sexta-feira, 24 de março de 2023

Pelô – 13/04/92 – segunda-feira

 

1)Meu querido Átila Richard. Quando soube que você já existia e que já estava vindo, quanto eu fiquei contente! E nesse então, você já estava com seis semanas de vida intrauterina. Planejei tanta coisa! E já estava até me preparando para começar a fazer o seu enxovalzinho. E só não comecei a confeccionar-lhe a 1ª camisinha com o morim que já tinha, porque queria dispor de mais tempo, para dedicar-lhe mais perfeição e capricho e, para isso, já tinha até imaginado o melhor e mais belo modelo. E estava também aguardando um tempo melhor que seria após o lançamento do meu livro para compor-lhe os casaquinhos de lã, em tricô, cujos modelinhos estão na revista que comprei para tomar aulas de tricotear exclusivamente em sua homenagem e para você. Havia tantos projetos para quando você nascesse. Tantas boas perspectivas para com a sua vinda! Eu pensava em você tão lindo! Forte, saudável, alegre, feliz, moreninho, parecidíssimo com seu avô e com o seu pai. Pena, que você desistiu de tudo isso e, quando parecia tudo estar tão bem, você, com apenas mais quatro semanas, se foi, deixando-nos no seu lugar apenas este grande vazio no qual estamos todos mergulhados, tristes e a nos perguntar: Por que? Será que você já veio com o destino de não ficar? Ou será que, houve alguma razão externa que o impediu de aqui permanecer? Você meu querido e quinto neto, que deveria ser aquele garotão, nem mesmo chegou a feto, e se foi de nós ainda só como embrião. Que mistério te trouxe até nós? E que mistério te levou de nós? É, Átila Richard, tínhamos tantas esperanças em você, cultivamos tantos sonhos por você e, de repente, com você, tudo se foi por água abaixo. E agora já não podemos mais ter a felicidade de poder sabê-lo e tê-lo protejidinho dentro do útero da sua mamãe, a cada dia e a cada hora, e a cada semana, e a cada mês, crescendo e se desenvolvendo cada vez mais, e mostrando-se a nós através do volume da barriga da Vitória e demonstrando-nos a sua força de vida, a sua vontade de viver, a sua vivacidade, a sua personalidade através das peripécias dos seus primeiros e cada vez mais ousados movimentos. Ah! Átila, como seria tão sublime podermos contemplar os mistérios de Deus, os mistérios da vida, o mistério de uma nova vida, o mistério da sua vida nos seus movimentos e ponta pés intrauterinos, mas, visíveis e palpáveis por fora! Este ano de 92 passou a ser um ano muito, muito importante para mim, a partir do instante em que eu soube que era neste ano, que você iria chegar. Mas agora, já deixou de ter toda aquela importância porque, por mais coisas também interessantes que aconteçam, o seu nascimento, que seria entre tudo e sobre tudo, o evento, e o momento mais importante, já não vai acontecer mais. Você, seria o nosso maior presente, o nosso maior prêmio, o máximo coroamento da nossa alegria e da nossa felicidade. Sentir aquela emoção de olhar seu rostinho pela primeira vez, e ver com quem é que você iria se parecer mais, pegá-lo no colo, tão pequenininho, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão majestoso, tão senhor de si e de todos nós impondo-nos com o seu chorinho e com toda a imponência e potência da sua fragilidade, as suas mais mínimas e maiores exigências e cuidados. Bastando um chorinho seu para a gente entender e se mobilizar para atendê-lo: o neném quer mamar! O neném fez xixi! O neném fez cocô! O neném quer trocar a fraldinha! O neném quer tomar banho! O neném que tomar chazinho! O neném vomitou! O neném está com dor de barriga! O neném quer a chupetinha! O neném precisa trocar a roupinha! O neném está querendo colinho! Só que você, renunciou e desistiu de tudo isso, Átila. Por que?  

                                                                   Clô

Monte Cristo, 12/07/92, domingo.

 

1) Cheguei aqui em São Paulo vinda de um vôo que só durou 1:50 h de Salvador até Guarulhos, no dia 04/07/92. Ou seja, embarquei lá na sexta-feira dia 03/07 e cheguei aqui na madrugada de 04/07 – sábado. Hoje, domingo, dia 12/07, conheci Doutora Eliene, juíza que irá servir em Belo Horizonte a partir do ano que vem. É de Mogi, e segunda esposa do Elias de dona Ângela e irmão da Regina e do Gersiel. Pessoa do mais fino gabarito. Gostei de reencontrá-la. Pois pelo jeito em que temos demasiadas afinidades, sei que, já nos conhecemos de há muito, não só desta vida, mas de outras vidas, e nesta, hoje, só fizemos um reencontro. Por isso hoje, foi um dia muito especial para mim.

