde físicos (que até me ocasionaram inúmeras e perigosíssimas cirurgias, tantas que até nem sou capaz de me lembrar o número exato da soma de todas elas, se quatro ou cinco) e depois, dos quarenta e dois anos de idade até os meus quarenta e nove anos, passeio-os, a princípio, com os complexos distúrbios mentais, que depois foram diagnosticados como consequentes por vários tumores malignos por todo o meu cérebro, os quais me ocasionaram também, além de alguns internamentos prévios em clínicas para tratamentos psiquiátricos e neurológicos, aquela primeira e arriscadíssima e caríssima operação que, com a sua ajuda, e com a ajuda de Deus, (que nunca me desamparou em nenhum dos meus mais críticos, piores e mais decisivos momentos) mesmo com 99% de riscos de vida, entre morrer e morrer, num raro momento de lucidez, e até de muita coragem, preferi enfrentar a cirurgia e a morte mais rápido, para tentar salvar a vida, do que continuar sentindo as dores terríveis e indescritíveis que normalmente mais me faziam querer morrer, pedir pra morrer, e fazer tudo para morrer de vez e o mais depressa, do que continuar viva. E não fossem a vigilância incessante e infalível tanto do meu filho João, quanto da minha querida e também filha e nora Ari que, se não podiam estar presentes, sempre deixavam comigo um de seus familiares, lógico que eu teria dado cabo da minha vida num mínimo instante de descuido deles. Claro que, naquelas circunstâncias hediondas, me era muito mais fácil, melhor e gostoso, saboroso, delicioso morrer! E eu me lembro que, às vezes, em que tentei chegar à janela para me jogar, do 12º andar do prédio em que eles moravam na época, (aqui próximo, no Politeama e que ficava bem nos fundos do Teatro Castro Alves) eu, com aquela minha imaginação que, de tão doentia, já me fazia não estar mais em mim, eu pensava: “ah! É tão fácil! É só dar um pulinho, só um vôozinho só daqui do alto até lá embaixo, e tudo isso acabar! Será uma delícia! Já imaginou o que seria ficar livre desse corpo, dessa cabeça, desse mundo, e de todo esse pavor que é a vida, e sair voando, voando, voando, cada vez mais para longe, para outro mundo, para outra Galáxia". Mas antes de eu pensar tudo isso, alguém já bem prevenido tinha me agarrado e me tirado das proximidades de qualquer das duas mais perigosas e mais tentadoras janelas. E eu entre crises constantes de choros, risos, que não eram nem choros nem risos, mas, desesperados, inexplicáveis e constantes acessos de histéricos e convulsivos risos, gargalhadas, choros, tudo ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo que dentro da minha cabeça havia uma garra incessante das mais desesperadas e diferentes dores ou dos mais desesperados, diferentes e infinitas zonas de pensamentos. Em suma, era a loucura completa que se instalou em mim, menos só meio e raríssimo milímetro de lucidez. E em meio a tudo isso, eu vivia o dia todo, a noite toda, as horas todas, os minutos todos, os segundos todos, só maquinando um jeito de me matar, fosse como fosse, e de morrer, e de fugir para sempre de todo esse inferno. 99,5% dos meus pensamentos eram todos dos mais negativos possíveis. Só meio por cento, ou meio milímetro da lucidez me separavam de total loucura. E eram nesses raríssimos lapsos de lucidez que, mesmo estando com toda a vontade de morrer, ou seja, de me jogar do 12 º andar, e me estatelar lá embaixo no cimento duríssimo do pátio, eu pensava: “e, se por um azar, eu não morrer? E, se, por um azar, eu só me machucar mais, e ficar sentindo mais dores, e, em vez de dar sossego pra todo mundo, eu ficar ainda viva e dando mais incômodos e trabalho para todos do que os que já estou dando? E também, se ao morrer, ao invés de me livrar de tudo isso, eu apenas aumentar mais, e por mais tempo todo este horror? Isto, eu creio hoje, que pensava, porque sempre aprendi tanto no espiritismo kardecista, que segui durante oito