quarta-feira, 26 de março de 2025

XIX - 12/01/86

XIX - 12/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP. (05-93-94-76-80)

 

1) Eu estava na casa da Dona Augusta. E Seu Raimundo me chamou pra ir ver como estava a construção lá atrás da casa dele, do lado que era nossa casa, mas à beira da rua. Passamos por um pátio coberto e rústico, depois um outro tipo de pátio maior, mais trabalhado, onde o piso era liso e encerado, e dava para a rua. À esquerda mais um ou dois cômodos cujo piso estava com uma parede divisória de tijolo alto do chão, um metro mais ou menos, e com entulhos de alguns blocos empilhados uns sobre os outros em várias pilhas, só que os blocos eram daqueles de superior qualidade que não precisavam ser rebocados, e todos já caiados em beje claro que, a princípio, eu não dei importância nem para o chão alteado nem para as pilhas de blocos quase juntas mas com frestas. Só dei importância quando o Sr. Raimundo me falou que estava erguendo o chão porque estava bem baixo e a terra estava invadindo a sua casa, e mostrou-me como ia ficar e aí é que pude avaliar e saber direito do que se tratava aquela parede alteada sobre o piso e cheio de blocos dentro. Achei interessante e voltei por dentro da casa devagar olhando à minha direita que seria à esquerda de quando eu ia, e os fundos do resto do quintal. E vi que tinha outra porta que dava para outros cômodos e, nesses cômodos, a parede à minha esquerda tinha subdivisões que a tomavam toda em paredes de mais ou menos um metro de altura todas recobertas com o piso e, como as paredes principais, com caquinhos de cerâmica vermelha por todo o piso, paredes e meias paredes. Eram subdivisões de mais ou menos um metro quadrado cada, com o piso que baixava para os fundos e, neste fundo, um buraco de escoamentos. Estava tudo muito limpo e sem mau cheiro algum, e com outras portas que davam para outros compartimentos iguais, e assim sucessivamente parecendo infinitos os compartimentos. Tanto que, quanto mais eu me aprofundava neles, mais tinha onde me aprofundar. Eu procurava e nunca achava o fim. Até que, em vez de prosseguir em frente, virei-me para um lado onde vi outros compartimentos diferentes mas pegados uns com os outros, como se fossem cômodos ou quartos de aluguel (estes já eram em um quintal aberto e não sob um só teto como os subdivididos). Eram inferiores, baixos e detalhes brasilit. Em alguns havia até gente olhando pela janela como dois rapazes que eu vi me espiando e me rindo, em dois deles. Os demais permaneciam fechados e eu não sei se eram habitados ou não. Só sei que encontrei mais um aberto. Pensei que tivesse gente mas, só tinha um guarda-roupa grande antigo com algumas colchas das antigas também dobradas. Usadas, mas em boas condições. Uma delas era listrada em listas largas de verde, azul, amarelo, claros, uma com ramos de flores coloridas estampadas nas listas. Fechei as portas do guarda-roupa pensando. Deve ser Dona Augusta quem guarda essas coisas que já não usa aqui. Assim que fechei as portas do guarda-roupa que havia encontrado escancaradas, por trás de uma de uma das portas, sob um pano forrado, talvez uma mesa, vários e vários pares de sapatos antigos mas quase sem uso. Saí dali e, ao passar por um outro quarto que também estava aberto e sem ninguém à janela, vi, pela porta, um outro monte igual ao primeiro, só que desta vez era um de bolsas. Bolsas que talvez fizeram par com os sapatos. Remexi e, mal comecei a remexer, vi um tipo de bolsa enorme. Peguei e vi tratar-se de uma calcinha cuja frente tanto era uma bolsa como uma saia. Achei tão interessante que a adquiri pra mim. Nisso, 

chegaram ali naqueles barracos e só foram chegando, cada vez mais meninas, desfilavam por ali só com rolos de panos nas pernas de calças mas sem a calça, ou seja, sem calcinha, peladas, sem nada mesmo, a não ser um rolo curto colorido em cada perna. Passavam por todos nós normalmente, sem a menor vergonha, sem qualquer inibição estas meninas de 10 a 17 anos. Por enquanto é só o que lembro deste sonho que sonhei hoje. Se lembrar mais, contarei mais. 

