terça-feira, 31 de março de 2015

PRESSÁGIOS

            
      Para o Dr. Pedro do Nascimento
 
I) ...(“Dai-vos favor ao novo atrevimento
          Para que estes meus versos vossos sejam;”)...

II) ...(“Que bom posso escusar trazer escrito
            Em papel o que (só) na alma andar devia”)...

III) ...(“Por mares nunca de antes navegados”)...

IV) ...(“Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
             Oh! Caminho de vida nunca certo,
             Que aonde a gente põe sua esperança
             Tenha a vida tão pouca segurança!”)...

                               CAMÕES

Já, que, o meu barco... furou,
Pressinto, (por ser MULHER),
Quanto (!) de águas... nele entrou!
E, pulo... para o escaler.

(Nisto, que, nem começou...
Prosseguir?... Voltar... ao cais?...
Ir, frágil, aos... riscos?... – Não vou.
Perder-me, (e, à... Meus SONHOS!?...) – Mais?...)

Provo! (E, vou me comprovar),
Que, assim como posso entrar
Em certos barcos... Furados,

Deles, também... Sei sair!
Em tempo! – de... descurtir
Mares jamais... Navegados.

            Clotilde Sampaio

                 Largo do Pelourinho, 20/03/1991
            Quarta-feira – (entre 9:45 a 12:15 horas)

            (Revisto em) Salvador, 30 de Março de 1991)



domingo, 29 de março de 2015

Março de 1991. - sobre a morte


Desde a morte do meu pai é que eu comecei a perceber que não há maior mestra para a vida, do que a morte.  Só não aprende com ela, quem não quer. Se quisermos ou se pudermos tomar as lições que ela vem e quer nos dar, à cada vez que ela aparece, quanto aprenderemos para uso da nossa própria vida! Agora, estou aqui no Cemitério Quinta dos Lázaros com Vitória, Anacleto, João Vitor e Tarcila, no velório da funcionária da escola onde Vitória trabalha lá na Boca do Rio. Pelo que fiquei sabendo, trata-se de uma senhora solteira, líder sindical, ou seja, militante das esquerdas (PT ou PC do B?), pessoa de grande valor tanto espiritual quanto intelectual e querida por todos que a conhecia. A prova de tudo que dizem está aqui nesta multidão de gente que veio trazer-lhe, com suas presenças, sentimentos estampados em seus rostos, nesta última homenagem. Não me lembro de tê-la conhecido. Mas, embora não estivesse preparada para vir, não quis perder mais esta oportunidade de reencontrar-me com a Excelentíssima e maior Mestra, e aqui estou, para aprender com ela, um pouco mais. Uma vida toda, às vezes, não nos ensina tanto, como alguns momentos em companhia da nossa maior Mestra. Pena que eu só fui tomar conhecimento disso quando precisei ver meu pai morto. Mas agora, sei quanto aprendi e quanto ainda preciso aprender para uso do meu, cada vez mais escasso, tempo de vida. Seria tão bom que fôssemos conscientes o bastante para percebermos isto sem precisar que nossa maior Mestra se preocupasse tanto com a gente a ponto de estar todo dia em algum lugar, com sua presença infalível, só para nos ensinar.
                                                                                                              Clô

sábado, 28 de março de 2015

- “DOUTOR PEDRO, O SENHOR…”


                                               Para o Dr. Pedro do Nascimento

                                       …(“Deus fez-me atravessar o teu caminho…

                                              Que contas dás a Deus indo sozinho,

                                              Passando junto a mim, sem me encontrares?”)

                                                               FLORBELA ESPANCA

                                      

Do meu... - “Muito prazer!...” – ao meu maior... Conceito!...

(...À luz intermediar, do Mestre Clari... à... dor!...)

Por teus modos de ser... Que admiro, e respeito,

Sempre foste para mim: - “Doutor Pedro, o Senhor...”

 

De repente... (E, Ai!... Por que, me abriste este direito?)

De: - “Pedro...”, - “Você...”, - “Tu...”, - (Meu Deus! E o meu... pudor?) 