anos, como no budismo, que também já praticara durante oito anos também, que existe a lei de causa e efeito, e que existem reencarnações, e que todas as pessoas que cometem suicídio, por qualquer razão que seja, ela ao invés de se livrar daquele problema, só faz aumentá-lo, e continua sofrendo mais ainda após a morte, e tem que voltar a nascer em condições bem mais inferiores e bem mais sofríveis do que nasceu nesta vida presente da qual ele covardemente desertou, ou tentou fugir, ou dela se livrar. Mas, na maioria do tempo, eu não me lembrava de nada disso, e só queria morrer, morrer, morrer. E nada, nem filhos, nem vantagens, nem desvantagens quaisquer, nem filosofia alguma conseguiam me demover desse meu maior e único objetivo que era só: MORRER. E, quando, após eu ser esclarecida (eu fiz questão, e forcei-os para me deixarem cientes de tudo) de que era preciso arriscar, ou seja, ir de encontro, ou com mais vida, ou com a morte mais rápida, ao fazer aquela mais do que delicadíssima cirurgia, eu até creio que foi conscientemente, mais a vontade de morrer de vez, sem nenhuma culpa (com relação às religiões, ou Deus, ou à Natureza, ou à própria vida) e de um modo mais fácil e menos indolor pois, totalmente anestesiada não teria como eu precisar sentir qualquer dor para morrer e, portanto, também não deixaria de ser uma morte natural. Tanto que, ao invés de me amedrontar como deveria, me parece que senti até uma espécie rara de alegria ou de alívio, e mais por saber que tinha mais chance de morrer que de viver. Na verdade, eu já não acreditava mais de forma alguma que, após ou mesmo durante, eu poderia continuar viva, o que me fez até gostar daquela ideia de ter que me operar mesmo, o que eu mais queria. Pois, se eu tinha que morrer mesmo de qualquer forma um dia, por que continuar aquele sofrimento? Pra que ficar segurando a vida, pra que continuar arrastando a vida dentro daquele corpo já tão velho, já tão deformado, tão podre e tão dolorido? Só sei que, de nenhuma possibilidade monetária nem espiritual, de minha parte, surgiram, do inteiro caos, do inteiro nada, provindas em primeiro lugar e sobretudo da vontade soberana e absoluta de Deus, tanto a sua ajuda monetária, para que eu pudesse me submeter àquela cirurgia! Quanto aos demais recursos, ou seja, o milagre de eu poder acordar após mais de doze horas entre anestesias e vários cortes e furos em diversos pontos do osso craniano (inclusive na testa) para a extirpação dos seis tumores malignos (que graças também à Deus, vieram todos de uma só vez, e não voltaram nunca mais) e outras tantas anestesias de após, ainda desacordada e na UTI, mas com VIDA. Bem, o certo é que, quando pude acordar mesmo de verdade de tal, e tão, operação, e que dei por mim, e que soube, ou que pude entender que o pior passara, e que após uma muito longa e muito terrível batalha, parecia que a Vida, (e não a Morte), é quem vencera, e que talvez ainda não fosse daquela vez que seria a minha vez de morrer, por 16 dias depois, quando me tiraram da UTI. Só que, algumas horas, ou uns dois dias depois (não sei bem), quando pude me reolhar no espelho, tomei o maior susto: eu estava com o rosto completamente deformado, monstruoso. Não, nunca aquele ser horrendo que o espelho refletia aos meus olhos, tinha sido eu. E como eu iria continuar vivendo com aquela horrorosa aparência facial dali pra frente? Era melhor, bem melhor ter morrido do que ter sobrevivido daquela forma. Fiquei de uma forma que eu tinha medo de mim mesma, e vergonha de ser vista pelos médicos e pelos meus filhos, e por qualquer pessoa de forma monstruosa em que eu estava. E, em. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
* (não foi encontrada a sequência pela digitadora do texto, a filha Vitória Régia, em 08/08/2020)
Clotilde Sampaio
Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia.
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