 

Monte Cristo, 17/07/92, sexta.

 

1) De novo as regras voltaram, percebi ontem aquele rainho de sangue bem desbotado e que perdurou hoje, mas sem sequer ensopar nada. Apenas aquela sujeirinha seca que nem varou o 1º papel higiênico das muitas das várias dobras que faço para calçar o fundo da calça e a bexiga. Isso, infalivelmente, ou seja, permanentemente, caso contrário, minha urina (apesar da operação de rutura que já fiz há mais de 10 anos) vive se soltando à toa. 

 

2) Ontem dormi pela primeira vez aqui na minha nova casa, a casa da Dinorá.  


                                                                   Clô

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Pelô. 01/07/92 – quarta.

 

1)Antevéspera da minha viagem para São Paulo que será depois de amanhã, sexta-feira, dia 03/07 à noite. Estou inquieta, angustiada, esquisita. Mas, toda véspera de viagem para mim é assim. Se estou lá, fico preocupada com os que deixo lá. Se estou aqui, fico preocupada com os que deixo aqui. Uma apreensão, um sufoco, um aperto no coração. Como se fosse o fim do mundo ou o fim da vida. Parece-me que estou indo para não voltar mais, definitivamente. Talvez seja, porque, na minha idade, que posso esperar mais? Já estou ultrapassando os limites. Tanta gente que já se foi com bem menos idade que eu. Portanto... a cada dia que vem, a cada hora que chega, pode ser a última. O certo é que já estou bem preparada parra o fim. Acho mesmo que que devo estar bem mais preparada para a morte, do que para a vida. Afinal, já são 52 anos de treinamento para morrer. A vida me pegou, me pega e continuará me pegando sempre de surpresa. A cada dia a mais que tenho com a vida. Mas a morte não, que para esta, foi que eu sempre estive me preparando e quando ela chegar, seja em que momento for, já estou bem pronta. 


                                                                                                                                        Clô

quarta-feira, 15 de março de 2023

23/06/92 – terça feira


1) Hoje, aniversário do meu filho João! 33 aninhos! Parabéns, meu filhinho! Pena eu não poder estar aí com você para lhe dar 33 puxõezinhos de orelhas e 33 beijinhos!

 

2) Não vale a pena.

 

4) Mais amigos, meus senhores Valter, Fernando e Ivã.

 

5) Tanto tempo existia!

    E quão inútil, já passou.

 

6) Não precisa mais ser.

    Chega! Basta! Acabou.

 

7) Feriado de 

    Desfile de Dois de Julho

    Festa maior da Bahia

    Em meio a muito barulho

    Falas, cervejas, alegria,

    Pessoas, as mais diferentes,

    Muitos rostos

    Gente que eu nem conhecia

    Sentada, escondida, ao canto,

    Enquanto esperava, eu lia

    Degustando

    A custo de muito custo

    Os poemas e a poesia

    Do grande poeta Augusto

    (dos Anjos).

 

8) Já em véspera de partir

    Só venho me despedir

    E, ao mesmo tempo, dizer

    Que foi bom te conhecer

    Mais detalhado e melhor.

    E também lhe agradecer

    Por ter sido o pior.

 

10) Só que, pela tua idade, 

      Pensei que fosses mais sério.

      Leiga, de toda a verdade,

    Tinha-te noutro hemisfério.

 

11) Minha filha, infelizmente,

      O esteio de nossa amizade ruiu

      Quando volto? Talvez nunca.

      Se voltar, só a passeio.

    

12) Agora, vens bater em minha porta.

      Agora, meu Amor, que Inês já é morta?

 

13) Eu queria só lhe falar de Amor,

      Não em palavras ditas,

      Que eu não sei falar coisas bonitas.

      Mas só sei falar palavras escritas.

 

14) Teria sido suave

      E ao mesmo tempo brutal:

      Uma bem tranquila ave

      Um bem faminto chacal.

 

15) Dario, Dario, ó Dario.

 

16) Janto (tutu com torresmos)...

      Enquanto ainda vivias

      Eras meu único porto

      Agora eu só ando à deriva,

      Sendo a mais morta das vivas

      E você, por você mesmo,

      O mais vivo dos mortos.

 

17) Penas de pavão real

      Jubas do leão que é rei

      Nem vales as penas

      Que tenho em mim 

      Nem vales as jubas que arriei.

 

18) Sou mais velha que você

      Tenho bem mais que cem anos

      Já duro duzentos anos.

                 

                                                (Clô)