Ousada, eu te chamar... (Seria... sob... o efeito

Do álcool... das... cervejas?... Ou, das drogas... do... AMOR?...)

 

Dei-te, um Tempo... (E também... dois Sonetos, já... FEITOS!!!

Com: - “Pedro...”, - “Você...”, - “Tu...”, pra... Valer!... – (Sem... proveitos:)

...Onde, ouvir-ver, tua... Voz!?... Teus... Quês!?... (- Perturbador?????????)

 

Já sei: me equivoquei... - (MELHOR!!!) ...Fica desfeito,

Outro... (!?) ERRAR...(?!). – E... Retorno, ao bem mais que... perfeito:

-Voltas... A ser pra mim: - “Doutor Pedro, o Senhor...”

 

                                         Clotilde Sampaio

 

                               Largo do Pelourinho, 08/03/1991. 

                           (DIA INTERNACIONAL (?) DA MULHER!)

                                Sexta-feira – (entre 9:15 a 11:40 horas)

   

                                 (Revisão, Salvador, 19/03/1991. -)


quarta-feira, 11 de março de 2015

PELÔ – 02/12/91 - segunda-feira

1) Hoje, noite do Samba. Eu poderia ter falado com Paulinho da Viola que foi de todos os três (João Bosco, Beth Carvalho) O MEU CONVIDADO. Mas eu fiquei mais preocupada em vê-lo e ouvi-lo cantar em pessoa aqui no nosso Pelô, e na minha porta! Também conheci hoje Nelson Rufino, que valeu. Ele ficou de passar aqui na quinta-feira, que seria dia 05/12 às 16 horas. Um poeta. Creio que nos daremos bem. Gostei do jeito dele, dos olhos dele. Jeito e olhos de pessoa no fundo, no fundo, muito carente. (?) Ele me disse que poderemos fazer uma grande e bela amizade. Só que, como imaginei, ele não veio. Deve ter telefonado para Clau. E ela, como sempre, cortou-lhe o barato. Tanto melhor assim. Baianos, já vi que não vale a pena nem tentar. São todos iguais.

PELÔ – 08/12/91 – domingo

1) Festa de N. S. Conceição hoje! E eu que nem me lembrei.

2) Me desprezam e me dominam
Me repelem, me fascinam
Me abandonam, me dominam
         Libertam

3) Soube por Maria José (prima do Décio) que ela e Décio estiveram aqui no domingo passado, às 9 horas e meia, (não sei se de manhã ou de noite) e não me encontraram em casa. Se de manhã, não me lembro de ter saído. Se foi à noite, foi quando dormimos na casa da Ari, após termos ido à Ribeira. Deve ter sido à noite sim.

4) Festa de Santa Bárbara, reencontro o português (Careca) ou Sr. Durval, que antes da procissão me convida para ir tomar umas cervejas com ele no restaurante de costume, ou seja, o de ali do começo da ladeira do Carmo. Vejo Décio de terno marron.