 

2) Ita chegou cedo de Ubatuba onde tinha ido sexta-feira à noite encontrar-se com Meire que já estava lá há mais de uma semana. Chegou dizendo que aconteceu um acidente com ele: que ele foi comprar peixe e vinha trazendo o peixe mais ou menos grande, e com barbatanas enormes quando, ao bater o peixe que era em forma de uma seta na ponta, entrou uns dez centímetros na sua perna e não queria mais sair, foi preciso ele puxar com toda a força para conseguir tirá-lo. Mas foi aquela dor. Sorte que ele já tomou vacina anti-tetânica na fábrica que vale por cinco anos. Senão, seria preciso ir até o médico e correria o risco de tétano e teria sido muito pior. Ita disse também que amanhã não vai trabalhar. Vai até São Paulo com o automóvel da firma fazer um curso para e por conta da empresa.

 

3) E Jussara que prometeu mas não deu sinal de vida aqui hoje. Com essa já são três domingos que ela não aparece e doze dias que eu não a vejo. Está indo pelo mesmo caminho da Vitória.

 

4) Vitória e Rosinha chegaram hoje em Salvador, às onze horas da manhã. Estavam contentes quando telefonaram. Alegres, animadas e já em companhia do João, que antes já havia telefonado pra cá dizendo que ainda não as tinha encontrado. E já eram quase duas horas da tarde conforme o combinado. Mas às duas em ponto telefonaram todos já juntos.

 

5) E eu ainda nesta dúvida carnal: fico aqui mesmo? Vou pra Bahia? Ou fico em Itaquera? Recomecei a rezar de novo hoje. E o Gohonzon é quem sabe o que será melhor para todos nós e nos incentivará e ajudará a fazer o que for melhor. Aqui é a luta. Lá é o sossego e a poesia. 

 

6) Já estou tomando raiva dos meninos da Miriam. Já estou de um jeito que não posso mais nem encará-los em minha frente. Não tanto por eles, mas pelo jeito que ela e o Doca não os educam. Pra Miriam e o Doca eles são uns santinhos. Só faltam colocá-los no altar. Não admitem que se fale nada contra eles. Tudo o que eles fazem é como se não fizessem. Em vez de fazerem eles porem as coisas que tiraram do lugar e deixam espalhados pelo quintal no lugar certo, preferem que eles entrem pra dentro de casa ou que saiam pra rua e deixem tudo espalhado para que eu ponha no lugar. Deixe estar que um dia eu posso ter dó deles e rir do Doca e da Miriam. Eles querem que os filhos deles cresçam sendo qualquer coisa. Que se danem então. Eu, de minha parte, vou dar-lhes o completo desprezo. É como se não existissem mais.

 

                                                                       Clô

terça-feira, 25 de março de 2025

A INFINITA CLÔ presente no evento literário


 

VII - 11/01/86

VIII - 11/01/86 – sábado – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Eu gosto daquele ritmo e daquele jeito baianos de viver. Aquela gente lá é sábia e não é impaciente como a daqui. Lá eles não enganam ninguém. Mostram logo, aliás, fazem questão de mostrar logo à primeira vista o que são. Um homem lá faz questão de mostrar às outras mulheres que ele é de todas. E é amado por todas assim mesmo, por isso mesmo. E não censuram, pelo contrário, respeitam as mulheres e até apoiam-nas a fazerem o mesmo.

 

2) As duas coisas que me atraem: política e intelectualidade. Quer me ver contente? Me ponha no meio da política. Quer me ver contente? Me deixe entre intelectuais. Na Bahia, virou e mexeu e eu sempre me encontro entre intelectuais, os artistas. Aqui, são os políticos que me perseguem. E está sendo difícil optar. Aqui, a luta, a disputa acirrada e até suja pelo poder. Lá, a calmaria, a tranquilidade regada de poesia, a sustentação e elevação do espírito, a sublimação dos sentidos. Qual será melhor? As duas coisas me atraem. Mas, entre a aventura do incerto e a já desfrutável erudição, creio que o segundo me é mais aconselhável. Não sei. Não sei não. Os contrastes me atraem. Os extremos me seduzem de igual forma. Nenhum mais. Nenhum menos. E na necessidade de optar, por mim. Como é difícil. O ideal seria se eu tivesse a disponibilidade de ambos na Bahia. Pena que isso não é possível. Pois o Jânio está aqui e os intelectuais estão lá. E eu querendo estar com ambos, mas só estou entre os dois.

 

3) Já estou atrasada 3 Gongyos da manhã e três da noite. E sem nenhuma vontade de rezar embora tenha muito para o que rezar.

