quarta-feira, 11 de março de 2015

PELÔ – 02/12/91 - segunda-feira

1) Hoje, noite do Samba. Eu poderia ter falado com Paulinho da Viola que foi de todos os três (João Bosco, Beth Carvalho) O MEU CONVIDADO. Mas eu fiquei mais preocupada em vê-lo e ouvi-lo cantar em pessoa aqui no nosso Pelô, e na minha porta! Também conheci hoje Nelson Rufino, que valeu. Ele ficou de passar aqui na quinta-feira, que seria dia 05/12 às 16 horas. Um poeta. Creio que nos daremos bem. Gostei do jeito dele, dos olhos dele. Jeito e olhos de pessoa no fundo, no fundo, muito carente. (?) Ele me disse que poderemos fazer uma grande e bela amizade. Só que, como imaginei, ele não veio. Deve ter telefonado para Clau. E ela, como sempre, cortou-lhe o barato. Tanto melhor assim. Baianos, já vi que não vale a pena nem tentar. São todos iguais.

PELÔ – 08/12/91 – domingo

1) Festa de N. S. Conceição hoje! E eu que nem me lembrei.

2) Me desprezam e me dominam
Me repelem, me fascinam
Me abandonam, me dominam
         Libertam

3) Soube por Maria José (prima do Décio) que ela e Décio estiveram aqui no domingo passado, às 9 horas e meia, (não sei se de manhã ou de noite) e não me encontraram em casa. Se de manhã, não me lembro de ter saído. Se foi à noite, foi quando dormimos na casa da Ari, após termos ido à Ribeira. Deve ter sido à noite sim.

4) Festa de Santa Bárbara, reencontro o português (Careca) ou Sr. Durval, que antes da procissão me convida para ir tomar umas cervejas com ele no restaurante de costume, ou seja, o de ali do começo da ladeira do Carmo. Vejo Décio de terno marron.

PELÔ – 10/12/91 – terça-feira

1) Dia de Benção e Dia dos Direitos Humanos. Vitória, graças à Deus, está com vida e viajando! Digo isto de novo, porque estou ouvindo o disco de Luciano Pavarotti, que marcou-me, com o começo do namoro dela e Sérgio, o “Catari”, e porque, ao voltar do mercado agora à pouco, com João Vitor e Tarcila, Cacau se ofereceu para trazer-me uma das sacolas, e nisso, veio Lampião perguntar-me se eu vi Sérgio, e disse que Sérgio está aí pela área. Que ele tinha passado lá pela casa dele, dizendo-lhe que queria encontrá-lo. Disse-lhe que quem devia saber sobre Sérgio era Cacau. Enquanto ouço este disco, sinto saudades, de Sérgio e daquele tempo que ele e Vitória estavam felizes. O tempo em que ele saiu da casa dele, o tempo em que ele vinha sempre aqui doido, louco, atrás de Vitória. Quem o via, como eu o vi, sendo o que era, jamais imaginaria que ele seria capaz de fazer com Vitória o que fez. Se naquele tempo eu ouvia Luciano Pavarotti vendo ambos juntos e felizes, e sentia tudo o que de melhor eu poderia sentir, ou seja, aquele prenúncio de infinita alegria e de festa, hoje, ouço-o, infelizmente com muita tristeza, porque sinto este disco com ares funestos, fúnebres. Quando me lembro de tudo o que houve entre as primeiras vezes que eu o ouvi, até esta última, hoje, o desespero que Vitória passou, à morte de Lina, que Vitória precisou viajar desesperada com João Vitor, amedrontada, correndo mundo, temendo riscos de vida, e que Sérgio em nenhum momento sequer foi homem para dar-lhe qualquer apoio, ou força, nem moral, nem material. Compreendo que, quem mais morreu pra mim em tudo isso foi Sérgio. Por isso é que, ao ouvir Luciano Pavarotti agora, é como se eu estivesse ouvindo uma música muito fúnebre; que simboliza para mim nada mais nada menos, que a morte de Sérgio. Foi por isso que, ao revê-lo naquela terça-feira, creio que há três semanas passadas, senti-me como se estivesse vendo um fantasma, ou seja, o fantasma de Sérgio, e não o próprio Sérgio. Poderia até sair hoje um pouco com as crianças para ver tudo o que se passa aí fora de especial. Mas ao saber que Sérgio está por aí, esfriei. Não tenho mais qualquer prazer de revê-lo, e nem de falar com ele. E para evitar que qualquer coisa desse tipo possa de novo acontecer, prefiro desistir de sair, me entocar aqui dentro da casa o mais possível com as crianças, para evitar o pior. Não, não é medo dele que sinto. Mas um indescritível tremendo mal estar. Eu, que antes o via como uma pessoa extremamente confiável, puro, sincero, UM FILHO, hoje sei do quanto ele é ator, cínico, covarde, hipócrita, fingido, mentiroso, sem palavra, egoísta, boçal, falso, e capaz de todas as baixarias e sujeiras para atingir, a qualquer preço, e de qualquer modo, os seus mais inescrupulosos objetivos. Prefiro ver o mais autêntico e propagado demônio na minha frente do que tornar a me confrontar com o fantasma de Sérgio ao alcance dos meus olhos. Não consigo ter raiva nem ódio dele, nem da mulher dele, e nem sofrer por nenhum dos dois, desde que não os veja. E espero jamais ter que voltar a revê-lo para não mais voltar a sentir gelar-me até a alma, pela náusea incômoda que a simples visão do seu sorridente e cínico fantasma me proporcionam.


2) Passarinho veio me convidar para ir com ele, no Hotel Pelourinho, assistir no telão o “Programa Legal” com Regina Casé, sobre a Bahia e seus mitos. Fui e gostei. 
                 Clô

Nenhum comentário:

Postar um comentário