PELÔ – 10/12/91 – terça-feira

1) Dia de Benção e Dia dos Direitos Humanos. Vitória, graças à Deus, está com vida e viajando! Digo isto de novo, porque estou ouvindo o disco de Luciano Pavarotti, que marcou-me, com o começo do namoro dela e Sérgio, o “Catari”, e porque, ao voltar do mercado agora à pouco, com João Vitor e Tarcila, Cacau se ofereceu para trazer-me uma das sacolas, e nisso, veio Lampião perguntar-me se eu vi Sérgio, e disse que Sérgio está aí pela área. Que ele tinha passado lá pela casa dele, dizendo-lhe que queria encontrá-lo. Disse-lhe que quem devia saber sobre Sérgio era Cacau. Enquanto ouço este disco, sinto saudades, de Sérgio e daquele tempo que ele e Vitória estavam felizes. O tempo em que ele saiu da casa dele, o tempo em que ele vinha sempre aqui doido, louco, atrás de Vitória. Quem o via, como eu o vi, sendo o que era, jamais imaginaria que ele seria capaz de fazer com Vitória o que fez. Se naquele tempo eu ouvia Luciano Pavarotti vendo ambos juntos e felizes, e sentia tudo o que de melhor eu poderia sentir, ou seja, aquele prenúncio de infinita alegria e de festa, hoje, ouço-o, infelizmente com muita tristeza, porque sinto este disco com ares funestos, fúnebres. Quando me lembro de tudo o que houve entre as primeiras vezes que eu o ouvi, até esta última, hoje, o desespero que Vitória passou, à morte de Lina, que Vitória precisou viajar desesperada com João Vitor, amedrontada, correndo mundo, temendo riscos de vida, e que Sérgio em nenhum momento sequer foi homem para dar-lhe qualquer apoio, ou força, nem moral, nem material. Compreendo que, quem mais morreu pra mim em tudo isso foi Sérgio. Por isso é que, ao ouvir Luciano Pavarotti agora, é como se eu estivesse ouvindo uma música muito fúnebre; que simboliza para mim nada mais nada menos, que a morte de Sérgio. Foi por isso que, ao revê-lo naquela terça-feira, creio que há três semanas passadas, senti-me como se estivesse vendo um fantasma, ou seja, o fantasma de Sérgio, e não o próprio Sérgio. Poderia até sair hoje um pouco com as crianças para ver tudo o que se passa aí fora de especial. Mas ao saber que Sérgio está por aí, esfriei. Não tenho mais qualquer prazer de revê-lo, e nem de falar com ele. E para evitar que qualquer coisa desse tipo possa de novo acontecer, prefiro desistir de sair, me entocar aqui dentro da casa o mais possível com as crianças, para evitar o pior. Não, não é medo dele que sinto. Mas um indescritível tremendo mal estar. Eu, que antes o via como uma pessoa extremamente confiável, puro, sincero, UM FILHO, hoje sei do quanto ele é ator, cínico, covarde, hipócrita, fingido, mentiroso, sem palavra, egoísta, boçal, falso, e capaz de todas as baixarias e sujeiras para atingir, a qualquer preço, e de qualquer modo, os seus mais inescrupulosos objetivos. Prefiro ver o mais autêntico e propagado demônio na minha frente do que tornar a me confrontar com o fantasma de Sérgio ao alcance dos meus olhos. Não consigo ter raiva nem ódio dele, nem da mulher dele, e nem sofrer por nenhum dos dois, desde que não os veja. E espero jamais ter que voltar a revê-lo para não mais voltar a sentir gelar-me até a alma, pela náusea incômoda que a simples visão do seu sorridente e cínico fantasma me proporcionam.


2) Passarinho veio me convidar para ir com ele, no Hotel Pelourinho, assistir no telão o “Programa Legal” com Regina Casé, sobre a Bahia e seus mitos. Fui e gostei. 
                 Clô

sábado, 7 de março de 2015

( E... “TU, (TAMBÉM,) ME NEGARÁS... TRÊS VEZES” ?... )

                                             
                                 ... (Tens sido vida fora o meu desejo
                                      E agora, que te falo, que te vejo,
                                     Não sei se te encontrei... Se te perdi...”)
                                                       FLORBELA ESPANCA

                                               

                                                        Para o Dr. PEDRO DO NASCIMENTO


- “Pedro, és pedra...” – E... Ah!  Quem me dera!...
Sob a rara pedra... Que és,
Reedificar... (Sem quimeras,)
Catedrais!  Palácios!  - (...SÉS!!!)

(Que... Eu, por várias vácuas eras,
Sem um... DEUS, sem... LEIS, nem... Fés,
Preciso-me, só, ser... Fera!
Mais que, iguais, sempre, à... meus rés.)

Sinto-me... Tão bem!!!  - (...Contigo!)
E, admiro em ti... meu Amigo,
Tua Classe!  Postura! E... Calma.

Fico... Feliz!!!   - (...Se te ... Avisto!)
Com o olhar... digo-te: (...E, é quase, (ou,) isto,
Que, “...ao... ...Pescador, disse o Cristo...”)
- Pedro, vem pescar... Minha ALMA!...