 

4) E eu que me achei tão feia, tão gorda e desengonçada na Festa de Confraternização da seção de manutenção da firma do Ita, nas vésperas de Natal. Hoje, ao ver as fotos, me gostei nelas. Antes, o Ita havia me dito que todos me acharam linda, tanto lá na Confraternização quanto nas fotos, e eu achei que estavam só tirando um sarro. Pois tanto que, como me achei no fim da picada, tratei de esbanjar simpatia só para disfarçar minha má aparência. Hoje, pelo menos nas fotos, me achei sensacional. E, de fato, se realmente demonstrei em pessoa o que demonstro nas fotos, realmente mereci os elogios. E se eu, estando me sentindo mal, mesmo assim me apresentei muito bem, isto me dá uma certeza de que então, naquele dia das eleições que eu estava me sentindo magra e bem, mostrei-me não só para todos como também pro Aoud bem melhor e bem mais bonita do que lá na Confraternização. E isto é muito bom. Me consola e me dá a certeza de que ele só passou lá na frente com aquele carrão e passou para ir até onde eu estava, só por mim mesmo. Que bom! Viva eu que, aos quarenta e cinco anos, ainda sou o show, ainda bato qualquer mulher de qualquer idade, em qualquer ambiente onde eu esteja.

 

                                                                                                                       Clô

A INFINITA CLÔ presente no evento literário


 

VII - 10/01/86

VII - 10/01/86 – sexta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) O telefone foi religado. E pra todas as pessoas que eu liguei hoje, deu zebra. Telefonei pra Cida do Suzin e me pareceu que ela estava com um mau humor daqueles. Para o escritor Roque Luzzi que parecia indisposto. Para Jussara, idem, para seu Agenor que não estava em casa, mas a esposa dele estava triste com a tristeza dele por ter sido nomeado para presidente da Regional de Itaquera um cara que não tinha nada a ver, inclusive trabalhou para o outro lado, em vez do Sr. Evaristo que era o esperado por nós. Foi um tal de Albano, do lado do João Aparecido. Política é isso mesmo. Tem muita sujeira e decepções. Falei com o Banco Unibanco para pagar a conta do telefone vencida hoje. E nada feito. Telefonei pro Aoud da Bahia, e ele só me ouvia, e quase nada falava, com reservas. Também não fiz nada hoje a não ser tomar sol e rezar três horas e vinte minutos de Daimoku, enquanto tomava sol. Será que vale? Vale sim, tem que valer. Estou devendo ao Gohonzon dois Gongyos da manhã e dois da noite, que eu não tive coragem de rezar nada nem ontem nem hoje.

 

2) Lilinha foi tomar aquele banho de ervas e ficou toda amedrontada, chorando e gritando e pulando na bacia. Parecia que estava perto de algo muito feio. Ou sentindo algo extremamente ruim. Depois, enquanto jantava, caiu numa gargalhada que não acabava mais, até dar sono.

 

3) Vitória e Rosinha devem estar chegando hoje na Bahia. Que delícia.

 

4) Aprendi com Manabu Mabe:

    a) depois dos 60 anos, todo mundo volta a ser criança.

    b) quando a gente perde algum objeto muito valioso e de grande estimação sentimental, são partes que se vão em lugar da gente; por isso precisamos ficar contentes por que se não fossem esses objetos seríamos nós quem desapareceríamos. 

    c) o nome da gente é muito importante.

 

5) Aprendi com Sara:

    O coração é meu. O resto é dos outros.

 

                                                                        Clô

 

A INFINITA CLÔ - no dia do Poeta Castro Alves

terça-feira, 18 de março de 2025

VI – 09/01/86

VI – 09/01/86 – quinta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Sonhei com Dona Eloá. Que ela era madrinha da Liliam. E que veio com um casal de crianças pequenas de dois anos mais ou menos. Ela chegou cansada em casa, segurando nas mãos das duas lindas crianças, um menino e uma menina. A casa estava cheia de poças de lama e de sujeira. E eu toda desarrumada. E tínhamos marcado de batizar a Liliam naquele dia. Eu, sem prestar atenção nas crianças, mandei que Dona Eloá se sentasse com as crianças numa cama de solteiro que tinha num dos quartos e fui me arrumar. Mas me demorei tanto que ela ficou com sono e se deitou e se cobriu com uma dessas cobertas inferior cinza de duas listas vermelhas que ainda existem. E eu fiquei preocupada por estar demorando tanto a me arrumar e tratar de fazer tudo com mais agilidade mas, em vez de conseguir fazer as coisas melhor e mais rápido, me atrapalhava e fazia tudo errado e tinha que repetir tudo de novo, várias vezes. E só me demorava mais e me preocupava mais. Pois o Jânio e demais homens estavam esperando na Igreja e logo, a qualquer momento, ele poderia chegar bravo, por causa da minha demora e da minha irresponsabilidade. E eu tinha medo da fúria dele. Foi um sufoco. Aquele sufoco de acordar.

