1) Hoje, noite do Samba. Eu poderia ter falado com Paulinho
da Viola que foi de todos os três (João Bosco, Beth Carvalho) O MEU CONVIDADO.
Mas eu fiquei mais preocupada em vê-lo e ouvi-lo cantar em pessoa aqui no nosso
Pelô, e na minha porta! Também conheci hoje Nelson Rufino, que valeu. Ele ficou
de passar aqui na quinta-feira, que seria dia 05/12 às 16 horas. Um poeta.
Creio que nos daremos bem. Gostei do jeito dele, dos olhos dele. Jeito e olhos
de pessoa no fundo, no fundo, muito carente. (?) Ele me disse que poderemos
fazer uma grande e bela amizade. Só que, como imaginei, ele não veio. Deve ter
telefonado para Clau. E ela, como sempre, cortou-lhe o barato. Tanto melhor
assim. Baianos, já vi que não vale a pena nem tentar. São todos iguais.
PELÔ
– 08/12/91 – domingo
1) Festa de N. S. Conceição hoje! E eu que nem me lembrei.
2) Me desprezam e me dominam
Me repelem, me fascinam
Me abandonam, me dominam
Libertam
3) Soube por Maria José (prima do Décio) que ela e Décio
estiveram aqui no domingo passado, às 9 horas e meia, (não sei se de manhã ou
de noite) e não me encontraram em casa. Se de manhã, não me lembro de ter
saído. Se foi à noite, foi quando dormimos na casa da Ari, após termos ido à
Ribeira. Deve ter sido à noite sim.
4) Festa de Santa Bárbara, reencontro o português (Careca)
ou Sr. Durval, que antes da procissão me convida para ir tomar umas cervejas
com ele no restaurante de costume, ou seja, o de ali do começo da ladeira do
Carmo. Vejo Décio de terno marron.
PELÔ
– 10/12/91 – terça-feira
1) Dia de Benção e Dia dos Direitos Humanos. Vitória, graças
à Deus, está com vida e viajando! Digo isto de novo, porque estou ouvindo o
disco de Luciano Pavarotti, que marcou-me, com o começo do namoro dela e Sérgio,
o “Catari”, e porque, ao voltar do mercado agora à pouco, com João Vitor e
Tarcila, Cacau se ofereceu para trazer-me uma das sacolas, e nisso, veio
Lampião perguntar-me se eu vi Sérgio, e disse que Sérgio está aí pela área. Que
ele tinha passado lá pela casa dele, dizendo-lhe que queria encontrá-lo.
Disse-lhe que quem devia saber sobre Sérgio era Cacau. Enquanto ouço este
disco, sinto saudades, de Sérgio e daquele tempo que ele e Vitória estavam
felizes. O tempo em que ele saiu da casa dele, o tempo em que ele vinha sempre
aqui doido, louco, atrás de Vitória. Quem o via, como eu o vi, sendo o que era,
jamais imaginaria que ele seria capaz de fazer com Vitória o que fez. Se
naquele tempo eu ouvia Luciano Pavarotti vendo ambos juntos e felizes, e sentia
tudo o que de melhor eu poderia sentir, ou seja, aquele prenúncio de infinita
alegria e de festa, hoje, ouço-o, infelizmente com muita tristeza, porque sinto
este disco com ares funestos, fúnebres. Quando me lembro de tudo o que houve
entre as primeiras vezes que eu o ouvi, até esta última, hoje, o desespero que
Vitória passou, à morte de Lina, que Vitória precisou viajar desesperada com
João Vitor, amedrontada, correndo mundo, temendo riscos de vida, e que Sérgio
em nenhum momento sequer foi homem para dar-lhe qualquer apoio, ou força, nem
moral, nem material. Compreendo que, quem mais morreu pra mim em tudo isso foi
Sérgio. Por isso é que, ao ouvir Luciano Pavarotti agora, é como se eu
estivesse ouvindo uma música muito fúnebre; que simboliza para mim nada mais
nada menos, que a morte de Sérgio. Foi por isso que, ao revê-lo naquela
terça-feira, creio que há três semanas passadas, senti-me como se estivesse
vendo um fantasma, ou seja, o fantasma de Sérgio, e não o próprio Sérgio.
Poderia até sair hoje um pouco com as crianças para ver tudo o que se passa aí
fora de especial. Mas ao saber que Sérgio está por aí, esfriei. Não tenho mais
qualquer prazer de revê-lo, e nem de falar com ele. E para evitar que qualquer
coisa desse tipo possa de novo acontecer, prefiro desistir de sair, me entocar
aqui dentro da casa o mais possível com as crianças, para evitar o pior. Não,
não é medo dele que sinto. Mas um indescritível tremendo mal estar. Eu, que
antes o via como uma pessoa extremamente confiável, puro, sincero, UM FILHO,
hoje sei do quanto ele é ator, cínico, covarde, hipócrita, fingido, mentiroso,
sem palavra, egoísta, boçal, falso, e capaz de todas as baixarias e sujeiras
para atingir, a qualquer preço, e de qualquer modo, os seus mais inescrupulosos
objetivos. Prefiro ver o mais autêntico e propagado demônio na minha frente do
que tornar a me confrontar com o fantasma de Sérgio ao alcance dos meus olhos.
Não consigo ter raiva nem ódio dele, nem da mulher dele, e nem sofrer por
nenhum dos dois, desde que não os veja. E espero jamais ter que voltar a
revê-lo para não mais voltar a sentir gelar-me até a alma, pela náusea incômoda
que a simples visão do seu sorridente e cínico fantasma me proporcionam.
2) Passarinho veio me convidar para ir com ele, no Hotel
Pelourinho, assistir no telão o “Programa Legal” com Regina Casé, sobre a Bahia
e seus mitos. Fui e gostei.
Clô
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