                        Clotilde Sampaio

                    Largo do Pelourinho, 21/02/1991.
                       Quinta-feira, (entre 8:40 a 10:20 horas).

quinta-feira, 5 de março de 2015

XX - 13/07/1986 – DOMINGO – TABIRA - PERNAMBUCO

1) Conhecer Maria Nunes Simões, a única irmã legítima, ou seja, de pai e de mãe de Manoel, hoje pela manhã, foi outra emoção. Foi a última grande emoção que eu não agüentei sem chorar, por mais que eu tentasse me segurar. Me imaginei no lugar dela ou ao lado dela, revendo-a depois do desespero de mais de trinta anos de ausência, de saudade e de desejo incontrolável e insaciável de revê-la e abraçá-la. Tanto que ele falava dela e de todos os familiares dele, de todos os seus amigos daqui e de toda esta região que era a sua terra. Legítimos para mim são todos os seus familiares, são todos os que o consideravam, que até hoje não o esqueceram e que me consideram e me recebem bem, apesar da distância, do tempo e do espaço em que tudo se passou, por consideração a ele, Manoel que, apesar de eu tê-lo visto deitado, imóvel no caixão já há mais de vinte e cinco anos atrás, para mim não morreu. Para mim está aqui, ainda bem vivo, ao meu lado. Com todo o seu sorriso contagiante, com todas as suas falas e brincadeiras, espirituoso e inteligente. Sempre falando na sua Emas, na sua Piancó, (que pena que desta vez eu não a verei), na sua Itaporanga, na sua Patos, na sua Campina Grande, na sua João Pessoa, na sua praia da Tambaú e em tantos outros lugares que agora não me ocorrem, que também foram e eram seus. Ele me falava tanto de cada membro da família por parte de pai, tanto da primeira família como da segunda, dos seus irmãos, tanto da primeira como da segunda família, da mãe, Pivida, que nunca lhe maltratou, que nunca lhe deu um tapa sequer, apesar de não ser sua mãe legítima e, apesar de muitas vezes ele até ter feito por merecer, mãe Pivida nunca lhe deu um tapa sequer, nem a ele nem a Maria, sua irmã.

2) “Solidão ai ai/ Solidão ai ai/ Solidão ai ai/ Solidão”. Introdução de uma velha música de Adelino Moreira, cantada por Nelson Gonçalves, que bem descreve o que aconteceu ontem conosco em Solidão, cidadezinha próxima a Tabira, cuja virtude e fama se constitui por sua gruta (artificial) onde abriga a imagem de Nossa Senhora não sei se das Graças, e tida como milagrosa por todos e perigosa para Ivani que, após fazer o sacrifício de subir todos os seus degraus, sentiu-se muito mal, a ponto de imaginar que iria morrer. Seu coração acelerou e sua pressão baixou, tudo de uma só vez, a ponto de Ivani perder toda a cor do seu rosto e de desmaiar. Fiquei preocupada mas, ao mesmo tempo, pensando o mais positivamente possível e rezando. Graças a Deus, Ivani, após os primeiros maus sintomas, começou a melhorar, foi medicada, e já voltamos para Patos com ela bem mais reanimada.
                                      Clô



quarta-feira, 4 de março de 2015

DELÍRIO

Desta distância onde agora te encontras
Chega até mim um murmúrio de vozes
Em sinfonia de frases bonitas
Que devem ser tuas.
E não é só.

Chega também envolvido no vento
O hálito febril de lábios que me beijam
E que devem ser os teus.
Mas que não chegam sós também.

Trazem fictícios contactos de mãos
Que me apalpam e me apertam
Aos quais se juntam roçados de braços
Que me estreitam e me esmagam
Bem colada ao teu peito.
Sim, só pode ser o teu
Pois calor como o dele
Creio que mais ninguém
Poderia me dar.


E o cheiro de tua pele
Morena e queimada
Do sol de Itaquera
Chega e vem
Na minha se entranhar.

E eu te sinto
Todo junto a mim
E o meu corpo se abrasa
Em fogoso delírio
Sem ninguém me tocar.

             Clotilde Sampaio

                São Paulo, capital, entre 1963 e 1965.