 

2) A Miriam hoje vai ficar o dia todo de mal comigo. Problema dela. Não cuida dos filhos como é preciso, vai cada vez mais ter problemas com eles.

 

3) Na última hora, tomei a decisão de ir a Mogi pagar a conta do telefone e receber meus dinheiros do INPS. Só consegui pagar o telefone. INPS é só rolo. Só complica cada vez mais as coisas pra gente. Sem vergonhas. Eu quero é cada vez mais distância de vocês. Cada dia é pior. Cada ministro que entra na Previdência mais cachorro é. Waldir Pires, não simpatizo nada com ele. Disse que conseguiu acabar com o déficit do INPS, também a que custos? Sempre é o previdenciário que leva a pior. Desse jeito, meu, até eu. Nojento.

 

4) Na volta inventei de passar na loja Marisa só pra ver os artigos e seus preços. Não ia comprar nada mesmo mas fiquei olhando calcinhas, cintos e percebia que, para onde ia, um homem (seria o gerente?) me acompanhava. Será que está cismado que eu vou roubar alguma coisa? Cada passo que eu dava, ele atrás. Eu nem lhe olhava na cara. Ou será que ele está querendo me namorar? Vai tomar banho, não estou a fim não. Teve uma hora que eu fui obrigada a topar frente a frente com ele. E ele disse que me conhecia e se eu não me lembrava dele. Que ele era do PTB de Suzano. Eu vi que não me era estranho mesmo. Mas não me lembrava muito bem. Ele disse chamar-se Hélio e começamos a falar sobre política e sobre o Jânio. Mostrei-lhe as minhas fotografias da política de Itaquera. Ele me perguntou se eu não ia me candidatar outra vez. 

 - Não sei. Estou na dúvida. O Jânio quer que eu me candidate. O Farabulini e o Sujiro também. Mas eu estou mais com vontade de ir para a Bahia. O importante para mim foi o Jânio ganhar. Da outra vez eu me candidatei mais para isso. Agora eu trabalhei para o Jânio, lá em São Paulo, para isso também. Graças a Deus ele ganhou. Agora é preciso levá-lo de novo a presidente. E a campanha do Jânio para presidente eu posso fazer tanto aqui como lá. 

 - Mas a senhora deve se candidatar. Pode contar comigo que eu tenho conhecimento em toda essa região; e pra quem eu pedir voto pode contar que eles votam na senhora. A senhora tem possibilidades de ganhar. 

 - Será? Às vezes eu gostaria de ser candidata só pra poder ajudar mais o Jânio. Porque o Jânio precisa de pessoas que realmente são dele. E se os janistas verdadeiros não se candidatarem quem vai sair bem são os oportunistas. Da outra vez, quando ele foi presidente, ele só renunciou porque não tinha ninguém do lado dele, verdadeiramente dele. E agora, não podemos mais deixar que isto se repita. Mas, no momento, eu não tenho condições financeiras para gastar em candidatura. Pois, para deputado estadual, precisa de muita grana. 

 - Mas isso a gente arranja formas de financiar. 

 - Só se você puder me providenciar isto. Aí sim. Aí eu até me candidatarei. Mas do contrário eu vou mesmo é pra Bahia.

 - Pode deixar. 

Disse que viria aqui em casa pra gente poder conversar direito. Veremos. Justo agora que eu estava mesmo decidida a ir pra Bahia, já vou ter que mudar meus planos. Mas quem sabe? Quem sabe eu não dou sorte e ganho mesmo pra Deputado Estadual? E daí pra Prefeita de Suzano? Tenho que mostrar pro Aoud todo o meu valor, que ele faz questão de dar a mínima, e também com quantos paus se faz uma canoa.

 

                                                                                                           Clô

A INFINITA CLÔ no DIA DO POETA CASTRO ALVES